O homem que tentou derrubar todos os presidentes e acabou levando uma tremenda rasteira da história
Reportagem Especial

O homem que tentou derrubar todos os presidentes e acabou levando uma tremenda rasteira da história

Carlos Lacerda nasceu marxista por batismo, virou comunista por entusiasmo, conservador por convicção, governador por voto, aliado dos militares por cálculo e inimigo deles por decepção. Passou a vida brigando com presidentes e terminou amigo justamente de dos dois que mais atacara

Aos 63 anos, o ex-governador da Guanabara Carlos Frederico Werneck de Lacerda deu entrada na Clínica São Vicente, com sintomas de gripe para uma bateria de exames de rotina. Horas depois, na madrugada de 21 de maio de 1977, estava morto. Infarto agudo do miocárdio, segundo a versão oficial, que jamais convenceu os que conheciam a trajetória daquele que um dia fora o maior algoz de Getúlio Vargas, o delator de comunistas, o paladino da UDN e, por fim, o algoz de si mesmo. 

Lacerda atravessou quase todas as grandes crises políticas da República brasileira entre os anos 1930 e 1970. Sem falar que era capaz ajustar espectro ideológico como quem muda de camisa, mas manteve intacta a vocação para o combate. Para os admiradores, era um orador brilhante e um administrador eficiente. Para os adversários, um demolidor profissional. Para a história, uma figura impossível de ignorar. 

Seu percurso ajuda a explicar por que o Brasil do século XX parecia funcionar como um teatro em que os protagonistas trocavam de figurino, de aliados e de inimigos, mas nunca deixavam o palco. No caso de Lacerda, a peça teve reviravoltas suficientes para constranger qualquer roteirista de tramas políticas. 

O destino e seu incrível senso de humor 

O nome de Carlos Lacerda não foi escolhido ao acaso: seu pai, Maurício Paiva de Lacerda, batizou o filho de Carlos em homenagem a Karl Marx e Frederico em homenagem a Friedrich Engels. A família era do tipo que faz comício e respirava política como outros respiram oxigênio. O avô, Sebastião de Lacerda, fora ministro do Supremo Tribunal Federal e abolicionista. Os tios, Paulo e Fernando, dirigentes do Partido Comunista Brasileiro. Quando nasceu, seu pai, por óbvio, gostava de jogar pela esquerda. 

Maurício de Lacerda foi um tribuno e político que se destacou como defensor de operários comunistas e anarquistas. Deputado federal pelo Rio de Janeiro nas legislaturas de 1912, 1915 e 1918, ele era descrito pelo próprio filho como um “socialista romântico”. Na década de 1930, Maurício integrou a Aliança Nacional Libertadora. Ou seja: o menino Carlos cresceu num ambiente onde o comunismo não era uma abstração teórica, mas o assunto na mesa do jantar. O problema é que, mais tarde, o jantar viraria uma guerra civil ideológica, e Carlos estaria em todos os fronts, ora de um lado, ora de outro. 

O pai de Lacerda esteve nas origens do PCB (Crédito: Reprodução)

Aos 21 anos, ele já queria derrubar Getúlio 

Diz o ditado que quem sai aos seus não degenera, e na juventude, Carlos Lacerda militou no PCB e, em 23 de março de 1935, participou da fundação da Aliança Nacional Libertadora (ANL). A ANL era uma frente de esquerda composta por organizações anti-imperialistas e antifascistas, lançada oficialmente em março daquele ano sob a liderança do Partido Comunista. 

Seu presidente de honra era ninguém menos que Luís Carlos Prestes, o “Cavaleiro da Esperança”. Lacerda, então um estudante de Direito de 21 anos, já se destacava como orador. E não era qualquer orador: em 5 de julho de 1935, num comício da ANL no Teatro João Caetano, foi ele quem leu em público o manifesto de Prestes que pedia a derrubada de Getúlio Vargas. O texto denunciava o autoritarismo do regime e defendia a formação de um governo popular revolucionário. 

