A campanha para o Governo do Rio, iniciada em 16 de agosto, chegou à reta final com a segurança pública ocupando a centralidade das agendas. Segundo especialistas ouvidos pela Agenda do Poder, entre as estratégias que desenharam o cenário da disputa, uma lembra o confronto ad hominem: falácias que deslocaram o debate do campo da lógica para o ataque pessoal.
Prestes a realizar o primeiro turno das Eleições 2026, 12.857.000 brasileiros estão aptos a comparecer às urnas no estado, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) . A campanha eleitoral chegou ao fim neste sábado (3), quando os candidatos encerram oficialmente as atividades de rua e a propaganda antes da votação de domingo (4), das 8h às 17h.
Antes disso, a disputa pelos votos foi pautada majoritariamente pela segurança pública, seja nos debates, carreatas e comícios. Não à toa, levando em conta o cenário que se desenha: a violência armada já feriu 48 pessoas por bala perdida na cidade do Rio, segundo um levantamento do Instituto Fogo Cruzado. No estado, o primeiro semestre de 2026 registrou 104 tiroteios motivados por disputas entre grupos armados, com 144 pessoas baleadas nesses confrontos, segundo outro relatório divulgado pelo mesmo instituto em julho deste ano.
“A segurança pública é o mote principal pra quem quer ser governador do estado do Rio de Janeiro.”
William Bueno Rebouças, cientista político

Segundo o especialista, ao debater e desenvolver estratégias voltadas para este tema, os candidatos alcançam outras questões relacionadas, como transporte, educação e saúde. A violência interfere diretamente na circulação das pessoas e no acesso a serviços públicos, o que faz com que a segurança atravesse diferentes áreas da administração estadual.
“O problema da violência no estado do Rio de Janeiro enfraquece o acesso aos direitos civis, por exemplo. Então, os moradores de comunidade, de favelas, eles não têm o direito ao ir e vir e à vida como direito, como os moradores das áreas mais ricas. Os direitos sociais também, direito à saúde, educação, cultura, lazer, ficam todos de fato atingidos pela violência pública que existe no Rio de Janeiro”.
Como os candidatos mediaram a discussão por segurança
No terreno da segurança pública os candidatos exploraram diferentes caminhos. Eduardo Paes, por exemplo, que aparece com 37% dos votos projetados para o 1º turno segundo a RealTime Big Data, 34% pela Quaest e 42% na pesquisa do Datafolha, fala em seu plano de governo sobre implantar um novo modelo de patrulhamento territorial. Na prática, o Sistema Único de Segurança Fluminense no Estado integraria as forças de segurança do estado e municipais, assim como as guardas das cidades.
Para Bueno, o político que esteve à frente da Prefeitura do Rio por quatro mandatos baseia suas estratégias projetando a imagem de um bom gestor. A mira do ex-prefeito, segundo ele, visa o eleitor médio.
“O Eduardo Paes foi eleito quatro vezes no Rio de Janeiro e vende a imagem dele como um bom gestor. Na segurança pública, que é o principal ponto, o Eduardo Paes está falando sobre o Segurança Presente, mas também sobre as sedes do Bope: colocar uma sede no Morro do Salgueiro, em São Gonçalo, na Baixada Fluminense. Por que o Paes olha pra Baixada Fluminense? Ele está pensando exatamente em pegar o eleitor médio. E o eleitor médio tem uma visão de segurança pública enquanto política ostensiva”, avalia Bueno.
Atrelado a isso, o candidato carioca também investiu esforços para obter os votos nas áreas além da capital. Parte das agendas concentrou-se em São Gonçalo, na Região Metropolitana, o segundo maior colégio eleitoral e reduto do adversário Douglas Ruas (PL), e em Duque de Caxias, o terceiro maior colégio eleitoral do estado e casa da família Reis.

