Num país onde partidos nascem da noite para o dia com nomes que sempre prometem renovação, o Partido Humanista surgiu em 1984 como uma aposta ingênua de que a política brasileira poderia ser feita por estudantes, professores e idealistas sem dinheiro, sem máquina e sem a menor ideia de como se ganha uma eleição. Fundado formalmente em 13 de novembro de 1984 e registrado no TSE apenas em 9 de julho de 1985, o PH entrou na arena eleitoral com o número 19, o slogan “Paz, Força e Alegria” e cores laranja e branco.
A legenda, presidida pelo estudante de engenharia Valdomiro dos Santos Filho, lançou candidaturas em cinco capitais nas eleições municipais de 1985, incluindo São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Curitiba e Belo Horizonte, mas não conseguiu eleger nenhum vereador, nem mesmo nas cidades onde teve desempenho razoável. Naquela estranha cidade cinza ao sul do Brasil, a professora Ana Rosa Tenente, uma das idealizadoras do partido, ficou em quinto lugar com 45.075 votos, número que a própria candidata admitiu ter superado todas as suas expectativas, já que ela esperava receber no máximo uns cinco mil votinhos.
O que se seguiu foi uma trajetória marcada por dissidências internas, acusações de que o partido seria uma “seita” ligada ao Movimento Humanista do escritor argentino Mario Rodrigues Luis Cobos, conhecido como Silo, e uma série de candidaturas que oscilaram entre o quase anonimato e o delírio alucinógeno, conforme classificou o próprio presidente do diretório carioca. O partido esteve ativo até o início da década de 1990, disputou eleições municipais em 1988, mas acabou dissolvido em 1990, deixando como legado uma página curiosa na história dos partidos políticos brasileiros.
Qual a origem do Partido Humanista?
No início dos anos 1980, ainda antes da plena reorganização partidária que acompanharia a redemocratização, muros de divrsas cidades brasileiras apareceram pichados com a mesma inscrição: “PARTIDO HUMANISTA: algo mais que um partido”.
O slogan expressava justamente a natureza peculiar do agrupamento, que se via não apenas como uma agremiação eleitoral comum, mas como a extensão política de um movimento filosófico, existencial e pacifista (o Movimento Humanista / siloísmo). Em 9 de julho de 1985, o TSE habilitou a legenda, com o número 19.
O programa tinha uma curiosa combinação de referências. Um estudo acadêmico que reproduz informações do antigo acervo do CPDOC descreve o PH como uma organização predominantemente jovem, cuja média de idade dos militantes era de 25 anos.
A turma do PH se apresentava como uma “nova esquerda” não marxista, rejeitava o materialismo dialético e a luta de classes, defendia o fim da propriedade privada e sua substituição pelo cooperativismo, além do pacifismo, da democracia, do pluralismo, do combate à discriminação e a suspensão do pagamento da dívida externa brasileira.

Valdomiro dos Santos Filho: um jovem visionário ou testa de ferro
A presidência nacional do partido coube ao jovem estudante de engenharia Valdomiro dos Santos Filho. Longe de ostentar o perfil dos velhos coronéis da política nordestina ou paulista, Valdomiro encarnava o espírito estudantil e idealista que marcou a fundação da agremiação.
Documentos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e matérias do Jornal do Brasil registram que Valdomiro articulou a obtenção do registro provisório da legenda em julho de 1985. Sob seu comando, o diretório tentou projetar a imagem de uma força jovem, desconectada dos vícios das velhas oligarquias, embora analistas vissem nele a figura de um porta-voz de diretrizes traçadas fora do país.
Não há muito registro biográfico disponível sobre Valdomiro fora desse contexto eleitoral, o que reforça a sensação de que o PH foi, antes de tudo, um projeto de gente muito jovem tentando ocupar rápido um espaço que a redemocratização estava abrindo, mais movida pela urgência de existir do que por um projeto cuidadosamente arquitetado. Essa pressa, aliás, explicaria bastante do que aconteceria ao partido nos anos seguintes.
O vexame das urnas de 1985
Nas eleições municipais de novembro de 1985, as primeiras capitais após o regime militar viraram o grande teste de fogo do PH. O partido encarou a estreia sem meias palavras lançando candidaturas para as prefeituras de São Paulo, Salvador, Curitiba, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, apostando na novidade da sua mensagem pacificadora.
Só que voltou para casa de mãos abanando. O melhor resultado foi em São Paulo, a professora Ana Rosa Tenente, uma das idealizadoras do partido, ficou em quinto lugar na disputa pela prefeitura com 45.075 votos, desempenho que a própria candidata considerou surpreendente, já que esperava receber no máximo uns cinco mil votos.
A votação obtida acabou funcionando mais como termômetro de simpatia que como resultado competitivo, e é justamente esse contraste entre a ambição do lançamento simultâneo em cinco grandes cidades e a modéstia dos números finais que torna o episódio, para um cronista de hoje, ao mesmo tempo tocante e hilário.

