A democracia brasileira é um espetáculo grandioso, barulhento e muitas vezes profundamente surreal. A cada eleição, milhares de cidadãos registram suas candidaturas imbuídos dos mais nobres propósitos, ou apenas em busca de um alento financeiro, e se lançam à caça do voto popular. No entanto, existe uma categoria fascinante de postulantes que consegue atingir a perfeição matemática do desinteresse: a galera do zero absoluto na urna.
O fenômeno do candidato zerado desafia a lógica elementar da sociologia e da própria autoestima humana. Como um indivíduo dedica meses de sua vida a panfletar, discursar em carros de som e perturbar a paciência de parentes para, no dia decisivo, não registrar o próprio voto? A resposta é simples: é tudo pose. Não existe um esquecimento crônico, mas o desespero partidário para preencher cotas de gênero e, claro, eventuais fraudes contábeis com dinheiro público.
Candidatos com zero votos escancaram as ambiguidades do sistema eleitoral brasileiro. Da vaga garantida por legenda em 1945 aos repasses do fundo partidário para campanhas fantasma, a ausência de votos revela desde desatenção individual até estratégias partidárias para cumprimento de cotas formais. O voto zero permanece como o registro mais curioso das urnas .
A eleição que transformou o zero em fenômeno nacional
Se a pergunta for qual eleição brasileira produziu a maior quantidade documentada de candidatos com votação zerada, a resposta encontrada nos dados oficiais é a de 2016. Naquele ano, 16.131 candidatos terminaram a disputa sem um único votinho. Destes, 14.417 eram mulheres e 1.714, homens. Entre as mulheres, 14.413 disputavam vagas de vereadora e quatro concorriam a prefeita. Entre os homens, eram 1.698 candidatos a vereador e 16 a prefeito.
É importante fazer uma ressalva. 2016 foi eleição municipal, portanto não estavam em disputa Senado, Câmara dos Deputados ou assembleias legislativas. Em 2022, a conta foi de outra ordem de grandeza: a lista do TSE trazia 12 candidatos sem nenhum voto, 11 a deputado estadual e um a federal. A diferença de escala é óbvia: eleições municipais mobilizam milhares de candidatos a mais do que a dos parlamentos estaduais ou do Congresso Nacional. Mas 2016 não chamou atenção só pelo número espantoso.
O dado que mais chamou atenção do TSE foi que quase nove em cada dez candidatos sem votos eram mulheres. O tribunal relacionou o fenômeno, em parte, às chamadas candidaturas laranjas, usadas por algumas legendas para cumprir a exigência legal de participação mínima de mulheres nas chapas proporcionais. O próprio TSE, entretanto, advertia que cada caso precisava ser analisado individualmente.
Até porque o zero pode significar coisas muito diferentes. Pode ser abandono de campanha, problemas jurídicos ou uma candidatura efetivamente fictícia. É justamente nessa zona nebulosa entre o dado seco e a história humana que aparecem os personagens desta reportagem.

Hermelindo, o pioneiro
Muito antes das urnas eletrônicas, santinhos digitais, e até mesmo antes da televisão transformar candidato em celebridade doméstica por alguns minutos, já havia brasileiro fazendo história com zero votos. O episódio aconteceu em 2 de dezembro de 1945, na eleição que marcou a volta das urnas depois do Estado Novo. O personagem era Hermelindo de Gusmão Castelo Branco Filho, candidato a deputado federal pelo então Território Federal do Acre.
O problema é que Hermelindo estava na Guanabara no dia da eleição e, por isso, não votou no próprio nome. Seu companheiro de chapa pelo PSD, Hugo Ribeiro Carneiro, recebeu 3.775 votos. O partido alcançou o quociente eleitoral e ainda obteve uma sobra de votos suficientes para conquistar a segunda cadeira disponível.
O sistema eleitoral daquele período era diferente do atual. Nas eleições proporcionais daqueles tempos o Decreto-Lei 7.586 (o Código Eleitoral da época) determinava que os votos dados à legenda partidária nos territórios eram distribuídos aos candidatos registrados na ordem da lista. Como o PSD obteve votação expressiva e Hermelindo ocupava a posição principal da nominata, os votos de legenda garantiram sua cadeira.
O TSE registra o episódio de Hermelindo até hoje como o único caso de um parlamentar brasileiro eleito sem ter recebido um único voto nominal.

