Um deputado que forrava o gabinete com moedas e distribuía dinheiro pelas ruas: conheça a epopeia do Papai Noel de Quintino
Reportagem Especial

Um deputado que forrava o gabinete com moedas e distribuía dinheiro pelas ruas: conheça a epopeia do Papai Noel de Quintino

Albano Reis transformou o espírito natalino em carreira política. Vestido de Papai Noel sob o calor carioca, criou centros de reabilitação, forrou o gabinete com moedas e tentou criar uma Disney tropical. Morreu num atropelamento suspeito, deixando um parque fantasma e muitas dúvidas no ar

Durante quase duas décadas, Albano Antônio Reis fez da política uma espécie de Natal permanente. Nascido em 24 de março de 1944, no Morro da Caixa d’Água, em Quintino, o deputado estadual construiu uma carreira de cinco mandatos consecutivos misturando assistencialismo, extravagância e um talento incomum para transformar a própria imagem em personagem. Fantasiado de Papai Noel, distribuía brinquedos às crianças e dinheiro aos adultos no bairro onde havia crescido pobre. Morreu aos 60 anos, em 18 de dezembro de 2004, atropelado justamente diante do parque temático natalino que havia criado. 

Albano Reis fez de uma espécie de “pobreza ostentação” sua principal credencial política. “Não prometeu, fez”, dizia inesquecível jingle eleitoral. O que ele prometeu, de fato, foi uma espécie de assistencialismo espetacular. Seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro tinha moedas espalhadas por todo o chão. “É uma maneira de pisar no dinheiro, que por muito tempo pisou em mim”, explicou certa vez em entrevista ao Jornal do Brasil. Mas por trás dos ternos chamativos, sapatos brancos, cordões pesados de ouro e sorriso de Papai Noel, escondia-se um homem que acumulava inimigos, ameaças de morte e denúncias na Justiça. 

O resultado dessa matemática assistencialista foi uma carreira inabalável de décadas nos tapetes da ALERJ. Entre lendas urbanas, luxos extravagantes e projetos faraônicos inacabados, a vida deste folclórico deputado mostra como o surrealismo, na política do Rio de Janeiro, às vezes parece que é apenas mais uma quarta-feira. 

Do barraco em Quintino ao plenário da ALERJ 

Albano Reis nasceu no Rio de Janeiro em 24 de março de 1944 e foi criado na comunidade da Caixa D’Água, em Quintino Bocaiúva, bairro suburbano que mais tarde se tornaria seu principal reduto eleitoral. Segundo relatos recolhidos por reportagens sobre sua trajetória, ele costumava contar que a infância ao lado dos irmãos foi marcada pela pobreza, a ponto de nunca ter vivido, de fato, um Natal. 

Ele dizia que em seus primeiros anos de juventude, trabalhou em ocupações informais e teve pequenos comércios. Mas quando começou a ficar conhecido, passou a se apresentar como industrial e proprietário de restaurantes e agências de automóveis. 

O problema é que em suas declarações de renda, não constavam as tais propriedades que ele anunciava. A indefinição sobre a origem de seu patrimônio acompanhou sua carreira como uma sombra, alimentando especulações sobre negócios cabulosos. 

Albano Reis durante a juventude em Quintino (Crédito: Reprodução)

O marco zero da caridade: quando a prática assistencial começou? 

A atuação filantrópica de Albano Reis teve início ainda na década de 1960, muito antes de ele sonhar em ocupar uma cadeira no parlamento fluminense. Em documentos da própria ALERJ, publicados nos anos 1990, ele já aparece descrito como ‘Papai Noel de Quintino há três décadas’, o que remonta ao início dos anos 1960. 

Tudo começou com pequenas ações comunitárias, ajudando famílias a obterem medicamentos ou organizando mutirões para consertar cadeiras de rodas quebradas. Percebendo a carência extrema da população suburbana, ele foi expandindo progressivamente o escopo das suas doações. 

Com o passar dos anos, o auxílio casual virou uma estrutura organizada e permanente de assistência. A virada de chave ocorreu quando ele percebeu que a ajuda contínua gerava um vínculo de dependência e gratidão muito mais profundo do que favores esporádicos. Segundo registros do jornal O Globo e da ALERJ, essa engrenagem já estava plenamente consolidada no final da década de 1970, servindo como a catapulta perfeita para sua entrada na política partidária. 

A marca do assistencialismo descarado (Crédito: Reprodução)

De onde surgiu o apelido “Papai Noel de Quintino”? 

O apelido nasceu de um hábito, não de uma jogada de marketing. Todos os anos, na véspera de Natal, Albano se vestia de Papai Noel e distribuía brinquedos entre as crianças e dinheiro entre os adultos do bairro onde havia sido criado. Ele repetia o gesto também em datas como o Dia de Cosme e Damião e o Dia das Crianças, o que ajudou a transformar um costume pontual em identidade permanente.  

O próprio Albano explicava a origem do gesto em termos quase de promessa religiosa. Numa de suas últimas entrevistas, à TV ALERJ, contou que aos 18 anos havia guardado dinheiro para o alistamento militar, mas não foi convocado e decidiu usar aquela sobra para cumprir um pacto pessoal: quando a vida melhorasse, ajudaria quem estivesse em dificuldade, o que, segundo pessoas próximas, ele de fato levou a sério pelo resto da vida.  

O costume de se fantasiar de Papai Noel, portanto, não era apenas uma encenação natalina; era a espinha dorsal de sua estratégia política. Enquanto outros políticos faziam discursos em palanques, Albano distribuía presentes. Enquanto outros prometiam, ele “fazia” (ou pelo menos parecia fazer). O apelido grudou com tanta força que ofuscou até mesmo seu nome de batismo. Para muitos, ele era simplesmente o “Papai Noel de Quintino”, um título que carregava mais peso eleitoral do que qualquer cargo ou partido. 

