O revolucionário chefe da polícia de Getúlio Vargas que transformava a delegacia em cassino particular
Reportagem Especial

O revolucionário chefe da polícia de Getúlio Vargas que transformava a delegacia em cassino particular

João Alberto foi revolucionário antes de saber o que significava ser um; governou São Paulo por oito meses de atrito e foi xerife de Vargas. Sua biografia é a prova de que, no Brasil, até a revolução pode acabar em uma roda de pôquer

O tenente pernambucano João Alberto Lins de Barros tomou posse como interventor de São Paulo em 26 de novembro de 1930, deixou o cargo em 25 de julho de 1931, chefiou a polícia do Distrito Federal em 1932 e 1933 e voltou em 1945. Nesse último ano, a escolha do irmão de Getúlio Vargas para ocupar o posto dele foi o gatilho que levou o general Góis Monteiro a depor o presidente, em 29 de outubro.

Para quem passou a juventude marchando pelo interior do país contra o governo, o currículo seguinte soa quase conciliador. João Alberto virou governante, policial, deputado, embaixador, presidente de companhia aérea, diretor de rádio, primeiro presidente de um centro de pesquisas em física e vereador e presidente da Câmara do Distrito Federal em 1947. No caminho, foi hostilizado pelas forças políticas tradicionais paulistas e acusado de traidor por Luís Carlos Prestes, o que lhe garantiu a rara regularidade de quem desagrada em estéreo.

Mas a história do pôquer na delegacia permanece uma das imagens mais saborosas associadas a ele, justamente porque reúne dois mundos que raramente aparecem juntos numa fotografia oficial. Mas a anedota ganha sentido quando colocada ao lado da trajetória de um revolucionário que ajudou a derrubar a Primeira República e depois participou da construção de um Estado mais centralizado. O homem que intimava parceiros para jogar cartas era o mesmo que comandava uma instituição encarregada de controlar a ordem pública. A história não precisa inventar fichas, charutos, diálogos ou madrugadas cinematográficas. A contradição já está posta nos fatos. João Alberto passou de perseguido político a responsável pela perseguição política e deixou uma biografia em que revolução, poder e a informalidade se encontram numa mesma mesa.

“Primeiro fiz a revolução, depois é que fui revolucionário”

João Alberto Lins de Barros nasceu em no Recife em 16 de junho de 1897, estudou engenharia e ingressou na carreira militar, alcançando o posto de capitão. Sua formação inicial, porém, não indicava o futuro agitador político que se tornaria após os levantes tenentistas do início dos anos 1920.

Isto porque sua adesão definitiva ao tenentismo começou na cadeia e teve forte influência do futuro marechal Juarez Távora, que ficou conhecido como o “vice-rei do Norte”. Segundo relatos reproduzidos em estudos sobre o movimento, João Alberto foi preso e confinado na Fortaleza de Santa Cruz, onde conviveu por cinco meses com oficiais ligados aos irmãos Juarez e a Joaquim Távora, experiência que o transformou de tenente interessado em fazer contas em militante da causa revolucionária.

A célebre declaração, “primeiro fiz a revolução, depois é que fui revolucionário”, aparece registrada em fontes históricas sobre sua trajetória. Ela expressa com precisão a lógica do período: a ação armada veio antes, a identidade ideológica foi construída no caminho, entre prisões, exílios e conspirações, muitas conspirações.

O “tenente” João Alberto Lins de Barros em traje militar (Crédito: Reprodução)

De Copacabana à maior epopeia militar da América Latina

Em 1924, João Alberto voltou a participar de um levante militar, desta vez ligado à revolta deflagrada em São Paulo. Após a derrota, os insurgentes, fugindo das forças federais, encontraram no oeste paranaense um outro destacamento revolucionário que marchava desde o Rio Grande do Sul.  Deste encontro nasceu a famosa Coluna Prestes.

A coluna com cerca de1.500 homens percorreu mais de 25 mil quilômetros pelo interior de 13 estados brasileiros, enfrentando tropas governistas e procurando disseminar a oposição ao governo de Artur Bernardes. A experiência consolidou sua reputação de revolucionário e o inseriu numa rede de relações que seria decisiva anos depois.

