Como Douglas Ruas contrariou as pesquisas e virou o jogo na eleição para governador do Rio
Reportagem Especial

Como Douglas Ruas contrariou as pesquisas e virou o jogo na eleição para governador do Rio

Candidato do PL terminou o primeiro turno com 49,27% dos votos, venceu em 79 dos 92 municípios fluminenses e se beneficiou da força do bolsonarismo

Douglas Ruas (PL) chegou à eleição para o governo do Rio sem liderar as pesquisas de intenção de voto, mas terminou a apuração à frente de Eduardo Paes (PSD), que aparecia como favorito nos levantamentos da reta final. A vitória em primeiro turno foi definida nesta quinta-feira (8), quando o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) anulou os 274 mil votos recebidos por Anthony Garotinho (Republicanos), permitindo que Ruas ultrapassasse a marca de 50% dos votos válidos.

O político do Republicanos teve 274.411 recebidos — com a exclusão deles, Ruas, que chegou a 4.271.199 votos, está eleito. A confirmação só aguarda a retotalização pelo Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ), que acontece neste sábado (10).

O resultado surpreendeu porque contrariou o cenário apresentado por diferentes institutos nos últimos dias de campanha. Na véspera da votação, a Quaest indicava Paes com 49% dos votos válidos, contra 40% de Ruas. Nas urnas, porém, Ruas terminou com 49,27% na contagem inicial, enquanto Paes recebeu 3.706.984 votos, ou 42,76%. 

Garotinho ficou com 3,17%, percentual que passou a ter peso decisivo na disputa judicial sobre a definição do resultado.

Para os cientistas políticos ouvidos por Agenda do Poder, não há uma única explicação para a diferença entre as pesquisas e o resultado. A votação combina fatores que se reforçaram mutuamente: o crescimento de Ruas na reta final, a força do bolsonarismo no estado, a busca de parte do eleitorado por uma alternativa aos grupos tradicionais e as dificuldades de Paes para transformar sua experiência política em vantagem eleitoral.

O crescimento na reta final

Paes venceu na capital e em Niterói, além de outras 11 cidades. Ruas, por sua vez, ficou em primeiro lugar em 79 dos 92 municípios fluminenses. A abrangência territorial da votação do candidato do PL ajuda a compreender como ele construiu uma vantagem estadual apesar de não aparecer na liderança das pesquisas.

O cientista político e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) Brand Arenari avalia que os institutos demoraram a captar a dimensão do crescimento de Ruas, mas começaram a registrar uma tendência de alta nas últimas semanas. Para ele, um elemento importante era a combinação entre o desconhecimento do candidato e a quantidade de eleitores que ainda não tinham decidido o voto.

“Os institutos foram capazes de pegar que existia um número de indecisos muito grande. E o nível de desconhecimento da figura do Douglas Ruas, que acabou sendo uma vantagem para ele em outros cenários, fez com que uma série de aspectos não colassem na imagem dele e aparecesse para o eleitor como uma coisa muito nova”, afirma Arenari.

Para o professor, a avaliação ajuda a explicar o paradoxo da campanha de que ser pouco conhecido poderia representar uma desvantagem para Ruas, mas também o deixou menos associado a desgastes e decisões de governos anteriores. Enquanto Paes tinha uma trajetória pública longa e uma imagem política já consolidada, Ruas oferecia a parte do eleitorado a possibilidade de escolher alguém sobre quem ainda havia poucas referências.

Douglas Ruas em campanha no Sul Fluminense / Divulgação

“Uma hipótese que a gente pode levantar, mas precisamos de outros estudos, é que o eleitor parece cansado com esses grupos políticos que estão há muito tempo no poder. Para dar o exemplo tem o PT, com quase 20 anos no poder. Eduardo é um político tradicional, um político de sucesso, mas um político tradicional e a vida das pessoas não estão boa, né? Elas sentem que a vida piorou e, quase como desesperadamente, apostam em mudanças no escuro”, diz.

A cientista política Mayra Goulart também chama atenção para o momento em que parte dos eleitores definiu sua escolha. Segundo ela, a estrutura de comunicação ligada ao bolsonarismo contribuiu para concentrar decisões na reta final, quando os apoiadores passaram a identificar com mais clareza o candidato que representava seu campo político.

“Essa é a técnica bolsonarista, manter os eleitores conectados em bolhas e, com isso, aumentar a coesão de chegada na reta final. Demorou mais para o eleitor bolsonarista ver quem era o seu candidato, nessa que Douglas Ruas era menos conhecido, mas quando essa informação chegou eles foram às urnas e votaram.”

