A história do ministro da Fazenda que saiu do governo e foi descolar um dinheiro emprestado
Reportagem Especial

A história do ministro da Fazenda que saiu do governo e foi descolar um dinheiro emprestado

Antônio Carlos Ribeiro de Andrada passou pelas posições mais altas da República, governou Minas, articulou a Revolução de 1930 e ocupou a Presidência. Mas a história o eternizou por uma cena menos solene: a procura por sete contos de réis para pagar dívidas

Antônio Carlos Ribeiro de Andrada carregava um sobrenome fundador da nação. E manteve o padrão familiar. Foi ministro da Fazenda de Venceslau Brás, presidente de Minas Gerais, presidente da Constituinte e da Câmara dos Deputados. E entre 17 de maio e 8 de julho de 1935, exerceu a Presidência da República durante uma viagem de Getúlio Vargas ao Uruguai e à Argentina. Mas foi a vida privada que rendeu uma história que parece piada. Um ex-ministro da Fazenda, com a lembrança de ter cuidado do caixa do país numa guerra mundial, batendo à porta de uma seguradora atrás de um empréstimo.

A história chama mais atenção porque contraria uma associação infelizmente quase automática entre o poder político e o acúmulo de riqueza pessoal. Antônio Carlos Ribeiro de Andrada foi um dos políticos mais influentes da Primeira República. Sua imagem pública combinava reformismo, habilidade negociadora e uma frase que se tornou símbolo da Revolução de 1930: “Façamos a revolução antes que o povo a faça.”

Mas ele foi menos um ideólogo e mais um operador político de altíssimo nível. Antônio Carlos entendeu, antes de muitos contemporâneos, que a República Velha não sobreviveria sem reformas. Mas que essas reformas precisavam ser conduzidas de cima para baixo, sob controle das elites. Sua trajetória mostra como a política brasileira da primeira metade do século XX se movia entre acordos familiares, alianças regionais e rupturas abruptas. Da Independência à Revolução de 1930, os Andradas estiveram presentes nos momentos mais decisivos do país que surgia, e Antônio Carlos foi talvez o mais habilidoso representante dessa tradição no século XX.

De Barbacena ao cheque em branco no Ministério da Fazenda

Antônio Carlos nasceu em Barbacena, filho de Antônio Carlos Ribeiro de Andrada e de Adelaide Feliciano Duarte de Andrada. Formou-se em 1891 pela Faculdade de Direito de São Paulo e começou a vida profissional como promotor público em Ubá, na Zona da Mata mineira.

A ascensão política veio pela habilidade em fazer contas: foi secretário de Finanças de Minas Gerais entre 1902 e 1906 e deputado federal pelo Partido Republicano Mineiro a partir de 1911. Na Câmara, integrou a Comissão de Finanças, que presidiu em 1914, e foi líder da maioria. Em 1917 trocou o Legislativo pela pasta da Fazenda. Ocupou o cargo de 6 de setembro de 1917 a 1º de novembro de 1918, no governo Venceslau Brás.

O período coincide com o fim da Primeira Guerra Mundial. E estar à frente da pasta da Fazenda em meio a guerra que prometia acabar com todas as guerras, basicamente autorizava o titular a aplicar recursos aqui ou ali em situações extremas, sem precisar de muitas autorizações nem explicações. Na prática, ele um cheque em branco para gastar quando quisesse. O que torna o episódio do empréstimo mais chamativo.

Antônio Carlos Riberio de Andrada na posse do governo de Minas Gerais (Crédito: Reprodução)

O peso do sobrenome e a árvore genealógica e política dos Andradas

A família Andrada é até hoje uma das mais notáveis dinastias políticas brasileiras. Antônio Carlos era sobrinho-neto de José Bonifácio de Andrada e Silva, o “Patriarca da Independência”, principal líder político do processo de independência do Brasil em 1822.

A ligação familiar era dupla. Pelo lado paterno, ele era sobrinho-neto de José Bonifácio; pelo lado materno, neto do Patriarca. Seu pai foi o conselheiro Martim Francisco Ribeiro de Andrada, e seus irmãos incluíam José Bonifácio, o Moço, e Martim Francisco, outro Moço, nomes que também marcaram a política imperial e republicana.

O próprio Antônio Carlos tinha um irmão homônimo de parte do ancestral célebre: José Bonifácio de Andrada e Silva, deputado federal por Minas Gerais de 1899 a 1930. O clã político está entre os mais longevos do Brasil e a linhagem seguiu na vida pública. José Bonifácio Lafayette de Andrada foi deputado federal entre 1946 e 1979, e Antônio Carlos Lafayette de Andrada ministro do STF, de 1945 a 1969.

Nas eleições deste ano Lafayette Andrada, filho do deputado Bonifácio Lafayette, foi eleito deputado federal pelo PL de Minas. E seu sobrinho, Doorgal Andrada (PP), está no terceiro mandato de deputado estadual na Assembleia mineira. Essa turma pelo visto vai longe.

