Em 21 de junho de 2004, o cenário político brasileiro perdeu um de seus oradores mais estridentes quando Leonel de Moura Brizola faleceu no Rio de Janeiro, vítima de complicações cardiorrespiratórias aos 82 anos, deixando um legado de paixões extremas e embates inesquecíveis. O gaúcho, nascido em Carazinho, em 1922, que governou dois estados distintos conseguiu a façanha de ser odiado pela direita por seu radicalismo e olhado com desconfiança por setores da esquerda por seu temperamento centralizador. Poucos personagens da história nacional dominaram a arte de provocar urticária em generais, banqueiros e empresários de mídia com tamanha elegância retórica.
O político era uma figura singular, capaz de transformar pronunciamentos oficiais em espetáculos de pura oratória populista e afiada. Seu estilo inconfundível misturava erudição heterodoxa, metáforas rurais e uma capacidade ímpar de criar apelidos que grudavam na pele dos adversários como carrapato em couro de boi.
Formado em Engenharia Civil, ele rapidamente trocou o canteiro de obras pelas tribunas, tornando-se prefeito de Porto Alegre, deputado e posteriormente governador do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro. Segundo biografias como “Brizola”, do jornalista FC Leite Filho, sua figura projetou-se nacionalmente em 1961 ao liderar a Campanha da Legalidade, mobilizando a população e tropas locais pelos microfones da Rádio Farroupilha para garantir a posse constitucional de Jango após a renúncia de Jânio Quadros. O levante radiofônico do Porão do Palácio Piratini transformou o jovem governador em uma pedra no sapato dos setores militares, culminando em seu longo exílio após o golpe de 1964.
No Rio Grande do Sul, a gestão brizolista dos anos 1950 ficou marcada pela ousadia administrativa ao encampar a Bond & Share, subsidiária da multinacional americana ITT que prestava serviços de telefonia de péssima qualidade, além da empresa de energia elétrica local. Essa estatização desafiou o governo norte-americano e virou símbolo de soberania nacionalista, enquanto o governador multiplicava a rede de ensino primário gaúcha criando as famosas “brizoletas”, prédios escolares de madeira que alfabetizaram milhares de crianças no interior.
Já na década de 1980, ao assumir o governo do Rio de Janeiro, o líder gaúcho deixou sua marca arquitetônica e social mais ambiciosa ao lado do antropólogo Darcy Ribeiro: os Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs), apelidados de “Brizolões”. De acordo com registros da Fundação Getulio Vargas (FGV CPDOC), essas gigantescas estruturas pré-moldadas projetadas por Oscar Niemeyer ofereciam ensino em tempo integral, refeições e atendimento médico para a população periférica, gerando intensos debates sobre custos públicos e prioridades orçamentárias que reverberam na política fluminense até os dias atuais.
Brizola usava e abusava do humor ácido para desnortear opositores e cativar o eleitorado popular. A mística em torno de seu nome alimenta-se de uma coleção inesgotável de anedotas e tiradas sarcásticas que recheavam o cotidiano parlamentar e eleitoral. Nesta reportagem selecionamos 10 causos talvez menos conhecidos do “velho caudilho”.

O “Fidel Castro” dos pampas
O líder da Revolução Cubana era famoso por discursos que às vezes se estendiam por horas. Brizola não chegava a tanto, mas quando governou o Rio Grande do Sul, criou o hábito de dar palestras todas as sextas-feiras à noite na Rádio Farroupilha.
Em certa ocasião, um casal de idosos o encontrou no Palácio Piratini, sede do governo gaúcho e o abordou:
“Seu programa é uma maravilha governador! O senhor fala, fala, a gente adormece, e quando acorda o senhor ainda está falando…uma maravilha!
Brizola, agradecido, apenas sorriu.
Vesti azul…
Brizola tinha fama de pão-duro. E adorava fazer campanha vestindo camisa social azul-clarinha, com as mangas arregaçadas. A oposição não perdoou, e espalhou que ou ele usava sempre a mesma camisa, ou tinha um closet cheio delas. E não é que acertaram?
Segundo seu fotógrafo pessoal Carlos Contursi, certa vez durante uma viagem a Nova Iorque, Brizola ficou encantado com o corte de um modelo especial de camisa. Gostou tanto que comprou uma e quando voltou ao Brasil pediu ao seu alfaiate que produzisse um lote delas. Todas iguaizinhas e no mesmo tom azul-bebê.