“Eduardo Paes visa trazer os votos dele para além do município do Rio de Janeiro, seja na Baixada Fluminense com a vice dele, da família Reis, seja em São Gonçalo, reduto do Douglas Ruas. Por isso ele traz essa questão da política policial ostensiva”, analisa o autor de Poder, cidade e mercadoria: a disputa pelo espaço no Rio de Janeiro Olímpico.
Na sequência, os outros três principais candidatos na disputa, Douglas Ruas (PL), Garotinho (Republicanos) e William Siri (PSOL), também apostaram na segurança pública como eixo norteador da campanha. Siri por um viés garantista ao mencionar a ADPF das Favelas.
A ADPF 635 ou ADPF das Favelas é a ação ajuizada pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB) no Supremo Tribunal Federal (STF) para reduzir a letalidade policial e controlar violações de direitos humanos em operações nas comunidades do Rio de Janeiro.
“Siri, por exemplo, fala sobre respeitar a ADPF das Favelas para reduzir a mortalidade nas operações policiais. Fala sobre o uso de câmeras corporais, o respeito ao local onde teve fatalidades em operações policiais. Então, William Siri está falando da segurança pública em um viés garantista dos direitos humanos. Ele também fala sobre um Conselho Estadual de Segurança Pública, onde a sociedade civil participaria”, indica o cientista político.
As contradições
Ainda segundo ele, é na seara da segurança pública que as contradições aparecem no horizonte das propostas dos candidatos. “E aí a gente tem algumas contradições. Por exemplo, no caso do Douglas Ruas, o grupo dele foi alvo de operações no campo da segurança pública. O próprio Bacellar foi preso por envolvimento com o Comando Vermelho, e Ruas se vê fragilizado nessa temática”, explica o cientista.
Com as tentativas de associação de Ruas ao ex-governador Cláudio Castro, uma das estratégias do presidente da Alerj seria a de maior aproximação com o candidato à Presidência pelo mesmo partido, Flávio Bolsonaro.
“O Eduardo Paes tenta associar o Douglas Ruas ao Comando Vermelho e ao TH Joias. E o Douglas Ruas tenta se desfazer principalmente também do Cláudio Castro. Então, ele tenta atrelar a imagem dele ao Flávio Bolsonaro, ao bolsonarismo, e menos à política estadual”, destaca Bueno.

Ao dizer no plano de governo que o “Rio de Janeiro vive uma crise de soberania territorial”, Ruas colocou a segurança pública como prioridade e elencou uma série de medidas que passam pela instalação de câmeras com leitura de placas, reconhecimento facial em rodovias e acessos a portos e aeroportos, pela integração entre as forças de segurança, um novo Segurança Presente e a valorização dos profissionais. O plano também prevê novos concursos, revisão de carreiras, bonificação, equipamentos de saúde e defesa jurídica para agentes de segurança.
Outra frente apresentada pelo candidato é a retomada de territórios dominados pelo crime organizado, com monitoramento contínuo, retirada de barricadas e presença permanente do Estado.
Se a campanha de Ruas fica fragilizada quando o assunto é segurança pública, a de Paes se vulnerabiliza quando a questão se aproxima dos profissionais da educação. Com gargalos nos contratos de professores municipais, a trajetória do ex-prefeito na área também passou a ser explorada durante a disputa.

“Se o Douglas Ruas tem uma contradição na área da segurança pública, o Eduardo Paes tem uma contradição na área dos servidores públicos. Ele aprovou a minutagem dos professores municipais, ou seja, os profissionais hoje trabalham mais, ganhando a mesma coisa”, recupera William.
O segundo mote do ex-prefeito é o transporte, segundo Bueno, com promessas de iniciar as obras das Linhas 2 e 3 do metrô. Logo depois, vem a saúde, com o objetivo de criar novos SuperCentros de Especialidade em oito regiões do estado.
“Então, o Eduardo Paes fala uma série de obras que ele faria na Baixada Fluminense: integrar o BRT à Região Metropolitana, com um projeto para Itaguaí e pra Baixada; levar o metrô até São Gonçalo pela Linha 3 e até a Baixada Fluminense também pela Linha 2”, cita o especialista.
Douglas Ruas, por outro lado, com projeções de 31% dos votos no primeiro turno pelo Datafolha e 25% pelo Quaest, teve como principal desafio ampliar o alcance para além de sua base eleitoral. É o que explica o cientista político George Gomes Coutinho, professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal Fluminense de Campos dos Goytacazes (COC-UFF).
“Douglas Ruas é um candidato de base fortemente municipal que, para começar, precisou se tornar um nome viável e conhecido dos fluminenses em função das circunstâncias da própria disputa política. Afinal, dos 175.977 votos que recebeu para deputado estadual nas eleições de 2022, 149.576 vieram de São Gonçalo. Sua base eleitoral original, portanto, é bastante concentrada no município”, analisa Coutinho.

