Mercado comunitário, ‘gramacoins’ e crianças na escola: projeto transforma rotina no Jardim Gramacho
Reportagem Especial

Mercado comunitário, ‘gramacoins’ e crianças na escola: projeto transforma rotina no Jardim Gramacho

Projeto Gramachinhos, de Duque de Caxias, criou sistema de recompensas que atende crianças e famílias da região, marcadas pelo fechamento do aterro sanitário, em 2012

No Mercado Social Pão e Peixe, no bairro Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, a moeda de compra não vem exatamente do Real — as compras são feitas com dinheiro que ninguém tem: gramacoins. A moeda foi criada pelo Projeto Gramachinhos, que atende crianças da comunidade desde o fechamento do aterro sanitário, em 2012.

Em troca, a iniciativa pede dos pequenos a entrega fiel às atividades educativas oferecidas no contraturno da escola onde eles estudam. As tarefas vão desde atividades lúdicas como música, teatro, biblioteca comunitária e o próprio mercado, passando por disciplinas teóricas: artes, inglês, cidadania – e ouro da temporada, empatia.

A fundadora do projeto, Júlia Blakeney contou à Agenda do Poder como o projeto se formou na região desde 2013, um ano após o fechamento do aterro de Jardim Gramacho, considerado o maior da América Latina.

Segundo ela, o mercado surgiu mais tarde, durante a pandemia de covid-19, em 2020. A proposta: criar uma maneira de oferecer alimentos e outros serviços às crianças sem colocá-las apenas na posição de beneficiárias.

“No mercado, vemos uma forma lúdica de oferecer para as crianças doações sem que elas sintam que estão recebendo doações. Elas entendem que estão comprando itens através do seu esforço”, disse.

Julia Blakeney, fundadora do projeto Gramachinhos, com crianças participantes | Crédito: Divulgação

O mercado

De acordo com Julia, o mercado é aberto duas vezes na semana, para que as crianças que se destacaram e acumularam moedas possam fazer suas compras. As prateleiras são abastecidas com produtos que vão desde ítens de cesta básica, como arroz, farinha, macarrão, leite e outros alimentos, até brinquedos: peteca, bonecas, jogos de cartas, carrinhos, além de materiais escolares.

Todo o conjunto, de acordo com ela, é comprado via doações de pessoas que admiram o Gramachinhos. Para garantir essas moedas, as crianças precisam seguir as tarefas à risca, conta a fundadora.

“E que esforço é esse? Assistir à aula, ler um livro e entregar um resumo, porque não adianta só falar que leu, tem que provar. Cuidar dos bichinhos de rua, porque a gente tem muitos animaizinhos na comunidade e eles cuidam. Coisas simples, mas que deem a eles o sentimento de que fazem parte, de que fizeram por onde”

Neste ano, a fundadora passou a registrar algumas das compras e publicar os vídeos nas redes sociais do projeto. As imagens mostram crianças escolhendo os produtos e decidindo como gastar o saldo acumulado. Em alguns casos, os alimentos entram na sacola no lugar dos brinquedos. Assista abaixo:

Os vídeos acumularam milhares de visualizações e renderam admiradores apaixonados, que elogiam a autonomia dos pequenos. Segundo Júlia, desde a implementação do mercado comunitário, o comportamento delas melhorou significativamente.

“Isso, para a gente, tem se mostrado mais empoderador, mais digno do que simplesmente pegar e dar as coisas porque elas precisam. E o comportamento deles, desde que implementamos o mercado, melhorou absurdamente. Tanto a frequência nas aulas quanto o comportamento entre si. As brigas eram muito frequentes”, explica.

O aterro

O mercado funciona anexado ao espaço do projeto, na Rua Tocantins, no Jardim Gramacho. Para entender a realidade da população local, é preciso voltar algumas décadas na história de Jardim Gramacho. De acordo com a historiadora Luciene Carris, antes da instalação do aterro, a região já era ocupada por famílias.

“Os primeiros registros de incentivo à ocupação da região começaram por volta de 1970, mas ela já era ocupada por algumas famílias e indústrias, além de ter bastante área de manguezal. Alguns moradores antigos dizem que era um lugar bem tranquilo, onde as crianças brincavam nas pracinhas, pescavam e tiravam caranguejo (do mangue)”.

