Um mineral essencial para o funcionamento do organismo, presente em alimentos comuns na mesa dos brasileiros, pode ter uma relação com o comportamento das células do câncer de mama. Uma pesquisa conduzida por cientistas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) identificou uma associação entre níveis elevados de fosfato no sangue e características de maior agressividade dos tumores.
O estudo também investiga como o mineral pode influenciar o funcionamento das células cancerígenas e sua relação com o estresse oxidativo, processo que pode favorecer a progressão dos tumores.
Coordenada pelo biólogo Marco Antonio Lacerda Abreu, professor do Departamento de Bioquímica do Instituto de Biologia Roberto Alcântara Gomes (Ibrag), da Uerj, a pesquisa analisou amostras de sangue de 70 mulheres com câncer de mama atendidas no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF), da UFRJ.
Posteriormente, em outra etapa, foi feita uma análise de tumores e tecidos saudáveis das mesmas pacientes. Os resultados foram comparados com os de outras 24 voluntárias saudáveis, que não tinham a doença.
A análise apontou que as pacientes com câncer de mama apresentavam concentrações mais elevadas de fosfato no sangue do que as mulheres sem a doença. Os pesquisadores também observaram que os níveis maiores do mineral estavam associados a tumores de grau histológico mais elevado e a comprometimento dos linfonodos.
Mas o que significa dizer que um câncer é mais agressivo? Agenda do Poder conversou com pesquisadores e profissionais da área. De acordo com o mastologista Davi Motta, essa classificação considera um conjunto de características do tumor.
“Analisamos, por exemplo, o grau histológico, que mostra o quanto as células tumorais se diferenciam das células normais, além do tamanho do tumor, do comprometimento dos linfonodos e da presença de metástases. Também avaliamos o perfil molecular do câncer, que ajuda a identificar diferentes subtipos da doença e compreender como cada tumor pode responder aos tratamentos”, explica o médico.
O que o fosfato tem a ver com o câncer?
A relação entre fosfato e câncer de mama não surgiu recentemente no laboratório de Marco Antonio. Segundo o pesquisador, a investigação começou ainda durante sua iniciação científica, quando trabalhava com células tumorais cultivadas em laboratório. Na época, o interesse estava nos chamados transportadores de fosfato inorgânico, estruturas que permitem a entrada do mineral nas células.
O ponto de partida foi uma pergunta: se o fosfato participa da produção de energia e de outras funções fundamentais das células, será que as células cancerígenas precisam de quantidades maiores para crescer e se multiplicar?
“Será que células tumorais precisam de mais fosfato inorgânico para conseguir proliferar? Começamos, então, a investigar.”
Marco Antonio Lacerda, coordenador da pesquisa
A questão levou o pesquisador a estudar como o mineral atravessa a membrana celular. O fosfato não consegue entrar livremente nas células e, por isso, depende de proteínas específicas que funcionam como transportadores.

Marco Antonio relata que caracterizou dois mecanismos: um que transporta fosfato junto com sódio e outro que utiliza prótons para realizar esse processo. A investigação ajudou a ampliar o conhecimento sobre a maneira como as células do câncer de mama captam e utilizam o mineral.
“Depois de um tempo, comecei a caracterizar um outro tipo de transportador que era inédito, que é um transportador de fosfato que transporta o próton. Depois desse estudo que consegui publicar, houve, então, outros estudos confirmando a estrutura desse transportador de fosfato inorgânico”, diz.
O pesquisador passou a investigar enzimas presentes na superfície dos tumores que quebram determinadas substâncias e liberam fosfato no ambiente ao redor das células cancerígenas. Esse espaço é chamado de microambiente tumoral e reúne diferentes células, moléculas e estruturas que interagem com o câncer. Em experimentos com camundongos, a equipe conseguiu demonstrar o acúmulo de fosfato nessa região.
A partir dessas descobertas, os cientistas começaram a investigar o que acontece quando as células tumorais são expostas a concentrações maiores do mineral.
