O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, discursou na manhã desta sexta-feira na Assembleia Geral da ONU. Sob pressões de aliados no exterior para reduzir as tensões regionais — incluindo uma proposta franco-estadunidense para uma trégua de 21 dias no Líbano, inicialmente recusada —, e de integrantes de sua coalizão de governo para manter a pressão total contra o Hezbollah e o Hamas, o discurso era esperado ansiosamente, com a expectativa de que pudesse trazer sinais sobre a abordagem israelense. Quando Netanyahu foi chamado para discursar, dezenas de membros de delegações abandoram o plenário da ONU, e houve vais. O presidente da sessão teve de pedir silêncio.
— Eu não pretendia vir aqui neste ano. Meu país está em guerra, lutando pela sua vida. Mas após ouvir as mentiras e calúnias levantadas por muitos dos porta-vozes neste púlpito, eu decidi vir aqui e esclarecer as coisas — disse o premier. — E aqui está a verdade: Israel busca a paz (…). Israel fez a paz e vai fazer a paz de novo.
Netanyahu afirmou que seu país enfrentará inimigos “selvagens” como o Irã até o final.
— Enfrentamos um inimigo selvagem e precisamos combatê-lo. (…) Não há nenhum lugar no Irã que Israel não pode alcançar — disse.
Recorrendo à narrativa bíblica de Moisés, o premier sionista afirmou que a região poderia ter como desfecho “uma bênção” ou “uma maldição” — mesmo termo que usou para se referir ao atentado de 7 de outubro do ano passado, lançado pelo Hamas contra Israel.
Momentos depois, o Netanyahu sacou um mapa de detrás do púlpito e apresentou o que disse ser a “bênção” para a região — uma integração incluindo Israel, Arábia Saudita, Egito e outros países locais, que se aproximavam antes da crise regional — e o que seria a “maldição”, com o aumento da influência e das atividades do chamado Eixo da Resistência chegando cada vez mais perto da Europa.
No disurso, ele acusou o Irã de ter bombardeado Israel diretamente pela primeira vez, com mísseis lançados na quinta-feira direto do território iraniano. E disse que está preparado para uma guerra contra o país. “Se vocês atacarem a gente, nós os atacaremos”, afirmou.

A delegação do Irã foi uma das que se levantou do plenário antes do início do discurso de Netanyahu.
O premier afirmou no discurso que, em quase um ano de genocídio na Faixa de Gaza, Israel já matou ou capturou “mais da metade dos 40.000 soldados do Hamas” e afirmou estar pronto para apoiar uma administração civil local comprometida com a paz.
— Essa guerra pode ter um fim agora. Tudo o que falta é que o Hamas se renda, entregue as armas e devolva os reféns.
Netanyahu também indicou que seguirá com os ataques que vem fazendo há uma semana no Líbano, onde luta contra o grupo militante islâmico Hezbollah.
— Enquanto o Hezbollah escolher o caminho da guerra, Israel não tem outra opção — afirmou.
Israel vem bombardeando regiões do Líbano há uma semana, em uma nova página do conflito no Oriente Médio que já deixou mais de 700 mortos. O governo israelense afirma que o alvo é o Hezbollah, grupo militante financiado pelo Irã, e que nasceu no Líbano com o intuito de lutar contra Israel e sua ocupação ao território palestino.
Bombardeios ao Líbano
As Forças Armadas de Israel (FDI) voltaram a bombardear alvos no Líbano e na Síria na manhã desta sexta-feira, horas antes do esperado discurso do primeiro-ministro, em meio aos apelos internacionais por contenção e uma desescalada que impeça uma guerra regional.
Seguindo a regra dos últimos dias, as forças israelenses e do Hezbollah trocaram ataques pela fronteira desde a madrugada. Em um dos primeiros bombardeios israelenses do dia, na cidade de Shebaa, no sul do Líbano, autoridades locais afirmaram que nove pessoas da mesma família morreram, incluindo quatro menores de idade. O Ministério da Saúde libanês afirmou que cerca de 700 pessoas morreram em decorrência dos ataques desde segunda-feira, 25 apenas nos ataques desta sexta. O Alto-comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) estimou nesta sexta que 30 mil pessoas fugiram para a Síria nas últimas 72 horas.
Ataques contra Israel foram lançados do sul do Líbano e do Iêmen. Sirenes de alerta de ataque aéreo voltaram a soar pelo país após disparos de foguete do Hezbollah contra uma série de locais, incluindo Haifa. O Exército afirmou que as bases de lançamento utilizadas para o ataque foram bombardeadas nas horas seguintes.
Rebeldes Houthis — outro grupo do Eixo da Resistência — confirmaram ter disparado contra o Estado judeu. O grupo atua em solidariedade ao Hamas desde os primeiros dias do genocídio em Gaza, tendo a atuação mais forte em ataques a embarcações consideradas pró-Israel no Mar Vermelho. Informações da TV Al-Arabiya dão conta de que o chefe do sistema de drones do Hezbollah morto na quinta-feira, Mohammed Srur, esteve no Iêmen há três dias.

Autoridades ocidentais, incluindo o presidente dos EUA, Joe Biden, fizeram apelos nos últimos dias para que Israel busque a via diplomática para solucionar suas questões de segurança na fronteira com o Líbano. Embora Washington tenha reforçado o direito israelense de se defender, a Casa Branca tenta atuar para uma desescalada, tanto em Gaza quanto no norte, patrocinando a ideia de um cessar-fogo.
Tanto Netanyahu como integrantes da alta-cúpula do governo israelense foram taxativos em rejeitar qualquer acordo na quinta-feira, após a discussão vir a público. A rapidez e a forma da negativa das autoridades surpreendeu as autoridades em Washington. O porta-voz de Segurança Nacional da Casa Branca, John Kirby, afirmou que a crença nos EUA era de que Israel estava de acordo com a proposta, envolvendo três semanas de pausa no conflito.
— Tínhamos todos os motivos para acreditar que, na elaboração e na entrega, os israelenses estavam totalmente informados — disse ele sobre a proposta, em uma entrevista coletiva. — Totalmente informados e totalmente cientes de cada palavra nele. E não teríamos feito isso, como eu disse, se não acreditássemos que seria recebido com a seriedade com que foi composto.
Em uma outra frente diplomática, a Arábia Saudita anunciou na quinta-feira que formou uma aliança global — incluindo vários países árabes e muçulmanos — para pressionar por uma solução para os conflitos regionais, a partir de uma solução de dois Estados para o conflito israelense-palestino. Fontes sauditas afirmaram que a aliança também incluiria parceiros europeus, mas não especificou quem se comprometeu com a proposta. O chanceler da União Europeia, Josep Borrell, indicou que reuniões teriam sido marcadas para ocorrer em Riad e Bruxelas.
— Implementar a solução de dois Estados é a melhor solução para quebrar o ciclo de conflito e sofrimento e impor uma nova realidade na qual toda a região, incluindo Israel, desfrute de segurança e coexistência — disse Faisal bin Farhan Al Saud, chanceler saudita.






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