A ocupação passou a receber novos incentivos depois da criação de um conjunto habitacional destinado a funcionários públicos e trabalhadores de indústrias próximas, como a Refinaria de Duque de Caxias (Reduc). A estrutura, porém, foi implantada de maneira precária, segundo a historiadora.

“Daí foi se formando uma comunidade que não tinha nenhuma infraestrutura. A ocupação não aconteceu por conta do aterro. Já existiam alguns moradores ali, mas o aterro acelerou esse crescimento populacional e econômico, além de influenciar a própria configuração do território do Jardim Gramacho”, afirma.

Conforme a historiadora, a instalação do Aterro Metropolitano de Jardim Gramacho acelerou a expansão populacional e econômica do bairro. Há registros de que o local começou a receber resíduos em novembro de 1976, embora outras fontes apontem 1978 como o ano de sua ocupação plena.

Ocupação do Jardim Gramacho é associada à cultura dos manguezais | Crédito: Reprodução/ Youtube

Por mais de três décadas, caminhões levaram para a região resíduos de Duque de Caxias, da capital fluminense e de outros municípios da Região Metropolitana.

“A ocupação cresceu muito depois da instalação do aterro, e foram chegando pessoas de diferentes lugares em busca de trabalho. O Rio de Janeiro sempre atraiu pessoas em busca de trabalho. Havia a catação de lixo e a comercialização de materiais recicláveis. Muitas pessoas ficaram ali perto do aterro, em lugares muito frágeis, alagáveis, próximos aos manguezais e à própria natureza”, lembra Luciene.

Localizado próximo à  Rodovia Washington Luiz, a BR-040, a posição de Jardim Gramacho também facilitava o transporte de resíduos para outros locais.

À medida que a economia em torno do lixo crescia, também surgiam depósitos, cooperativas, associações de catadores e pequenos estabelecimentos comerciais. Bares, oficinas, mercadinhos e outros serviços passaram a atender quem vivia e trabalhava no entorno.

“As moradias também eram ocupadas por trabalhadores e suas famílias. Há registros de que 60% dos moradores viviam de atividades ligadas à reciclagem. Era uma economia direta e indireta que sustentava cerca de 15 mil pessoas”, recupera Luciene.

O aterro passou a fazer parte da identidade do bairro e a associação de Jardim Gramacho ao lixo, porém, também contribuiu para a formação de um estigma sobre seus moradores, reforça a historiadora.

Ainda assim, a especialista ressalta que a história local não pode ser resumida à presença do aterro, visto que a comunidade também construiu formas próprias de organização.

Após o fechamento do aterro, em 2012, só receberam indenização os catadores cadastrados | Crédito: Wilson Dias/Agência Brasil

“Mas a identidade do bairro não pode ficar associada ao lixo. Existe uma organização comunitária, a mobilização política dessas pessoas e a luta pelo reconhecimento dos catadores de lixo enquanto trabalhadores também. É preciso reconhecê-los como tal”.

As famílias

Durante os anos de funcionamento do aterro, a catação envolvia homens, mulheres, jovens e idosos e, em muitas famílias, a tarefa foi passada entre gerações. Os trabalhadores aguardavam a chegada dos caminhões e separavam materiais que pudessem ser vendidos, como papel, plástico e papelão. Depois, os itens eram reunidos, pesados e negociados com depósitos e compradores.

A remuneração dependia da quantidade coletada e da capacidade física de cada pessoa. Para os catadores independentes, além da ausência de estabilidade salarial e de direitos trabalhistas, a rotina vinha acompanhada dos riscos.

“As pessoas ficavam muito marcadas pelos riscos: cortes com vidro, perfurações, quedas e até atropelamentos, porque precisavam escapar dos caminhões. Havia também o contato com resíduos hospitalares, substâncias químicas e alimentos. Ficavam expostos ao sol, à chuva, à fumaça, ao chorume produzido pelos resíduos”, destaca a professora.

Fechamento: exposição, abandono e racismo ambiental

Na época do fechamento, em 2012, conforme Luciene, havia cerca de 1, 7 mil trabalhadores ligados à reciclagem, entre catadores independentes e integrantes de cooperativas, que ficaram desempregados e sem qualquer alternativa de sustento. Um ano depois, ainda nessa atmosfera de incertezas e abandono, Júlia Blakeney conheceu o Jardim Gramacho.

