Refém israelense libertada diz que único momento em que se sentiu realmente ameaçada foi sob os ataques de seu país a Gaza

Chen Almog-Goldstein ainda disse que os guardas do grupo militante Hamas colocaram seus corpos à frente dos reféns para protegê-los durante os bombardeios das Forças de Israel a um supermercado.

A assistente social Chen Almog-Goldstein se recusa a esquecer os últimos momentos de sua filha mais velha. Yam, de 20 anos, estava ofegante, tendo sido baleada no rosto por homens armados do Hamas, que minutos antes haviam matado o pai dela. Almog-Goldstein, de 49 anos, não viu Yam ou seu marido, Nadav, novamente — ela e seus três filhos sobreviventes foram colocados em um carro e sequestrados pelo grupo militante palestino. Durante a viagem de sete minutos pela fronteira com Gaza, em 7 de outubro de 2023, seus dois captores sorriram e tiraram fotos da mãe e dos filhos traumatizados.

“Quase tudo, todos os dias, nos lembrava de Nadav e Yam”, disse Almog-Goldstein sobre seus 51 dias de cativeiro. “Mas quando chorávamos, rapidamente tínhamos que limpar nossos rostos e sair porque nossos guardas nos diziam para ficarmos felizes, o que por si só já era uma espécie de dano emocional. Não tínhamos espaço para lamentar.”

A família foi transferida repetidamente de túneis para apartamentos, e mais tarde para um supermercado e uma mesquita, às vezes a pé e uma vez em um carrinho de burro, à medida que os bombardeios ao seu redor se intensificavam. Almog-Goldstein estava mais preocupada que ela e sua filha Agam, 17, e os filhos Gal, 11, e Tal, 9, fossem mortos pela ofensiva israelense do que por seus captores, que uma vez protegeram a família com seus corpos enquanto os estilhaços choviam ao seu redor.

A família, que foi libertada em 26 de novembro como parte de um acordo de cessar-fogo de uma semana, está tentando reconstruir sua vida, mas ainda não tem um lar permanente.

Em 7 de outubro, os Almog-Goldsteins se barricaram no quarto de Yam, que servia como a sala segura de sua casa no kibutz Kfar Aza. Cinco horas depois, cinco homens armados do Hamas invadiram o local e atiraram no peito de Nadav, de 48 anos, à queima-roupa.

A família teve que passar por cima do corpo do talentoso triatleta enquanto os militantes os levavam para fora, onde Yam desmaiou. Almog-Goldstein tentou molhar o rosto da filha no banheiro antes de ir verificar seus outros filhos. Quando retornou, alguns segundos depois, viu que Yam — soldado a apenas dois meses do fim de seu serviço [em Israel as mulheres também servem nas Forças Armadas] –, havia sido baleada no rosto.

“Lembro que havia um buraco na bochecha dela e ela estava ofegante. Havia um orifício de saída do outro lado e sua cabeça estava sangrando profusamente”, disse Almog-Goldstein, entre lágrimas.

“Com o tempo essa imagem fica cada vez mais borrada, mas todas as noites, durante todo esse tempo, pouco antes de escurecer, tento me forçar a lembrar daquela imagem, daquela cena. Foi uma coisa tão difícil que eu estava testemunhando, que é um processo de auto-tortura o modo como eu nunca me esquecerei disso.”

Ao chegar a Gaza, a família foi levada para o pátio de um bloco residencial e guiada para um buraco no chão que levava a um túnel. “Durante todo o evento do sequestro, todas as crianças estavam aparentemente calmas. Eles não estavam puxando minha camisa, não estavam gritando ou lamentando, mas foi o momento em que meu menino de nove anos chorou pela primeira vez”, disse Almog-Goldstein.

Quando Agam teve um ataque de pânico no segundo dia de seu confinamento clandestino, um guarda do Hamas a tranquilizou: “Terça-feira, você está de volta a Israel”.

Entretanto, não foi assim que aconteceu. A família acabou sendo levada para um apartamento em um bloco de vários andares, onde passaria as próximas cinco semanas. “Dava para ver o mar, não muito longe, ao fundo”, lembrou Almog-Goldstein. Em alguns dias, eles eram autorizados a passar o tempo em um quarto cheio de brinquedos de criança, mas passavam a maioria das noites dormindo em colchões no corredor. Eles não eram fisicamente agredidos e muitas vezes comiam pitta e queijo com seus captores, até que a comida se tornasse escassa.

Eles sempre foram vigiados por pelo menos três dentre seis guardas fortemente armados. “Porque alguns deles iam lutar e depois voltavam, foi o que nos disseram”, relatou Almog-Goldstein. A família tentou estabelecer uma relação com seus guardas, envolvendo-os em longas conversas como parte de um “mecanismo de sobrevivência”.

Dois falavam um pouco de inglês e outro estava aprendendo hebraico. “Eles continuaram nos dizendo que não nos prejudicariam e que éramos muito importantes para eles”, disse Almog-Goldstein. “Mas sempre tivemos medo que eles se virassem contra nós, que recebessem uma ordem de alguém para nos prejudicar, porque claramente eram engrenagens de baixo escalão na máquina. Estávamos constantemente em angústia ou terror.”

