Galáxia do Sertão: como um povo criou seu próprio reino erudito a partir do nada 
Reportagem Especial

Galáxia do Sertão: como um povo criou seu próprio reino erudito a partir do nada 

Um belo dia, Ariano Suassuna decidiu que o sertão merecia ser reino, a rabeca, orquestra, e o cordel, literatura de primeira linha. Meio século depois, o Movimento Armorial continua vivo, provando que o Brasil pode ser erudito sem pedir licença à Europa. Viva a nação castanha!

No dia 18 de outubro de 1970, no coração do Recife, o escritor e dramaturgo Ariano Suassuna reuniu pintores, músicos e intelectuais na histórica Igreja de São Pedro dos Clérigos para o lançamento oficial do Movimento Armorial, uma ousada tentativa de transformar as tradições populares do Nordeste brasileiro em arte erudita e universal. O grupo buscava construir uma barreira estética contra a massificação cultural estrangeira que invadia os rádios e as televisões do país naquele momento. Enquanto a juventude da época tentava imitar o rock britânico ou o pop americano, a tropa de Suassuna preferiu declarar que a verdadeira vanguarda estava guardada na rabeca de um cego e nas páginas amareladas do cordel. 

O plano consistia em convencer o mundo de que o Sertão não era apenas um cenário desértico povoado por secas e miséria, mas sim um vasto império nobre, dono de uma dignidade medieval única. Era a ironia refinada de intelectuais formados nas melhores universidades decidindo que a verdadeira sabedoria clássica brotava direto da arte das feiras livres e dos desafios de repentistas. 

Assim nascia um projeto estético marcado pela convicção inabalável de Ariano e seus companheiros. Para eles, não bastava fazer arte popular para o povo; era preciso lapidar o popular com rigor e solenidade. Nascia ali uma das manifestações mais ambiciosas da cultura brasileira recente, tecida com o encanto do barroco ibérico, a mística da cantoria de viola e uma inabalável pretensão de merecida universalidade. 

A brava teimosia de um homem só 

De acordo com o “Diario de Pernambuco”, as características que mais tarde definiriam o armorialismo já vinham sendo desenhadas por Ariano Suassuna desde a década de 1940, num resgate do barroco de origem ibérica somado à arte popular nordestina, ambos tratados por ele como alicerces legítimos da cultura nacional. 

Quando lançou o Movimento Armorial, Ariano Suassuna já era um nome respeitado no meio literário brasileiro. Em 1955, ele havia estreado no teatro com “O Auto da Compadecida”, uma das peças mais emblemáticas da dramaturgia nacional, e em 1957 publicara “O Romance d’A Pedra do Reino”, obra que muitos consideram o marco fundador da literatura armorial. Suassuna não era, portanto, um novato em busca de holofotes, era um escritor consolidado que resolveu expandir sua visão estética para outras linguagens artísticas. 

Mas o movimento armorial só ganhou corpo institucional, quando o escritor assumiu a chefia do Departamento de Extensão Cultural da Universidade Federal de Pernambuco, espaço que serviu de laboratório para reunir artistas dispostos a experimentar essa fusão entre erudito e popular.  

Enquanto boa parte do Brasil sonhava em parecer cada vez mais “cosmopolita”, Ariano Suassuna resolveu olhar para o interior profundo e afirmar que ali existia matéria-prima suficiente para dialogar com Cervantes, Bach, Calderón, o barroco ibérico e qualquer tradição considerada “alta cultura”. Em vez de importar um modelo pronto, propôs escavar um tesouro que, segundo ele, já estava enterrado sob nossos próprios pés.

O então jovem escritor Ariano Suassuna (Crédito: reprodução)

Como tudo começou? 

O movimento não foi um raio em céu azul: Suassuna vinha maturando essas ideias desde os anos 1940, quando ainda era estudante de Direito, mas foi apenas em 1970 que ele resolveu dar o passo definitivo. E assim, em 18 de outubro de 1970, a Igreja de São Pedro dos Clérigos, no Recife, promoveu um concerto da Orquestra Armorial de Câmara intitulado “Três séculos de música nordestina: do barroco ao armorial”, além de uma exposição de artes plásticas com obras de Francisco Brennand, Gilvan Samico e outros. 

