Enéas Carneiro: conheça a vida e obra do cardiologista que fez um país inteiro decorar seu nome
Reportagem Especial

Enéas Carneiro: conheça a vida e obra do cardiologista que fez um país inteiro decorar seu nome

Surpresa em 1989, terceiro em 1994, recordista de votos em 2002 e motorista de cinco caronas na Câmara, o cardiologista da bomba atômica provou que barba, Beethoven e falar com pressa ainda rendem mais que discutir orçamento

Nas primeiras eleições diretas para Presidente após a Ditadura Militar, em 1989, um cardiologista barbudo entrou no páreo por um partido de nome estranho e sem um mísero parlamentar. Mas o Brasil é um país generoso, e ele recebeu 15 segundos de horário eleitoral e os usou, calculando como não desperdiçar um só segundo, para se apresentar e dizer o próprio nome. Deu certo. Em 2002, com 1.573.642 votos em São Paulo, tornou-se o deputado federal mais votado da história do país até então.

“Meu nome é Enéas”, dito com forte convicção, virou bordão antes do personagem ser levado a sério. O slogan passou a ser parodiado em propagandas e programas de TV. Alguns jornais e revistas o rebaixaram a “voto cacareco”, em comparação com o rinoceronte que virou vereador simbólico em São Paulo, em 1959. O próprio Enéas definia o tempo de TV como esmola. Ele repudiava marqueteiros e propagandas elaboradas, e em 1994 declarou gastos de R$ 137 mil na campanha toda, dos quais R$ 120 mil eram dele. Com esse orçamento de quermesse, ficou à frente de três ex-governadores.

O mais divertido na trajetória de Enéas é tentar entender como um político que desprezava a publicidade virou case de marketing bem-sucedido, e como o sistema proporcional, a Quinta de Beethoven e a bomba atômica conseguem caber numa mesma biografia. A de um político que jurou que só disputaria uma eleição, mas acabou em três corridas presidenciais, uma para a Prefeitura de São Paulo, além da Câmara dos Deputados.

A Bíblia do Enéas

Enéas Carneiro tinha um currículo que a caricatura escondia. Nascido em Rio Branco, em 1938, filho de um barbeiro, ficou órfão de pai aos nove anos. Entrou na Escola de Saúde do Exército e saiu terceiro-sargento auxiliar de anestesia, primeiro da turma, depois de oito anos de serviço no Hospital Central, com mais de 5 mil anestesias e a Medalha Marechal Hermes. Formou-se em Medicina em 1965 pela Escola de Medicina e Cirurgia do Rio e fez mestrado na UFRJ. Em 1968 licenciou-se em Matemática e Física.

Sua obra principal é “O Eletrocardiograma”, considerado uma referência no campo da Medicina e apelidado de “Bíblia do Enéas”. Ele começou a dar aulas em 1962, preparando alunos para vestibulares de Física e Engenharia, foi também professor no Instituto de Pós-Graduação Médica de 1979 a 1988 e presidiu a Sociedade de Cardiologia do Rio em 1986 e 1987. Mas aqui há outro detalhe saboroso que o barbão não escondia. Apesar do “doutor” no nome de guerra, ele nunca defendeu uma tese de doutorado na vida. Malandro…

O “doutor sem doutorado” escreveu livros de referência no campo da Medicina (Crédito: Reprodução)

A política pela porta da cozinha

Até a história da entrada de Enéas na política rende um bom causo. Contemporâneos dele diziam que foi sua ex-mulher, Adriana, que cansada das constantes reclamações dele sobre a situação do país, quem sugeriu a ele fundar um partido e se candidatar.

Mas o personagem de TV escondia mais complexidade do que o bordão sugeria. Enéas, por exemplo, elogiava a filosofia marxista como construção teórica, embora criticasse sua realização prática, combatia as privatizações e nunca caiu na lorota de perigo comunista. Em 1989 lamentou o golpe de 1964 e, como deputado, elogiou a “revolução”.