O PH lançou no Rio o candidato mais jovem do Brasil?
Como o querido(a) leitor (a) já está careca de saber, essa história de “o primeiro”, ou “o maior”, sempre é motivo de treta. A partir da Constituição de 1988, a idade mínima para candidatos a prefeito foi fixada em 21 anos. Contando a partir deste ano, o candidato mais jovem do Brasil teria sido, portanto, Julinho Tomazela (PSDB), eleito em 2020 prefeito de Conchas (SP) com exatos 21 anos.
Mas segundo o verbete produzido pelo CPDOC da Fundação Getulio Vargas, Lincoln Sobral concorreu à Prefeitura do Rio pelo PH em 1985 com apenas 19 anos, tendo como vice em sua chapa o também jovem Marco Antônio Costa, de 20 anos, então estudante de cursinho pré-vestibular. A dupla terminou a disputa em 11º lugar com 12.769 votos
Uma dupla de candidatos ao comando da segunda maior cidade do país que, somados, ainda não fechavam quarenta anos de vida, o que dá uma medida precisa de quão distante o PH estava do figurino habitual da política carioca da época.
Esse detalhe biográfico, longe de ser mera curiosidade, ajuda a explicar boa parte do que aconteceria depois: uma chapa formada por adolescentes recém-saídos da maioridade tinha, previsivelmente, fôlego político curto e paciência interna ainda mais curta para dissidências, o que se confirmaria já nos primeiros meses do ano seguinte.

A “guerra civil” humanista
Em janeiro de 1986, Marco Antônio Costa, candidato a vice-prefeito na chapa de Lincoln Sobral nas eleições do ano anterior, acusou o Partido Humanista de ser uma “seita”, afirmando que a legenda seria um braço do Movimento Humanista fundado pelo escritor argentino Mario Rodrigues Luis Cobos, o Silo. A acusação gerou dissidências internas no partido e colocou em xeque a autonomia do PH em relação ao movimento internacional, levantando questões sobre a natureza e os objetivos reais da organização política.
Diante da repercussão das denúncias de Marco Antônio Costa, a cúpula humanista foi a público para estancar a crise. O dirigente do partido, Douglas Cardoso, concedeu entrevistas defendendo a lisura do agrupamento. Em declarações registradas pelo Jornal do Brasil, Douglas Cardoso classificou cinematograficamente as alegações do ex-candidato como “um delírio alucinógeno”, alegando que o rompimento era fruto de mero ressentimento político e incapacidade de aceitar os processos democráticos internos.

