Gaza, dois anos sob o fogo: o genocídio televisionado que o mundo assiste em silêncio

Bombardeios contínuos, fome e isolamento marcam os dois anos da ofensiva israelense contra a população palestina após ataque do Hamas em 2023

Dois anos após o ataque do grupo militante Hamas em 7 de outubro de 2023, o que começou como uma resposta militar israelense se transformou em um processo contínuo de destruição e morte na Faixa de Gaza. Sob o argumento de combater o grupo palestino, Israel mantém desde então uma campanha de bombardeios, bloqueios e ocupação que deixou mais de 67 mil mortos e fez o território colapsar em meio à fome e à falta de abrigo.

O Agenda do Poder fez uma síntese dos acontecimentos desde o ataque do Hamas até o presente momento, elencando os principais pontos do conflito e as perspectivas para o futuro após a negociação recentemente proposta por Donald Trump.

7 de outubro de 2023: o estopim da catástrofe

Na madrugada de 7 de outubro, militantes do Hamas romperam as barreiras de segurança que isolam Gaza, lançaram foguetes e atacaram comunidades israelenses próximas à fronteira. O ataque matou cerca de 1.200 pessoas e levou ao sequestro de mais de 250 civis e soldados, segundo dados israelenses. Foi o início da ofensiva militar mais devastadora desde a criação do Estado de Israel sob território palestino em 1948.

O governo de Benjamin Netanyahu reagiu com bombardeios em larga escala e impôs um bloqueio total a Gaza. Desde então, a população civil da região passou a viver sob o que organizações humanitárias descrevem como uma “campanha sistemática de extermínio”.

Israel alega ter direito à autodefesa e diz que o Hamas é um grupo “terrorista” — classificação não corroborada pela própria ONU; entretanto, a retaliação desproporcional tem gerado críticas por parte de líderes mundiais e entidades ligadas aos direitos humanos.

Membros do grupo militante Hamas

Cerco e destruição: Gaza isolada do mundo

Nas semanas que se seguiram ao ataque, Israel interrompeu o fornecimento de energia, água, combustível e alimentos. Hospitais ficaram sem recursos, milhares de famílias foram deslocadas e bairros inteiros foram arrasados. Em novembro de 2023, mediadores internacionais conseguiram uma trégua temporária, que permitiu trocas de reféns e prisioneiros. O acordo durou poucos dias.

Desde então, o bloqueio e os ataques se tornaram permanentes. Israel controla todas as fronteiras terrestres e o espaço aéreo de Gaza, restringindo severamente a entrada de ajuda humanitária. O resultado é um cenário de colapso quase total: epidemias, fome generalizada — reconhecida pela ONU em 2025 — e destruição de mais de 80% da infraestrutura do território.

Naeema, palestina de 30 anos, carrega o filho Yazan, de 2 em meio à guerra

2024: o avanço da destruição e a inércia internacional

Durante todo o ano de 2024, a ofensiva israelense continuou. A Corte Internacional de Justiça determinou em janeiro que Israel adotasse medidas para prevenir atos de genocídio, mas não exigiu cessar-fogo. Em fevereiro, mais de 100 palestinos foram mortos durante uma operação militar que atingiu uma fila de distribuição de alimentos — um dos dias mais letais do conflito.

Enquanto o governo israelense argumentava agir em autodefesa, a ONU e diversas entidades humanitárias apontavam que as ações não visavam apenas o Hamas, mas a destruição deliberada da vida civil palestina. Hospitais, escolas e abrigos passaram a ser alvos constantes, mesmo sob coordenação de agências internacionais, gerando mortes inclusive de mulheres e crianças.

Em junho de 2024, ativista palestino Jamal Juma esteve no Brasil para divulgar a campanha do Comitê Nacional Palestino de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS, na sigla em inglês), do qual faz parte, que pede o fim das relações militares, diplomáticas e comerciais com Tel Aviv. Ele descreveu o massacre em Gaza como “genocídio televisionado”, já que o horror tem sido transmitido ao vivo, com imagens de civis sendo mortos, crianças retiradas dos escombros e bairros inteiros arrasados sob o olhar das câmeras — e do silêncio — internacionais.

