Você se lembra em quem votou para deputado estadual e federal nas eleições de 2022? E para senador? Quatro anos depois, a resposta para a maioria dos brasileiros é tão simples quanto nada surpreendente: não. Uma pesquisa Datafolha mostra que apenas 23% dos eleitores dizem se lembrar dos candidatos escolhidos para os cargos do Legislativo na disputa passada. O percentual é praticamente o mesmo para os três cargos. O dado expõe a distância entre eleitor e Parlamento e, segundo especialistas, também acende um alerta sobre a despolitização da sociedade.
Entre os entrevistados, 67% afirmam não se lembrar do voto para deputado federal, enquanto 10% dizem não ter votado. Para deputado estadual, 66% não lembram e outros 10% não participaram da eleição. No caso do Senado, 66% também não conseguem recuperar da memória o nome escolhido, enquanto 10% afirmam não ter votado.
A dona de casa Paula Silva, de 55 anos, está nessa porcentagem. Ela diz se lembrar de ter ido às urnas nas eleições de 2022, mas não consegue recuperar os nomes dos candidatos em quem votou para os cargos do Legislativo. O cenário só muda quando o assunto é a disputa presidencial.
“Eu lembro de ter votado, mas os nomes dos deputados realmente não lembro. Na época a gente acompanha, escolhe e depois passa. Hoje, se você me perguntar, eu não vou saber dizer em quem votei”, diz.
E a pesquisa mostra exatamente uma mudança de cenário quando os cargos são mais altos. Segundo o levantamento, 54% dizem se lembrar em quem votaram para governador em 2022. Para presidente da República, o índice chega a 85%.
No entanto, quando questionados espontaneamente sobre senadores em exercício, 40% dos entrevistados disseram não conseguir citar nenhum nome e outros 35% afirmaram não saber. Somados, os grupos representam 75% dos entrevistados.
Para especialistas ouvidos por Agenda do Poder, a diferença está relacionada a fatores que vão da visibilidade dos cargos à maneira como o sistema eleitoral organiza as disputas.
O Executivo ocupa mais espaço na memória
O sociólogo Rodrigo Monteiro, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), destaca que presidente e governador concentram maiores decisões e, por isso, são mais fáceis do eleitor recordar.
“Os cargos executivos, por concentrarem maior poder decisório, simbólico e de recursos financeiros, acabam por estar mais presentes no cotidiano dos cidadãos. De forma que se uma gestão no executivo é bem avaliada, ela tem maior probabilidade de sucesso numa reeleição ou de encaminhamento de eleição de um candidato indicado”, avalia.
A presença cotidiana, segundo Monteiro, também é reforçada pela exposição pública desses agentes. Problemas concretos enfrentados pela população são frequentemente associados aos governos, enquanto a atuação de deputados e senadores tende a aparecer de maneira menos direta para o eleitor.
“Os cargos do legislativo ficam menos expostos no cotidiano. E, embora, tenham uma forte imagem negativa com o conjunto da população, não são diretamente associados aos problemas ordinários.”
Rodrigo Monteiro, sociólogo
Candidaturas em segundo plano
O professor do Departamento de Ciência Política da UFF José Paulo Martins acrescenta outro elemento: a própria dinâmica das eleições gerais. Para ele, a disputa presidencial e a eleição para os governos estaduais acabam orientando a atenção do eleitor, enquanto as candidaturas ao Legislativo ficam em segundo plano.