O mistério do Movimento Humanista
O tal Movimento Humanista, ao qual Marco Antônio associou o PH, ainda é uma corrente internacional de pensamento e ativismo batizada de Novo Humanismo ou Humanismo Universalista, fundado por Mario Rodrigues Luis Cobos, o Silo, em 4 de maio de 1969, na Argentina e organizada em torno da chamada não violência ativa como método de transformação social.
O movimento defendia, em linhas gerais, um mundo múltiplo em etnias, línguas, costumes, crenças e formas de trabalho, rejeitando a ideia de líderes ou chefes absolutos e pregando a construção de uma espécie de nação humana universal, sem fronteiras rígidas entre povos.
Conforme estudos acadêmicos sobre a trajetória do movimento (como a dissertação de mestrado de Vilma B. Felix na UFPE), o grupo combinava filosofias orientais, psicologia existencial e ativismo social. No entanto, por causa das suas reuniões fechadas e da devoção dos seus seguidores ao fundador, a organização frequentemente enfrentou suspeitas de agir como um culto esotérico.
O guru argentino que inspirou o movimento
Mario Rodríguez Luis Cobos (1938-2010), mais conhecido pelo pseudônimo “Silo”, foi um pensador, escritor e líder espiritual nascido em Mendoza, Argentina. Ele alcançou notoriedade em maio de 1969 ao proferir o famoso discurso “A Cura do Sofrimento”, numa paragem isolada da Cordilheira dos Andes chamada Punta de Vacas (não é gozação).
De acordo com biografias oficiais e registros da imprensa sul-americana, Silo atraiu milhares de jovens em toda a América Latina e Europa com seus livros, como “O Olhar Interior”. Ele negava o rótulo de líder religioso, mas exercia enorme fascínio pessoal sobre seus adeptos, servindo como a mente orientadora das várias filiais do partido pelo mundo.

A estratégia das alianças em 1986
Nas eleições de 1986, buscando descolar da imagem de seita isolada e visando garantir sobrevivência institucional, o PH mudou de tática e vendeu sua alma à política tradicional. O partido não apenas lançou candidatos próprios ao Legislativo, mas também buscou coligações pragmáticas com chapas ao governo em diversos estados.
A documentação do TSE mostra que a agremiação transitou por alianças heterogêneas, unindo-se tanto a blocos de centro-esquerda quanto a frentes locais mais conservadoras. A manobra fisiológica garantiu maior exposição no horário eleitoral, mas diluiu a suposta pureza ideológica que seus fundadores tanto ostentavam nos anos anteriores.

Como a sigla desapareceu sem deixar saudades?
A trajetória institucional do PH terminou no processo de consolidação do sistema partidário pós-redemocratização. O Partido Humanista esteve ativo até o início da década de 1990, disputando eleições municipais em 1988, novamente com Lincoln Sobral disputando a prefeitura do Rio e recebendo 9.822 votos, menos do que no pleito anterior.
A legenda acabou dissolvida em 1990, sem conseguir eleger nenhum representante em nenhuma das eleições que disputou, fechando assim uma trajetória marcada por boas intenções e resultados eleitorais imperfeitos.
Mas mesmo depois da crise, deixou uma espécie de primo chamado PHN. Uma dissidência deu origem ao Partido Humanista Nacional, PHN, que obteve registro provisório em 1988 e participou das eleições municipais daquele ano. Seu programa incluía ensino geral gratuito, redução progressiva da tributação indireta, fim dos impostos sobre pequenos e médios salários e participação popular na elaboração de planos de desenvolvimento.

O Partido Humanista durou pouco, teve poucos votos e praticamente nenhum poder institucional. Ainda assim, sua passagem pela política brasileira é mais interessante do que muitos resultados eleitorais infinitamente maiores. O PH reuniu jovens, estudantes e militantes que pretendiam construir uma esquerda diferente, não marxista, fundada no cooperativismo, na não violência, na democracia e na ideia de que o ser humano deveria ser o centro da política.
E talvez seja essa a grande ironia final do PH. Um partido criado para colocar o ser humano no centro da política acabou ficando conhecido, décadas depois, justamente pelas histórias humanas, demasiadamente humanas de suas campanhas, de seus jovens candidatos, de suas dissidências, de suas brigas internas e de seus sonhos eleitorais.






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