Mayra Goulart, cientista política

A hipótese de uma decisão tardia também aparece na análise de Arenari, que relaciona o resultado a um comportamento observado em outras eleições onde os eleitores identificados com a direita podem se concentrar em determinado candidato perto da votação.

“Nessa reta final, em que nós vimos em outras eleições que o eleitor mais posicionado à direita tem uma arrancada sobre a decisão dos votos, ela se fez mais uma vez. Nós vimos isso em 2018 com Witzel, vimos em algumas eleições presidenciais em que os votos do [Jair] Bolsonaro apareciam menor e, depois, quando abre as urnas ele aparece maior. Nessa última semana acho que o fenômeno se repetiu e isso ficou muito claro em nível de desconhecimento, o eleitor estava indeciso”, avalia.

Bolsonarismo, comunicação e identidade política

Para Mayra Goulart, a eleição fluminense mostra a dificuldade de construir uma candidatura competitiva à direita que não esteja vinculada ao bolsonarismo. 

“O Eduardo Paes se lançou como um candidato que não era de esquerda, como um candidato que rejeitava, embora tivesse uma ligação com o governo federal, ele não se apresentava como de esquerda, queria pegar esses votos de uma direita não bolsonarista e foi trucidado em virtude disso. Ele teve apenas os votos da esquerda, essa é minha leitura sobre a votação”, afirma Mayra.

A leitura de Paulo Baía, cientista político e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), também segue uma linha semelhante. Para ele, a aproximação de Ruas com Flávio Bolsonaro e outras figuras do campo bolsonarista deu ao candidato uma identidade política mais definida.

“Douglas Rua apostou em grudar com o Flávio Bolsonaro e grudar com o Carlos Jordi e com o Carlos Portinho. Então veio um bloco. E aí você tem esse resultado, que eu digo que me surpreendeu.”

Paulo Baía, cientista político

Para Paulo Baía, a aproximação de Ruas com Flávio Bolsonaro foi decisiva para dar identidade à candidatura. O cientista político ressalta que o bolsonarismo tem uma presença consolidada no estado, onde a família construiu uma trajetória política própria.

Douglas Ruas com Flávio Bolsonaro em agenda política | Divulgação

“O bolsonarismo nasce no Estado do Rio de Janeiro e se consolida, ele nunca foi fraco. Então, quando as pessoas falavam: ‘Mas o Flávio ninguém conhece’. Não! O Rio de Janeiro conhece o Flávio, ele é deputado estadual desde 2003, tem presença no Rio. E a família Bolsonaro tem uma marca consolidada no estado, hoje no Brasil. O fato do Ruas ter apostado no Flávio Bolsonaro foi muito importante para isso”, diz Baía.

O resultado também dependeu de como essa identidade foi difundida e de quais redes chegaram aos eleitores. Mayra destaca a circulação de mensagens em grupos de WhatsApp e em outras redes de convivência. Segundo ela, esses espaços ajudam a formar percepções e reforçam vínculos entre apoiadores.

“Sobretudo de usar uma tecnologia de informação através de influenciadores, grupos de WhatsApp, na igreja, na academia, no local de trabalho… Todo esse caldo de cultura permite que eles informem esse eleitor de maneira muito dissonante ao que os veículos de mídia tradicional fazem e, com isso, tornem aqueles candidatos que são apoiados, se amparam nessas bolhas, muito invulneráveis à dinâmica de corrupção, aos mais diversos escândalos”, afirma Mayra.

O desejo de mudança e os limites da imagem de Paes

O professor Paulo Baía afirma que Ruas conseguiu se apresentar como alguém novo para uma parcela do eleitorado, enquanto Paes carregava a experiência de quem já ocupou cargos importantes. A diferença não é necessariamente entre um candidato com experiência e outro sem qualquer trajetória, mas entre a forma como cada um foi percebido durante a campanha.

“E aí o que eu identifico? Primeiro, uma estratégia eleitoral bem-sucedida, de grudar com Flávio Bolsonaro, entender a nova sociedade do Rio de Janeiro. Existe uma sociedade muito nova, centrada na mudança, centrada no empreendedorismo, centrada na autorrealização e que deseja um futuro”, diz Baía.

Na avaliação de Baía, a campanha de Paes não conseguiu transformar a experiência administrativa e a aliança com diferentes forças políticas em uma mensagem eleitoral suficientemente convincente.