A leitura daquele texto incendiário pela voz ressonante de Lacerda provocou forte abalo no cenário político nacional. A reação do Palácio do Catete foi imediata e implacável. Poucos dias após o evento, o regime de Vargas usou a Lei de Segurança Nacional para fechar as sedes da ANL e iniciar uma caçada implacável aos seus dirigentes. 

Lacerda lendo o explosivo manifesto de Prestes (Crédito: Reprodução)

Do marxismo ao altar, sem escalas 

Em 1939, Carlos Lacerda rompeu definitivamente com o comunismo. O principal motivo foi a combinação de fatores internacionais e pessoais. O Pacto Molotov-Ribbentrop, assinado entre a Alemanha nazista e a União Soviética em agosto daquele ano para dividir a Polônia entre os dois países, causou profunda crise entre muitos intelectuais comunistas. Lacerda viu o acordo como uma traição moral e política. 

Além disso, ele publicou um artigo sobre a história do comunismo no Brasil, que o Comitê Central considerou uma traição. O PCB o expulsou da forma mais humilhante possível: espalhando panfletos pelo centro do Rio de Janeiro que o acusavam de ser um “trotskista”, o que entre parte dos comunistas da época era pior que xingar a mãe de careca e o pai de…vocês sabem como termina. 

E então veio a conversão ao catolicismo. Lacerda, que até então era ateu, passou a se interessar pela Igreja e se converteu. Mas não era um catolicismo qualquer: era um catolicismo ultraconservador, que ele usava para embasar um discurso ferozmente anticomunista. Ele preferia se intitular um “democrata cristão”, mas seus adversários tinham outros adjetivos não tão simpáticos.  

O tiro que matou Getúlio (e só feriu o pé de Lacerda)   

Em 5 de agosto de 1954, Carlos Lacerda sofreu um atentado na porta de sua casa, na Rua Tonelero, em Copacabana. O alvo era o jornalista, mas quem morreu foi o major-aviador Rubens Florentino Vaz, que o acompanhava. Lacerda escapou com um ferimento no pé. As investigações apontaram que o mandante do atentado foi Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal de Getúlio Vargas.  

A crise política que se seguiu foi avassaladora e a pressão sobre Vargas tornou-se insustentável, provocando forte pressão militar e institucional sobre Vargas, que se suicidou em 24 de agosto de 1954. O atentado da Rua Tonelero transformou Lacerda em protagonista absoluto da maior crise política da República até então. 

Lacerda explorou o quanto pôde o atentado da Tonelero (Crédito: Reprodução)

O Corvo: como uma charge transformou Lacerda em ave de mau agouro 

A origem mais famosa é uma charge do cartunista Lan, publicada em maio de 1954 na revista Última Hora, três meses antes do suicídio de Vargas. Lan desenhou Lacerda na pele de um corvo. Ou seja, uma ave preta, de nariz aquilino, olhos vivos e voz que assustava os adversários. 

 A caricatura pegou e perseguiu o udenista até o fim da vida para seu ódio mortal. O apelido era uma obra-prima de crueldade: o corvo, na tradição popular, é ave de mau agouro, anunciadora de mortes. E Lacerda, de fato, era mesmo capaz de anunciar a morte política de todos que o contrariavam. 

A charge que Lacerda odiava

O primeiro governador da Guanabara 

m 1960, Carlos Lacerda foi eleito o primeiro governador do recém-criado Estado da Guanabara. Seu governo (1960-1965) foi marcado por um ímpeto construtivo que beirava a obsessão. Ele construiu túneis como o Santa Bárbara e Rebouças, os maiores do mundo na época, viadutos, a adutora do Rio Guandu, que dobrou a capacidade de abastecimento de água da cidade, e conjuntos habitacionais como a Cidade de Deus.  