“Observamos que, de uma forma ensaiada, in vitro, controlada no laboratório, as células tumorais, colocando artificialmente o fosfato inorgânico, elas começam a migrar mais, em ensaio. A gente observa que simula, por exemplo, um dos processos metastáticos, elas começam a procurar um ponto de adesão, começam a proliferar muito mais e não morrem. Pelo contrário, sobrevivem com esse nível de fosfato inorgânico”, relata.
O pesquisador explica que a maior capacidade de migração das células chama a atenção porque esse comportamento está relacionado a uma das etapas necessárias para que o câncer se espalhe para outros tecidos. Isso não significa, porém, que os experimentos comprovem que o fosfato provoque metástases em pacientes.
Estresse oxidativo entra no radar dos cientistas
Outro mecanismo observado pelos pesquisadores envolve o chamado estresse oxidativo. O termo se refere a um desequilíbrio entre a produção de moléculas reativas, que podem provocar danos às estruturas celulares, e a capacidade do organismo de neutralizá-las por meio de seus sistemas de defesa antioxidante.
Em determinadas circunstâncias, esse desequilíbrio pode prejudicar o funcionamento das células. No câncer, porém, alterações relacionadas ao estresse oxidativo também podem participar de processos que favorecem a sobrevivência, a adaptação e a progressão das células tumorais. Por isso, compreender como esse mecanismo funciona é uma das frentes da investigação.
“Foi então que observamos que o fosfato inorgânico induz uma resposta de estresse oxidativo, que promove esse efeito mais agressivo do câncer de mama”, afirma Lacerda, ao se referir aos experimentos realizados em laboratório.
Em um dos artigos científicos produzidos a partir da pesquisa, os cientistas analisaram moléculas que funcionam como indicadores de estresse oxidativo e encontraram uma associação entre esses marcadores e os níveis elevados de fosfato no sangue.
Motta, que não participou do estudo, explica que as células cancerígenas podem apresentar mudanças na maneira como captam e utilizam os nutrientes para crescer e se multiplicar. Para ele, compreender essas alterações metabólicas ajuda a entender melhor o comportamento dos tumores e pode abrir caminhos para novas estratégias terapêuticas.
“Experimentos laboratoriais mostraram que o excesso desse mineral pode aumentar o estresse oxidativo, favorecendo características associadas a tumores mais agressivos. Agora, a pesquisa avança para investigar esses mecanismos nas células tumorais das próprias pacientes, buscando identificar possíveis alvos terapêuticos”, destaca o especialista.
O que os resultados mostram sobre as pacientes?
Na etapa clínica, as mulheres sem a doença apresentaram concentrações em torno de 0,9 a 1,2 milimolar. Valores acima de 1,4 milimolar são classificados como hiperfosfatemia, nome dado à condição caracterizada pelo excesso de fosfato no sangue.
O pesquisador ressalta que a hiperfosfatemia pode ser classificada em diferentes graus, de acordo com a concentração do mineral. Entre as possíveis causas estão alterações no funcionamento dos rins, órgãos responsáveis por ajudar a controlar a quantidade de fosfato no organismo, além de outros distúrbios que afetam esse equilíbrio.
A equipe também separou as pacientes de acordo com características relacionadas à agressividade do câncer, como o grau histológico, a proliferação celular e o comprometimento dos linfonodos. Essas estruturas fazem parte do sistema linfático, responsável pela defesa do organismo, e podem ser atingidas quando células cancerígenas se disseminam para além do tumor original.
“Pacientes que têm fatores que influenciam a metástase são todos os que determinam o que chamamos de maior agressividade do câncer de mama. Então, dividimos esses grupos e aí fomos avaliar os das pacientes que também entrevistamos. O que a gente quer investigar é um hábito, a frequência alimentar da paciente nos últimos cinco anos, que pode estar vinculado com o diagnóstico do câncer de mama nelas”, explica.