Mido, o que candidato que virou piada nacional
Em outubro de 2004, Vladimir Peixoto, o Mido, tinha 38 anos, morava em Paciência e disputava uma cadeira de vereador no Rio. E até aí tudo bem. As surpresas vieram depois da apuração. Mido apareceu com zero voto e não gostou nadica do resultado. Procurou o TRE para pedir uma recontagem, sustentando que a conta não poderia estar certa porque ao menos ele próprio havia votado em si mesmo. A questão era particularmente difícil de resolver, porque o voto é secreto e ninguém consegue provar em quem votou.
E não para por aí. O TRE já havia impugnado sua candidatura depois de descobrir que ele aparecia filiado a dois partidos, o PAN, Partido dos Aposentados da Nação, e o PFL. Mido afirmava pertencer ao PAN e dizia que o PFL o havia filiado à sua revelia. Prometeu até processar a legenda. Só que acabou morrendo pela própria boca ao fazer uma declaração que se tornou histórica no folclore político carioca.
“A minha mulher eu não garanto. Mas a minha mãe eu não sei, mas eu votei em mim!” Não é preciso explicar que nos dias seguintes a frase virou piada na cidade, inflada especialmente pelos locutores da Rádio Tupi, que se divertiam repetindo a notícia só para encaixar o comentário: “Mido perdeu até o voto da mãe porque ela, no último segundo, preferiu votar no vizinho que consertou o chuveiro dela”.

O Caso Fantasma de Maria Silvério
Em 2018, Maria Silvério apareceu nos registros do TSE como candidata a deputada estadual no Rio de Janeiro pelo Partido Renovador Trabalhista Brasileiro (PRTB). Encerrada a apuração, os dados oficiais revelaram que Maria não acumulou nenhum voto na contagem final. O caso virou reportagem do portal G1 sobre o volume surpreendente de candidaturas zeradas de mulheres no estado.
Só que nesse caso, a reviravolta foi cômica. A direção do PRTB admitiu à reportagem do G1 que não fazia a menor ideia de onde Maria Silvério se encontrava. A direção da sigla declarou que tentou contato telefônico com a candidata antes, durante e depois do calendário eleitoral, mas ela jamais atendeu às chamadas ou respondeu às mensagens. Claro que ninguém acreditou. Mas oficialmente ficou o mistério sobre se a candidata desistiu em silêncio ou se tratava apenas de mais uma manobra de bastidor.

234 votos, uma suplência e o absoluto silêncio das urnas
Marileide de Freitas Moreira, conhecida eleitoralmente como Marileide Faz, teve uma trajetória mais movimentada do que o seu nome de urna possa sugerir. Em 2020, disputou uma vaga de vereadora do Rio pelo Avante e recebeu 234 votos, ficando como suplente. Os dados eleitorais registraram R$ 5.165,50 em receitas naquela campanha e R$ 5.500 em despesas contratadas.
Em 2024, aos 70 anos, ela voltou à disputa, novamente pelo Avante, com o número 70107. Mas desta vez, o resultado foi um daqueles que parecem erro de digitação: zero votos. Nem o voto da própria candidata apareceu. O UOL registrou também que ela recebeu R$ 15 mil do fundo partidário e que, naquele momento, os dados disponíveis indicavam prestação de contas zerada.
Para complicar mais havia ainda algumas curiosidades cadastrais. Em 2020, Marileide declarara ser natural de Ladário, no Mato Grosso do Sul. Em 2024, apareceu como natural da vizinha Corumbá. Também mudou a informação sobre escolaridade, de ensino médio completo para incompleto. O UOL tentou obter uma explicação do Avante para a candidatura e para a movimentação financeira.
Mas o caso não terminou na lista dos candidatos curiosos.
Em abril de 2025, o Ministério Público Eleitoral informou que conseguiu a condenação de Marileide e do presidente municipal do Avante, Érico da Silva Freitas, por fraude à cota de gênero. Segundo o MPRJ, a candidatura de Marileide ajudou o partido a atingir o percentual mínimo de mulheres, enquanto não foram declarados atos de campanha, gastos ou movimentação financeira. A Justiça também declarou a inelegibilidade dos envolvidos.
O zero de Marileide, portanto, deixou de ser apenas uma curiosidade eleitoral. Entrou num processo judicial sobre a efetividade da candidatura. É uma diferença importante: zero voto, sozinho, não prova fraude. Quando aparece acompanhado de outros elementos, como ausência de campanha e de movimentação compatível, pode integrar o conjunto de provas considerado pela Justiça Eleitoral.







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