Bombardeio israelense derruba prédio na Cidade de Gaza, na Faixa de Gaza

Lula critica Israel e se torna “persona non grata”

No início de 2024, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva provocou forte reação internacional ao comparar a ofensiva israelense em Gaza ao extermínio de judeus na Segunda Guerra Mundial.

“O que está acontecendo em Gaza não é uma guerra, é um genocídio. É uma matança de inocentes, como o que Hitler fez contra os judeus”, afirmou durante visita à Etiópia, em fevereiro daquele ano.

A declaração gerou uma grave crise diplomática entre Brasil e Israel. O governo israelense convocou o embaixador brasileiro, Frederico Meyer, para reprimenda pública, e o ministro das Relações Exteriores de Israel, Israel Katz, declarou Lula “persona non grata” no país. Em resposta, o Itamaraty reafirmou o compromisso brasileiro com a defesa dos direitos humanos e criticou “a tentativa de silenciar críticas legítimas a ações de extermínio”.

O episódio evidenciou o isolamento crescente de Israel no cenário internacional e reforçou o debate global sobre a legitimidade da ofensiva militar. Diversos líderes do Sul Global manifestaram solidariedade ao Brasil, enquanto movimentos sociais e religiosos ampliaram o uso do termo “genocídio” para descrever o que se passa em Gaza.

A delegação brasileira na Assembleia Geral da ONU usa um lenço palestino, o Keffiiyeh, durante discurso do premiê israelense, Benjamin Netanyahu, no dia 26 de setembro de 2025

Ação no Tribunal Penal Internacional

O relatório da ONU reforçou o peso da ação movida pela África do Sul no Tribunal Penal Internacional (TPI), protocolada em dezembro de 2023, que acusa Israel de violar a Convenção para a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio de 1948. A petição pede a responsabilização das autoridades israelenses por crimes contra a humanidade e pela destruição sistemática da infraestrutura civil em Gaza. A África do Sul também declarou que existe um apartheid na Palestina, promovido pela ocupação israelense, e chegou a dizer que a situação do povo palestino é mais extrema do que aquela imposta no país africano até 1994.

O Brasil aderiu formalmente à ação no TPI em 2025, ao lado de países como Chile, Colômbia, México e Indonésia, demonstrando apoio à investigação internacional. O Itamaraty destacou, na ocasião, que a adesão brasileira “reflete o compromisso histórico do país com a defesa do direito internacional e dos direitos humanos”.

A África do Sul declarou na ONU que existe um apartheid provocado por Israel na Palestina

2025: a ONU reconhece o genocídio

Em 16 de setembro de 2025, a Comissão de Inquérito Independente da ONU publicou um relatório afirmando que Israel cometeu genocídio contra palestinos em Gaza entre outubro de 2023 e julho de 2025. O documento apontou indícios de “intenção genocida” em declarações de autoridades israelenses e pediu o fim imediato das operações.

Israel rejeitou as conclusões da ONU, afirmando que suas ações são parte de uma “guerra contra o terrorismo”. O governo também insiste que o Hamas usa civis como escudos humanos — argumento refutado por organizações que investigam o padrão de ataques contra áreas densamente povoadas.

Crianças choram em Gaza, enquanto buscam comida

Suspeitas de crimes de guerra e uso de armas proibidas

Ao longo de dois anos de ataques, multiplicaram-se as denúncias de crimes de guerra. Organizações como a Human Rights Watch e a Anistia Internacional documentaram o uso de bombas de fósforo branco e de munições de fragmentação em áreas civis — substâncias proibidas por convenções internacionais. Também há relatos de bombardeios deliberados contra comboios de ambulâncias, abrigos e hospitais.

Relatórios da ONU e investigações jornalísticas independentes apontam que parte das armas usadas em Gaza continha componentes proibidos de origem estadunidense, reacendendo o debate sobre a cumplicidade de aliados ocidentais na ofensiva. Juristas afirmam que esses ataques configuram violações das Convenções de Genebra e podem resultar em responsabilização criminal individual perante o TPI.