E ali João Alberto foi comandante, não coadjuvante. Em dezembro de 1924, Prestes dividiu a tropa em três destacamentos, chefiados por Mário Portela Fagundes, João Alberto e Siqueira Campos. A marcha terminou em fevereiro de 1927, quando a tropa seguiu com Prestes para a Bolívia. Lá, o “cavaleiro da esperança”, João Alberto, Miguel Costa e Cordeiro de Farias foram discutir como reerguer o movimento.

A Coluna Prestes foi resultado de dois movimentos revolucionários que se encontraram no oeste do Paraná (Crédito: Reprodução)

A queda de avião e o rompimento com Prestes

A saída foi para a clandestinidade. De volta ao Brasil, assumiu o nome falso de Nélson de Castro e foi trabalhar em Pernambuco. Descoberto, mudou-se em março de 1928 para o Rio, depois para Buenos Aires. No meio disso acabou construindo estradas no Paraná, com nome falso. Mas em 10 de maio de 1930 veio o susto maior.

O avião em que estava caiu nas águas do Rio da Prata. Siqueira Campos, um dos heróis dos 18 do Forte, morreu e João Alberto sobreviveu nadando bravamente por quase três quilômetros nas águas geladas até chegar à costa uruguaia. O objetivo da dupla era tentar convencer Prestes a não publicar um manifesto de adesão ao comunismo, com medo de que isso dividisse as forças da Revolução de 1930 que estava sendo planejada.

A passagem da revolta militar para a política nacional não foi uma mudança súbita de carreira, foi o resultado de anos de contatos, derrotas e reorganização de rumo. Em outubro, o movimento armado derrubou o presidente Washington Luís e impediu a posse de Júlio Prestes. Vargas assumiu o Governo Provisório em novembro, e os antigos tenentes passaram a ocupar posições importantes na nova estrutura de poder.

Siqueira Campos, um dos heróis dos 18 do Forte, morreu numa queda de avião no Rio da Prata (Crédito: Reprodução)

“Forasteiro e plebeu”: oito meses em que São Paulo jurou não esquecer João Alberto

A escolha saiu de um trem. O grupo de comando da revolução, que vinha do Sul com Osvaldo Aranha, Miguel Costa e outros, decidiu nomear um delegado militar para o governo paulista, e o nome de João Alberto foi endossado por Vargas. A decisão contrariou o Partido Democrático, que esperava a indicação de Francisco Morato. A elite local o tratava como “forasteiro e plebeu” ou simplesmente “o pernambucano”. Miguel Costa ficou com a Força Pública, o que concentrava nos dois tenentes o controle da ordem pública e alimentava o conflito com as forças políticas tradicionais paulistanas.

A decisão terminou em várias polêmicas. O interventor permitiu o funcionamento legal do Partido Comunista, decretou aumento salarial de 5%, semana de 40 horas, ameaçou confiscar fábricas que descumprissem as regras e criou a Legião Revolucionária. Mas se antes da posse, ele aumentou salários e reduziu jornada; depois, reprimiu greves.

As paralisações envolveram, segundo o Diário Nacional, 8.400 grevistas em 31 fábricas. Em 6 de novembro de 1930, Prestes publicou um manifesto contra ele. Do lado tenentista, o tenente João Cabanas escreveu que João Alberto merecia respeito como militar, mas nenhum elogio como homem público. Em 28 de abril de 1931, oficiais da Força Pública e membros do PD tentaram um levante, sufocado rapidamente.

Hostilizado, ele veio a Guanabara, onde se reuniu com Vargas, Osvaldo Aranha e Flores da Cunha. Vargas então trocou-o por um civil paulista, nomeou um banqueiro da cidade para a Fazenda e anunciou data para uma Constituinte. Não bastou: a passagem de João por São Paulo é apontada como uma das causas da Revolução Constitucionalista de 1932.

João Alberto durante o ato de posse como interventor de São Paulo (Crédito: Reprodução)

De interventor a xerife do Rio

Mesmo depois da saída de São Paulo, João Alberto não perdeu prestígio junto a Vargas. Em 1932, foi nomeado chefe de polícia da Guanabara, então Distrito Federal, cargo que o colocava no centro da segurança do regime, com poder para vigiar opositores, controlar manifestações e administrar a repressão política na capital federal.

