Em 1988, o Rio de Janeiro viveu uma eleição municipal que já seria histórica por si só. Era a primeira escolha direta para prefeito da Guanabara depois da redemocratização e da Constituição de 1988, mas os cariocas e simpatizantes resolveram acrescentar um detalhe zoológico àquela Festa da Democracia. Entre sorumbáticos candidatos de terno e gravata, promessas e mais promessas, apareceu um concorrente que não sabia falar, não tinha título de eleitor, não podia assinar ficha de filiação e nem aceitava aquela conversinha ao pé do ouvido tradicional dos conchavos políticos, porque jogava comida, terra e fezes em quem chegasse perto demais de sua jaula. Chamava-se Tião, era um chimpanzé e morava no Zoológico do Rio. Lançado como candidato fictício pela turma da então revista Casseta Popular, ele recebeu, segundo as estimativas históricas mais conhecidas, mais de 400 mil votos.
A candidatura nasceu como piada, mas ganhou corpo, slogan, camiseta e uma legião de militantes. “Tião, Tião, o candidato do povão” estampava panfletos e virou palavra de ordem na porta das sessões eleitorais, protestando contra uma política que, já naquela época, parecia feita por e para poucos. O voto ainda era em cédula de papel, bastava escrever o nome, e muita gente escreveu, com convicção ou deboche, o nome do primata.
Se aqueles votos tivessem sido válidos, Tião teria terminado em terceiro lugar na eleição para prefeito do Rio, atrás apenas do tucano Marcello Alencar e do petista Jorge Bittar, e à frente de Álvaro Valle, o fundador do PL. Naturalmente, todos os seus votos foram anulados, mas o símbolo ficou. Numa democracia ainda jovem, o eleitor encontrou no macaco representação da própria descrença em um sistema que já demonstrava não saber responder a todos os anseios sociais. Décadas depois, a história ainda rende documentários, estátuas e piadas, provando que o Rio, mesmo nos momentos mais sérios, sabe de rir de si mesmo.

De onde veio esse astro?
Ele não era um outsider, já era famoso antes de ser lançado na política. Tião não era um chimpanzé qualquer. Nascido em 16 de janeiro de 1963, no próprio Zoológico do Rio, era filho de Babá e Lulu. Em 1988, ano da eleição, tinha 25 anos, idade em que um chimpanzé já é um adulto consolidado, com personalidade formada e, no caso dele, um temperamento que oscilava entre o carismático e o explosivo pra gente pegar leve.
Sua fama vinha de longe. Desde os anos 1980, era conhecido por seu “mal humor” legendário e por atirar excrementos e lama em visitantes. E sim, acredite, nos anos 1980 as pessoas pagavam ingresso para ir ao Zoológico brincar de esquivar de um tolete arremessado por um macaco e achavam isso muito divertido. Ele também gostava de exibir-se para as moças, num comportamento que, traduzido para o universo humano, seria considerado no mínimo constrangedor e digno de cancelamento imediato.
Longe de ser um bicho dócil, Tião era uma atração justamente por sua imprevisibilidade, o que o tornava perfeito para o papel de candidato antissistema. Anárquico, ele caprichava na mira quando via um político.
A primeira vítima registrada foi Júlio Coutinho, prefeito entre 1980 e 1983, que foi tirar fotos quando reformou sua jaula e sploft. Foi atingido em cheio. Outros vieram. Mas o ponto alto dessa trajetória foi quando acertou o advogado Marcelo Alencar, que o venceria na eleição daquele ano. O resultado da pontaria foi destaque em todos os jornais e a piada corrente da cidade no dia seguinte ao episódio.

A piada com propósito
A candidatura de Tião não foi apenas uma brincadeira de humoristas ociosos. A turma da revista Casseta Popular e do jornal Planeta Diário, que depois se fundiriam no Casseta & Planeta, lançou a ideia com um objetivo claro: incentivar o voto nulo como forma de protesto contra um cardápio de candidatos que, naquele fim dos anos 1980, não estava empolgando quase ninguém.
A campanha, pensada inicialmente como sátira pontual, ganhou vida própria e foi além do que os criadores imaginavam. Tião teve santinhos, camisetas, broches criados espontaneamente pelos eleitores. O que começou como piada virou fenômeno de rua, com direito a repercussão em jornais, discussão em programas de TV e reação de figuras públicas que não sabiam bem se deviam rir ou se preocupar.
De humoristas como como Jô Soares e Chico Anísio a políticos como Fernando Gabeira, vários nomes se se manifestaram contra o incentivo ao voto nulo. Ou seja: o que era para ser uma gozação de fim de tarde virou, para alguns, motivo de debate sério sobre os rumos da democracia carioca.

O político que tentou criar um rival macaco para o Macaco Tião
Um dos capítulos mais curiosos dessa história toda, quase ninguém lembra em detalhes. O então vereador Sérgio Cabral chegou a lançar um adversário direto para Tião, batizado de macaco Simão, apresentado com o slogan “aquele que gosta de eleição”, numa tentativa de reverter, com humor semelhante, o desânimo do eleitorado carioca.
A ideia era clara, quase didática: se um símio insatisfeito virava piada de protesto, por que não criar outro símio, supostamente entusiasmado com o processo eleitoral, para equilibrar o discurso? Mas a jogada foi um tiro no pé, e só reforçou a dimensão que a brincadeira havia alcançado. Se um político precisava criar um macaco concorrente, é porque o original havia ganhado força demais.
Uma eleição que entrou para a história (e para o Guiness)
A eleição para prefeito do Rio em 1988 foi histórica. Numa sessão eleitoral de Ipanema, um manifestante após votar gritou para os cabos eleitorais (que naquela época podiam ficar na porta dos locais de votação) “Tião, o candidato do povão”. Ao que um gaiato respondeu de pronto: “por quê? É parente?”. Outras cenas hilárias ocorreram pela cidade.
Apurados os votos Marcello Alencar, do PSDB, saiu vencedor com 998.008 votos; Jorge Bittar, do PT, ficou em segundo, com 552.149 e Álvaro Valle teve 393.761. Tião, com os cerca de 400 mil votos atribuídos a ele, teria passado Álvaro Valle por uma margem mínima e terminado em terceiro.
Mas a votação transformou Tião em uma celebridade para além do Rio. O chimpanzé entrou para o Guinness World Records como o chimpanzé que recebeu o maior número de votos em uma eleição. O recorde fez da piada carioca em uma história internacional.

A morte do político que nunca deixou de cumprir uma promessa
Tião morreu em 23 de dezembro de 1996, aos 33 anos, vítima de complicações relacionadas à diabetes. Não deixou descendentes. Mas sua morte provocou uma reação surpreendentemente solene. O prefeito Cesar Maia decretou luto oficial no município, e a notícia chegou até a imprensa internacional. O jornal francês Le Monde dedicou ampla reportagem sobre sua história.
O legado de Tião sobrevive de outra forma, em uma estátua erguida em sua homenagem no espaço que hoje é o Bioparque do Rio, e num documentário de 2017 que resgatou os bastidores daquela campanha inesquecível. Oficialmente, portanto, nossa história terminaria aqui. Extraoficialmente não.
Porque o episódio revelou algo que talvez nenhum discurso eleitoral conseguisse demonstrar com tanta clareza. Havia uma parcela significativa do eleitorado carioca disposta a transformar a aquela eleição em um instrumento de deboche, protesto e desobediência simbólica. Durante algumas semanas de 1988, um macaco conseguiu fazer aquilo que tantos políticos sonham durante toda a carreira: convencer milhares de cariocas a votar neles.







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