A escolha de uma igreja barroca para o lançamento não foi mera coincidência: o barroco de origem ibérica era, para Suassuna, um dos suportes da cultura nacional, uma linguagem que ele queria resgatar e fundir com a arte popular. Mais do que isso, o gesto tinha algo de provocação: se a arte erudita brasileira sempre olhou para a Europa, por que não olhar para o barroco nordestino e para as manifestações populares como matrizes igualmente legítimas? A igreja, afinal, sempre foi um espaço de arte erudita, mas naquela noite, o erudito ganhou sotaque sertanejo. 

A Igreja de São Pedro dos Clérigos, no Recife, palco do primeiro evento do movimento Armorial (Crédito: Reprodução)

Por que o Armorial foi visto como uma resposta à colonização cultural? 

O Movimento Armorial nasceu em um contexto de intensa valorização da arte erudita europeia e de desdém pela cultura popular brasileira. As elites intelectuais do Brasil costumam olhar para o que se produz no Nordeste como folclore pitoresco, algo digno de um registro antropológico, mas não a ponto de ser levado a sério como arte.  

O Movimento Armorial reagiu a essa visão com a força de quem conhecia profundamente aquelas tradições, e com a sabedoria que o “popular” brasileiro era, na verdade, um caldeirão de influências ibéricas, africanas e indígenas que nada devia em complexidade às culturas europeias. 

O sertão como reino encantado: a reinvenção de Suassuna 

Se Euclides da Cunha cravou a imagem do sertão como um espaço de seca, miséria e atraso, Ariano Suassuna fez questão de subverter essa visão. Em sua obra, e no Movimento Armorial como um todo, o sertão se transforma em um reino encantado, povoado por cavaleiros, bestas mitológicas, reinos misteriosos e narrativas que misturam o real e o mágico.  

O “Romance d’A Pedra do Reino”, publicado em 1971, é a expressão máxima dessa reinvenção: um épico nordestino que dança entre o sertão e os castelos medievais, com personagens saídos dos cordéis e uma linguagem barroca que beira o delirante. 

Essa transformação do sertão em reino encantado era, antes de tudo, uma afirmação de que o Nordeste não era apenas um lugar de sofrimento, mas também de imaginação, de fabulação, de cultura sofisticada. O sertão armorial é um lugar onde a história se mistura com a lenda, onde o realismo cede lugar ao maravilhoso, e onde a dureza da vida sertaneja se transmuta em matéria poética. Foi essa visão que deu ao movimento sua força e sua originalidade. 

O “Romance d’A Pedra do Reino”, publicado em 1971

Gilvan Samico: o mestre da xilogravura que deu imagem ao Armorial 

Se existe um nome sinônimo de xilogravura armorial, é o de Gilvan Samico. Antes de aderir ao movimento, Samico já havia passado pela Sociedade de Arte Moderna do Recife e estudado com mestres como Lívio Abramo, em São Paulo, e Oswaldo Goeldi, na Guanabara. Foi só depois de dois anos vivendo na Europa, graças a um prêmio conquistado quase sem querer num salão de arte moderna, que samico retornou ao Brasil no início da década de 1970 e aceitou o convite de Suassuna para integrar o Armorial. 

A partir daí, sua obra passou a explorar personagens bíblicos, lendas locais e animais mitológicos com um rigor técnico quase matemático, marcado por simetria e uso expressivo do branco sobre a madeira entalhada. Cada xilogravura podia levar cerca de um ano para ficar pronta, tamanho o cuidado com a variedade de cortes e a textura final. Não é exagero dizer que ele elevou uma técnica associada aos folhetos baratos de feira ao patamar de arte reconhecida mundialmente, com obras expostas no MoMA de Nova York. 

Xilografia de Gilvan Samico (Crédito: Reprodução)

Francisco Brennand: o ceramista que sonhou com bestas e mitologias 

Francisco Brennand (1927-2019) é um dos nomes mais celebrados da arte brasileira, e sua associação com o Movimento Armorial vem dos primeiros momentos. Amigo de longa data de Ariano Suassuna, Brennand participou da exposição de artes plásticas que acompanhou o concerto de lançamento do movimento, em 18 de outubro de 1970. Sua obra, marcada por um universo de figuras mitológicas, bestas fantásticas e formas orgânicas que remetem à natureza e ao imaginário popular, encontrou no Armorial solo fértil para se desenvolver. 