O Tribunal Penal Internacional (TPI) emitiu em 21 de novembro de 2024 um mandado de prisão internacional para o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu por crimes de guerra. O mesmo tribunal também expediu mandados para os três ex-líderes do Hamas mortos por Israel — por participarem dos ataques de 7 de outubro e manterem reféns em território palestino — e para o ex-ministro da Defesa de Israel Yoav Gallant, que Netanyahu havia demitido duas semanas antes.

A bomba de fósforo branco é uma arma incendiária, que explode quando entra em contato com o oxigênio presente no ar. A substância pode causar queimaduras gravíssimas e seu uso em guerras é proibido por tratados internacionais.

Protestos globais e resistência civil

Ao longo de 2024 e 2025, o mundo assistiu ao crescimento de protestos massivos contra o genocídio em Gaza. Centenas de milhares de pessoas marcharam em Londres, Paris, Nova York, Joanesburgo, São Paulo e Buenos Aires.

Em diversas cidades de Israel, como Tel Aviv e Haifa, israelenses também foram às ruas pedindo o fim das operações militares e o retorno dos reféns, desafiando o governo Netanyahu. Em Jerusalém, o Muro das Lamentações foi pichado por um morador da cidade com os dizeres: “Há um Holocausto em Gaza”. Uma refém israelense libertada em 2024 chegou a dizer que o único momento em que sentiu sua vida realmente ameaçada foi sob os ataques de seu próprio país a Gaza.

Os atos se tornaram símbolo de resistência internacional e revelaram uma mudança no debate público global. Cartazes com frases como “Parem o genocídio” e “Gaza é humanidade” dominaram as praças de várias capitais. O falecido Papa Francisco, o Papa Leão XIV e líderes religiosos de diferentes crenças também pediram o fim do massacre. Um padre que era próximo ao Papa Francisco chegou a ser atingido em ataque de Israel a uma igreja católica na região palestina.

Manifestantes protestam em Tel Aviv contra a decisão do governo de Israel de tomar o controle da Cidade de Gaza

Ataques sistemáticos à imprensa

Desde o início da ofensiva israelense contra Gaza, em outubro de 2023, o trabalho da imprensa tem se tornado uma das atividades mais perigosas do mundo. Segundo dados do Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) e da Federação Internacional de Jornalistas (FIJ), mais de 150 profissionais de imprensa foram mortos em Gaza em dois anos de ataques israelenses — um número que superou já no início de 2024 o total de jornalistas mortos pela Rússia durante todo o conflito na Ucrânia, iniciado em 2022, e também ultrapassou o número de jornalistas mortos nas duas grandes guerras mundiais.

A maioria das vítimas em Gaza eram jornalistas palestinos que atuavam em condições precárias, sem coletes de proteção adequados e frequentemente deslocando-se com suas famílias. Diversos relatos indicam que muitos foram mortos dentro de casa, junto de parentes, em bombardeios contra áreas civis identificadas. Casos de alvos diretos contra veículos e profissionais da imprensa foram documentados por agências da ONU e organizações de direitos humanos.

Entre os episódios mais emblemáticos está o assassinato de Shireen Abu Akleh, correspondente da Al Jazeera, morta por disparos israelenses em 2022, e que se tornou símbolo da violência contra jornalistas palestinos. Desde então, a emissora tem denunciado ataques deliberados contra suas equipes, inclusive a destruição de sua sede em Gaza no início da ofensiva de 2023.

Relatórios da ONU e da Repórteres Sem Fronteiras apontam que o número de jornalistas mortos em Gaza é o mais alto já registrado em um único conflito desde a Segunda Guerra Mundial. As entidades afirmam que há indícios de ataques sistemáticos contra comunicadores, com o objetivo de restringir o fluxo de informações e evitar a documentação de crimes de guerra.

“O que Israel está fazendo é tentar apagar as testemunhas do genocídio”, afirmou o diretor do CPJ, Jodie Ginsberg. “Quando jornalistas são mortos em suas casas, com suas famílias, e suas redações são destruídas, isso não é um erro: é uma tentativa de impedir que o mundo veja o que está acontecendo.”