Mão de vaca
Mas havia muita verdade na fama de mão-fechada de Brizola. Certa noite, o jornalista José Bacchieri Duarte, passou horas no sereno em frente à Rádio Farroupilha esperando-o terminar um de seus famosos discursos das sextas-feiras. Duarte, que era também sócio de uma empresa de terraplanagem, cismou de levar um pleito ao governador pessoalmente.
Quando Brizola saiu do prédio, Duarte armou o bote se aproximou, mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, chegou junto um mendigo pedindo um trocado. Seguindo seu estilo, Brizola pôs a mão no ombro de Duarte e escorregou com elegância:
“Meu amigo, este cidadão aqui é um grande empresário e ele vai resolver todos os seus problemas”.
Dito isso, pulou para dentro do carro oficial e mandou tocar rápido para o palácio.
Levando um lero com Getúlio
Esse causo foi presenciado e volta e meia é relembrado pelo presidente Lula. Durante a campanha eleitoral de 1998, Brizola, que era vice na chapa de Lula, o levou até o túmulo de Getúlio Vargas, no cemitério de São Borja. Lá chegando ficou sério e falando alto, se dirigiu ao ilustre defunto:
“Doutor Getúlio, este é o Lula. Um homem do povo, candidato do povo e que vai fazer o bem para o povo brasileiro”.
Dito isso, tocando levemente o braço de Lula, perguntou se ele não queria aproveitar a ocasião e falar alguma coisa com Getúlio. Perplexo, Lula só conseguiu balbuciar um “Não Brizola, obrigado”. Segundo Sebastião Nery em seu “Folclore Político”, anos mais tarde num churrasco de domingo, Lula relembrou a história as gargalhadas.
“Já tinha me contado que o Brizola conversava com Getúlio, mas achei que era papo furado. Até que eu vi a coisa acontecer. E achei melhor encerrar logo, porque se tivesse continuado não sei até quando o papo ia durar”.

Terapia de choque
Durante muitos anos, Brizola foi um fumante inveterado. Pitava diariamente dois maços de Hollywood, sua marca predileta. Em 1977, durante o ano que passou no exílio em Nova Iorque, os amigos lhe enviavam muitos pacotes. Mas de vez em quando ele precisava se abastecer em uma tabacaria que importava cigarros brasileiros. Um dia, o vendedor, que não tinha um único maço de Hollywood disponível explicou-lhe:
“É que o governo descobriu que o senhor só fuma Hollywood e me mandou cancelar a importação”, explicou-lhe.
Brizola só parou de fumar em 1986, quando Moreira Franco derrotou o antropólogo Darcy Ribeiro, candidato à sua sucessão. Em entrevista, ele explicou: “Moreira Franco é o responsável pela minha vida longa. Quando ele derrotou o Darcy, eu pensei: ‘Meu Deus, isso é para eu pagar alguma penitência’. E, para me punir, larguei de uma vez o vício”.

Autoritarismo
Os adversários de Brizola costumavam chamá-lo de turrão e autoritário. Durante um bom tempo, a jornalista Dora Kramer tentou marcar uma audiência com Brizola. Ela já estava quase desistindo quando marcaram o encontro e ela lhe apresentou o projeto de um livro no qual o governador seria o narrador principal das últimas seis décadas da política brasileira. A conversa se estendeu até tarde da noite, quando Brizola, finalmente, bateu o martelo.
“Acho que podemos fazer”, disse calmamente.
Só que ele queria fazer algumas “mudanças” no projeto. Agora seriam dois volumes: um sobre sua vida e o outro sobre sua obra. E pôs-se a falar ininterruptamente sobre as passagens que não poderiam ficar de fora, fatos históricos e até o estilo literário que os livros deveriam ter. Dora Kramer, constrangida, aproveitou a pausa entre um gole de chimarrão e ousou interrompê-lo.
“Mas governador, o livro quem escreverá sou eu. O senhor é o personagem, não o autor”.
Brizola, com um sorriso irônico, encerrou o assunto.
“Está vendo? Não vai dar para fazer o livro. Você é muito autoritária”.
Só os brabos
Nos turbulentos dias da Rede da Legalidade, formada para garantir a posse de João Goulart após a renúncia de Jânio Quadros, em 1961, Brizola foi avisado que uma delegação do Centro de Tradições Gaúchas (CTG), queria falar com ele para formalizar sua adesão ao movimento.
Brizola entrou numa sala e viu um monte de homens enormes, vestindo bombachas, colete, botas e lenço vermelho no pescoço. Empolgado, ele começou a discursar, enaltecendo a tradicional fama de valente dos gaúchos. A certa altura disse que os homens ali presentes poderiam se considerar herdeiros e continuadores dos bravos guerreiros que, no passado, tanto lutaram com o sacrifício de suas próprias vidas “em defesa dos ideais libertários dos farroupilhas e da terra do nosso Rio Grande amado”. Coçando a cabeça, o líder do grupo pediu um aparte e jogou-lhe uma bacia de água fria:
“Governador, me desculpe, dessa turma aqui só eu e meu irmão semo de briga, o resto é só de dança mesmo”.