Alimentação: existe relação com o excesso de fosfato?
O levantamento considerou a frequência de consumo de alimentos ricos em fósforo, como leite e derivados, arroz, feijão, trigo, milho, carnes vermelha e de aves, peixes e ovos.
A associação estatisticamente significativa com os níveis de fosfato no sangue foi observada na frequência alimentar total e, principalmente, no consumo de alimentos naturais ricos em fósforo. Já em relação aos produtos ultraprocessados que contêm aditivos à base de fosfato, não houve associação significativa.
Segundo Lacerda, os resultados apontaram uma associação entre níveis elevados do mineral no sangue e maior frequência de consumo de determinados produtos industrializados, incluindo doces e refrigerantes. Em alguns relatos, o consumo de refrigerante chegava a cinco vezes por dia.
“A frequência desses pacientes de refrigerante é muito alta. Então, pacientes que têm uma grande frequência de ingerir refrigerante apresentam uma associação importante com o fosfato inorgânico no sangue.”
Marco Antonio Lacerda, coordenador da pesquisa
O pesquisador, no entanto, faz uma ressalva importante: o questionário não foi desenvolvido para realizar uma avaliação nutricional aprofundada, mas para identificar hábitos e frequências de consumo. Além disso, a presença de fosfato elevado não pode ser atribuída exclusivamente à alimentação.
Próxima etapa busca identificar novos alvos para tratamentos
A pesquisa agora entra em uma fase voltada à compreensão mais aprofundada dos mecanismos moleculares envolvidos na relação entre o fosfato e o comportamento das células tumorais. A proposta é investigar quais genes e proteínas apresentam alterações em pacientes com concentrações elevadas do mineral e se essas mudanças podem ajudar a explicar as diferenças na progressão da doença.
Uma das frentes será a análise transcriptômica, que consiste em estudar o conjunto de moléculas de RNA produzidas pelas células. De forma simplificada, o DNA guarda as informações genéticas, enquanto o RNA participa do processo de utilização dessas informações para a produção de proteínas, responsáveis por executar diversas funções no organismo.
Ao analisar o transcriptoma, os cientistas conseguem identificar quais genes estão ativos e quais informações estão sendo utilizadas pelas células.
A pesquisadora Tatiana Simão, colaboradora do estudo no Departamento de Bioquímica do Ibrag/Uerj, destaca que a equipe pretende realizar uma análise transcriptômica para comparar os tumores de mulheres com hiperfosfatemia com os de pacientes que não apresentam essa condição. O trabalho também vai analisar, nas mesmas pacientes, as diferenças entre os tecidos tumorais e os tecidos adjacentes não tumorais.

“Então, a ideia é a gente verificar primeiro tumores de pacientes que têm essa condição de hiperfosfatemia com as que não têm e comparar essa transcriptômica geral. Vamos avaliar por completo, avaliando todos os possíveis RNAs que estejam sendo produzidos, e verificar se há diferenças entre essas mulheres”, salienta Tatiana.
A expectativa é que a identificação dessas alterações ajude a encontrar caminhos para futuras estratégias de tratamento e ferramentas de prognóstico. A pesquisadora ressalta, porém, que se trata de uma investigação ainda em fase inicial.
“Esperamos encontrar vias de sinalização que possam estar alteradas de forma que, futuramente, elas possam servir até mesmo como uma ferramenta de tratamento. Auxiliar no prognóstico dessas pacientes com câncer de mama.”
Tatiana Simão, pesquisadora
Outra frente do projeto envolve a professora Claudia Fernanda Dick, do Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis (IBqM) da UFRJ. Sua atuação está concentrada na bioenergética tumoral, área que investiga como as células produzem e utilizam energia. O trabalho busca compreender de que maneira o aumento da disponibilidade de fosfato pode interferir no metabolismo energético das células cancerígenas, especialmente na função das mitocôndrias, estruturas responsáveis por grande parte da produção de ATP.