O Patriarca da Independência, tio-avô de Antônio Carlos
(Crédito: Reprodução)

O causo que criou a fama de honesto

Ao deixar a Fazenda em 1918, Antônio Carlos foi à Companhia Sul América, onde era segurado, pedir um empréstimo de sete contos de réis. O presidente da seguradora, Moreira Guimarães, teria estranhado que alguém com autorização para sacar contra todos os bancos do país durante a guerra saísse do cargo sem um tostão no bolso.

“Quero abraçar o homem que, deixando o Ministério da Fazenda, vem pedir sete contos emprestados à Sul América”, disse Moreira Guimarães, segundo o relato reproduzido em 1943 pelo jornalista Joel Siveira após entrevistas com Antônio Carlos. A crônica “Os Andradas nunca se preocuparam com dinheiro”, que conta história em detalhes foi republicada em 2010 pela Companhia das Letras na coletânea de textos de Joel Silveira intitulada “A feijoada que derrubou o governo”.

Antônio Carlos não só conseguiu a bufunfa como aceitou convite para o conselho da Sul América e logo depois se tornou um dos diretores da empresa. Mas o episódio é revelador porque contrasta com a fama de Antônio Carlos como grande articulador político e homem de Estado. Ele comandou a pasta da Fazenda em um momento difícil da Primeira República, mas a saída do cargo não o deixou financeiramente resolvido.

O tradicional edifício Galeria, sede da Companhia Sul América de Seguros (Crédito: Reprodução)

“Façamos a revolução antes que o povo a faça”

A frase atribuída a Antônio Carlos foi pronunciada em 1929, no contexto da convenção que lançou a candidatura de Getúlio Vargas à Presidência pela Aliança Liberal. A Câmara dos Deputados registra a autoria da frase, e pesquisas acadêmicas a tratam como uma das formulações mais conhecidas do líder mineiro.

Diante do rompimento da aliança entre paulistas e mineiros, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba formaram uma aliança em torno da candidatura de Getúlio. Antônio Carlos foi um dos principais articuladores do acordo, cujas ações levariam Vargas ao poder. A frase, na verdade, resumia o esforço das oligarquias para liderar a ruptura com o governo de Washington Luís sem perder o controle do processo.

Getúlio Vargas levando um papo-cabeça com Antônio Carlos (Crédito: Reprodução)

O primeiro Andrada no topo do poder?

Antônio Carlos Ribeiro de Andrada exerceu a Presidência da República de 17 de maio a 8 de julho de 1935, enquanto Vargas viajava ao Uruguai e à Argentina. Antes disso, foi presidente de Minas Gerais entre 1926 e 1930 e, depois, presidente da Assembleia Nacional Constituinte de 1933 a 1934 e da Câmara dos Deputados de 1934 a 1937.

Mas apesar desse currículo vistoso ele não foi o primeiro integrante do clã a chegar às mais altas esferas do poder. Os Andradas ocuparam o centro do governo desde a Independência. José Bonifácio organizou o ministério de janeiro de 1822 e liderou a pressão pela independência, e Martim Francisco foi ministro da Fazenda de julho de 1822 a julho de 1823 e de novo em 1840 e 1841. E tem ainda um Antônio Carlos de 1773, que foi secretário de Estado dos Negócios do Império de 1840 a 1841.

Antônio Carlos assinando a Constituinte de 1934 (Crédito: Reprodução)

Qual foi o seu legado?

O saldo administrativo em Minas é significativo. Em 1927 ele instituiu o voto secreto nas eleições municipais e estaduais mineiras, fato inédito no país. No mesmo ano criou a Universidade de Minas Gerais, futura UFMG. Na Fazenda, deixou reformas na arrecadação e nos impostos. Já na política nacional, o legado mais debatido é o papel que exerceu na Aliança Liberal, que desmontou o pacto paulista-mineiro da República Velha, do qual ele próprio era um dos beneficiados.

A memória familiar guardou o personagem. Em 1946, o filho Fábio Andrada organizou a coletânea Antônio Carlos, o Andrada da República, e a neta Maria Andrada Batista de Oliveira Mega publicou em 1980 uma monografia sobre ele. Um estudo acadêmico da UFMS trata o tema pelo viés da tradição, ou seja, de como o peso do sobrenome moldou a biografia dele. Depois do Estado Novo, Antônio Carlos abandonou definitivamente a política e passou a se dedicar ao emprego na diretoria da Sul América.

Antônio Carlos reúne, na mesma biografia, a Fazenda, a Câmara, o governo de Minas, a Constituinte de 1934 e uma passagem curta pelo Planalto. Foi um Andrada que governou numa época em que os Andradas já eram patrimônio da memória nacional. O sobrenome abriu portas, mas a carreira foi dele, e o desfecho, com Vargas fechando o Congresso em 1937, mostra que habilidade não bastou diante de quem tinha o poder de ditar as regras.

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