O poder como ele é: mentiras, gafes e sacadas que marcaram a política brasileira
Reportagem Especial

O poder como ele é: mentiras, gafes e sacadas que marcaram a política brasileira

Da República Velha aos escândalos modernos, a trajetória dos nossos políticos é recheada de frases célebres, escorregões históricos e artimanhas de bastidor que revelam o lado mais divertido, cínico e humano de quem tentou comandar o destino do Brasil

Na noite de 1º de setembro de 1994, em Brasília, o ministro da Fazenda Rubens Ricupero conversou informalmente com o repórter Carlos Monforte, da Globo, antes de gravar uma entrevista, e antenas parabólicas captaram o papo. O que ele disse ali, sobre faturar o que é bom e esconder o que é ruim, levou à sua renúncia e abriu uma crise na campanha de Fernando Henrique Cardoso. Ciro Gomes assumiu o lugar dele. O episódio é a gafe mais citada da televisão brasileira, mas está longe de ser a única.

Antes dele, a República já havia produzido um presidente que transformou o favor entre governadores em método de governo, um senador que previu a própria morte e um marechal cuja esposa levou um violão ao Catete e irritou Ruy Barbosa. Havia também um humorista que, depois de apanhar, pregou na porta um convite aos visitantes indesejados. Depois dele vieram as agências de checagem, que converteram a imprecisão política em planilha: o Aos Fatos contabilizou 6.676 declarações falsas ou distorcidas de um único presidente em apenas quatro anos _ e isso porque ele não se reelegeu.

Percorrer este inventário de desatinos, bravatas e confissões involuntárias demonstra que a história política brasileira se escreve tanto com decretos empoeirados quanto com gargalhadas nos bastidores. Alguns dos principais personagens que moldaram o país deixaram claro que a solenidade do poder não passa de uma farsa passageira diante da força implacável do folclore nacional. As mentiras contadas para salvar mandatos, as gafes transmitidas em rede nacional e as sacadas irônicas que desarmaram crises compõem o tecido vivo de uma democracia que luta para aprender a ficar esperta e não sucumbir aos próprios horrores.

A fórmula infalível para governar sem governar

Presidente de 1898 a 1902, Campos Sales assumiu em 1898 com uma baita crise financeira nas costas e uma ideia política de efeito duradouro: dar autonomia aos estados e transformar os governadores em sócios do poder federal. Uma de suas frases mais famosas resume o sistema: “O que pensam os Estados pensa a União”

Conforme relata o historiador José Murilo de Carvalho em suas obras clássicas sobre a cidadania brasileira, o presidente implementou o chamado Funding Loan para renegociar a dívida externa em Londres, impondo sacrifícios hercúleos à população enquanto garantia a paz perpétua entre o Planalto e as oligarquias estaduais.

A base de tudo era o coronelismo, que entregava deputados e governadores à rede de troca de influência. Em 1902, Sales procurou o governador mineiro Silviano Brandão para indicar o vice de Rodrigues Alves, e dali nasceu a aliança entre os dois estados mais ricos, que como você aprendeu na escola virou a República do Café com Leite.

Campos Salles: um dos patronos da República do Café com Leite (Crédito: Reprodução)

Um príncipe dos bastidores que mandava sem precisar da cadeira presidencial

Nos corredores abafados do Senado Federal durante a Primeira República, nenhum destino político se decidia sem a bênção sussurrada de José Gomes Pinheiro Machado, o gaúcho que transformou a articulação de bastidores em uma verdadeira arte marcial. “A política é a arte de conciliar os interesses”, é uma das frases mais atribuídas a ele.

Segundo o pesquisador Edgard Carone em seus recortes sobre a República Velha, o senador exercia um poder tão absoluto sobre a sucessão presidencial que elegia e derrubava governantes a partir de conversas reservadas na Confeitaria Colombo.

Sua habilidade em negociar apoios regionais e controlar bancadas inteiras fez dele o verdadeiro eixo gravitacional do regime, mantendo a fachada democrática enquanto ditava os rumos do país nas sombras. Pinheiro Machado eternizou uma frase que define o pragmatismo rústico da política nacional da época, afirmando que “a política é a arte de conseguir o voto dos ricos e os votos dos pobres para proteger uns dos outros”.