“A campanha eleitoral do Eduardo Paes foi conservadora e com algumas frases que não faziam sentido para quem é visto, curiosamente, como governo. Porque quem era visto como governante era o Eduardo Paes e não o Ruas. O Ruas era uma pessoa que ninguém conhecia. Ninguém sabia quem era”, afirma.

Mayra também vê dificuldade na tentativa de Paes de se posicionar fora da esquerda sem romper com os vínculos políticos que já tinha. O político perdeu em cidades da Baixada, como em Duque de Caxias, reduto da família Reis, seus aliados políticos.

“Sobre a Baixada, acho que o que mostra é que os cabos eleitorais lá não se comprometeram, de fato, com a campanha de Paes ou não conseguiram, mesmo declarando voto nele, lidar com aquilo que é veiculado nas redes bolsonaristas, rede direita, que incentivaram voto em Douglas Ruas. Essa capacidade do mandatário, de transferir votos, é que foi posta em xeque”.

Eduardo Paes (PSD) e Jane Reis (MDB), vice em sua chapa | Foto: Reprodução

Segurança pública e a disputa pela imagem de quem pode governar

A segurança pública foi um dos pontos de comparação entre as campanhas. Paulo Baía avalia que Paes tentou usar sua experiência à frente da Prefeitura do Rio para se apresentar como alguém capaz de enfrentar o problema, mas que essa estratégia também abriu espaço para questionamentos sobre os limites de sua atuação fora da capital.

“Então, por exemplo, a campanha do Ruas não prometeu controlar territórios para abaixar a segurança pública. A do Paes prometeu. Essas questões foram colocadas. O desejo de mudança junto com o voto de protesto que o eleitor carioca e fluminense teve. E isso desmontou a engenharia política do Eduardo Paes”, afirma Baía.

A crítica do professor é que a campanha do ex-prefeito não teria resolvido uma contradição: ao reivindicar resultados na segurança da capital, Paes também precisava convencer eleitores de outros municípios de que sua experiência poderia ser aplicada à realidade deles. A presença da Guarda Municipal armada contribuiu para essa associação, mas não necessariamente produziu a confiança que a campanha buscava em todo o estado.

Ex-prefeito Eduardo Paes fala na formatura da primeira turma da Força Municipal | Divulgação: Prefeitura do Rio

“Quando se analisa a pesquisa, ela aponta a segurança pública como uma das principais carências da população. Você não pode fazer algo mecânico como o Eduardo Paes fez. Veja, o Ruas foi mais esperto nisso. Ele falava: ‘Eu sou policial, de onde eu venho, não é assim’. Mas ele não apostou em uma política de segurança clara. Ficou difusa. E o Eduardo Paes, em vez de corrigir isso, manteve esse discurso”, diz Baía.

O argumento do sociólogo é que a imagem de autoridade e a percepção de capacidade para enfrentar a violência tiveram peso na disputa, e que Ruas conseguiu vincular sua biografia profissional ao tema sem assumir o mesmo compromisso discursivo de Paes.

Brand Arenari, por outro lado, destaca que a estratégia do candidato do PL também explorou diferenças culturais e sociais entre a capital e o restante do estado. Na avaliação do professor, a campanha mobilizou uma oposição simbólica entre a imagem de uma capital associada à Zona Sul e a de um estado mais amplo, marcado por periferias, municípios da Baixada e cidades do interior.

“A ideia da carioquice da Zona Sul, muito marcante na figura do Eduardo Paes, foi explorada quase como um conflito tribal ou mesmo de classe. ‘Nós não pertencemos aquele mundo, aquele mundo do Leblon, aquele mundo do show da Madonna, aquele mundo de um capital cultural. Há um estado do Rio profundo e diverso, que vive na periferia, que vive no interior’. E esse tipo de polarização foi estimulado de alguma maneira o que alimentou os potenciais de vantagens do candidato Douglas Ruas”, afirma Arenari.

O mapa eleitoral e a força das lideranças locais

O resultado expressivo de sair na frente na maioria dos municípios mostra que a candidatura de Ruas conseguiu se posicionar em primeiro lugar em uma parcela muito ampla do território fluminense. Paes, em contraste, concentrou suas vitórias em um grupo menor de cidades, incluindo os dois maiores centros urbanos de sua lista: a capital e Niterói.

