A manifestação de estudantes da Universidade Federal Fluminense (UFF) que tomou as ruas de Niterói, em 5 de outubro de 2026, um dia depois do primeiro turno das eleições presidenciais, não surgiu de uma tradição política recente. A mobilização que ajudou a desencadear uma onda nacional de atos em defesa da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recuperou uma história de mais de seis décadas, marcada pela resistência à ditadura militar, pelo enfrentamento à repressão, pela luta por direitos e pela participação de universitários em alguns dos momentos mais importantes da vida política brasileira.
O movimento iniciado na Faculdade de Direito e no campus do Gragoatá, em Niterói, ganhou as ruas do Ingá e de Icaraí, atraiu moradores e inspirou manifestações em outras universidades. Nas semanas seguintes, estudantes organizaram assembleias, caminhadas e atividades de mobilização política em diferentes cidades do país.
A presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Bianca Borges, reconheceu a importância da UFF na organização dos primeiros protestos depois do resultado eleitoral que colocou o senador Flávio Bolsonaro (PL) à frente de Lula no primeiro turno.
Em entrevista à Agência Brasil, a dirigente afirmou que a mobilização começou com uma assembleia universitária que acabou se transformando em manifestação de rua.
“Apareceram mais de mil estudantes para a assembleia, ela não coube dentro do auditório da faculdade, então a turma saiu para rua. Na rua, mais milhares de pessoas se juntaram e nós vimos ali a primeira fagulha do que seria esse grande movimento que se desencadeou desde o domingo passado”, relatou Bianca.
O episódio ganhou dimensão histórica com a vitória de Lula no segundo turno, em 25 de outubro. O movimento iniciado na UFF foi reconhecido pela direção da UNE como um dos pontos de partida da mobilização estudantil nacional.
A atuação de 2026, entretanto, representa apenas o capítulo mais recente de uma trajetória que remonta à própria fundação da universidade e atravessa os anos mais duros da ditadura militar.
Antes da ditadura, estudantes já influenciavam os rumos da universidade
Criada em 18 de dezembro de 1960, pela Lei nº 3.848, a então Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Uferj) nasceu da reunião de diferentes instituições de ensino superior. Em 1965, recebeu a denominação de Universidade Federal Fluminense.
Desde os primeiros anos, os estudantes participaram das discussões sobre a estrutura acadêmica e administrativa da instituição. A organização estudantil não se limitava a reivindicações relacionadas às salas de aula. Também envolvia debates sobre o funcionamento da universidade, sua expansão e a democratização do ensino superior.

Em 1963, o Conselho Universitário aprovou o estatuto do Diretório Central dos Estudantes (DCE), formalizando uma estrutura de representação discente que já participava das discussões institucionais.
Documentos preservados pelo projeto Memória UFF mostram que os estudantes tiveram participação em reivindicações importantes para a consolidação da universidade.
Uma delas foi a incorporação do Hospital Antônio Pedro à instituição, em 1964. O DCE também participou das articulações relacionadas à doação, pela Prefeitura de Niterói, de um terreno no Valonguinho, em 1966, inicialmente destinado à construção da Reitoria.
Esses episódios demonstram que, antes mesmo da radicalização política provocada pelo regime militar, o movimento estudantil já exercia influência sobre decisões relacionadas à universidade e à cidade.
A participação dos estudantes também refletia uma transformação mais ampla da sociedade brasileira. Na década de 1960, a expansão do ensino superior, os debates sobre reformas sociais e a organização dos movimentos populares ampliaram a presença da juventude universitária na política nacional.
O golpe militar de 31 de março de 1964, que derrubou o presidente João Goulart, alterou profundamente esse cenário. A repressão aos movimentos sociais e às organizações estudantis transformou universidades de todo o país em espaços de vigilância, conflitos e resistência. Na UFF, essa tensão marcou os anos seguintes.
A luta dos excedentes de 1967: estudantes enfrentam restrições ao ensino superior
Um dos episódios mais expressivos da mobilização estudantil da UFF durante a ditadura ocorreu em 1967, na Faculdade de Ciências Econômicas.
Naquele ano, aproximadamente 180 candidatos haviam alcançado notas suficientes para aprovação no vestibular do curso diurno de Economia, mas a universidade disponibilizava apenas 60 vagas.
A situação provocou a reação dos chamados excedentes, estudantes que, apesar do desempenho nas provas, não conseguiam ingressar no ensino superior por falta de vagas.
Em vez de aceitar a exclusão, os candidatos organizaram protestos e chegaram a acampar no pátio da faculdade, exigindo a abertura de uma nova turma. A mobilização terminou com uma vitória: a instituição ampliou a oferta de vagas.