O ceramista, entretanto, afirmou que participou de várias exposições armoriais com entusiasmo e de livre vontade, mas nunca foi propriamente um adepto da estética do grupo, comparando sua posição à do pintor francês Edgar Degas, que expôs com os impressionistas sem nunca ter sido um deles. 

Ainda assim, murais como “A Batalha dos Guararapes”, citado pelo próprio Suassuna como obra de importância fundamental para a arte brasileira, mostram como o repertório telúrico e sensual de Brennand dialogava, à sua maneira, com o projeto armorial de dar dignidade erudita a temas populares e históricos do Nordeste. 

Oficina de Francisco Brennand (Crédito: Reprodução)

Miguel dos Santos: o autodidata que pintou os mitos nordestinos 

Miguel dos Santos (Caruaru, 1944) é um artista autodidata que estabeleceu seu ateliê em João Pessoa, onde reside desde os anos 1960. Participou do Movimento Armorial explorando em sua obra diversas linguagens, temas e referências de origens nordestinas, mitologias originárias e arte iorubá. Sua pintura, marcada por figuras de animais míticos ou fantásticos, dialoga diretamente com o imaginário armorial de um sertão encantado. 

O que distingue Miguel dos Santos no contexto do movimento é sua capacidade de fundir influências diversas, desde as máscaras da arte tradicional africana até a deformação formal de caráter expressionista, em uma linguagem que é, ao mesmo tempo, nordestina e universal.  

Sua obra, como a de muitos armoriais, recusa a separação entre o popular e o erudito, afirmando que a cultura nordestina é tão rica e sofisticada quanto qualquer outra tradição artística do mundo. Nesse sentido, Miguel dos Santos é um exemplo perfeito da proposta armorial: um artista que, partindo das raízes populares, constrói uma obra de profunda complexidade estética. 

Escultura de Miguel dos Santos (Crédito: reprodução)

Lurdes Magalhães: a artista que pintou nobreza das festas populares 

Enquanto os nomes masculinos do movimento acumulavam biografias detalhadas, a pintora e tapeceira Lourdes Magalhães teve participação reconhecida, mas menos documentada, nas exposições e publicações do grupo.  

Sua pintura refletia as diretrizes armoriais ao abordar folguedos, reisados, maracatus e elementos da fauna e flora sertanejas com uma paleta viva e rigor geométrico. Seu trabalho ajudou a demonstrar que o projeto não se restringia à literatura ou à gravura, mas abrangia uma escola pictórica rica, capaz de capturar a festividade e a religiosidade do povo nordestino. Ainda assim, é importante destacar que as fontes disponíveis sobre sua trajetória são mais escassas do que as dedicadas aos colegas homens do movimento, um desequilíbrio que a própria historiografia do Armorial começa, tardiamente, a corrigir. 

Obra de Lurdes Magalhães, uma das artistas do armorial injustamente menos conhecida que seus colegas homens (Crédito: Reprodução)

O legado do Armorial: um reino que ainda não acabou 

Meio século depois de seu lançamento, o Movimento Armorial continua pulsante. Seu legado é múltiplo: na música, com o Quinteto Armorial e a obra de Antônio Nóbrega; nas artes plásticas, com a influência duradoura de Samico, Brennand e tantos outros; na literatura, com a obra de Suassuna e de seus seguidores; e na própria forma como a máquina pública enxerga a cultura, especialmente em Pernambuco. Mas talvez seu legado mais importante seja conceitual: a ideia de que o Brasil não só pode como deve produzir uma arte erudita a partir de suas próprias raízes, sem precisar se curvar aos modelos importados. 

Como observou o poeta e ensaísta Carlos Newton Júnior, Ariano Suassuna tinha a noção de que o Brasil tem uma dimensão continental e que os artistas de outras regiões poderiam usar as manifestações populares de suas áreas. O Armorial, nesse sentido, não era um movimento fechado em si mesmo, mas uma proposta aberta, que podia ser adaptada e reinventada por artistas de todo o país. O movimento, como diz Newton, “desafia os estereótipos que o Brasil ainda mantém sobre o Nordeste” e nos convida a olhar para a cultura popular com outros olhos. Não como folclore pitoresco, mas como tradição viva e sofisticada. O reino encantado de Suassuna, ao que parece, ainda tem muitos súditos e muitos castelos por construir. 

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