“Já tinha um monte de problemas socioambientais ali, todo tipo de questão, e foi retirada a única forma de sustento daqueles moradores. Eram em torno de 25 mil pessoas que viviam em torno do lixão, com muitas crianças e pessoas de idade. E quando você retira a única fonte de renda de uma população, isso cria um caos social mesmo”

Nascida numa família de missionários, ela fazia ações com os pais desde os dois anos de idade, até que conheceu a realidade do bairro caxiense, aos 18 anos, mesma época em que dava aulas de inglês.

Com alguns livros e biscoitos, ela deu o pontapé inicial rumo a uma jornada que atenderia, uma década depois, mais de 100 crianças e suas famílias com o Gramachinhos.

Projeto funciona em um espaço adaptado ao estilo montessori: sem paredes e crianças juntas | Crédito: Arquivo

“No início, (o projeto) foi muito improvisado. Ainda tinha toda aquela estrutura do aterro. Então, eu dava aulas nos escombros mesmo. A gente não tinha nada, absolutamente nada. Eram só livros e biscoitos na minha mochila”, afirma.

O início da iniciativa também foi marcado por dificuldades. Aos poucos, a fundadora conseguiu se estruturar por meio de vaquinhas online e da renda das aulas particulares de inglês, o que permitiu alugar uma casa pequena e de poucos recursos, mas suficiente para atender as primeiras 12 crianças.

Depois, o número de crianças passou para 20, 30, 40 até chegar às 100 atendidas atualmente, em tempo integral, com três refeições diárias. Para Júlia, a alimentação é a base de todo o projeto.

“Acredito muito na educação como agente de transformação social. Muitos dos problemas da nossa sociedade mudariam com mais investimento em educação. Mas também acredito que alguém com fome não consegue aprender nada. Então, desde a primeira semana em que conheci o lugar, minha ideia sempre foi dar aulas e comida”, diz.

A ancestralidade no ofício

Ainda no início do projeto, a vontade da fundadora se encontrou com a trajetória da ex-catadora Mirian Jander, de 53 anos, hoje cozinheira. Mirian passou anos no aterro, onde recolhia materiais recicláveis e foi com o dinheiro obtido com a catação que conseguiu criar nove filhos. Quando o local encerrou as atividades, perdeu sua principal fonte de renda.

Criei nove filhos catando material no lixão. Quando o lixão fechou, fiquei sem trabalho. Aí vim para cá, conheci a Júlia e a tia Adriana. Comecei como voluntária. Eu ajudava a fazer coisas. Pedi um remédio para minha filha, e ela disse para eu vir para o projeto. Eu vim, fiquei e estou aqui até hoje. Acho que vai fazer 14 anos

Mirian Jander, 53 anos, cozinheira do projeto Gramachinhos

O que começou como voluntariado se transformou em trabalho — Mirian integra a equipe e cuida da alimentação das crianças. Segundo a cozinheira, a rotina começa cedo, às 5h30, para preparar as refeições e ajudar na organização dos espaços.

“Hoje, eu cozinho e ajudo as meninas na limpeza. Gosto de trabalhar aqui. Estou fazendo o que gosto, cozinhar. Se não fosse o projeto hoje, não sei o que estaria fazendo”.

Espaço do projeto conta com banheiros, cozinha, salas para atividades e anexo do Mercado Pão e Peixe | Crédito: Arquivo

Zonas de sacrifício

A incerteza de Mirian não se isola de outros trabalhadores que ficaram sem a renda que vinha da catação. Mais de uma década depois, o Jardim Gramacho ainda convive com problemas sociais e ambientais que não foram resolvidos com o encerramento das atividades.

Para o professor do Departamento de Serviço Social da Universidade Federal Fluminense (UFF), Matheus Thomaz da Silva, o bairro é um exemplo de como os impactos ambientais e a desigualdade social atingem de forma mais intensa populações negras, historicamente marginalizadas.

“A questão ambiental também permite perceber que os locais escolhidos para receber os maiores impactos ambientais, onde são construídas as chamadas zonas de sacrifício, geralmente estão próximos a instituições e espaços que provocam grandes impactos e são localizados em regiões onde vive a população mais pobre e negra”.