O episódio fazia parte de um movimento nacional contra as limitações de acesso às universidades e as tentativas de cobrança de anuidades no ensino superior.
Na mesma época, estudantes e professores da Faculdade de Economia também se mobilizaram pela renovação do corpo docente e pela realização de concursos públicos. A luta de 1967 demonstrou que, mesmo sob um regime autoritário, a organização estudantil conseguia produzir mudanças concretas na universidade.
Também antecipou o ambiente de mobilização que atingiria seu ponto mais intenso no ano seguinte, quando a morte de um estudante no Rio de Janeiro provocaria uma onda de protestos em todo o Brasil.
A morte de Edson Luís e a explosão dos protestos contra a ditadura em 1968
O ano de 1968 tornou-se um divisor de águas na história do movimento estudantil brasileiro. E a Universidade Federal Fluminense esteve inserida no ambiente de intensa mobilização política que tomou as instituições de ensino superior.
Em 28 de março daquele ano, o estudante secundarista Edson Luís de Lima Souto, de 18 anos, foi morto por policiais militares durante uma manifestação no restaurante estudantil Calabouço, no Centro do Rio de Janeiro.
Nascido no Pará, Edson Luís participava de um protesto relacionado às condições de funcionamento do restaurante, frequentado principalmente por estudantes de baixa renda.
A morte provocou indignação nacional e transformou o jovem em um dos principais símbolos da resistência à ditadura.

Seu corpo foi levado para a Assembleia Legislativa do então Estado da Guanabara, onde milhares de pessoas participaram do velório. O funeral reuniu uma multidão nas ruas do Rio, em uma das primeiras grandes demonstrações públicas de repúdio à violência do regime militar.
A indignação se espalhou pelas universidades brasileiras, incluindo as instituições fluminenses, em um contexto de crescente organização de estudantes contra a repressão.
Na UFF, os registros históricos documentam que 1968 foi marcado pela intensa participação de estudantes e professores em discussões políticas e ações contrárias à ditadura. Os protestos desencadeados pela morte do estudante contribuíram para ampliar o enfrentamento entre a sociedade civil e o governo militar.
Em junho de 1968, a repressão a manifestações no Rio provocou novos confrontos, culminando nos acontecimentos conhecidos como Sexta-Feira Sangrenta, em 21 de junho. Cinco dias depois, em 26 de junho, aproximadamente 100 mil pessoas participaram da histórica Passeata dos Cem Mil, no Centro do Rio.
A manifestação reuniu estudantes, professores, artistas, intelectuais, religiosos e representantes de diferentes setores da sociedade. Tornou-se uma das maiores demonstrações públicas de oposição à ditadura militar.
Mais de meio século depois, a memória daqueles acontecimentos voltou a ser evocada nas manifestações estudantis de outubro de 2026.
Em entrevista à Agência Brasil, a presidente da UNE, Bianca Borges, relacionou a mobilização daquele ano ao legado das manifestações de 1968.
“Nós, inclusive, tivemos um ato no centro do Rio de Janeiro, no dia 7 [de outubro de 2026], que foi muito bonito, da Candelária à Cinelândia”, afirmou.
A dirigente também destacou que Edson Luís foi lembrado pelos manifestantes como símbolo da resistência estudantil ao autoritarismo.
A comparação histórica não significa que os contextos políticos sejam equivalentes. Em 1968, os estudantes enfrentavam uma ditadura que restringia direitos políticos e liberdades civis. Em 2026, as manifestações ocorreram durante uma eleição democrática. O elemento comum é a utilização da organização estudantil e da ocupação das ruas como instrumentos de participação política.
Jornais clandestinos, cineclubes e resistência dentro da UFF
A oposição estudantil à ditadura na Universidade Federal Fluminense não se restringia às manifestações públicas. Uma pesquisa acadêmica preservada no repositório institucional da UFF, intitulada “Repressão e Resistência: o Movimento Estudantil da UFF, do golpe de 64 ao AI-5”, recupera depoimentos e documentos que revelam como os estudantes organizavam atividades políticas e culturais em um ambiente de vigilância.
Entre as principais formas de resistência estavam os jornais produzidos pelos diretórios acadêmicos. As publicações eram datilografadas, reproduzidas em mimeógrafos e distribuídas entre estudantes de diferentes faculdades. Tratavam de assuntos relacionados à universidade, à censura, à repressão política e aos acontecimentos nacionais e internacionais.
Na Faculdade de Economia, o jornal Formigão, produzido por integrantes do Diretório Acadêmico Hermann Júnior, tornou-se um dos exemplos dessa atividade.