“O eleitor fixa muito mais a disputa presidencial em primeiro lugar e em segundo lugar para o governador. Essas eleições para o Legislativo vão muito a reboque dessa decisão”, explica.
A avaliação dialoga com a análise do professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política da Universidade Cândido Mendes, Theófilo Rodrigues. Para ele, a permanência do presidente na agenda pública contribui para que o eleitor mantenha a lembrança do voto por mais tempo.
“A imprensa cobre a vida do candidato, do presidente eleito e do seu opositor permanentemente. Isso reforça na cabeça do eleitor, na memória, aquele em quem ele votou”.
O número de candidatos que disputam as cadeiras do Legislativo também torna a escolha mais complexa. Em uma eleição para presidente, o eleitor se depara com um conjunto relativamente restrito de nomes. Para deputado, a quantidade é muito superior.
Rodrigues chama atenção justamente para essa característica do sistema brasileiro, conhecido como proporcional de lista aberta.
“O que isso significa? O partido pode lançar vários nomes e o eleitor pode escolher qualquer um desses nomes. Vamos lembrar, que são muitas opções. Esse é o problema do sistema eleitoral brasileiro”, aponta.
Muitos nomes e pouco tempo
A dificuldade não está apenas em encontrar um candidato, mas em conhecê-lo suficientemente para construir uma relação política que permaneça depois da eleição. Rodrigues compara a experiência brasileira com sistemas de lista fechada, nos quais o eleitor vota no partido e não necessariamente em um candidato específico.
“O sistema proporcional de lista fechada, que é adotado em maior parte da Europa, o eleitor não vota numa pessoa. Ele vota em um partido político. E o partido já tem ali a lista, a ordem de quem será eleito de acordo com a quantidade de votos que recebe. Isso facilita para a memória do eleitor”, aponta o cientista político.
José Paulo Martins também relaciona a quantidade de candidatos à dificuldade de fixar nomes na memória, mas ressalta a importância de fazer uma boa escolha.
“Infelizmente, a grande maioria do eleitor ainda não se deu conta da importância do Poder Legislativo, que é um poder que é mal avaliado, que está sempre envolvido com escândalos. Então, o eleitor acha que aquilo lá não tem tanta importância. [Mas] é tão importante quanto o presidente”, garante.
Em vez de acompanhar uma campanha durante semanas e formar uma opinião consolidada sobre determinado candidato, os especialistas apontam que parte do eleitorado chega à urna sem ter definido previamente os nomes para deputado e senador. Nesse cenário, indicações de pessoas próximas podem assumir importância.
“Além do santinho, o eleitor pode receber indicação de um amigo, de alguém que ele confia, um pastor, uma autoridade, alguém que está próximo dele […] as pessoas acham que não vale a pena, muitas vezes, gastar seu tempo atrás de um candidato que, para muita gente, é tanto faz. Essa desvalorização dos partidos, do Poder Legislativo, contribui para essa falta de memória”, aponta Martins.
O que faz cada cargo?
De forma breve, o presidente da República é o chefe do Poder Executivo federal. Ele administra o governo federal, define e executa políticas públicas nacionais e sanciona ou veta projetos aprovados pelo Congresso. Também nomeia ministros e representa o Brasil nas relações com outros países.
“É verdade que o presidente concentra em uma única figura um grande poder, enquanto no Legislativo esse poder fica bastante diluído em várias figuras. Mas o Legislativo é a representação, por excelência, do cidadão”
José Paulo Martins, professor de Ciência Política da UFF
Já o governador comanda o Poder Executivo estadual. É responsável por administrar áreas como segurança pública, educação e saúde estaduais, além de executar o orçamento e implementar políticas públicas no estado.
O senador representa o estado no Congresso Nacional e tem mandato de oito anos. Atua na elaboração e votação de leis, fiscaliza o governo federal e tem atribuições exclusivas, como aprovar determinadas autoridades indicadas pelo presidente. Em 2026, cada estado e o Distrito Federal elegerão dois senadores.
Deputado federal é o representante da população na Câmara dos Deputados. Participa da elaboração de leis federais, fiscaliza o Poder Executivo e vota matérias como o Orçamento da União. Também pode apresentar propostas de emenda à Constituição.
Por fim, o deputado estadual atua na Assembleia Legislativa do estado. Ele elabora e vota leis estaduais, fiscaliza o governador e participa da discussão e aprovação do orçamento estadual. Agenda do Poder vem produzindo uma série de conteúdos nas redes sociais que explicam mais sobre cada cargo.

O Legislativo que aparece menos
Se presidente e governador estão associados a decisões que o cidadão percebe diretamente no dia a dia, parlamentares costumam ter uma relação menos imediata com os problemas enfrentados pela população. Monteiro aponta justamente essa diferença como uma das razões para a menor lembrança.
“Os cargos do Legislativo ficam menos expostos no cotidiano. E, embora tenham uma forte imagem negativa com o conjunto da população, não são diretamente associados aos problemas ordinários”.
Um dos mais recentes escândalos envolvendo o cargo está a prisão do deputado estadual Rodrigo Bacellar (União Brasil), o ex-deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva, conhecido como TH Joias. Bacellar teria vazado informações da Operação Zargun, realizada pela Polícia Federal contra o Comando Vermelho, beneficiando TH Joias, apontado como articulador político da facção.