Mas uma de suas frases mais famosas acabou sendo uma premonição. Certo dia, conversando com amigos no Senado, ele disse que, se fosse assassinado, queria “que seja aqui no Senado, a punhal, como César”. Errou o endereço por poucos quilômetros. Em 8 de setembro de 1915, foi apunhalado pelas costas no saguão do Hotel dos Estrangeiros, no Flamengo, por Francisco Manso de Paiva Coimbra, um padeiro. A hipótese de crime político nunca foi descartas, nem provada.

Pinheiro Machado: “política é a arte de conseguir o voto dos ricos e os votos dos pobres para proteger uns dos outros” (Crédito: Reprodução)

O marechal que ganhou um governo “Corta-Jaca”

Hermes da Fonseca começou o governo mal e terminou piada popular. No dia da posse, a esquadra amotinada na Baía de Guanabara apontou os canhões para o Rio, especialmente para o Palácio do Catete, e entregou a ele um ultimato de madrugada, logo depois da ópera: era a Revolta da Chibata, comandada por João Cândido.

Seu governo deixou um episódio que parece saído de uma sátira: a “Política das Salvações”. Sob o pretexto de combater esquemas locais e corrupção, Hermes promoveu intervenções e manobras para trocar governadores em vários estados, incluindo São Paulo, Rio Grande do Sul, Pernambuco, Bahia, Piauí, Ceará e Alagoas. A iniciativa pretendia centralizar poder, mas acabou apenas criando resistência política e popular.

O episódio mais folclórico, porém, tem trilha sonora. Em 26 de outubro de 1914, na última recepção da Presidência, a primeira-dama Nair de Teffé tocou ao violão o “Corta-jaca”, de Chiquinha Gonzaga. “Neste mundo de misérias/Quem impera é quem é mais folgazão! /É quem sabe cortar-jaca nos requebros/De suprema perfeição, perfeição”, diz a letra.

No dia seguinte o Senado ferveu. Rui Barbosa subiu à tribuna para classificar o maxixe como “a mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens” e reclamou que ele era executado em recepções presidenciais com honras de música de Wagner. O escândalo acabou apelidando a administração Hermes de “Corta-Jaca”. Pelo menos a primeira-dama cumpria o que se espera da cultura: dividia o plenário.

Hermes da Fonseca criou a arte de intervir em governos, principalmente se estes não quisessem (Crédito: Reprodução)

O presidente negro que a história tentou embranquecer

Aqui a gafe, o ato falho, a ironia, a precisão do momento não estão contidos numa frase, mas numa atitude. Conforme documenta a biografia escrita pelo historiador Edmundo Rodrigues Soares, a trajetória de Peçanha foi permanentemente assombrada pelo racismo velado e pelo preconceito aristocrático das elites paulistas e mineiras, que ironizavam sua origem e sua cor de pele em charges e pasquins da época.

A resposta? Retratos oficiais dele como presidente foram manipulados para clarear sua pele, e panfletos de adversários, como os de Silva Marques em 1913, usaram ostensivamente a cor como insulto. Mas sua trajetória expõe uma contradição fundadora da Primeira República: um afrodescendente nascido longe dos grandes centros, pôde ocupar o cargo máximo, mas isso não significou nenhuma ruptura com o sistema. Peçanha era produto e operador do mesmo jogo político que Campos Sales e Pinheiro Machado ajudaram a consolidar.

Indagado certa vez por um oligarca sobre a origem de sua ascendência familiar e os desafios de sua ascensão ao poder, Nilo Peçanha cunhou uma frase que antecipando-se a gafe de FHC (que veremos adiante), resumia o peso do preconceito na política brasileira, declarando com serenidade irônica que “a minha cor não me envergonha, pois no Brasil todos têm um pé na cozinha, embora alguns tenham vergonha do calcanhar”.