A publicação reunia análises econômicas e críticas à ditadura militar. Para reduzir os riscos de identificação, alguns autores assinavam textos com pseudônimos.
A produção desses jornais representava uma forma de contestação política em um período no qual a liberdade de expressão sofria restrições cada vez maiores.
Outra importante frente de resistência foi a organização de cineclubes.
Quase todas as faculdades da UFF desenvolveram atividades cinematográficas organizadas por estudantes. Os diretórios acadêmicos utilizavam projetores próprios e arrecadavam recursos para alugar filmes. As sessões incluíam produções francesas, soviéticas, polonesas, italianas e norte-americanas.
Mais do que entretenimento, os cineclubes funcionavam como espaços de formação intelectual, discussão política e convivência entre estudantes. Os debates realizados após as exibições permitiam discutir temas que frequentemente encontravam obstáculos nos espaços públicos controlados pelo regime.
O movimento estudantil também acompanhava acontecimentos internacionais, como atividades sobre a Guerra do Vietnã, a Guerra dos Seis Dias, no Oriente Médio, e a invasão da Tchecoslováquia por tropas do Pacto de Varsóvia, em 1968.
Na Faculdade de Filosofia, estudantes promoveram palestras e uma semana de solidariedade ao povo palestino. Essas iniciativas revelam uma característica importante do movimento estudantil da época: a resistência à ditadura estava associada à formação política, ao debate cultural e à discussão sobre os grandes conflitos internacionais.
A universidade funcionava, assim, como um espaço de circulação de ideias em meio às tentativas de controle da vida acadêmica.
Fernando Santa Cruz: o estudante desaparecido que se tornou símbolo da UFF
Entre os nomes ligados à história de resistência da Universidade Federal Fluminense, um dos mais emblemáticos é o de Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira.
Estudante da Faculdade de Direito da UFF, Fernando Santa Cruz participou da militância política contra a ditadura militar e integrou a organização Ação Popular Marxista-Leninista.
Em 23 de fevereiro de 1974, aos 26 anos, desapareceu no Rio de Janeiro, em um episódio posteriormente reconhecido como parte da repressão política promovida pelo Estado brasileiro.
O desaparecimento ocorreu durante o governo do general Emílio Garrastazu Médici, período marcado pela atuação dos órgãos de repressão, por prisões arbitrárias, torturas e desaparecimentos forçados.
Fernando Santa Cruz tornou-se um dos símbolos das vítimas da ditadura cujas famílias passaram décadas exigindo informações sobre seu destino.

Seu caso também integra a história das violações de direitos humanos investigadas por órgãos oficiais brasileiros, incluindo a Comissão Nacional da Verdade.
Na UFF, sua memória foi incorporada à própria identidade do movimento estudantil. Em meados da década de 1970, o Diretório Central dos Estudantes passou a adotar o nome Diretório Central dos Estudantes Livre Fernando Santa Cruz.
A homenagem representava mais do que o reconhecimento a um antigo aluno. Era uma forma de preservar a memória da repressão e afirmar a continuidade da organização estudantil em um período no qual a ditadura ainda estava em vigor.
Da repressão à reorganização estudantil na abertura política
A edição do Ato Institucional nº 5, em dezembro de 1968, aprofundou a repressão política e restringiu ainda mais as possibilidades de atuação pública dos movimentos sociais.
O fechamento de espaços democráticos, a censura e a perseguição a opositores atingiram diretamente a organização estudantil.
Ao longo dos anos seguintes, a resistência assumiu diferentes formas, desde atividades culturais e publicações até a preservação de entidades representativas e a articulação com outros setores da sociedade.
Na segunda metade da década de 1970, o movimento estudantil brasileiro começou a recuperar sua capacidade de mobilização pública, acompanhando o processo de abertura política.
Em 1977, manifestações universitárias em diferentes cidades recolocaram os estudantes nas ruas, reivindicando liberdades democráticas e denunciando a repressão.
Dois anos depois, em 1979, a UNE foi reconstruída nacionalmente durante um congresso realizado em Salvador, após anos de atuação sob perseguição.
A reorganização estudantil integrou um movimento mais amplo de fortalecimento da sociedade civil, que também envolveu sindicatos, entidades profissionais, organizações populares e setores da Igreja Católica.
Na UFF, a permanência do DCE Livre Fernando Santa Cruz como referência de representação estudantil expressava essa ligação entre memória da repressão e defesa da democracia.
Durante a década de 1980, o movimento estudantil brasileiro participou das mobilizações pela redemocratização e da campanha das Diretas Já, que exigia o restabelecimento das eleições diretas para presidente da República.
