Como plataformas e manifestações estudantis ajudaram na virada de Lula
Reportagem Especial

Como plataformas e manifestações estudantis ajudaram na virada de Lula

Especialistas apontam que a comunicação digital organizada, as manifestações e a mobilização de eleitores que não haviam votado no primeiro turno contribuíram para o resultado

A virada de Lula no 2° turno da disputa presidencial não aconteceu apenas nas redes sociais ou nos comícios organizados pela campanha. Em diferentes partes do país, estudantes, militantes e apoiadores começaram a se mobilizar por iniciativa própria três semanas antes da disputa final contra Flávio Bolsonaro (PL). Ao mesmo tempo, uma operação digital coordenada pelo deputado federal André Janones (Rede) ganhou força e passou a organizar a atuação de milhões de apoiadores na internet. A combinação entre essas frentes, segundo especialistas ouvidos por Agenda do Poder, ajudou a ampliar a presença de Lula no debate público e a mobilizar eleitores para uma votação decisiva e histórica.

O candidato do PT foi reeleito presidente da República para o quarto mandato, com mais de 51% dos votos válidos, após ser derrotado no primeiro turno para o senador do PL. Essa virada de segundo turno nunca aconteceu desde a redemocratização do país, a partir das eleições de 1989.

Alunos de Direito do UFF em primeira manifestação após o 1° turno | Crédito: Reprodução

Na avaliação de João Feres, professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp) da Universidade do Estado do Rio (Uerj), as três frentes — a base social do PT, a comunicação digital e as manifestações — tiveram importância, mas não no mesmo grau.

“Foram determinantes em conjunto, mas é preciso hierarquizar. A estrutura, que é a base social do PT, deu o piso; não explica o ganho do segundo turno, já que essa base era até maior em 2022. O que mudou foi a operação de comunicação montada por Janones, o ‘Exército de Lula’. As ruas tiveram peso simbólico e motivacional inegável, mas o avanço de Lula foi nacional”, avalia Feres.

O professor chama atenção para o fato de que o crescimento do candidato não ficou restrito às grandes cidades, onde as manifestações presenciais tiveram maior concentração. O resultado também avançou em regiões do interior e em estados nos quais a direita havia vencido no primeiro turno.

Além disso, a primeira votação registrou abstenção recorde, índice que caiu na etapa final. No mesmo período, vídeos de idosos que não haviam comparecido às urnas na primeira etapa, mas foram votar no segundo turno, ganharam repercussão nas redes sociais.

O petista obteve 64,2 milhões de votos, que representaram 4,4 milhões a mais do que o adversário. Foi a maior votação já recebida por um candidato à Presidência do Brasil

“Não houve muita conversão do eleitor adversário, houve mobilização diferencial de quem decidiu comparecer e votar”, afirma Feres.

A disputa pelo ambiente digital

Desde 2018, segundo Feres, o bolsonarismo havia consolidado presença em plataformas como WhatsApp, Facebook e Instagram, enquanto a esquerda tratava a comunicação digital como uma ferramenta secundária. A mudança, na avaliação do professor, foi a decisão de disputar esse espaço de maneira organizada. O canal do ‘Exército de Lula’, coordenado pelo deputado federal André Janones, chegou a 11 milhões de usuários no dia do segundo turno.

“O avanço é evidente, pela primeira vez a esquerda contestou e venceu nesse ambiente, com alcance nacional.”, avalia.

João Feres, professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos

Afonso de Albuquerque, professor do Departamento de Estudos Culturais e Mídia (GEC) da Universidade Federal Fluminense (UFF), propõe olhar para além da capacidade de comunicação dos grupos políticos. Para ele, as próprias plataformas têm interesses e interferem na circulação dos conteúdos.

“Fala-se como se esse grupo [extrema direita] tivesse uma competência maior para usar essas mídias, mas é o contrário, essas mídias escolheram esses agentes para ganharem protagonismo, porque as plataformas operam nos países sem nenhuma regulamentação, elas são um negócio novo”, diz.