Sobre a hipótese de que a rigidez das ciências exatas teria moldado sua visão de Estado e de ordem, ela é pitaco de pesquisador, e não fato documentado. O que os trabalhos consultados mostram é que ele dizia gostar de autoridade, ordem, respeito, e definia como clássico o que é eterno, citando Newton, Camões e Adam Smith.

O que era o PRONA?

Rotular o PRONA dá trabalho. O historiador Odilon Caldeira Neto o classificou em um estudo como “antineoliberal” do campo da direita nacionalista. O próprio Enéas rejeitava a divisão esquerda e direita e dizia ser apenas nacionalista. Odilon o enquadra no conservadorismo clássico, com apego à tradição, valores morais cristãos e crítica ao culto da modernidade.

Ele via a ditadura como fracasso na liberdade de expressão, mas reconhecia que ela impulsionou a industrialização. Essa é a pista mais sólida para ligar o PRONA ao nacional-desenvolvimentismo. Uma suposta admiração pelo positivismo militar do século XIX é uma hipótese interpretativa, porque os estudos consultados não a demonstram.

A aparição relâmpago

Primeira eleição para presidente por voto direto desde 1960, o pleito de 1989 contou com impressionantes 22 candidatos. Tinha de tudo um muito. Um deles, o pomposo Partido de Reedificação da Ordem Nacional (PRONA) recebeu registro provisório em junho daquele ano, e o temor era ficar sem tempo de TV por não ter deputados nem senadores.

O problema foi contornado com a filiação do deputado fluminense Gustavo de Faria. Sobrou o mínimo. O historiador Odilon Caldeira Neto registra 15 segundos na estreia, em que Enéas se disse professor de cardiologia e prometeu não concorrer a mais nada se perdesse. O cronômetro varia conforme a fonte. Um trabalho apresentado no Intercom fala em 17 segundos. Numa palestra na USP em 2000, o próprio Enéas falou em 12.

Já a promessa de aposentadoria política durou mais tempo, até 2000, quando ele concorreu à Prefeitura de São Paulo.

E o que dava pra fazer nesse suspiro de tempo?

A estética tinha três ingredientes bem documentados. As propagandas do partido usavam a Quinta Sinfonia de Beethoven como trilha sonora. A fala era rápida e nervosa, o visual de barba densa e óculos de lentes grossas chamavam a atenção pelo estranhamento. E havia, claro, o bordão final que todo mundo conhece.

Há uma lenda nos bastidores da política que Enéas era tão geek que o ritmo teria sido calculado em palavras por segundo. Não há prova documental alguma. Apenas uma declaração do próprio Enéas de que com poucos segundos a ideia era fazer o eleitor gravar o nome. Gostar ou não era assunto para outro momento.

O candidato que deu um susto nos bastidores do poder em apenas 15 segundos (Crédito: Reprodução)

Como assim?

Porque o resto era pura guerrilha. Enéas gravou seu programa de governo em fitas cassete e as distribuiu pelos jornais e entidades importantes do país, e sua entrevista no Jô Soares Onze e Meia foi o ponto alto da campanha. O resultado de 1989 foi modesto: 12º lugar, com 360.561 votos, 0,5% do total. Em 1994 a história mudou de escala.

Com programa de governo escrito com apoio de amigos intelectuais e mais tempo no ar, ele chegou a 7,38% dos votos válidos e ao terceiro lugar, atrás de Fernando Henrique Cardoso e de Lula. Foram 4.671.457 votos. Ficaram para trás ex-governadores como Brizola, Quércia e Esperidião Amin.

E aqui cabe um detalhe saboroso. Enéas foi o primeiro candidato a pedir dinheiro no horário eleitoral, oferecendo bônus de campanha a (atuais) R$ 25. Seu eleitorado fugia do estereótipo do desvalido. Segundo o Datafolha, 59% dos seus eleitores tinham renda acima de cinco salários-mínimos e 48% haviam cursado o 2º grau ou o ensino superior.