Sem energia, internet ou segurança, repórteres palestinos continuam documentando a destruição de hospitais, escolas e abrigos, muitas vezes transmitindo imagens ao vivo minutos antes de morrerem. O CPJ afirma que Gaza se tornou o local mais letal do planeta para o exercício do jornalismo, superando Síria, Iêmen e Ucrânia.

Israel nega qualquer política de perseguição a jornalistas e sustenta que os ataques visam “alvos ligados ao Hamas”. Organizações internacionais, porém, afirmam que o padrão das mortes — a maioria fora de zonas de combate — revela um esforço deliberado para silenciar vozes críticas e controlar a narrativa sobre a devastação em Gaza.

Ataques de Israel a Gaza mataram mais jornalistas que as duas guerras mundiais somadas.

O insulto de Trump: Gaza como resort

Enquanto a destruição seguia, declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em fevereiro de 2025, provocaram indignação global. Em discurso, ele sugeriu transformar a Faixa de Gaza em um “resort de luxo à beira-mar”, ideia considerada obscena diante da catástrofe humanitária.

Para analistas, a fala simboliza a cumplicidade dos EUA com o regime de ocupação israelense. O Secretário-Geral da ONU, António Guterres, em uma dura declaração, disse que o plano de Trump para realocar a população palestina de Gaza equivaleria a uma “limpeza étnica”, e que se colocado em prática corre o risco de “tornar impossível um Estado palestino para sempre”.

Imagem do vídeo gerado por IA em que Trump apresenta sua “versão” de Gaza, com Elon Musk jogando dólares para o alto — Foto: Reprodução/Truth Social

As flotilhas de solidariedade internacional

Diante do bloqueio imposto por Israel à Faixa de Gaza, grupos internacionais têm organizado as chamadas flotilhas da solidariedade, expedições civis que buscam levar alimentos e medicamentos ao território sitiado e denunciar o cerco humanitário. Em 2024, a Flotilha pela Liberdade, com participantes de mais de 30 países, partiu do Mediterrâneo levando suprimentos médicos e alimentos. A missão foi interceptada pela marinha israelense em águas internacionais e seus tripulantes foram detidos, provocando forte reação de organizações de direitos humanos e reacendendo a pressão internacional sobre Israel.

A iniciativa de 2024 não conseguiu chegar a Gaza, mas ganhou relevância política por expor a gravidade da crise humanitária e o isolamento imposto ao território. A ONU e a Cruz Vermelha já alertavam para a fome e o colapso dos hospitais, e a interceptação da flotilha reforçou as denúncias de que Israel estaria violando o direito internacional ao impedir a chegada de ajuda civil.

Em 2025, uma nova missão, a Flotilha Global Sumud (“sumud” significa resistência, em árabe), voltou a tentar romper o bloqueio, reunindo ativistas de dezenas de países, entre eles 13 brasileiros. A embarcação foi novamente interceptada em alto-mar e levada ao deserto do Neguev, onde os tripulantes ficaram detidos na prisão de Ktzi’ot. Após pressão diplomática, os brasileiros foram libertados e seguiram para a Jordânia, com apoio da embaixada brasileira. Entre os integrantes estavam parlamentares, dirigentes sindicais e ativistas de direitos humanos.

Em nota, os organizadores da flotilha afirmaram que a missão simbolizava “resistência e solidariedade”, denunciando o bloqueio como instrumento de controle político e acusando Israel de praticar “genocídio e limpeza étnica”. Embora as embarcações não tenham conseguido entregar a ajuda, as missões de 2024 e 2025 reforçaram o movimento global de apoio à Palestina e o papel simbólico das flotilhas como denúncia viva do cerco e da catástrofe humanitária em Gaza.