De onde vinha o dinheiro para bancar essa farra? 

Aqui a reportagem entra em terreno mais nebuloso. Segundo relato do próprio filho, o comerciante John Mendes Reis, ao Jornal do Brasil, o deputado fez fortuna no mercado de ouro, atividade que teria atraído o interesse de operadores financeiros da época, entre eles o doleiro Lúcio Funaro, que ganhou notoriedade ao ser preso pela Operação Lava Jato e esteve envolvido em vários escândalos de corrupção nas últimas duas décadas. 

Foi numa reunião no gabinete de Albano Reis, nos anos 1990, que este o apresentou ao então presidente da Companhia Estadual de Habitação do governo Garotinho, um certo Eduardo Cunha, dizendo a Funaro que ele estava diante de um homem destinado a ser um dos mais poderosos do país. Morto em 2004, Albano não viu seu vaticínio se confirmar. 

Lucio Funaro, doleiro metido em encrencas nas últimas duas décadas, foi apresentado por Albano Reis ao futuro deputado Eduardo Cunha (Crédito: Reprodução)

Cinco mandatos, duas candidaturas a prefeito e um jingle que virou lenda 

Albano Reis foi deputado estadual pelo Rio de Janeiro de 1987 até sua morte em 2004, totalizando cinco mandatos consecutivos. Sua primeira eleição, em 1986, o levou à Assembleia Legislativa como um político atípico. Não vinha das tradicionais oligarquias da Guanabara, feudos no interior ou dos movimentos estudantis, mas do assistencialismo descarado pelas ruas de Quintino. Em 1992, candidatou-se a prefeito do Rio pelo PRN, mas foi derrotado. Em 2004, tentou novamente, desta vez por Itaguaí pelo PMDB, e perdeu mais uma vez. 

Seu jingle de campanha, “Albano Reis: Não prometeu, fez”, resumia sua filosofia política. Ele não se apresentava como um formulador de políticas públicas ou um debatedor de ideias; era um homem de ações concretas, ainda que essas ações fossem, em grande medida, assistencialistas. A carreira política de Albano foi construída sobre a imagem do Papai Noel que distribuía presentes, e foi essa imagem que o manteve na Assembleia por quase duas décadas. Mas também foi essa mesma imagem que atraiu denúncias, investigações e inimigos. 

Mito ou extravagância real? 

Entre as muitas histórias extraordinárias que cercavam seu nome, uma das mais célebres era que seu gabinete na ALERJ tinha o chão completamente forrado de moedas, como uma espécie de tapete metálico ou caixa-forte do Tio Patinhas. E era verdade! 

Albano dizia rindo a quem perguntava qual era a origem daquela doidice que “o dinheiro já pisou muito em mim, agora é minha vez de pisar nele”. O gesto era na verdade uma encenação cuidadosamente calculada. As moedas no chão do gabinete eram um lembrete físico de sua trajetória de superação, uma prova visual de que o menino pobre do Morro da Caixa D’Água havia vencido. 

Mas a prática também tinha outro efeito mais sombrio. Reforçava a imagem de um político que tinha dinheiro sobrando, que podia literalmente jogá-lo fora. Em um país de desigualdades gritantes, a ostentação do deputado era ao mesmo tempo um símbolo de vitória pessoal e um convite a suspeitas do Ministério Público. 

Quantos centros de assistência ele criou? 
 

Albano Reis construiu seu primeiro centro social em Quintino, naturalmente. Depois a coisa se multiplicou. O número exato de centros criados por ele nunca foi consolidado. Mas a instituição, com sedes em Niterói e no Rio, existe até hoje, com CNPJ ativo. 

O que se sabe é que sua rede assistencial se espalhou por vários bairros da zona oeste do Rio de Janeiro. Cada novo centro era uma nova vitrine política, uma nova prova do slogan “Não prometeu, fez”. Enquanto era reeleito consecutivamente na Assembleia Legislativa, Albano continuava criando, numa espiral que misturava filantropia e estratégia eleitoral. 

Ruínas do Park Albanoel, que chegou a atrair milhares de pessoas com atrações gratuitas (Crédito: Reprdoução)

A Disney fantasma do sertão carioca: o que foi o Albanoel  

Como todo mundo sabe, a soberba precede a queda. Almejando ampliar o império, e capital político, no final dos anos 1990, Albano usou parte de sua fortuna para comprar um terreno enorme às margens da Rodovia Rio–Santos, em Itaguaí. Inaugurado no ano 2000, o parque chegou a receber milhares de visitantes, com brinquedos, piscinas, tobogãs e bonecos de Papai Noel de fibra de vidro, tudo de graça. A ideia era levar para fora de Quintino a fantasia que já fazia parte de sua vida política. 

E foi justamente ali que a história ganhou um final de folhetim. Na noite de 18 de dezembro de 2004, poucos dias antes do Natal, Albano saiu para caminhar nas proximidades do parque. Seu corpo foi encontrado no acostamento da Rio-Santos, em Itacuruçá, com múltiplas fraturas. Inicialmente a polícia tratou o episódio como atropelamento e a investigação ficou sob responsabilidade da 50ª DP, em Itaguaí. 

A família, entretanto, desconfiou desde o início. O filho Jefferson Reis chegou a levantar a possibilidade de assassinato, citando ameaças que o pai teria recebido e oferecendo recompensas por informações. A morte alimentou durante algum tempo uma série de suspeitas até sumir do noticiário depois de mais um escândalo ou crime rumoroso. 

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