Ele foi fundamental para a viabilização do Aterro do Flamengo, um dos cartões-postais do Rio, incorporado ao plano urbanístico de seu governo em 1961. Lacerda não governava: ele construía. E cada obra era um degrau em direção à Presidência da República, que ele via como seu propósito glorioso. 

Como Lacerda ajudou a enterrar seu propósito glorioso? 

 
Em 1964, Lacerda apoiou o golpe militar que depôs João Goulart. Ele acreditava que, com os militares no poder, haveria eleições em 1965 e ele seria o candidato da direita, provavelmente pela UDN. Mas o tiro saiu pela culatra. Em outubro de 1965, o governo militar editou o Ato Institucional nº 2 (AI-2), que instituiu eleições indiretas para presidente e vice-presidente. Lacerda, que já se via na rampa do Planalto, viu sua candidatura presidencial literalmente extinta por um decreto. O corvo havia ajudado a construir a gaiola, e agora estava preso dentro dela. 

Para Lacerda, o AI-2 representou uma ruptura definitiva com as expectativas que alimentara em 1964. A possibilidade de disputar democraticamente a Presidência desapareceu, e o antigo aliado dos militares começou a perceber que o regime caminhava para um autoritarismo prolongado. 

O Ato Institucional nº 2 foi um banho de água fria nos sonhos presidenciais de Lacerda (Crédito: Reprodução)

Quando os inimigos viraram aliados e apavoraram os generais 

Em 1966, Carlos Lacerda articulou a criação da Frente Ampla, movimento político que reuniu antigos adversários históricos. Participaram da iniciativa Juscelino Kubitschek, João Goulart e o próprio Lacerda, três personagens que haviam passado anos em confronto político intenso. 

O objetivo era restaurar a democracia, defender eleições livres, anistia e retorno das instituições constitucionais. A Frente Ampla tornou-se um dos primeiros grandes movimentos civis de oposição organizada à ditadura militar, justamente porque unia líderes de correntes ideológicas muito diferentes. 

Mas em abril de 1968, o governo militar proibiu oficialmente a Frente Ampla. A decisão foi tomada porque o movimento ganhava apoio crescente em diversos setores da sociedade, reunia lideranças de grande prestígio nacional e tinha potencial para articular uma ampla coalizão pela redemocratização. 

Os militares temiam especialmente a capacidade da Frente de unir conservadores, liberais, trabalhistas e antigos getulistas em torno de um programa comum. A existência de um bloco político nacional com figuras como Juscelino Kubitschek, João Goulart e Carlos Lacerda representava risco real de reorganização da oposição. 

Manchete do JORNAL DO BRASIL comunicou o fim da Frente Ampla (Crédito:Reprodução)

Três mortes, uma suspeita e o mistério que ninguém quis resolver 

Em agosto de 1976, Juscelino Kubitschek morreu em um acidente de carro na Via Dutra. A versão oficial falava em colisão com um ônibus, mas décadas depois, a Comissão da Verdade rejeitou essa tese e apontou que a suposta colisão não ocorreu. Em dezembro de 1976, João Goulart faleceu na Argentina, vítima de um ataque cardíaco, mas suspeitas de envenenamento nunca foram completamente afastadas. E em maio de 1977, Carlos Lacerda morreu na Clínica São Vicente, de infarto, após dar entrada com sintomas de gripe. Três mortes, três líderes da Frente Ampla, num intervalo de nove meses.  

Hoje, historiadores e jornalistas questionam abertamente essas três mortes. Documentos e relatórios apontam indícios de que não foram acidentais. O que se sabe é que, nove meses depois da morte de Lacerda, duas das pessoas que ele mais odiara na vida, e que passara a chamar de amigos, já não estavam mais entre os vivos. O corvo, que anunciava a morte dos outros, terminou sua própria trajetória em meio a perguntas sem resposta.  O homem que construiu sua carreira na destruição dos adversários foi, talvez, destruído pelos mesmos métodos que ajudou a legitimar. 

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