Vermelho não era só o lenço
Durante o tempo de exílio, Brizola recebia inúmeras visitas independente do país em que se encontrava. Estudantes, políticos, amigos. Só um deles, João Carlos Guaragna viajou para encontrá-lo 127 vezes ao longo de 13 anos, levando nesse período 275 relatórios sobre a conjuntura política brasileira. “Não sei como ele tinha tanta paciência”, contou Guaragna em seu livro “Brizola, a revoada do exílio”. Só que às vezes ele não tinha essa serenidade toda mesmo.
Guaragna conta que muitas vezes, com a agenda cheia de entrevistas, leituras e discussões políticas, Brizola desaparecia. Eram tempos pré-internet, e as informações demoravam para chegar. Por isso, quando ele recebia a notícia de um Gre-Nal em Porto Alegre, mandava os compromissos às favas e se escondia em um canto da casa, com um radinho de ondas curtas, tentando captar a transmissão do jogo do seu Internacional do coração.
Apelidos que marcaram época
Brizola foi um trollador de responsa antes mesmo deste termo ter sido criado. Os apelidos que criava para seus desafetos políticos eram impagáveis e alguns se tornaram inesquecíveis. Veja alguns exemplos:
Bugio Branco – Cid Moreira, apresentador do Jornal Nacional da arqui-inimiga TV Globo
Gato Angorá – O ex-governador Moreira Franco, devido à sua vasta cabeleira branca.
Filhote da Ditadura – O primeiro a ganhar a alcunha foi Paulo Maluf, mas em 1989 ele replicou o apelido em Fernando Collor, devido ao passado de ambos com o regime militar.
Rainha de Sabá – Benedita da Silva, atacando a quantidade de 42 pessoas que serviam ao gabinete dela em sua breve passagem pelo governo do Rio de Janeiro.
Queijo Palmira – Anthony Garotinho. Depois do rompimento político entre os dois, Brizola transformou o queijo, vendido tradicionalmente em formato de bola e em lata, em apelido ao declarar: “Garotinho é como um queijo Palmira, não tem lado e é oco por dentro”.
A lista poderia se estender infinitamente, como em Vassourinha o apelido de Jânio Quadros; ou Carequinha, a forma como ele se referia a Tancredo Neves.


Brizolês para iniciantes
Brizola sempre fez questão de conservar suas raízes sulinas, sobretudo na maneira de falar. Seu sotaque, devido ao tempo que passou fora do estado, até que não era tão carregado assim, mas estava longe do gaúcho autêntico. Mas o que ele apreciava mais do que tudo eram as expressões, comparações e metáforas de sua terra natal.
A partir daí ele cultivou um jeito de se comunicar muito característico, permeando seu vocabulário usual com palavras com acento ou entonação diferenciada, o que seus adversários logo apelidaram de “brizolês”. Veja alguns exemplos:
Interesses – A palavra vinha com o “E” intermediário bem aberto: interésses.
Questionar – Acentuava o “U” como se tivesse um abandonado trema.
A rigor – Bordão com o qual costumava iniciar um raciocínio.
Não é verdade? – Expressão interrogativa para reforçar uma afirmação
Perdas Internacionais – Expressão que usava para explicar os prejuízos causados ao Brasil pela dívida externa nos anos 1980 e a globalização nos anos 1990.
Socialismo Moreno – Para explicar sua conversão à social-democracia do então primeiro-ministro português Mário Soares, em 1979. Era uma espécie de socialismo à brasileira, com inspiração no Partido Trabalhista australiano.






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