A morte de seis jornalistas no domingo, cinco deles vinculados à rede al-Jazeera, na Cidade de Gaza, reforçou o caráter extremo da violência contra profissionais da imprensa desde o início da guerra no enclave palestino. Segundo o Comitê de Proteção de Jornalistas (CPJ), 192 repórteres, fotógrafos e cinegrafistas perderam a vida desde outubro de 2023 — o maior número já registrado em um único conflito armado na História moderna e quase três vezes superior ao total contabilizado durante as duas Guerras Mundiais.
A tragédia reacendeu pressões internacionais e novas denúncias contra Israel, que, ao mesmo tempo em que lança acusações contra parte dos mortos, avalia flexibilizar o bloqueio imposto à entrada da imprensa estrangeira em Gaza.
Correspondente sob ameaça
Entre os mortos está o conhecido repórter Anas al-Sharif, acusado por Israel, sem apresentar provas, de integrar a ala militar do Hamas. Em julho, ele concedeu entrevista ao CPJ e afirmou que as acusações representavam um risco concreto à sua vida.
— Tudo isso acontece porque minha cobertura dos crimes da ocupação israelense na Faixa de Gaza os prejudica e mancha sua imagem no mundo. Eles me acusam de terrorista porque a ocupação quer me assassinar moralmente — disse.
Escalada inédita de mortes
O levantamento do CPJ aponta ainda que, além dos mortos, 90 jornalistas foram presos por Israel no mesmo período. Em 2023, o país foi o segundo que mais deteve profissionais da imprensa, atrás apenas da China, com a maioria das prisões ocorrendo nos territórios ocupados de Gaza e da Cisjordânia.
O Projeto Custos da Guerra, da Universidade Brown, nos Estados Unidos, confirma a dimensão inédita do cenário. O estudo registra que 69 jornalistas morreram nas duas Guerras Mundiais, 71 durante os conflitos do Vietnã, Camboja e Laos, e 19 desde a invasão russa da Ucrânia, em fevereiro de 2024.
“Desde a década de 2000, governos nacionais e grupos terroristas – de Israel, o regime sírio de [Bashar al] Assad e os Estados Unidos ao Estado Islâmico – encontraram maneiras de restringir a cobertura de conflitos por uma série de meios, desde políticas repressivas até ataques armados”, afirma o relatório. “Todos mataram jornalistas e ajudaram a fomentar uma cultura de impunidade, transformando zonas de conflito como Síria e Gaza em ‘cemitérios de notícias’.”
Denúncias e bloqueio à imprensa
A ONG Repórteres Sem Fronteiras (RSF) já apresentou quatro queixas contra Israel ao Tribunal Penal Internacional, em Haia, desde o início da guerra. Na mais recente, em novembro passado, afirmou que as mortes de jornalistas “permanecem impunes” e caracterizou os ataques como um “massacre sem precedentes”.
A RSF e outras organizações de defesa dos direitos humanos pedem o fim imediato do bloqueio à entrada de jornalistas estrangeiros em Gaza, vigente desde outubro de 2023.
“O bloqueio midiático imposto sobre Gaza, com o massacre de quase 200 jornalistas pelo exército israelense, facilita a destruição total do enclave sitiado, bem como seu apagamento. As autoridades israelenses proíbem a entrada de jornalistas estrangeiros e orquestram um controle implacável da informação. Trata-se de uma tentativa metódica de sufocar os fatos, calar a verdade, isolar a imprensa palestina — e com ela, a população”, declarou, em comunicado, Thibaut Bruttin, diretor-geral da RSF.
Reação de Israel
Em entrevista coletiva no domingo, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, disse ter orientado o Exército a se preparar para levar mais jornalistas estrangeiros a Gaza, com o objetivo de que “vejam com os próprios olhos” as ações de Israel, incluindo a distribuição de ajuda humanitária. A ONU e diversas organizações de assistência contestam a eficácia do novo sistema de distribuição, liderado por uma fundação financiada pelos Estados Unidos, que consideram ineficiente e arriscado para civis.
Netanyahu afirmou que, apesar dos riscos de segurança, “isso pode ser feito”. A promessa, porém, é recebida com ceticismo, já que, em ocasiões anteriores, a entrada de repórteres foi restrita a visitas curtas, acompanhadas por militares, com o material produzido submetido à censura antes da divulgação.
A expectativa de organizações internacionais é de que, caso a entrada seja liberada, o trabalho da imprensa possa ser feito de forma independente — algo que, até agora, não há sinal de que ocorrerá.
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