Segundo Coutinho, a identificação com o bolsonarismo também passou a cumprir papel na estratégia eleitoral de Ruas. “Um dos principais desafios da campanha foi ampliar rapidamente a projeção de um político cuja base eleitoral permanecia fortemente concentrada em São Gonçalo. A identificação de Ruas com os Bolsonaro e a capacidade de transferência de capital político da família ajudam a compreender essa operação.”
A principal marca do discurso de Ruas seria a trajetória como policial civil, também incorporada à apresentação das propostas.
“Quanto aos temas, a segurança pública ocupa lugar central. Nesse campo, Ruas pode mobilizar sua condição de policial civil concursado no Rio de Janeiro, embora sua trajetória profissional na administração pública também tenha sido marcada, desde cedo, pela ocupação de cargos de natureza política”, explica Coutinho.
Ataques pessoais e algoritmos pautaram as agendas
Enquanto a segurança pública foi o assunto mais recorrente entre os candidatos, a reta final também foi marcada por outro tipo de disputa: a tentativa de atingir os adversários a partir de suas trajetórias, relações políticas e biografias.
Para Coutinho, parte desse movimento afastou a discussão sobre programas de governo e políticas públicas. A estratégia, segundo ele, ganhou espaço justamente nos últimos dias da campanha.

“Esse tipo de conteúdo esteve bastante presente nos últimos dias da campanha, deslocando parte do debate eleitoral da discussão sobre propostas e políticas públicas para a disputa em torno das trajetórias e das associações pessoais dos candidatos.”
Na avaliação dele, acusações dessa natureza devem ser diferenciadas de informações que possam ser efetivamente investigadas pelas instituições responsáveis.
“A busca pelo convencimento faz parte do jogo eleitoral. Outra coisa, porém, são os ataques ad hominem e a exploração, por vezes sensacionalista, de biografias pessoais, assim como as tentativas de associar grupos, trajetórias e famílias de candidatos a grupos criminosos. Esse recurso retórico não informa propriamente sobre programas ou planos de governo. Caso existam elementos concretos que sustentem acusações dessa natureza, elas deveriam ser objeto de investigação pelas instituições competentes.”
George Gomes Coutinho, cientista político
A lógica das redes sociais também desempenhou papel importante na engrenagem política. Com campanhas cada vez mais dependentes da circulação de conteúdo digital, foram os algoritmos os grandes responsáveis pelo agendamento das pautas.
Em reportagens anteriores publicadas, a Agenda do Poder já analisou o processo de migração da comunicação política para as redes sociais.
“É como se estivéssemos em um grande reality show no qual os candidatos se apressam em ser responsivos à pauta do momento, independentemente de ela desaparecer, muitas vezes como se jamais tivesse existido, poucos dias depois.”
Nessa disputa, a busca por engajamento também altera a maneira como os próprios candidatos estabeleceram suas prioridades durante a campanha. “Nesses termos, a busca por engajamento, likes e toda a lógica própria das plataformas, que afeta inclusive nós, cidadãos comuns, atinge também a dinâmica da comunicação política em geral e das campanhas eleitorais em particular. A classe política, ao menos em sua face pública, acaba sendo mais ‘liderada’ do que lidera”, alerta Coutinho.

Meio ambiente, planejamento e governança em segundo plano
Enquanto segurança, saúde e transporte encontraram espaço recorrente nas agendas, temas relacionados ao planejamento do estado, ao meio ambiente e à governança da Região Metropolitana acabaram latentes. A questão ambiental, segundo Coutinho, foi um dos exemplos de assuntos que poderiam ter recebido mais atenção.
“Os desafios climáticos e ambientais tiveram pouco destaque, embora tenhamos tragédias periódicas em diferentes pontos do estado.” O planejamento econômico também ficou abaixo de outras pautas. Em vez de uma discussão mais ampla sobre cadeias produtivas, infraestrutura e desenvolvimento regional, o tema apareceu muitas vezes associado ao empreendedorismo.
“A questão econômica, por sua vez, muitas vezes se resume à ideia de ‘desembaraçar’ os esforços individuais, o chamado empreendedorismo, sem uma discussão mais consequente sobre cadeias produtivas, estrutura econômica regional, infraestrutura ou desenvolvimento.”
Outro ponto pouco explorado foi a governança da Região Metropolitana. Transporte, saneamento, habitação, saúde e segurança ultrapassam os limites dos municípios, mas a articulação entre as cidades apareceu de forma pontual nos planos e nas agendas.
Segundo William Bueno a ausência desse debate também ficou nítida na apresentação das propostas dos candidatos, que preveem projetos de transporte para diferentes municípios, sem necessariamente discutir como seria estruturada uma gestão integrada da região.