O brasileiro Thiago Ávila e a sueca Greta Thunberg no barco Madleen, que tentava chegar à Faixa de Gaza – Reprodução/@FreedomFlotilha

Vaias na ONU

Desde o início da ofensiva israelense em Gaza, em outubro de 2023, Benjamin Netanyahu passou a enfrentar crescente hostilidade internacional. Em setembro de 2024, o premiê discursou na Assembleia Geral da ONU e foi vaiado por diversos presentes ao apresentar, com mapas, seu plano sionista de “integração” para o Oriente Médio — com exclusão do chamado Eixo da Resitência, que se opõe à ocupação israelense em território palestino.

Em 2025, o fato se repetiu de modo mais intenso: ao subir à tribuna para discursar em Nova York, o primeiro-ministro israelense foi vaiado por parte dos delegados — inclusive brasileiros — e assistiu à debandada de diversas delegações, que deixaram o plenário em protesto contra a política de Israel na Faixa de Gaza (veja foto abaixo).

Muitos assentos permaneceram vazios enquanto ele falava, e o discurso foi pontuado por reações de desaprovação e poucos aplausos isolados. Netanyahu negou apoio à criação de um Estado palestino e anunciou: “Não vamos parar até terminar o trabalho”. O episódio foi amplamente noticiado por veículos internacionais como CNN Brasil, CGTN e Mehr News, que destacaram o isolamento diplomático de Netanyahu e o desgaste de sua imagem no cenário global após quase dois anos de ataques em Gaza.

Delegações abandonam plenário da ONU antes mesmo do premiê de Israel começar a falar

Negociações recentes

Israel e Hamas demonstraram recentemente disposição pública para cooperar nas negociações de cessar-fogo, mas cada lado busca preservar seus próprios interesses políticos e estratégicos. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu tenta equilibrar a relação com os Estados Unidos ao sinalizar apoio ao plano apresentado por Donald Trump, sem parecer que cedeu demais, para não perder sustentação entre aliados da coalizão de extrema direita que se opõem a qualquer acordo com o Hamas e rejeitam a criação de um Estado palestino.

O Hamas, por sua vez, afirmou estar disposto a libertar todos os reféns israelenses, devolver os corpos de vítimas mortas e até transferir o governo de Gaza a um órgão independente, embora ressalte que alguns pontos ainda precisam ser negociados — como o desarmamaento do grupo. Segundo a Reuters, o grupo militante tenta deslocar o foco das negociações para mediadores árabes e países que pressionam Israel e os EUA por uma trégua. Israel calcula que 48 reféns permanecem sob poder do Hamas, dos quais 20 estariam vivos, e Netanyahu declarou em 4 de outubro que espera vê-los de volta “nos próximos dias”.

A proposta da Casa Branca estabelece 20 pontos para encerrar imediatamente a ofensiva em Gaza. O plano prevê que o território se torne uma zona livre de grupos armados, oferecendo anistia a integrantes do Hamas que entregarem as armas e aceitarem a convivência pacífica. A administração de Gaza passaria a um comitê de palestinos tecnocratas e especialistas internacionais, supervisionado por um novo órgão chamado Conselho da Paz, presidido por Trump. Não está claro, porém, se Israel integraria esse conselho.

Segundo Washington, o Hamas teria 72 horas para libertar todos os reféns, enquanto Israel deveria libertar quase 2 mil prisioneiros palestinos. A ONU e o Crescente Vermelho ficariam encarregados da distribuição de ajuda humanitária. O plano não define a criação imediata do Estado da Palestina, mas sugere um caminho político para esse reconhecimento futuro. Embora governos estrangeiros tenham recebido a proposta de forma positiva, muitos palestinos em Gaza manifestaram descrença, temendo nova escalada da violência. Trump alertou que, se o Hamas não aceitar o acordo, enfrentará um “inferno total”, e Netanyahu reforçou que avançará militarmente caso o entendimento fracasse.

Premier de Israel, Benjamin Netanyahu, ao lado do presidente dos EUA, Donald Trump, na Casa Branca

Dois anos sem trégua

Com o segundo aniversário da ofensiva, Gaza continua isolada e sob bombardeios, enquanto as tentativas de mediação lideradas por Egito, Catar e Estados Unidos não resultam em cessar-fogo duradouro. O futuro do território segue indefinido, e a reconstrução parece incerta diante da continuidade das operações militares, mesmo após o plano apresentado por Trump. Nesta terça-feira (7), Israel voltou a atacar Gaza enquanto líderes se reúnem no Egito para debater o plano de cessar-fogo.