“A plataformas não são apenas um lugar onde a campanha acontece, elas são um agente interessado na campanha”, reforça Afonso.

Deputado André Janones e presidente reeleito Lula | Crédito: Reprodução / redes sociais

A operação organizada em torno de Janones, para o professor, teria conseguido inverter, ao menos durante a disputa eleitoral, uma lógica que favorecia a direita.

“Não foi uma mobilização que usou as plataformas, foi uma mobilização que subverteu as plataformas. Ele [Janones] hackeia o algoritmo e bota ele para fazer aquilo que a plataforma não gostaria de fazer. Nesse sentido, é muito diferente da extrema direita, porque a mobilização deles não são movimentos organizados da maneira como foi o Exército do Lula. Então, em termos globais, essa é uma experiência que está sendo admirada no mundo todo”, avalia.

Danillo Bragança, cientista político, também chama atenção para a forma como o bolsonarismo construiu sua presença nas redes sociais. Para ele, a estratégia de explorar temas ligados aos costumes e à vida privada ajudou a transformar a polêmica em uma ferramenta de mobilização.

“Ao trabalhar muito a pauta dos costumes, uma suposta ideologia de gênero, as preocupações com as pessoas e o jeito que elas vivem, o jeito que elas amam, o jeito que elas querem viver a vida delas, essa estratégia vem produzindo, inclusive, produtos muito fortes. É o caso, por exemplo, do Nikolas Ferreira (PL-MG), da Eduarda Campopiano (PL-SP)”, afirma.

Na avaliação do especialista, a campanha de Lula conseguiu disputar esse espaço ao apresentar outra forma de ocupação das redes.

“É um tipo de ocupação da rede pela polêmica, e isso é muito ruim. A campanha de Lula fez disputar o espaço reeducando-o. Essa reeducação é uma coisa fantástica, porque ela é motivada pela rua, sim.”

Danillo Bragança, cientista político

Quando a mobilização saiu das telas

Para Afonso, a ação coletiva foi impulsionada pela identificação com uma causa ou liderança e, depois, encontrou nas plataformas um meio de ampliar seu alcance.

“A organização coletiva é muito importante. Eu tenho a sensação de que essa geração de pessoas mais jovens, são pessoas que foram castigadas, em termos da sua vida jovem, pela covid-19. Ou seja, todo mundo passou por uma experiência de não ter a possibilidade de estar em público. E eu tenho a sensação de que isso foi refrescante, do ponto de vista da possibilidade de experimentar um tipo de coisa, fora das mídias sociais, nas ruas”, explica.

A mobilização nas ruas também foi observada por Danillo Bragança, cientista político. Para ele, o engajamento digital pode se transformar em manifestação presencial em momentos de maior urgência política.

“Quando falamos de engajamento de rua, falamos de uma estratégia que acaba por eletrizar a sociedade inteira. E essa eletrização já aconteceu em outros momentos, inclusive contra o PT com a Dilma [Rousseff], por exemplo. Ela vem acontecendo ao longo dos anos, mas em momentos esparsos”, diz.

Ele avalia que a campanha conseguiu levar eleitores a olhar para além de pautas específicas e considerar o cenário político mais amplo na hora de decidir o voto.

“Isso é uma mensagem clara de que é possível governar com estruturas muito mais participativas, gerando um impacto muito maior e com a comunicação certa. E isso dá resultados”.

Na Faculdade de Direito da UFF, em Niterói, estudantes organizaram uma manifestação logo após o primeiro turno. A iniciativa partiu do Centro Acadêmico Evaristo da Veiga (Caev), que se articulou com a Atlética, a torcida e a bateria da faculdade. O ato reuniu cerca de duas mil pessoas em frente à instituição e se espalhou para além da comunidade universitária. Foi o pontapé inicial para o que, futuramente, viria a ser diversas mobilizações espalhadas por todo o país.

João Paulo Armando, diretor executivo do Caev, conta que a intenção inicial era reunir a comunidade da Faculdade de Direito e mostrar à população que passava pelo local o posicionamento dos alunos.

