Na Faixa de Gaza, cobrir a guerra deixou de ser apenas uma tarefa perigosa e passou a ser, para muitos jornalistas, um exercício de sobrevivência. Em um cenário de bombardeios constantes, ruínas, escassez absoluta de alimentos e colapso sanitário, profissionais da agência de notícias AFP relataram nesta terça-feira (22) que já não têm mais forças para continuar trabalhando. A fome, dizem, superou até mesmo o medo das bombas.
“Não nos restam forças por causa da fome”, desabafou um dos colaboradores palestinos da agência. A declaração resume a situação de repórteres, cinegrafistas e fotógrafos que há mais de nove meses enfrentam uma rotina de privações severas, enquanto tentam registrar os efeitos da guerra entre Israel e o Hamas.
Em nota oficial, a AFP pediu a Israel que permita a saída de seus jornalistas e familiares da Faixa de Gaza, cujos acessos estão sob controle das forças israelenses.
Corpos fracos, vozes em alerta
Bashar Taleb, de 35 anos, um dos quatro fotógrafos da AFP indicados ao Prêmio Pulitzer neste ano, vive entre os escombros de sua casa destruída em Jabaliya al Nazla, no norte do território. “Tive que interromper várias vezes meu trabalho para buscar comida para minha família”, contou. “Pela primeira vez, me sinto completamente abatido.”
Seu colega, Omar al Qattaa, também indicado ao Pulitzer, descreve um quadro semelhante. Carregando equipamentos pesados e andando por quilômetros para cobrir os conflitos, Al Qattaa sofre com dores nas costas e depende de analgésicos — que, segundo ele, já não são encontrados nas farmácias. “Já não conseguimos chegar aos locais sobre os quais devemos reportar”, afirma.
Khadr al Zanoun, repórter de 45 anos baseado na Cidade de Gaza, perdeu 30 quilos desde o início da guerra. “Minha família também está no limite das forças”, diz ele, relatando episódios de desmaio e fadiga extrema. A situação é semelhante para o fotojornalista Eyad Baba, de 47 anos, deslocado para Deir al-Balah, onde Israel iniciou recentemente uma nova ofensiva terrestre. Para proteger sua família, ele teve que alugar um abrigo a preços abusivos: “Não aguento mais essa fome, ela está afetando meus filhos”.
Horror além das bombas
A dor, dizem os jornalistas, vem de todos os lados. Baba descreve a sensação constante de viver à beira da morte: “No nosso trabalho, enfrentamos todas as formas possíveis de morte. O medo e a sensação de morte iminente nos acompanham por toda parte”. No entanto, ele destaca: “A dor da fome é mais forte que o medo dos bombardeios. A fome impede de pensar.”
O colapso humanitário é visível também nas instituições de saúde. O diretor do hospital Al Shifa, Mohammed Abu Salmiya, alertou sobre os “níveis alarmantes de mortalidade” por desnutrição. Segundo ele, 21 crianças morreram de fome em apenas três dias.
A jornalista Ahlam Afana, de 30 anos, acrescenta um novo elemento à crise: a dificuldade de acesso a dinheiro. Comissões bancárias de até 45% e preços inflacionados inviabilizam o cotidiano. “Um quilo de farinha custa entre 166 e 249 reais”, afirma. “É mais do que conseguimos pagar, mesmo para comprar só um quilo por dia.”
Tragédia sem pausa
Desde o início da guerra, mais de 200 jornalistas foram mortos em Gaza, segundo a organização Repórteres Sem Fronteiras. Entre os sobreviventes, o sentimento é de luto permanente.
Youssef Hassouna, cinegrafista de 48 anos, perdeu colegas e parentes. Apesar disso, segue registrando imagens da destruição: “Cada imagem que eu capto pode ser o último vestígio de uma vida sepultada sob os escombros”, diz.
Zuheir Abu Atileh, ex-colaborador da AFP, resume o desespero dos que ficaram. “Prefiro a morte a esta vida. Não nos restam forças, estamos esgotados, estamos desmoronando. Basta.”
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