Francisco Sampaio: o político que largou o poder para ser orientado por um anjo chamado Ismael
Reportagem Especial

Francisco Sampaio: o político que largou o poder para ser orientado por um anjo chamado Ismael

Um deputado liberal governou o Espírito Santo, virou republicano, fundou grupos espíritas e, segundo a tradição, ditou três livros depois de morto. Em vida, ao menos, escreveu um Evangelho em versos. E assim o sergipano permanece firme como um personagem insolitamente completo do Império.

Francisco Leite de Bittencourt Sampaio ocupou a presidência da Província do Espírito Santo por pouco mais de seis meses, entre o fim de 1867 e abril de 1868, e saiu do cargo para voltar à Câmara dos Deputados. Duas décadas depois, este mesmo homem aparece entre os pioneiros de um movimento que veio da França, fincou raízes no Brasil e acabaria organizado na Federação Espírita Brasileira, o que faz dele um raro caso de político imperial cuja fama póstuma se deve menos ao governo que exerceu do que ao tipo de reuniões que frequentou. 

Nascido em Laranjeiras, Sergipe, em 1º de fevereiro de 1834, Bittencourt Sampaio construiu uma carreira bastante respeitável no mundo dos vivos. Formou-se em Direito em São Paulo, foi deputado geral, tornou-se presidente do Espírito Santo, e assinou, em 1870, o Manifesto Republicano de 3 de dezembro, numa mudança política que o levou da oposição liberal à defesa aberta da República.  Depois do Golpe Republicano dirigiu a Biblioteca Nacional. 

Ele participou dos primeiros círculos organizados do Espiritismo na Corte, estudou os fenômenos, tornou-se médium e ajudou a fundar instituições que fariam parte da história da doutrina no Brasil. Para um homem que já havia passado pelo governo de uma província, pelo Parlamento e pela administração da principal biblioteca do país, a vida ainda reservava uma espécie de segunda carreira, desta vez, em contato com o mundo espiritual. 

O jovem deputado que virou presidente do Espírito Santo 

A trajetória política de Bittencourt começou antes de sua experiência capixaba. Formado pela Faculdade de Direito de São Paulo em 1859, ele foi eleito deputado por Sergipe e exerceu mandato durante as legislaturas de 1863 a 1871. Em 29 de setembro de 1867, recebeu por carta imperial a nomeação para administrar a Província do Espírito Santo.  

A passagem pelo governo capixaba foi curta. Documentação histórica reunida pelo Arquivo Público do Estado do Espírito Santo registra relatórios e atos administrativos ligados ao seu período à frente da província. Na imprensa oficial da época aparecem, entre outras coisas, nomeações de autoridades policiais, decisões relativas à Tesouraria Provincial e atos ligados à Guarda Nacional. Em abril de 1868, Bittencourt Sampaio deixou a administração e retornou à Corte para reassumir seu mandato parlamentar.  

O próprio arquivo capixaba conserva o relatório de 1868 relacionado à sua administração e registra a existência de documentação administrativa de seu período. Há, portanto, uma curiosa materialidade nessa primeira fase da vida pública: Bittencourt Sampaio pode ser encontrado nos papéis mais prosaicos do poder imperial, assinando atos de governo, nomeando funcionários e tratando da máquina administrativa de uma província.  

Não há razão para transformar seu governo capixaba em algo que não foi. Sua passagem pelo Espírito Santo não aparece como uma administração revolucionária ou repleta de episódios extravagantes. E talvez seja justamente aí que esteja o contraste mais interessante da história. O homem que governou dentro das regras do Império acabaria, poucos anos depois, dedicando parte importante de sua vida a uma doutrina que colocava em questão a fronteira mais definitiva de todas, a existente entre vivos e mortos.

Francisco Leite de Bittencourt Sampaio (Crédito: Reprodução)

Da política imperial ao Manifesto Republicano 

Bittencourt Sampaio também não jogou politicamente parado. Em 1870, aderiu à propaganda republicana e assinou o Manifesto de 3 de dezembro, documento fundamental do movimento republicano brasileiro. Seu nome aparece ao lado de figuras como Saldanha Marinho, Quintino Bocaiuva, Aristides Lobo e Lafayette Rodrigues Pereira.  

A mudança é significativa. O documento criticava a concentração de poder e defendia a ampliação do elemento democrático na vida política brasileira. Bittencourt Sampaio, portanto, não foi apenas um homem que ocupou cargos no Império e depois viu a República chegar. Ele participou intelectualmente da campanha que pretendia substituir a monarquia por outro regime.  