O Datafolha mostrou ainda que três em cada quatro entrevistados não conseguiram citar espontaneamente um senador em exercício. Para os especialistas, o dado também levanta uma questão sobre o acompanhamento dos mandatos.
“Senadores têm um mandato de oito anos. Ou seja, são figuras que têm condição de estar na lembrança do eleitor. Então, acho até surpreendente que as pessoas sejam incapazes de citar o nome de um, porque são nomes que costumam estar na mídia”, diz Martins.
Um desafio maior em 2026
O técnico de informática Rafael Oliveira, de 38 anos, também participou das eleições de 2022, mas diz não se lembrar dos candidatos escolhidos para deputado estadual, deputado federal e senador. Segundo ele, a lembrança ficou mais associada à disputa para presidente.
“Eu lembro de algumas coisas da eleição, principalmente dos candidatos à Presidência. Naquela época a polarização entre Lula e Bolsonaro era muito forte, principalmente pós-pandemia. Mas dos deputados e do senador, não consigo lembrar. Se eu tivesse que escrever os nomes agora, não saberia. Até mesmo o governador não consigo lembrar”, brinca.
No primeiro turno das eleições de 2026, marcado para 4 de outubro, o eleitor escolherá presidente, governador, deputado federal, deputado estadual ou distrital e senador. Como haverá duas vagas em disputa para o Senado em cada estado e no Distrito Federal, serão seis escolhas na urna.
Para Monteiro, o aumento no número de escolhas torna ainda mais relevante a capacidade de o eleitor distinguir os cargos e compreender suas atribuições.
“O cenário se agrava quando, como nesse ano, aumenta o número de escolhas a serem feitas, pois acaba por se perder o foco e o debate se dispersa entre prioridades do Executivo e do Legislativo”, avalia o especialista.
Theófilo Rodrigues acrescenta que a quantidade de candidatos não é um detalhe secundário. Para ele, o modelo atual coloca diante do eleitor uma lista extensa de nomes em um período relativamente curto, o que dificulta a construção de vínculos com as candidaturas legislativas.
“A maior parte dos eleitores está preocupado como que vai pagar o boleto no fim do dia, está desempregado, está com problema na família. E a política parece como uma das últimas preocupações no dia a dia da vida dele.”
Theófilo Rodrigues, professor de pós-graduação em Sociologia Política da UCAM

Martins considera, no entanto, que o resultado também está relacionado à forma como a política é acompanhada e valorizada pela sociedade.
“Essa falta de um compromisso político, de acreditar que a política é o que pode transformar a vida das pessoas. As pessoas não têm mais essa crença. Ainda falta muito da educação política, da conscientização, da importância desse poder para que os eleitores tenham essa postura mais vigilante, mais atenta”.
Como transformar o voto em acompanhamento
Rodrigues defende que a participação política não deveria se limitar ao ato de votar a cada quatro anos. Para ele, mecanismos de participação podem aproximar sociedade e representantes.
“A gente sabe que a participação e a deliberação, elas fortalecem, enriquecem a representação política”, acrescenta.
O professor cita experiências de participação social e argumenta que a relação entre sociedade e Parlamento poderia ser mais próxima.
“Em 2014, a então presidenta Dilma Rousseff apresentou um um decreto que criava a Política Nacional de Participação Social. Que era para aumentar a participação em conselhos da sociedade civil. O Congresso Nacional rejeitou porque a maioria tinha medo de perder poderes para a sociedade”, relembra.
Monteiro segue por uma linha semelhante ao defender uma mudança na relação cotidiana com a política. Para ele, o eleitor não deve simplesmente delegar ao eleito toda a responsabilidade pelas decisões públicas, mas acompanhar e cobrar o mandato.
“A chamada ‘polarização’, termo complexo e que limita a análise, fez com que se superasse o famoso ‘política não se discute’, o que é um avanço, mas ainda é fundamental que o debate político na sociedade como um todo seja mais politizado.”
O levantamento ouviu 2.004 pessoas com 16 anos ou mais, em 139 municípios, nos dias 17 e 18 de junho. Para as perguntas específicas sobre 2022, foram considerados 1.898 entrevistados. A pesquisa está registrada no TSE sob o número BR-09956/2026.
Confira a ordem de votação em 2026
No primeiro turno de 2026, o eleitor terá seis escolhas:
- Deputado federal
- Deputado estadual ou distrital
- Senador
- Senador
- Governador
- Presidente da República
São cinco cargos, mas seis votos, porque duas vagas estarão em disputa para o Senado. Para além da escolha na urna, fica o desafio apontado pelos especialistas: conhecer, acompanhar e cobrar os representantes eleitos ao longo do mandato.






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