Dois anos depois, o que se vê não é uma guerra entre exércitos, mas um povo sitiado e desarmado tentando sobreviver sob cerco. Gaza tornou-se símbolo da resistência e, ao mesmo tempo, do fracasso coletivo da comunidade internacional — incapaz de deter o que a própria ONU e o Tribunal Penal Internacional já classificam como genocídio.

Palestinos deslocados seguem com seus pertences para o sul em uma estrada na área do campo de refugiados de Nuseirat, no centro da Faixa de Gaza

Linha do tempo: dois anos de genocídio e resistência em Gaza

2023

7 de outubro – O ataque do Hamas e o início da ofensiva israelense
— Militantes do Hamas rompem as barreiras que cercam Gaza, lançam foguetes e invadem comunidades israelenses próximas à fronteira. O ataque deixa cerca de 1.200 mortos e mais de 250 sequestrados, segundo Israel. A ofensiva surpreende o governo de Benjamin Netanyahu e serve de justificativa para a reação militar mais violenta da história recente do país.

8 a 15 de outubro – A resposta israelense e o bloqueio total
— Israel decreta estado de guerra e lança bombardeios contínuos sobre Gaza. Hospitais, escolas e casas são destruídos nas primeiras 48 horas. O governo impõe um bloqueio completo, cortando o fornecimento de água, energia, combustível e alimentos. Organismos internacionais alertam que a medida representa punição coletiva e constitui crime de guerra.

Final de outubro – Colapso humanitário
— A ONU alerta que Gaza está “à beira do colapso total”. Hospitais ficam sem energia e medicamentos, e milhares de pessoas se refugiam em escolas e abrigos superlotados. O Programa Mundial de Alimentos anuncia que a ajuda humanitária não consegue entrar.

24 de novembro – Primeira trégua parcial
— Mediadores do Egito, Catar e Estados Unidos conseguem um cessar-fogo de sete dias.
— Durante a pausa, cerca de 80 reféns israelenses e 240 prisioneiros palestinos são libertados.
— A trégua termina com o recomeço dos bombardeios e a ampliação da ofensiva terrestre.

Dezembro – Denúncias de crimes de guerra
— Relatórios da Human Rights Watch e da Anistia Internacional documentam o uso de bombas de fósforo branco em áreas civis — substância altamente incendiária e proibida em zonas urbanas pelo direito internacional.
— Imagens de ataques noturnos mostram o céu de Gaza iluminado por rastros brancos, reforçando as acusações de uso de armas ilegais. Israel nega.

2024

Janeiro – África do Sul processa Israel na Corte Internacional de Justiça
— O governo sul-africano protocola ação contra Israel na Corte Internacional de Justiça, em Haia, acusando o país de violar a Convenção de 1948 para a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio.
— A África do Sul afirma que o objetivo da ofensiva é “destruir o povo palestino enquanto tal”.
— O caso marca a primeira denúncia formal de genocídio contra Israel em um tribunal internacional.

26 de janeiro – A Corte determina medidas de proteção
— A Corte ordena que Israel adote medidas imediatas para prevenir atos de genocídio, mas não impõe cessar-fogo. Israel desconsidera as recomendações e amplia a ofensiva.

Fevereiro – Massacre da ajuda humanitária
— Mais de 100 palestinos morrem em uma fila de distribuição de alimentos em Gaza, atingidos por disparos e explosões na presença de forças israelenses.
— A ONU chama o episódio de “um massacre de civis famintos”.

Abril a julho – Fome, epidemias e deslocamentos
— Organizações humanitárias alertam que a fome é usada como arma de guerra. Casos de desnutrição infantil se multiplicam, e epidemias de cólera e disenteria se espalham em abrigos superlotados.
— A ONU calcula que 80% da população dependa exclusivamente de ajuda externa — quase sempre bloqueada.