Ele colaborou em “A Reforma”, órgão liberal da Corte, e foi redator de “A República”. A ironia está servida pela própria cronologia: o homem que governou uma província em nome do Imperador passou a escrever contra o regime que o nomeou, e ainda arranjou tempo para escrever versos e frequentar sessões em que se conversava com os mortos. 

Depois de 1889, sua experiência administrativa ganhou um novo cenário. Bittencourt Sampaio foi nomeado para dirigir a Biblioteca Nacional, cargo que passou a ser oficialmente denominado diretor com a República. A Fundação Biblioteca Nacional registra sua gestão entre 1889 e 1892. Em 1890, ele também esteve envolvido na reforma da instituição e em questões relativas à preservação e organização de seu acervo.  

Era, portanto, um personagem perfeitamente inserido na elite letrada do século XIX. E é essa característica que torna sua conversão ao Espiritismo especialmente interessante. 

Edição do jornal “A República” com o Manifesto de 1870 (Crédito: rerodução)

Quando o homem de Estado começou a procurar os espíritos 

O Espiritismo chegou ao Brasil ainda no século XIX, inicialmente circulando em grupos relativamente pequenos e entre pessoas instruídas da Corte. O chamado Grupo Confúcio, criado no Rio de Janeiro em 1873, reuniu figuras interessadas nos fenômenos espíritas e na obra de Allan Kardec. Bittencourt Sampaio esteve ligado ao grupo.  

Uma pesquisa acadêmica da Universidade Federal Fluminense sobre intelectuais, Espiritismo e projetos de reforma social no Brasil oitocentista aponta que Bittencourt Sampaio teria sido atraído inicialmente pelos chamados fenômenos físicos. A experiência o levou ao estudo dos fenômenos mediúnicos e, posteriormente, à atuação como médium. Segundo o estudo, ele não dava passes, mas prescrevia medicamentos homeopáticos dentro das práticas do período.  

É um detalhe importante porque ajuda a afastar uma caricatura. Bittencourt não entrou no Espiritismo como um homem ignorante procurando explicações mágicas para o mundo. Era bacharel, parlamentar, poeta e integrante de uma elite intelectual que discutia política, literatura, ciência e religião. O Espiritismo do século XIX também procurava se apresentar como uma doutrina capaz de dialogar com o conhecimento e com as questões morais de seu tempo. 

O professor Hippolyte Léon Denizard Rivail , mais conhecido como Allan Kardec, pioneiro do espiritismo (Crédito: Reprodução)

O Grupo Confúcio e a elite espírita da Corte 

O Grupo Confúcio foi uma das primeiras instituições espíritas organizadas do Rio de Janeiro. Entre seus participantes estavam Bittencourt Sampaio e Joaquim Carlos Travassos, personagem fundamental para a divulgação de Allan Kardec no Brasil. O grupo publicou a Revista Espírita, primeira publicação espírita do Rio de Janeiro, em 1875.  

A presença de Bittencourt nesse ambiente ajuda a compreender sua importância. Ele não era simplesmente um simpatizante ocasional. Estava entre os homens que ajudavam a estruturar institucionalmente o Espiritismo brasileiro numa época em que a doutrina ainda era novidade e despertava forte desconfiança. 

A reação da imprensa também não era exatamente acolhedora. O Jornal do Commercio, por exemplo, atacou duramente o movimento espírita na década de 1870. O crescimento das sociedades espíritas produziu debates sobre religião, ciência, medicina, fenômenos mediúnicos e os limites da intervenção do Estado.  

Bittencourt Sampaio estava no meio dessa efervescência. E sua trajetória mostra que o Espiritismo brasileiro nasceu entre advogados, jornalistas, médicos, funcionários públicos e homens ligados à política. Não foi apenas uma manifestação das margens sociais do Império. 

Detalhe da capa do livro de regulamentos do Grupo Confúcio (Crédito: Reprodução)

O homem que ajudou a organizar o Espiritismo brasileiro 

Em 1876, Bittencourt Sampaio participou da fundação da Sociedade de Estudos Espíritas Deus, Cristo e Caridade, que posteriormente passou a se chamar Sociedade Acadêmica Deus, Cristo e Caridade. Fontes sobre a história do movimento o apontam como uma das principais figuras da instituição.  

A organização acabou mergulhando nas divisões que marcam até hoje o Espiritismo brasileiro. Havia divergências entre aqueles que privilegiavam os aspectos científicos e filosóficos da doutrina e os que enfatizavam seu caráter religioso e cristão. Bittencourt Sampaio ficou associado a esta segunda vertente. Uma pesquisa acadêmica da UFF o caracteriza como um espírita mais voltado para o aspecto religioso, embora ressalve que a divisão entre “científicos” e “místicos” não deve ser tomada de maneira simplista.  