A campanha ganhou dimensão nacional em 1983 e 1984, reunindo milhões de brasileiros em manifestações públicas.
Embora a emenda constitucional que permitiria a eleição direta para presidente em 1985 tenha sido rejeitada pelo Congresso Nacional, as Diretas Já contribuíram para acelerar o desgaste político da ditadura.
A participação universitária nesse processo integra a história nacional do movimento estudantil. No caso específico da UFF, a identificação de atos, dirigentes e delegações presentes em cada manifestação depende de pesquisas adicionais nos arquivos da instituição e da imprensa da época.
A redemocratização também abriu espaço para novas pautas universitárias, relacionadas à autonomia acadêmica, ao financiamento público, à assistência estudantil e à ampliação do acesso ao ensino superior.
A abertura dos arquivos e o resgate da memória da ditadura
A Universidade Federal Fluminense também teve participação relevante na preservação de documentos relacionados à repressão política.
Em 2006, a instituição anunciou a desclassificação de documentos da antiga Assessoria de Segurança e Informação, estrutura vinculada ao sistema de vigilância existente durante o regime militar.
A medida foi formalizada pela Portaria nº 35.041 e envolveu documentos produzidos entre 1960 e 1988.
A abertura desses registros permitiu ampliar as possibilidades de investigação sobre a atuação dos órgãos de segurança, a vigilância dentro da universidade e as relações entre o poder público e a comunidade acadêmica.
A iniciativa teve importância especial porque universidades brasileiras foram submetidas, durante a ditadura, a mecanismos de controle político e monitoramento de estudantes, professores e servidores.
O acesso aos arquivos contribui para esclarecer como essas estruturas funcionavam e quais atividades acadêmicas e políticas despertavam o interesse dos órgãos de repressão.
Além desses documentos, a UFF mantém um amplo acervo histórico com fotografias, registros administrativos, publicações, documentos audiovisuais e materiais relacionados à trajetória de suas faculdades.
A preservação desse patrimônio permite reconstruir episódios que ajudam a compreender a participação da universidade na história política e social brasileira.
Também oferece fontes para pesquisas sobre personagens como Fernando Santa Cruz e sobre a atuação dos diretórios acadêmicos durante a ditadura.
Em 2026, uma nova geração recupera a tradição de mobilização
Foi nesse ambiente de memória histórica e tradição de organização estudantil que surgiu a mobilização de outubro de 2026.
Na noite de 5 de outubro, menos de 24 horas depois do primeiro turno das eleições presidenciais, estudantes da Faculdade de Direito e de outros cursos da UFF começaram a organizar manifestações em Niterói.
A iniciativa nasceu de conversas entre integrantes de ligas acadêmicas, diretórios estudantis e atléticas universitárias. Os primeiros contatos foram realizados por grupos de WhatsApp e redes sociais, com participação de estudantes de Direito, Comunicação Social, História e outras áreas. O que inicialmente seria uma atividade de organização política dentro da universidade acabou ganhando as ruas.

No dia seguinte, uma nova manifestação partiu do campus do Gragoatá, ampliando a mobilização iniciada na Faculdade de Direito. A repercussão nacional estimulou a realização de atos em outras instituições de ensino superior.
No dia 7 de outubro, estudantes realizaram uma manifestação no Centro do Rio de Janeiro, percorrendo o trajeto entre a Candelária e a Cinelândia, locais historicamente associados a grandes mobilizações populares.
A presidente da UNE, Bianca Borges, relacionou aquele movimento à tradição estudantil de 1968 e à memória de Edson Luís.
Nos dias seguintes, professores e servidores também ampliaram a participação nas manifestações. Em 8 de outubro, uma assembleia da Associação dos Docentes da UFF (Aduff), realizada simultaneamente em sete municípios, aprovou apoio à candidatura de Lula no segundo turno. A decisão foi tomada pela entidade sindical, e não pela administração da universidade.
No dia 15, estudantes, professores e técnicos administrativos participaram de uma manifestação que percorreu a região da Cantareira e seguiu até a Praça Arariboia e o Terminal Rodoviário de Niterói.
Na reta final da campanha, outras atividades foram organizadas em diferentes cidades fluminenses, incluindo Volta Redonda, Campos dos Goytacazes e Rio das Ostras.
A mobilização ocorreu em um contexto de disputa eleitoral intensa e de organização de movimentos sociais em defesa de diferentes candidaturas.
A vitória de Lula, em 25 de outubro, encerrou a eleição, mas também colocou em evidência a participação de uma nova geração de estudantes na política nacional.






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