Nilo Peça, o primeiro presidente negro do Brasil, teve seus retratos clareados na tentativa de embranquecê-lo (Crédito: Reprodução)

O Rei dos Causos

José Maria Alkmin, tio-avô do atual vice-presidente do Brasil, Geraldo Alckmin, foi advogado, deputado, ministro da Fazenda e vice-presidente da República durante o governo Castelo Branco. A biografia oficial documenta uma carreira que atravessou diferentes fases da política brasileira, da década de 1930 ao regime militar. Mas a memória popular reservou-lhe um segundo cargo, sem remuneração e muito mais duradouro: o de personagem principal de histórias sobre esperteza na política.

É dele, e não de JK, uma das frases mais conhecidas do folclore nacional. Ao encontrar o filho de um eleitor e perguntar como ia o pai, ouviu que ele havia morrido há muito tempo, e retrucou: “Morreu para você, filho ingrato! Estará sempre vivo em nossos corações!”

Em outra ocasião, após comprar um imóvel no bairro de Higienópolis, em São Paulo, encontrou com um eleitor que o reconheceu e empolgado lhe disse: “Dr Alkmin, é uma alegria para todos nós ter o senhor como vizinho. Eu mesmo moro naquela casa ali”. Ao que Alkmin respondeu: “eu sei, levei muito isso em conta antes de tomar minha decisão”.

E só para fechar, uma sensacional que foi registrada pelo jornalista Sebastião Nery. Certa vez, voltando da Europa, ele foi parado no aeroporto carregando várias garrafas de uísque. Questionado pela Alfândega, Alkmin teria dito que eram “águas milagrosas de Fátima”. Ao ser confrontado pelos policiais com o fato de que se tratava de uísque, respondeu: “Ué, não é que já se deu o milagre?”

José Maria Alkmin, tio-avô do vice-presidente Geraldo Alckmin e uma verdadeira enciclopédia de frases bem sacadas (Crédito: Reprodução)

Por una cabeza…

Veterano de incontáveis batalhas eleitorais em Santa Catarina e nos corredores de Brasília, Esperidião Amin construiu uma reputação ímpar baseada no domínio técnico dos dossiês, na memória prodigiosa e em tiradas irônicas que frequentemente desconcertam aliados e adversários na tribuna. E muitas tiradas eram sobre sua careca. Em 1989, quando disputou a indicação de seu partido à Presidência contra Paulo Maluf, uma faixa no plenário do Senado anunciava seu retrato com o slogan “Uma nova cabeça”.

Segundo o jornalista Frutuoso Oliveira, em artigo publicado em 28 de março de 2024, durante um debate no Senado, um adversário teria acusado Amin de ter “duas caras”. O catarinense esperou o colega terminar e respondeu: “Vossa Excelência acha que, se eu tivesse duas caras, viria aqui com esta, sem cabelo? Óbvio que eu viria com a outra.”

Entre as histórias mais comentadas nos corredores do Congresso, destaca-se o episódio em que um jovem deputado tentou interrompê-lo com um argumento demagógico sobre economia, obtendo como resposta a tirada seca de que “o jovem confunde audácia com ignorância, e o pior é que a ignorância é renovável”.

Conforme crônicas de repórteres, Amin costuma definir a atividade legislativa com o ceticismo de quem já viu de tudo, afirmando que o parlamento brasileiro é “uma academia onde se aprende todos os dias a duvidar do óbvio”. Suas tiradas afiadas fazem de sua   presença na política nacional sinônimo de imprevisibilidade e inteligência cortante.

Espiridião Amin, chamado por Darcy Ribeiro de “pioneiro da carequice no senado” (Crédito: Reprodução)

A gafe que virou aula de marketing político

Como contamos lá em cima, a conversa de Rubens Ricúpero com Carlos Monforte aconteceu antes da gravação de uma entrevista no estúdio da Globo, em Brasília, na noite de 1º de setembro. Ricupero falou sobre o Plano Real, sobre a eleição e sobre a cobertura da imprensa, e entre uma coisa e outra soltou que “não tenho escrúpulos” e que “o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde”.