Essa escolha ajuda a explicar a obra que produziria e a rede de instituições das quais participou. Para Bittencourt, o Espiritismo não era apenas uma investigação sobre fenômenos extraordinários. O centro de sua preocupação passou a ser o Evangelho e a figura de Jesus interpretados à luz da doutrina. 

O médium que receitava remédios 

Aqui está uma das partes mais curiosas da biografia. Segundo pesquisas acadêmica, sua atuação consistia na prescrição de medicamentos homeopáticos dentro das práticas mediúnicas do grupo.  Para o leitor do século XXI, a combinação parece improvável: um ex-presidente de província, deputado e futuro diretor da Biblioteca Nacional sentado diante de pessoas que buscavam auxílio para doenças e recebendo, segundo a crença dos participantes, passes magnéticos e orientações espirituais para indicar tratamentos. 

É preciso, porém, respeitar a distância entre a descrição histórica e a avaliação médica contemporânea. As fontes permitem afirmar que essa prática existia e que Bittencourt esteve envolvido nela. Não permitem transformar as supostas curas em fatos médicos comprovados. A distinção parece pequena, mas é justamente o que separa uma reportagem sobre a história do Espiritismo de um texto de propaganda religiosa. 

As “mesas girantes”, uma grande atração em salões sociais na Europa antes de dar lugar a formas mais avançadas de mediunidade

O Grupo dos Humildes e o nascimento do Grupo Ismael 

As divergências internas não terminaram em 1876. Em 1880, Bittencourt Sampaio participou da formação do Grupo Espírita Fraternidade, ao lado de Antônio Luís Sayão e do médium Frederico Júnior. No mesmo ano, surgiu o Grupo dos Humildes, também conhecido como Grupo do Sayão. Mais tarde, essa organização passou a ser chamada Grupo Ismael e acabou integrada à Federação Espírita Brasileira.  

A trajetória é reveladora de algo que costuma desaparecer quando a história do Espiritismo é contada apenas como uma sequência de grandes nomes. A doutrina crescia em meio a disputas, divergências de interpretação, fundações, dissoluções e novas alianças. Os espíritas discutiam entre si sobre o que deveria ser o Espiritismo e qual lugar o Evangelho deveria ocupar dentro dele. 

Bittencourt Sampaio estava no coração dessas discussões. 

Sede do Grupo Espírita Ismael no bairro do Caju (Crédito: Reprodução)

A Divina Epopeia, quando o poeta encontra o Evangelho 

Antes mesmo de sua militância espírita, Bittencourt já era poeta. Uma de suas obras mais importantes foi A Divina Epopeia, publicada em 1882, dedicada ao Evangelho de João. A obra foi escrita em versos e passou a ser apresentada pela literatura espírita como uma das grandes expressões de sua interpretação espiritual do cristianismo.  

Aqui literatura e doutrina se confundem. Bittencourt não tratava Jesus apenas como personagem histórico. Seu interesse estava na dimensão espiritual do Evangelho e em sua interpretação à luz daquilo que entendia como revelação espírita. 

Esse percurso explica por que sua memória se tornou tão importante dentro do Espiritismo brasileiro. O político e o poeta foram sendo gradualmente incorporados à figura do homem religioso, até que, na tradição espírita, Bittencourt Sampaio passou a ser lembrado sobretudo como um trabalhador da doutrina. 

E depois da morte ele teria continuado a escrever 

Bittencourt Sampaio morreu no Rio de Janeiro em 10 de outubro de 1895. A partir daí começa uma segunda história, que precisa ser apresentada com outro tipo de cuidado. 

Segundo a tradição espírita registrada em publicações do movimento, Bittencourt teria continuado sua produção literária depois da morte por intermédio do médium Frederico Júnior. Dessa forma teriam surgido Jesus perante a Cristandade, De Jesus para as Crianças e Do Calvário ao Apocalipse. A literatura espírita registra a identificação dessas obras como comunicações atribuídas ao espírito de Bittencourt Sampaio.  

Historicamente, o que se pode afirmar é que essas obras foram publicadas e apresentadas dessa maneira pelos círculos espíritas. A afirmação de que o autor morto efetivamente ditou os livros pertence ao campo da crença religiosa e da experiência mediúnica, não ao da comprovação histórica convencional. 

Mas justamente aí está uma das partes mais fascinantes de sua biografia. Bittencourt Sampaio não terminou sua trajetória, para seus admiradores espíritas, no dia em que morreu. Seu nome continuou circulando como autor, comunicante e referência espiritual. 

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