É nesse ponto que Garotinho se destaca como exceção. Segundo William Bueno, o ex-governador foi o único a incluir a governança metropolitana entre os temas de sua campanha.
“A governança metropolitana, os candidatos tocam muito pouco nisso. O Garotinho é o que toca nisso. Então, sem uma governança metropolitana entre os municípios e a sociedade civil, como nós vamos resolver, por exemplo, o transporte público, a questão dos trens? Nós vamos confiar no governador, vamos eleger e esperar quatro anos para que ele faça?”, questiona.
Planejamento também aparece entre os temas com menor presença. Segundo Bueno, a proposta de William Siri foi uma das que mais diretamente tratou da estrutura administrativa responsável por formular políticas de longo prazo.
“A única proposta de governo que está falando sobre planejamento é a do William Siri. Ele está falando sobre a reestruturação da Seplag, que é o órgão responsável pelo planejamento, que hoje é completamente renegado”, analisa Bueno.
Ao final de quase dois meses de campanha, 12.857.000 eleitoras e eleitores estão aptos a votar neste domingo (4), no primeiro turno das Eleições 2026. A votação acontece das 8h às 17h, pelo horário de Brasília.

Sobre a votação
Neste ano, serão seis escolhas na urna eletrônica. A ordem será:
deputado federal;
deputado estadual;
senador;
senador;
governador;
presidente da República.
Para deputado federal, são quatro dígitos. Para deputado estadual, cinco. Os candidatos ao Senado têm três dígitos, enquanto governador e presidente são identificados por dois. Como são duas vagas para o Senado, é necessário escolher dois candidatos diferentes.
O que levar
Não é obrigatório levar o título de eleitor. É necessário apresentar um documento oficial com foto, que pode ser o RG, passaporte, carteira de motorista, carteira de trabalho ou e-Título, entre outros documentos previstos pela Justiça Eleitoral.
Também é possível levar uma “colinha” com os números das candidaturas. A anotação deve ser feita em papel. Celular, máquina fotográfica, filmadora e outros equipamentos que possam comprometer o sigilo do voto não podem ser levados para a cabine.
No caso do celular, o aparelho deve ser desligado e guardado até a saída da cabine de votação.
Como consultar locais de votação
Atenção aos locais de votação neste momento é crucial, já que TRE-RJ alterou 277 locais de votação para as Eleições 2026. As mudanças afetam cerca de 670 mil eleitoras e eleitores e ocorreram por diferentes motivos, como acessibilidade, alterações estruturais. Desse total, 72 locais foram modificados por questões de segurança.
A consulta pode ser realizada pelo e-Título, pelo site do TRE-RJ (link) ou pelo Disque TRE-RJ, no telefone (21) 3436-9000, de segunda a sexta-feira, das 11h às 19h. Também é possível consultar os endereços nos cartórios eleitorais.
Para consultar o endereço no site, basta informar o número do CPF ou título de eleitor, além da data de nascimento e o nome da mãe, quando solicitado.
Para verificar pelo aplicativo do e-Título, o eleitor deve abrir o aplicativo pelo celular, e entrar na conta utilizando o nome, data de nascimento, número do CPF ou do título, nome da mãe e do pai, quando esses constarem. Depois, toque em “onde votar” e verifique o endereço.
O que pode e o que não pode
No domingo, é permitida apenas a manifestação individual e silenciosa da preferência política, com itens como bandeiras, broches, adesivos e dísticos. São proibidos boca de urna, comícios, carreatas, uso de alto-falantes, aglomerações de pessoas com material de propaganda e a divulgação de novos conteúdos ou impulsionamento de propaganda eleitoral na internet. Conteúdos publicados anteriormente podem permanecer disponíveis, desde que não sejam impulsionados.
Transporte gratuito
O transporte coletivo municipal e intermunicipal será gratuito no dia da votação em todo o estado, incluindo ônibus, trens, metrô, barcas, BRT e VLT. A medida também está prevista para eventual segundo turno, em 25 de outubro.
Eleitoras e eleitores que estiverem fora do município onde possuem domicílio eleitoral podem justificar a ausência pelo e-Título ou em uma seção eleitoral localizada fora da cidade onde estão inscritos. Depois da votação, também há prazo para apresentar a justificativa pelos canais da Justiça Eleitoral.
Biometria
Mais de 1,2 milhão de eleitoras e eleitores sem biometria cadastrada na Justiça Eleitoral poderão ser identificados por meio de registros biométricos fornecidos pelo Detran-RJ. Quem estiver nessa situação não precisa fazer nenhum procedimento prévio: a consulta será realizada pelas mesárias e pelos mesários no momento da votação.
Como acompanhar o resultado
A apuração poderá ser acompanhada pelo site do TRE-RJ e pelo aplicativo Resultados. Também é possível utilizar o aplicativo Boletim na Mão, que permite consultar a cópia digital do boletim de urna por meio da leitura do QR Code impresso ao final da votação em cada seção.
A Agenda do Poder também vai transmitir a apuração em tempo real através do site.
*Estagiária sob supervisão de Thiago Antunes






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