Com ao menos 121 pessoas mortas, a megaoperação desta terça-feira (28) no Complexo do Alemão e Penha, Zona Norte do Rio, passa a figurar entre as ações de forças de segurança mais letais do mundo. O índice é quatro vezes maior em relação ao número de vítimas fatais de ações mundialmente conhecidas até então pelo alto índice de letalidade.
Isso inclui a ação na favela do Jacarezinho e o combate às maiores organizações criminosas, como ao cartel das Farc na Colômbia e ao império do crime construído pelo megatraficante mexicano Joaquín “El Chapo” Guzmán.

Em maio de 2021, a ação na favela do Jacarezinho, também na Zona Norte do Rio, deixou 28 óbitos. Era considerada, até então, a ação mais letal da história do Rio de Janeiro pelo Palácio Guanabara. Em comparação com ações contra o crime organizado em outros países, a operação da polícia do Rio matou mais que o dobro em relação a ações policiais contra o cartel de El Chapo Guzmán no México e contra as Farc na Colômbia.
Em março de 2008, o exército colombiano matou 26 guerrilheiros em um bombardeio a acampamentos das Farc, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. O ataque ocorreu em território equatoriano. Em janeiro de 2023, uma ação da polícia mexicana vitimou 29 pessoas em uma investida para prender Ovidio Guzmán, filho de El Chapo.

Até a noite desta terça-feira, o índice de mortos era de 64. Mas fontes ouvidas pela Agenda do Poder que participavam da operação até a noite desta terça-feira já indicavam que o número seria muito mais expressivo, fato que se confirmou na manhã desta quarta-feira com a retirada de mais de 70 corpos em uma área de mata onde ocorreram confrontos, segundo a Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ.
Por determinação do governador Cláudio Castro, o policiamento seguirá com reforço nesta quarta-feira (29) nas áreas onde ocorreram os confrontos. Quatro policiais estão entre as vítimas fatais e outros nove se feriram no tiroteio nos conjuntos de favelas apontados pelas autoridades como o reduto do Comando Vermelho, principal facção criminosa no Rio.
Impacto mundial’ e ‘fracasso’: o que dizem os especialistas
Especialistas em Segurança Pública ouvidos pela Agenda do Poder classificaram a operação policial nos conjuntos de favelas do Alemão e Penha como um fracasso e citam o impacto mundial pelo elevado número de mortes. Eles citam, ainda, os riscos para a população, já que os confrontos ocorreram em uma área com grande quantidade de moradores.
“Foi uma operação extremamente insegura para a população, porque ocorreu em uma área densamente povoada e sem devidos cuidados também para os profissionais que atuam nessas ações”, disse o sociólogo Daniel Hirata, que coordena o Geni (Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos) da UFF.
“A operação é catastrófica e vai causar um impacto mundial. É um número muito expressivo de mortes até para o patamar do Rio de Janeiro, reconhecidamente problemático”.
Daniel Hirata

Hirata também questionou a suposta eficácia da ação no combate ao Comando Vermelho e nas buscas pela captura de Doca, principal líder da facção criminosa. “Mesmo se ocorresse a prisão do Doca, existiriam outros para ocupar esse espaço de poder. E não se justifica essa quantidade de mortes para a prisão de uma grande liderança”.
Ele cita, ainda, que ações com foco no faturamento do crime organizado seriam mais efetivas. “A expansão do Comando Vermelho não vai ser contida dessa forma. Seria preciso medidas que impactassem os negócios desses grupos, e de forma permanente. Em poucos dias, todo o aparato bélico da facção será restabelecido”, diz.

Especialista em Segurança Pública, o sociólogo Ignácio Cano diz ver a operação como “um fracasso absoluto”. Segundo ele, as forças policiais deveriam ter agido com uma estratégia aos moldes do que foi feito em 2008, quando foram instaladas as primeiras UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) nas favelas do Rio.
“Uma operação com esse número de mortos em qualquer país que não esteja em guerra é um fracasso absoluto. Se você quer enfraquecer o Comando Vermelho, tem que agir com superioridade de forças para coibir o confronto e recuperar o território, como era a filosofia das UPPs. As megaoperações não mudam o cenário e só geram mortes”.
Ignácio Cano, sociólogo e especialista em Segurança Pública
O programa, idealizado para ocupar o reduto do crime organizado, foi esvaziado ao longo dos anos pela falta de políticas sociais nessas áreas.
Repercussão no país e no exterior
A ação causou desdobramentos políticos e de autoridades no país. A Defensoria Pública apontou violações e abusos. O governo federal mandará uma comitiva ao Rio para discutir a Segurança Pública após o governo Lula convocar a cúpula às pressas para uma reunião de emergência. Já a Câmara dos Deputados decidiu antecipar a análise da PEC da Segurança. Cláudio Castro, governador do Rio, solicitou o envio de dez líderes presos para unidades de segurança máxima, pedido atendido pelo governo federal.

No exterior, o Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos pede que as mortes sejam investigadas de forma rápida. “Estamos horrorizados com a operação policial em andamento nas favelas do Rio de Janeiro”, disse a entidade nas redes sociais. “O Rio precisa de uma nova política de segurança pública, que pare de estimular confrontos que vitimizam moradores e policiais”, afirmou a ONG Human Rights Watch.
O governo dos EUA emitiu alerta de segurança para norte-americanos no Rio, recomendando cautela máxima. O jornal britânico The Guardian foi um dos mais enfáticos, afirmando que o Rio vive “o pior dia de violência da história”.
“Esse tipo de estratégia não ataca os elos centrais do crime organizado, não rompe as rotas do tráfico de drogas para países europeus, não desmonta seus mecanismos de lavagem de dinheiro ou de abastecimento de armas. Além disso, gera um acirrado fogo cruzado em áreas densamente habitadas, colocando em risco direto a vida de centenas de milhares de pessoas, em especial da população de baixa renda e predominantemente negra”, escreveu o Instituto Sou da Paz.

A ação tinha como objetivo garantir o cumprimento de 100 mandados de prisão de pessoas ligadas ao crime organizado. Entre elas, Edgar Alves de Andrade, o Doca, apontado como o líder da facção nas ruas. Em meio à escalada da violência da operação, o Disque Denúncia passou a oferecer recompensa de R$ 100 mil por informações sobre o seu paradeiro. É o maior valor pago pelo programa desde a divulgação do cartaz com o rosto de Fernandinho Beira-Mar, líder do CV preso pela primeira vez em 2001.
Em vez de capturar o criminoso mais procurado do Rio, a ação policial mais letal da história do país gerou uma onda de descontrole social, com criminosos incendiando vias públicas. Com dezenas de ônibus recolhidos e vias bloqueadas, milhares de cariocas enfrentaram dificuldades para voltar para casa, precisando seguir a pé por longos trechos.






Deixe um comentário