O voto é um direito estabelecido como instrumento de poder no modelo democrático. No Brasil colonial, a primeira votação ocorreu em janeiro de 1532, na primeira vila fundada pelos portugueses, em São Vicente, litoral de São Paulo. De lá para cá, o acesso à escolha passou por diferentes etapas. Em alguns momentos, não havia restrições; em outros, mulheres, negros e analfabetos ficavam de fora. As contradições permaneceram até a promulgação da Constituição Federal de 1988, que consolidou o voto como universal e secreto. Nas eleições gerais de 2026, no entanto, 33,4 milhões de pessoas decidiram se abster do direito.
A abstenção no primeiro turno das eleições de 2026 bateu recorde, com 21,08% dos eleitores ausentes. No estado do Rio de Janeiro, o índice foi o segundo maior do país. Ao todo, 2.997.846 eleitores fluminenses deixaram de comparecer às urnas.
Entre os eleitores que não foram votar, as razões são diversas. Há quem enfrente dificuldades de deslocamento ou dependa de terceiros para chegar à seção eleitoral. Outros são prejudicados pela situação da segurança pública — a falta dela, nos territórios onde vivem.
Além desses grupos, há eleitores desesperançosos, que rejeitam as opções disponíveis e perderam a fé nas instituições políticas. Há também aqueles que preferem “não se envolver com política”.
No final, todos entram na conta. Segundo os especialistas ouvidos pela Agenda do Poder, na reta final do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, talvez seja difícil que os candidatos conquistem os votos de quem se absteve no primeiro turno. Ainda assim, recuperar a confiança de quem se afastou por descrédito no processo democrático é um desafio para as campanhas.
Crise de confiança nas instituições

“É uma grande desesperança das pessoas em relação à política ou uma falta de legitimidade das instituições políticas representativas, como o Legislativo, o Executivo, os cargos eleitos ou o Judiciário. As pessoas esperam cada vez menos e têm cada vez mais desconfiança. Algumas chegam a odiar essas instituições. Tudo isso contribui muito para as pessoas não irem votar”, disse o cientista político João Feres, professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
Segundo ele, a possibilidade de justificar a ausência com mais facilidade, por meio do aplicativo e-Título, também pode contribuir para a abstenção. Diferentemente de anos atrás, quando o procedimento exigia comparecimento presencial ao cartório eleitoral, hoje a justificativa pode ser feita de forma mais simples. Além disso, o especialista aponta a fragmentação dos meios de comunicação como outro fator que influencia a relação entre eleitores e política.
Como Agenda do Poder mostrou em reportagens anteriores, as eleições de 2026 também foram marcadas pela transição da campanha e da comunicação política para as redes sociais. É pelas telas dos celulares que parte dos eleitores prefere se informar. Nesse cenário, o desafio dos candidatos é alcançar públicos que estão fora de suas redes de contato e das bolhas de informação, em um ambiente no qual o acesso às mensagens políticas não ocorre da mesma forma para todos.

“Hoje em dia, pela primeira vez em uma eleição, eu vi uma virada: a maioria dos eleitores se informa sobre os políticos, as propostas e a eleição por meio das redes sociais, particularmente o Instagram, que é muito forte. E o que acontece? É muito difícil pensar em uma campanha e em como o candidato vai chegar a esse eleitor”, enfatiza João Feres.
Ainda segundo o professor, que produz pesquisas qualitativas e quantitativas na seara eleitoral, a desesperança política também está relacionada a um processo que se consolidou com a cobertura televisiva. Segundo ele, a atenção recorrente aos grandes esquemas de corrupção contribuiu para que parte dos eleitores passasse a associar a política à ideia de que todos os políticos são iguais. O famoso “farinha do mesmo saco”.
“Existe um processo de longa data na sociedade brasileira de perda de legitimidade das instituições. Isso se deve, em grande parte, a uma cobertura de imprensa que está sempre chamando atenção para a corrupção. Há décadas as pessoas associam essas instituições representativas à corrupção. A partir daí, passam a achar que é tudo a mesma coisa, que todo político é corrupto.”
Votação = assembléia de condomínio
Embora a abstenção não impeça a definição do resultado eleitoral, ela traz consequências políticas tanto para quem deixa de votar quanto para quem é eleito, especialmente em relação à representação e à legitimidade. É o que o cientista político Murilo Carvalho, especialista em processo legislativo, explica ao comparar o processo eleitoral com uma assembleia de condomínio.murilo
“Não comparecer à votação é como uma assembleia de condomínio. Imagine que existam cem condôminos, mas apenas setenta vão à reunião. E os outros trinta, como ficam? Eles precisam aceitar as condições que os setenta escolheram. Os outros trinta precisam entender que, se não foram, os setenta decidiram por eles. E eles vão ter que lidar com essa representação. Portanto, há consequências dos dois lados: para o eleitor e também para o eleito”, exemplifica.
Para Carvalho, a responsabilidade de quem vence a eleição também se estende aos que não compareceram às urnas. “O eleito precisa governar para todos, inclusive para quem não foi votar, e não apenas para quem corresponde aos votos válidos. Ele precisa representar toda a sociedade, inclusive aqueles que não compareceram”.
À Agenda do Poder, o padeiro Max Júnior, de 27 anos, disse que fez questão de ir às urnas neste ano. Como eleitor, ele afirma que o voto é uma forma de garantir que suas escolhas sejam ao menos consideradas. “Temos que fazer parte da manutenção do que a gente precisa, do que a gente acredita. Se não sairmos para fazer a nossa escolha, alguém vai escolher por nós”, afirma.