Maio – O Brasil adere à ação da África do Sul
— O governo brasileiro formaliza sua adesão à denúncia na Corte Internacional, ao lado de países como Chile, Colômbia, México e Indonésia.
— O Itamaraty declara que a iniciativa “reflete o compromisso do Brasil com o direito internacional e a proteção dos direitos humanos”.

Outubro – O mundo nas ruas
— Crescem os protestos contra o genocídio. Multidões ocupam as ruas de Londres, Paris, São Paulo, Nova York e Joanesburgo.
— Em Tel Aviv e Haifa, israelenses também se manifestam exigindo o fim dos ataques e o retorno dos reféns.

Novembro – Crimes de guerra
— O Tribunal Penal Internacional (TPI) emitiu um mandado de prisão internacional para o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e para três ex-líderes do Hamas mortos por Israel até aquele momento. O ex-ministro da Defesa de Israel Yoav Gallant, que Netanyahu havia demitido duas semanas antes, também foi alvo.

2025

Janeiro a março – Cessar-fogos fracassados e deslocamentos em massa
— Negociações mediadas por Egito, Catar e EUA produzem tréguas curtas, repetidamente rompidas.
— Israel mantém o bloqueio e amplia operações no sul de Gaza, provocando novos deslocamentos forçados. A ONU fala em “limpeza étnica disfarçada de operação militar”.

Março – Denúncias sobre armas ilegais
–Jornalistas independentes e especialistas em armamentos confirmam o uso de fósforo branco e bombas de fragmentação em Khan Younis e Rafah.
— Organizações humanitárias classificam os ataques como crimes de guerra, citando a destruição deliberada de hospitais e comboios de ambulâncias.

Junho – Mortes ultrapassam 60 mil
— Relatórios da OMS e do Ministério da Saúde de Gaza apontam mais de 60 mil palestinos mortos.
— Bairros inteiros desaparecem, e 80% da infraestrutura urbana é destruída. A ONU declara que “Gaza deixou de ser habitável”.

16 de setembro – A ONU reconhece o genocídio
— A Comissão de Inquérito Independente da ONU conclui que Israel cometeu genocídio entre outubro de 2023 e julho de 2025.
— O relatório cita declarações de ministros e militares israelenses como prova de “intenção genocida clara” e pede a responsabilização internacional.
Israel reage afirmando que “combate o terrorismo” e que as conclusões da ONU são “politizadas”.

Outubro – Trump sugere transformar Gaza em resort
— Durante um discurso, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, propõe “reconstruir Gaza como um resort de luxo à beira-mar”.
— A declaração é recebida com indignação em todo o mundo e considerada um insulto às vítimas.
— Analistas afirmam que a fala evidencia o afastamento dos EUA de qualquer postura humanitária e o alinhamento com a ocupação israelense.

Outubro – Dois anos de genocídio e resistência
— No segundo aniversário da ofensiva, Gaza segue sob ataques e bloqueio total.
— Mais de dois milhões de pessoas estão deslocadas, a fome se generaliza e a reconstrução é inviável.
— Em várias capitais, manifestações lembram as vítimas e denunciam a inação da comunidade internacional.
— Israelenses contrários à política de Netanyahu também protestam, pedindo o fim das operações.

Síntese: dois anos de horror e impunidade

  • Mortes: mais de 67 mil palestinos, incluindo mulheres e crianaças, e 1.665 israelenses.
  • Deslocados: mais de 2 milhões de palestinos.
  • Infraestrutura: 80% de Gaza destruída ou inabitável.
  • Denúncias: genocídio reconhecido pela ONU; uso de fósforo branco, bloqueio de ajuda, destruição de hospitais e crimes de guerra sob investigação.
  • Responsabilização: ação da África do Sul no Tribunal Penal Internacional com adesão do Brasil e de outros países.
  • Reação global: protestos em dezenas de cidades, inclusive dentro de Israel, e a consolidação da ideia de um “genocídio televisionado” que expôs ao mundo, em tempo real, o sofrimento de um povo sitiado.

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