Ele permaneceu na função até 1933 e voltaria ao posto em 1945, já sob a estrutura do Departamento Federal de Segurança Pública. A segunda passagem, porém, seria bem menos tranquila, porque coincidiu com a agonia do Estado Novo.

Em outubro de 1945, João Alberto proibiu um comício queremista marcado para o dia 27, movimento que pedia a permanência de Getúlio Vargas no poder. A decisão irritou o presidente, que decidiu substituí-lo por Benjamim Vargas, seu irmão, conhecido como “Bejo”. A troca foi interpretada pelos adversários como manobra para garantir a continuidade de Vargas no poder. Mas o efeito foi o oposto do esperado.

A nomeação do irmão do presidente desagradou profundamente os militares, que acostumados, sentiram ao longe o cheiro de outro golpe e pressionaram Vargas a renunciar, precipitando o fim do Estado Novo em 29 de outubro de 1945.

Mas nesse tempo, João Alberto pôde fazer o que mais gostava: jogar cartas.

Distintivo da polícia especial criada e comanda por João Alberto no governo Vargas
(Crédito: Reprodução)

O pôquer nas delegacias e a informalidade com poderosos

Foi nesse período como xerife do Rio que João Alberto criou uma das melhores histórias de bastidores da política nacional. Ele simplesmente intimava pessoas de madrugada para comparecer a uma determinada delegacia para formar uma roda de pôquer. O jogo ainda era legalizado no Brasil naquela época.

Os tempos eram de profundas perseguições políticas, e na Guanabara, todo carioca ou simpatizantes com alguma influência ou dinheiro, se sentia uma potencial vítima de denúncias ou intrigas. Mas quando os insones e apavorados intimados chegavam à delegacia, encontravam João Alberto sorridente, oferecendo uísque sentado em frente a uma mesa de pôquer onde a jogatina avançava até o amanhecer.

João Alberto ocupou depois vários cargos de peso, mas em entrevistas costumava dizer que “o melhor de todos foi o de chefe de polícia”. Quando indagado sobre o motivo, respondia: “pela soma de autoridade que me dava”. Poder é isso aí.

João intimava políticos e empresários de madrugada para comparecer à delegacia e….jogar pôquer com o xerife (Crédito: Reprodução)

O que João Alberto fez depois da farda e do distintivo?

Ele aparentemente sempre saía bem na foto. Virou diplomata em 1935, com equiparação a ministro de primeira classe, e foi o primeiro embaixador brasileiro no Canadá, de abril de 1941 a julho de 1942. Antes, representou o país na Argentina em 1937 e 1938. Em 1942, presidiu a Coordenação de Mobilização Econômica, um superministério com poder sobre preços, salários, metas de produção e abastecimento. Entre as tarefas estava a borracha na Amazônia: a meta era fixar 50 mil homens, mas o número não passou de 10.500 em 1943.

No cargo sofreu com denúncias, mas nunca se abalou. Foi acusado de monopolizar o comércio de charque, de não dar sal aos pecuaristas sem receber propinas e de não assinar qualquer autorização de compra e venda sem receber um por fora.

Após 1945, ele entrou no PSD e apoiou Dutra para presidente. Foi vereador e presidente da Câmara do Distrito Federal em 1947 e chefe do Departamento Econômico do Itamaraty em 1950. Com o segundo governo Vargas, em 1951, voltou a ocupar cargos técnicos na administração federal e a cumprir missões no exterior. Fora do Estado, presidiu a empresa aérea Transcontinental, dirigiu a Rádio Mayrink Veiga, foi o primeiro presidente do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas e participou da criação da Fundação Getúlio Vargas, da Orquestra Sinfônica Brasileira e até do Cordão do Bola Preta.

João Alberto Lins de Barros morreu em janeiro de 1955, na Guanabara, aos 58 anos em um dos apartamentos do anexo do Copacabana Palace. Um homem de fortuna e bom gosto. Em mais uma excelente tirada, durante uma entrevista pouco antes de morrer, declarou ao jornalista da revista O Cruzeiro: “se eu tivesse caído na China, acabaria mandarim”. Parece fanfarronice, ou coisa de quem sabe o calibre que tem

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