“Quando a gente se deu conta, tinham duas mil pessoas na frente da faculdade e, um ato que era para ficar parado ali, saiu.”

João Paulo Armando, diretor executivo do Caev

Segundo ele, a organização contou com a participação de diferentes grupos estudantis e foi ampliada pelo compartilhamento de informações entre alunos de outros cursos e centros acadêmicos da UFF.

Da esquerda para a direita: Hugo Silva, João Paulo Pimenta, Luísa Valentina Lopez e Simão Gabriel Adorno | Crédito: Danyela Lauria

Estudantes e militantes na linha de frente

Os organizadores não esperavam que a manifestação ganhasse dimensão nacional. João Paulo afirma que o ato tinha sido pensado para os estudantes. A repercussão, no entanto, transformou a iniciativa em uma referência para outras mobilizações estudantis, que foram impulsionadas pelo pedido do fim da escala 6×1, votado no Congresso naquela mesma semana.

A divulgação nas redes sociais contribuiu para ampliar o alcance, já que os vídeos da manifestação em Niterói começaram a viralizar ainda na noite de 5 de outubro.

“Eu posso afirmar que a nossa mobilização inflamou as pessoas. Fez com que todo mundo voltasse a sentir esperança em uma causa, principalmente porque veio da juventude, veio dos estudantes”, afirma.

Outra frente de mobilização acabou organizada por jovens ligados ao Revide, movimento criado em 2026 a partir da fusão entre RUA (Juventude Anticapitalista) e Afronte. A militante Luiza Wrigg participou de atos presenciais e também de uma vaquinha on-line para custear passagens de pessoas que precisavam de ajuda para chegar aos locais de votação no segundo turno.

“A nossa revolução, ela é permanente. Todo dia, a gente vai precisar continuar lutando contra as opressões que são fruto do bolsonarismo, são fruto da extrema direita. Então, é muito importante que esse ascenso de luta continue, que as pessoas se organizem”, diz.

O que fica depois da eleição

A possibilidade de manter a mobilização após a votação é um dos pontos que dividem as análises dos especialistas. João Feres considera que a operação digital foi uma vitória importante para a esquerda, mas ainda não representa uma mudança estrutural na disputa pelas redes.

“Não alterou a assimetria estrutural: a comunidade bolsonarista consolidada e os algoritmos enviesados das plataformas seguem no lugar. Foi uma vitória de campanha, ainda não uma mudança de patamar. Vamos ver como vai ser o novo governo Lula no que toca à comunicação”, avalia.

Afonso também alerta para os limites da experiência, considerando que é difícil manter por muito tempo uma mobilização que exige dedicação intensa de milhares de pessoas. Além disso, afirma que as plataformas podem restringir esse tipo de atuação.

O ato reuniu cerca de duas mil pessoas em frente à instituição | Crédito: Reprodução

“As pessoas falam em regulamentar as plataformas. Eu vou dizer que é impossível regulamentar as plataformas se elas não quiserem, porque os algoritmos não são públicos. Seria importante buscar outras plataformas, fazer, construir aliança com outros setores para criar novas. Eu acho que essa campanha nos deixou uma lição: plataformas são muito importantes para dar voz para as pessoas comuns”.

Danillo Bragança avalia que o engajamento demonstrado durante a campanha pode abrir espaço para formas mais participativas de atuação política, com a população tendo protagonismo nas decisões.

“A rua tem um impacto igualmente grande dessa ocupação das redes, e hoje as coisas são equivalentes.”

Danillo Bragança, cientista político

Luiza Wrigg também defende que a organização não termine com a eleição. Ela cita a violência contra povos originários no Mato Grosso do Sul, pessoas negras, a população LGBT e moradores de periferias como questões que exigem a continuidade da organização popular.

“O Congresso, ele não se faz só dos parlamentares, ele se faz do povo que tem o poder de pressionar todo dia,  de pressionar tanto nas redes, mas também nas ruas. Que a gente continue lutando e alcançando nossos direitos e os direitos dos outros”.

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