A equipe pretende ampliar o número de participantes, realizar novas análises laboratoriais e comparar tecidos tumorais e saudáveis das mesmas pacientes. A proposta é identificar possíveis assinaturas moleculares associadas à hiperfosfatemia, ou seja, padrões de alterações em genes, RNAs e proteínas que possam ajudar a compreender por que alguns tumores apresentam características mais agressivas.
Diagnóstico tardio ainda é um desafio no Brasil

O câncer de mama deve registrar 78.610 novos casos por ano no Brasil entre 2026 e 2028, segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (Inca). O número corresponde a um risco estimado de 71,57 casos para cada 100 mil mulheres.
Dados do Panorama da Atenção ao Câncer de Mama no SUS, elaborado pelo Observatório de Oncologia, ligado à Associação Brasileira de Câncer do Sangue (Abrale), em parceria com o Instituto Natura, mostram que mulheres mais jovens chegam com maior frequência ao diagnóstico em estágios avançados.
Entre as pacientes de 20 a 29 anos atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), sete em cada dez receberam o diagnóstico nos estágios 3 ou 4. Na faixa de 30 a 39 anos, a proporção foi de 62,7%. O percentual cai para 54,6% entre mulheres de 40 a 49 anos e chega a 47,9% naquelas com idade entre 50 e 69 anos, grupo contemplado pelo rastreamento de rotina.
A falta de informação também pode contribuir para o adiamento da investigação de alterações nas mamas. De acordo com o Índice de Conscientização sobre o Câncer de Mama, 86% das mulheres não sabem que a mamografia pode ser realizada em qualquer idade quando existe indicação médica. Isso significa que uma mulher jovem que identifica um nódulo pode acreditar, equivocadamente, que ainda não tem idade para fazer o exame e demorar a procurar atendimento.
Exame simples ainda depende de validação científica
Uma das possibilidades levantadas pelos pesquisadores é que a dosagem de fosfato no sangue possa, futuramente, ser investigada como um indicador complementar na avaliação do câncer de mama. O exame é realizado por meio de uma análise laboratorial simples e de baixo custo. No entanto, atualmente, não é solicitado rotineiramente para avaliar a agressividade de tumores, justamente porque essa associação ainda não está estabelecida na prática médica.

Lacerda acredita que, se os resultados forem confirmados em estudos maiores, o exame poderá ajudar a identificar características que mereçam uma investigação mais aprofundada. O pesquisador, entretanto, reconhece que o caminho até uma possível aplicação no Sistema Único de Saúde (SUS) ainda é longo.
“Qual o desafio agora? Aumentar o número de pacientes. A gente tem uma fase também para fortalecer essa hipótese. Está longe ainda dessa realidade chegar ao SUS. Mas é uma possibilidade que a gente espera que alcance. Na prática, esse fosfato é muito fácil de dosar”, afirma.
Motta concorda que a possibilidade merece investigação, mas ressalta que uma associação estatística não é suficiente para transformar o fosfato em um marcador clínico. É necessário demonstrar que o exame acrescenta informações relevantes aos métodos já utilizados e que pode contribuir efetivamente para decisões médicas, acompanhamento ou tratamento.
“Se esses resultados forem confirmados em estudos maiores, a dosagem de fosfato poderá futuramente ser investigada como um marcador complementar na avaliação do comportamento do tumor. Entretanto, ainda não temos evidências suficientes para recomendar sua utilização na rotina clínica”, afirma.
Segundo Lacerda, esse processo poderá levar de cinco a seis anos para produzir resultados mais consistentes.
O estudo reúne pesquisadores da Uerj e da UFRJ, incluindo profissionais dos serviços de Ginecologia, Mastologia e Anatomia Patológica do HUCFF, além de colaboradores do Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis (IBqM), da UFRJ. O financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio (Faperj) ocorreu por meio do programa Apoio ao Jovem Pesquisador Fluminense Sem Vínculo Empregatício.






Deixe um comentário