O estilo Enéas virou paródia no mundo da publicidade (Crédito:Reprodução)

Um programa que até o Brasil achou exótico demais

Em 1998, Enéas foi descrito como outsider por três ideias: construir a bomba atômica, prender os responsáveis pelas privatizações, reverter as reformas econômicas do Real e dar o beiço na dívida externa. Também defendia reestatizar as empresas privatizadas, e em entrevista concedida ao jornal Tribuna da Imprensa,  disse que pretendia, no mínimo, triplicar o efetivo das forças armadas, para ter um braço armado do povo.

Mas o tema nuclear custou caro nas urnas. Ele caiu de 7% numa pesquisa de março para 2,13% (1.447.089 votos), quarto lugar, atrás de Ciro Gomes. Um deputado do PDT chegou a pedir a impugnação da candidatura por “crime de lesa humanidade”. Em 2000, num debate em São Paulo, ele resumiu: “o domínio do poder nuclear é uma questão de soberania nacional”.

Em 1998 Enéas defendeu que o Brasil desenvolvesse a bomba atômica, mas o eleitor não aprovou (Crédito: Reprodução)

Uma correção de rumo, 1,5 milhão de votos, cinco caronas e muita confusão

Em 2002, as pesquisas davam a Enéas 2% das intenções de voto para presidente, com 72% de rejeição segundo o Ibope. O personagem precisava de uma repaginada e ele decidiu concorrer a uma vaga de deputado federal por São Paulo.

Teve 1.573.642 votos, que o sistema proporcional converteu em cadeiras para outros cinco nomes do PRONA. E atenção para os detalhes: Amauri Gasques, com 18.421 votos, o que não é lá grandes coisas, mas tudo bem; Irapuan Teixeira com 673, Elimar Máximo Damasceno, com 484; Ildeu Araújo, com 382, e Vanderlei Assis com 275. Ou seja, quatro deles não conseguiram nem mais de mil votos.

Para quem não entende o mecanismo, o quociente eleitoral é a divisão dos votos válidos pelas cadeiras em disputa, e a votação de Enéas valia várias cadeiras para o partido. Assim, quem ocupou as sobras foi quem vinha logo atrás na lista do PRONA, mesmo que com votação menor do que de presidente de Centro Acadêmico. Mas festa durou pouco.

Logo após a eleição surgiram gravações em que uma deputada estadual do PRONA negociava vagas na legenda em troca da compra de cartilhas do partido. Em 2003, o sigilo bancário e fiscal de Enéas foi quebrado por suspeitas de venda de candidaturas. Nada foi provado contra ele. Mas ainda em 2003, três daqueles cinco eleitos de carona trocaram o PRONA pelo PP, e Amauri Gasques foi para o PL. Só Elimar ficou com Enéas. O máximo.

A consagração em 2002: 1,5 milhão de votos para deputado federal (Crédito: Reprodução)

O legado do barba

Em 2006 Enéas foi diagnosticado com leucemia mieloide aguda e, antes da quimioterapia, decidiu dar adeus ao barbão. Morreu no ano seguinte, no Rio. Sua memória foi reapropriada por grupos de direita nos últimos anos, e em 2017 a Câmara rejeitou projeto de Jair Bolsonaro para a inclusão do nome dele no Livro dos Heróis da Pátria.

Mas, segundo o professor Caldeira Neto, as bandeiras atribuídas a ele nem sempre são precisas, e as privatizações eram para Enéas um mal maior que qualquer perigo comunista. Em 2018, a filha Gabriela tentou o governo de Minas com o mote “Meu nome é Gabriela Enéas”. Se o PRONA antecipou pautas soberanistas é questão de leitura política. Os fatos documentados são o programa, os votos e um baita susto nos adversários.

A memória de Enéas foi reapropriada por grupos de direita (Crédito: Reprodução)

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