Grupos ausentes
Ainda assim, é necessário diferenciar quem não conseguiu votar por questões práticas de quem optou por não comparecer. Entre os grupos que podem enfrentar mais obstáculos estão idosos, pessoas com dificuldade de locomoção e eleitores que dependem do transporte público ou de terceiros para chegar à seção eleitoral.
Neste ano, algumas seções eleitorais registraram filas longas que acabaram sendo decisivas para alguns eleitores, até mesmo aqueles que se dispuseram a votar. De acordo com o cientista político Murilo Carvalho, a escolha, as circunstâncias e a condição social interferem na ação.
“A questão social envolve quem tem problemas de mobilidade e não consegue sair de casa com facilidade para votar, quem mora longe, enfrenta dificuldades no transporte público ou passa por uma série de situações que impedem o deslocamento. Portanto, existem esses três fatores”, enumera.

A decisão de não votar, porém, nem sempre está ligada a dificuldades de acesso ou à falta de identificação com os candidatos. Em alguns casos, o afastamento também pode estar relacionado à maneira como os eleitores lidam com as próprias convicções políticas e com informações que colocam essas crenças em dúvida.
Dissonância cognitiva
A psicologia define como dissonância cognitiva o desconforto provocado pelo conflito entre ideias e crenças. Na política, esse processo pode aparecer quando informações contrárias à visão de um eleitor entram em choque com aquilo em que ele acredita. A reação pode passar pela rejeição dessas informações ou até pelo afastamento do debate, como aponta o psicólogo, jornalista e comentarista político Felipe Pena:
“A dissonância cognitiva acontece quando dois conceitos diametralmente opostos, ou seja, um refuta o outro, acabam sendo encontrados na mesma afirmação e a pessoa precisa lidar com aquilo”.
Segundo o professor, ao se deparar com informações que contrariam suas crenças, o eleitor pode recorrer ao viés de confirmação, que leva as pessoas a dar mais valor a informações que reforçam aquilo em que elas já acreditam. Quando as convicções políticas estão ligadas à identidade e ao sentimento de pertencimento a um grupo, reconhecer uma contradição pode significar questionar também valores pessoais e vínculos sociais.
“A gente tem que pensar: por que essa dissonância cognitiva existe? Porque o viés de confirmação é muito mais forte do que a pretensão de verdade. O viés de confirmação mexe com a identidade da pessoa, com valores que são muito caros para ela. Então, ela prefere a dissonância cognitiva a negar o que é óbvio, porque aquilo significa perder o pertencimento ao grupo, perder um aspecto da sua psique, que é o desconforto.”
Pena avalia que esse desconforto pode influenciar a decisão de alguns eleitores de se afastar da disputa. “Uma parte se absteve para não querer lidar com essa dissonância cognitiva. A outra parte se absteve porque não lidar com essa dissonância cognitiva também causa um sério desconforto. E aí a pessoa fala: ‘Não vou entrar em nenhuma coisa nem outra’.”
No Rio, a votação do segundo turno será apenas para a Presidência da República. A ausência no primeiro turno não impede a participação no segundo. Por isso, quem não compareceu em 4 de outubro pode votar normalmente em 25 de outubro, desde que esteja com a inscrição eleitoral regular.
Para o nordestino Francisco de Assis Ribeiro da Cruz, de 56 anos, comparecer às urnas é uma maneira de manter sua situação eleitoral regular. “Eu sou a favor da democracia. Agora, sobre os candidatos, a gente não pode dizer quem é quem. Prometem uma coisa, fazem outra. Mas, entre os ruins, a gente procura eleger o melhor”, disse.

Comerciante na Lapa, região central do Rio, ele diz que votar é um compromisso com o futuro: “Tem que se manifestar, acreditar, porque a gente não sabe o amanhã”, conclui.
No dia da votação, as urnas estarão abertas das 8h às 17h, pelo horário de Brasília. Quem faltou ao primeiro turno também precisa justificar a ausência ou pagar a multa eleitoral prevista, conforme o caso. Para a votação, é possível apresentar um documento oficial com foto; o e-Título também pode ser usado como identificação se estiver com a fotografia do eleitor disponível.
A justificativa para quem não votou no primeiro turno pode ser feita pelo aplicativo e-Título, pelo sistema de Autoatendimento Eleitoral ou presencialmente em um cartório eleitoral. O prazo para justificar a ausência no primeiro turno termina em 3 de dezembro de 2026.
*Estagiária sob supervisão de Thiago Antunes






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