Pela primeira vez, a fome foi oficialmente confirmada na Cidade de Gaza. O alerta foi feito nesta sexta-feira pela Classificação Integrada de Fases de Segurança Alimentar (IPC, na sigla em inglês), órgão apoiado pela ONU que monitora a insegurança alimentar em diferentes regiões do mundo. O relatório indica que cerca de 500 mil pessoas vivem sob condições descritas como “catastróficas”, marcadas por fome extrema, miséria e elevado risco de morte.
Segundo a BBC, a análise elevou a região para a Fase 5 da escala internacional de insegurança alimentar aguda — o nível mais alto e grave. O reconhecimento abrange não apenas a Cidade de Gaza, mas também três municípios vizinhos e campos de refugiados, correspondendo a cerca de 20% de todo o território da Faixa.
Expansão da crise
O documento projeta que a crise alimentar deve se intensificar ainda mais até o fim de setembro, atingindo também as regiões de Deir al-Balah e Khan Younis. Embora o IPC não tenha competência para declarar formalmente uma situação de fome, suas análises são referência internacional e servem de base para que governos e organismos humanitários façam reconhecimentos oficiais.
De acordo com o jornal britânico The Guardian, três critérios rigorosos precisam ser atendidos para a caracterização da fome: ao menos 20% dos domicílios devem enfrentar extrema falta de alimentos, 30% das crianças precisam apresentar sinais de desnutrição aguda e duas pessoas a cada 10 mil devem morrer diariamente em consequência da inanição. O IPC confirmou que esses parâmetros foram atingidos em Gaza após 22 meses de conflito.
Além das 500 mil pessoas em situação de fome, o relatório mostra que outros 1,07 milhão de palestinos — mais da metade da população da Faixa — já vivem em “emergência alimentar”, segundo nível mais grave da escala.
O anúncio da ONU ocorre em meio à retaliação de Israel a um ataque do grupo militante Hamas que se prolonga desde outubro de 2023. A Palestina afirma que metade das vítimas dos bombardeios em Gaza são mulheres e crianças, o que reforça a gravidade do genocídio. A ONU, que ainda avalia todos os dados do relatório, considera a situação inédita no Oriente Médio.
Reação de Israel
O reconhecimento da fome deve provocar forte reação do governo israelense, que tem negado reiteradamente a ocorrência desse quadro no território. Tropas de Israel intensificam neste momento uma ofensiva na Cidade de Gaza contra o grupo Hamas.
O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu já vinha sofrendo pressão internacional diante das denúncias humanitárias. No início do mês, seu gabinete anunciou medidas para ampliar a entrada de ajuda na Faixa, afirmando que “centenas de caminhões” foram autorizados a cruzar a fronteira.
— Se Israel estivesse implementando uma política de fome, ninguém em Gaza teria sobrevivido após dois anos de guerra — declarou Netanyahu recentemente.
Já o o subsecretário-geral da ONU para Assuntos Humanitários, Tom Fletcher, acusa Israel de usar a fome como “arma de guerra”:
“Há fome generalizada em Gaza, em pleno no século 21. Uma fome que se desenvolve sob o olhar de drones e da tecnologia mais moderna. Uma fome promovida abertamente por alguns líderes israelenses como uma arma de guerra. A fome de Gaza é prevenível e deve nos assombrar. É uma fome que foi produzida pela vingança e habilitada pela inépcia mundial. Chega. É necessário um cessar-fogo e a abertura das fronteiras. É tarde demais para muitos [palestinos]. Pelo bem da humanidade, nos deixem entrar [em Gaza]”, afirmou.






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