Os guardas também discutiram política e as raízes do conflito Israel-Palestina. “Em última análise, acabava sempre com os guardas nos dizendo para ler livros de história; que fomos nós que os expulsamos de suas terras; fomos nós que os matamos; e nós é que os mantivemos em uma panela de pressão que continuou borbulhando e borbulhando até que explodiu”, disse Almog-Goldstein.

Alguns dos guardas disseram à assistente social que queriam viver lado a lado como vizinhos, mas outros a alertaram para se afastar. “Disseram-me para ir a Tel Aviv, mas não voltar para Kfar Aza. Eles disseram: ‘Vamos voltar, vamos voltar’. Perguntaram: ‘Sabe quantos somos na organização? No dia 7 de outubro, éramos 3 mil. Da próxima vez seremos 20 mil’”.

Almog-Goldstein disse que também testemunhou momentos em que seus captores mostraram “sensibilidade e cuidado”. Um dos atiradores pediu desculpas pela morte de Nadav, com quem Almog-Goldstein começou a namorar no ensino médio.

“Nós os vimos chorar, vimos que eles sentem falta de suas esposas”, disse ela. “Nós os vimos escrevendo cartas para suas esposas e colocando-as em seus bolsos. Estávamos preocupados com isso, pensando ‘por que você está escrevendo uma carta agora?’”

No final das cinco semanas, os guardas começaram a receber chamadas em um telefone fixo. Almog-Goldstein disse que teve a impressão de que eles estavam perdendo o controle. “Houve divergências entre os captores e algum tipo de divisão interna”, disse. De lá, a família foi levada em uma caminhada de 40 minutos até um supermercado. Foi então que viram os estragos causados pela ofensiva israelense pela primeira vez.

“Vi muita devastação e destruição”, disse Almog-Goldstein. “Me fez sentir terrível ver tamanha pobreza. Foi muito difícil ver isso. Não foi uma grande sensação de: ‘Oh ótimo, nós israelenses mostramos a eles’.”

Os três guardas do Hamas pediram desculpas por terem feito a família dormir em um depósito no supermercado, mas disseram ter alguma esperança de que a guerra estava prestes a acabar. No dia seguinte, o supermercado foi atingido por estilhaços de um bombardeio aéreo israelense. “Foi atroz. Foi a primeira vez que realmente sentimos que nossas vidas estavam em perigo”, disse Almog-Goldstein.

“Ouvimos os bombardeios e disparos constantes se aproximando cada vez mais e já podíamos ver todas as pedras voando ao redor e os escombros e estilhaços, que estavam se aproximando de nós a ponto de os guardas do Hamas colocarem colchões sobre nós no chão para nos cobrir, e então nos cobriram com seus corpos para nos proteger do tiroteio de nossas próprias forças.”

Quando o supermercado foi atingido novamente, os palestinos que viviam em apartamentos no andar de cima foram evacuados. Os guardas da família começaram a discutir no escuro do lado de fora sobre para onde levá-los em seguida.

“Mas houve bombardeios maciços novamente”, disse Almog-Goldstein. “Havia bombas caindo e eles nos empurraram contra a parede para nos proteger.” Cada transferência que se seguiu foi aterrorizante para a família. Os guardas acabaram levando-os para uma escola dentro de uma mesquita onde palestinos deslocados estavam abrigados. “Parecia que as pessoas na mesquita não queriam nos acolher, tinham medo”, lembrou.

A família foi transferida novamente no dia seguinte, desta vez em um carrinho de burro, para um complexo de apartamentos semi-construídos. Seus guardas não sabiam o que fazer quando aquele prédio também foi atingido.

“Sempre que estou falando de uma onda de choque de um bombardeio, o que realmente significa é que os batentes das portas são explodidos, as janelas se estilhaçam e os palestinos simplesmente colocam alguns cobertores, consertam da melhor maneira possível e continuam. Mas o custo físico que isso nos causou foi inimaginável”, disse Almog-Goldstein.

De lá, havia outra escola cheia de barracas onde famílias palestinas estavam abrigadas. Muitos assumiram que os Almog-Goldsteins também eram deslocados da guerra e ofereceram-lhes comida e água.

A família ficou esperançosa de que a guerra, então em sua sétima semana, estava terminando porque seus captores pareciam “animados com um cessar-fogo iminente”. Mas seus guardas disseram que não havia mais lugar seguro em Gaza e que eles teriam que esperá-los em um túnel subterrâneo com seis mulheres reféns israelenses, incluindo duas crianças.

“Cada encontro com cativos em Gaza foi realmente emocionante”, disse Almog-Goldstein. “Mas três das mulheres ficaram feridas, algumas tiveram lesões complexas e outras falaram sobre agressões sexuais.”

Ela disse que o grupo discutiu relatar as alegações a um comandante do Hamas durante sua libertação. “Em geral, os comandantes do Hamas pareciam ser receptivos o suficiente para que pensássemos que poderia haver uma chance de contar o ocorrido”, disse ela.

Mas ela não sabe se isso aconteceu porque a maioria das mulheres foi deixada para trás. Ela agora está desesperada para que os reféns restantes voltem para casa, mas acrescentou: “Tendo experimentado o quão horríveis foram os combates e bombardeios, eu realmente não consigo entender como alguém pode lidar com isso e ainda cuidar dos reféns que estão lá”.

Com informações do The Guardian. Tradução: Carole Bê, Agenda do Poder.

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