De acordo o professor, vice-coordenador do Núcleo de Pesquisas e Estudos Socioambientais (Nesa) da UFF, o racismo ambiental, com pés no período Pós-Abolição, consegue explicar a naturalização de que determinadas populações podem conviver com impactos ambientais mais severos.

“E o que muda na vida dessas pessoas com o fechamento do aterro? O trato dessa desigualdade e do racismo ambiental mostra que, da mesma forma que aquela população é considerada apenas para receber o descarte, quando a legislação ambiental chega, ela vem de uma forma dura, sem considerar os seres humanos que estão impactados nessa zona de sacrifício.”

Matheus Thomaz da Silva, professor da UFF

É nesse cenário que iniciativas como o Gramachinhos passam a atuar. Na avaliação do professor, projetos do terceiro setor desempenham papel importante por conhecerem de perto as necessidades da comunidade e estabelecerem uma relação direta com os moradores. Algo que muitas vezes, os serviços desempenhados pelos Centros de Referência e Assistência Social (CRAS) não dão conta.

“Não se deve deixar tudo para o Estado, como se tudo fosse ser resolvido por ele, pela família ou pela assistência social. É uma ação combinada com a sociedade civil. Muitas vezes, esses projetos nascem de pessoas que são dali mesmo e se desenvolvem a partir dessa vivência”, afirma o pesquisador Matheus Thomaz.

A transformação vem de dentro

É por isso que, na equipe do Gramachinhos, os trabalhos são coordenados por Júlia Blakeney, Mirian Jander e outros profissionais que também passaram pela realidade do aterro ou tem ancestrais ligados ao território.

“Acho muito importante que a equipe seja formada por pessoas locais, que entendem da realidade e que elas mesmas se sintam integrantes daquilo. E as pessoas, às vezes, não passam a ser vistas como integrantes daquela realidade, mas só como beneficiárias. Quando eu sou a vítima, não consigo transformar aquela realidade”, diz Júlia.

É o caso de Gean Pierre, de 23 anos, que chegou ao projeto ainda criança, levado pela mãe para participar das atividades e desenvolver a socialização. Com o passar dos anos, ele se tornou monitor e, depois, professor. Hoje, além de dar aulas no Gramachinhos, cursa Letras na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

Ex-aluno do projeto, Gean é professor na organização e Mirian é cozinheira | Crédito: Arquivo

“Antigamente, alguns monitores que ajudavam aqui, ficavam fixos no projeto. Eu fui crescendo, desenvolvendo a minha capacidade de falar e me comunicar socialmente. Aí o projeto viu que eu tinha potencial para dar aula, porque eu gostava de ensinar. Fiz o magistério e, graças ao projeto, consegui concluir”.

Com talento reconhecido, Gean diz que o apoio recebido também contribuiu para desenvolver aptidões pessoais. “Tive que evoluir durante esse processo, desenvolver minha oratória, aprender a falar e a gesticular”, afirma.

São essas trajetórias que, segundo a fundadora do projeto, fazem todo trabalho valer a pena. Além das aulas para as crianças, o projeto também oferece minicursos profissionalizantes para os adultos, o que permite a possibilidade de novas opções de rendas.

Já o futuro do mercado comunitário, segundo ela, é ser ampliado para outras comunidades, em parceria com escolas locais. A proposta é adaptar o sistema de moedas à rotina escolar, considerando a frequência e o desempenho dos alunos nas atividades.

A expectativa de Júlia é que, com o tempo, as famílias conquistem autonomia e deixem de depender do atendimento da instituição.

“A educação é o melhor caminho para enfrentar um problema de pobreza geracional, que é o de Jardim Gramacho, que se estende por muito tempo. Por isso, as melhores histórias que temos são as que envolvem o crescimento das pessoas e o momento em que elas não precisam mais do projeto”, conclui a fundadora.

Como doar

Para quem deseja contribuir com o trabalho do Gramachinhos, as doações financeiras podem ser feitas por meio de Pix, ou diretamente pela página de doações no site oficial do projeto ou do Apoiar.com.

*Estagiária sob supervisão de Thiago Antunes

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