Para Paulo Baía, o papel de prefeitos, vereadores e lideranças locais ajuda a explicar como uma candidatura pode transformar alianças políticas em votos. O professor destaca que a disputa estadual não se resolve apenas com a popularidade dos candidatos ou com a propaganda veiculada nos grandes centros.

“Tem um peso importante dos vereadores, o peso importante dos prefeitos, o peso importante das lideranças de cada um dos 92 municípios brasileiros”, afirma.

O cientista político também considera que Paes não conseguiu converter o reconhecimento de seu nome em adesão política em todas as regiões. Ele diferencia ser conhecido, algo que o ex-prefeito alcançou após anos de vida pública, de despertar identificação entre os eleitores. Ruas, mesmo menos conhecido no início da campanha, teria se beneficiado das redes locais que já estavam mobilizadas a seu favor.

“Já na região da Zona Norte clássica, o Douglas Ruas cresceu. Você quando pega o mapa eleitoral da cidade do Rio e vê Penha, Inhaúma… são áreas da Zona Norte clássica que o Douglas ganhou. Enfim, o Eduardo Paes é conhecido no Estado todo. Entretanto, ele não tem a adesão dessas pessoas como identidade política, como identidade afetiva. O Douglas também não era, mas conseguiu captar aquilo que as forças regionais e locais fizeram”, diz.

Indecisos, voto útil e a queda de Garotinho

Anthony Garotinho terminou a apuração inicial com 274.411 votos, equivalentes a 3,17% do total válido contabilizado naquele momento. Paulo Baía avalia que parte do eleitorado indeciso pode ter migrado para Ruas na reta final e que também pode ter ocorrido um movimento de voto útil entre eleitores que inicialmente consideravam votar em Garotinho.

Paulo Baía avalia que parte do eleitorado indeciso pode ter migrado para Ruas na reta final e que também pode ter ocorrido um movimento de voto útil entre eleitores que inicialmente consideravam votar em Garotinho.

Tribunal Superior Eleitoral (TSE) anulou os 274 mil votos recebidos por Anthony Garotinho (Republicanos) | Reprodução

“Dessa reserva de votos de pessoas indecisas, a maioria foi para Douglas Ruas. E, ao mesmo tempo, houve um voto útil ali, saindo do Garotinho para o Douglas Ruas, nas duas últimas semanas. O Garotinho vinha ali com 8%, acabou com 3% e pouco. Então, houve, sim, essa migração”.

Mayra Goulart também aponta que o voto útil pode ter sido impulsionado pela rejeição à esquerda entre eleitores indecisos.

“Pouco da retórica anti-esquerda fez com que esse eleitor indeciso, mas que não não gosta da esquerda, na reta final fizesse um voto ‘útil’ em Douglas Ruas pra derrotar a esquerda no estado. O bolsonarismo é total, e me parece que essa transferência de votos explica a maior parte dos votos em Douglas Ruas”, afirma Mayra.

A decisão do TSE mudou o desfecho da eleição

O resultado inicial indicava que Ruas tinha 49,27% dos votos válidos, abaixo da maioria absoluta necessária para vencer no primeiro turno. A situação mudou em 8 de outubro, quando o plenário do TSE decidiu, por cinco votos a dois, anular os votos recebidos por Garotinho e determinar a retotalização da eleição para governador.

O tribunal manteve o indeferimento do registro do candidato do Republicanos por não preencher as condições de elegibilidade relativas ao pleno exercício dos direitos políticos e à filiação partidária.

Prevaleceu o entendimento do relator, ministro Floriano de Azevedo Marques, de que os votos não poderiam ser aproveitados no cálculo do resultado. A posição foi acompanhada pelos ministros André Mendonça, Dias Toffoli, Nunes Marques e Estela Aranha. Ficaram vencidos Ricardo Villas Bôas Cueva e Sebastião Reis Júnior, que também votaram contra o registro de Garotinho, mas defenderam que os votos recebidos por ele fossem mantidos na totalização, o que levaria à realização de segundo turno.

A defesa de Eduardo Paes contestou a possibilidade de que a exclusão dos votos, decidida depois da votação, alterasse o desfecho da disputa. O advogado José Roberto de Castro Neves classificou o pedido de desistência do recurso apresentado por Garotinho como “um ato contraditório, um ato de oportunismo, um ato emulativo”. 

A defesa de Garotinho, representada por Admar Gonzaga, reiterou a desistência do recurso e abriu mão da sustentação oral. O TSE, porém, rejeitou por unanimidade o pedido de desistência e julgou o caso.

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