A repercussão foi tão fulminante que, poucas horas após a veiculação das imagens, Rubens Ricupero apresentou sua demissão irrevogável ao presidente Itamar Franco, encerrando sua passagem pela pasta econômica em meio a uma crise sem precedentes.

Conforme análises posteriores, o episódio redefiniu a relação entre políticos e a imprensa eletrônica, inaugurando a era em que um simples deslize técnico na transmissão via satélite podia derrubar o homem mais poderoso da economia nacional. O ministro, que depois construiu brilhante carreira diplomática, viu seu nome eternizado não apenas pelos seus livros de macroeconomia, mas por uma das frases mais reveladoras da história da televisão brasileira.

Rubens Ricúpero ficou eternizado pela gafe ao vivo: “o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde”
(Crédito: Reprodução)

A erudição irônica que tropeçava nas próprias palavras

Sociólogo de renome internacional, Fernando Henrique Cardoso chegou à presidência em 1994 com a promessa de modernizar o Estado brasileiro, mas acumulou ao longo dos anos uma vasta coleção de declarações informais que desafiavam o decoro diplomático.

De acordo com reportagens e perfis biográficos, o tucano frequentemente demonstrava impaciência com as demandas corporativas e com a sanha fiscalista da oposição, soltando frases cáusticas nos momentos mais improváveis. A mais famosa delas, sem dúvida, foi a “esqueçam o que eu escrevi”, dita quando assumiu o Ministério da Fazenda, porém usada e replicada nas campanhas posteriores.

Na campanha de 1994, outra gafe tornou-se histórica. Durante agendas em Mauá e Jundiaí (interior de São Paulo) FHC disse que era “mulatinho” e tinha um “pé na cozinha”. A frase pegou mal e foi taxada de pejorativa e preconceituosa. FHC tentou desmenti-la em um primeiro momento, mas a Folha de S Paulo apresentou a gravação.

Há outros episódios menores, mas reveladores. Em 2001, durante visita à Coreia do Sul, ele começou um discurso em inglês diante de plateia que esperava tradução, gerando confusão diplomática e jornalística. Em outra ocasião, chamou o ex-senador Antônio Carlos Magalhães de “trombone desafinado”, mais uma amostra de que sua verve podia tanto encantar quanto incendiar a política.

Fernando Henrique Cardoso também eternamente perseguido pela polêmica frase “esqueçam o que eu escrevi”
(Crédito: Reprodução)

4,58 declarações enganosas por dia: o que as agências de checagem contaram

Durante o quadriênio presidencial de Jair Bolsonaro, o debate público brasileiro ganhou uma nova e exaustiva rotina diária com a proliferação sistemática de declarações contestadas por agências independentes de verificação de fatos, a exemplo da Lupa e do Aos Fatos. No balanço de dezembro de 2022, foram 6.676 declarações falsas ou distorcidas, média de 4,58 por dia. A pandemia concentrou 2.511 delas (37,61%), seguida por economia, com 1.212, e meio ambiente, com 354.

A repetição foi método: 70,2% das frases checadas apareceram mais de uma vez. A campeã foi a afirmação de que não havia corrupção no governo, desmentida 249 vezes. Entre as pérolas, a de que a Amazônia, por ser úmida, não pegaria fogo, nem por ação humana ou de quem tomasse a vacina contra o Covid-19 poderia “virar jacaré”.

Isso tudo, porém, não permite afirmar, com rigor científico, que ele tenha sido “o mais mentiroso de todos os tempos”, porque as bases de comparação variam; mas, dentro do universo verificado pelas agências, ele ocupa posição de destaque negativo.

Jair Bolsonaro cravou um recorde de 6.676 declarações falsas ou distorcidas verificadas pelas agências de checagem
(Crédito: Reprodução)

O jornalista que riu do governo, foi espancado e pregou ‘Entre sem bater’ na porta”

Apparício Torelly adotou o título de nobreza de Barão de Itararé em homenagem a uma batalha que nunca aconteceu. Na imprensa carioca, debochou de tudo um muito, e a conta não demorou a chegar.

Em 19 de outubro de 1934, ao sair de casa, foi sequestrado por oficiais da Marinha. Depois de ser espancado, mandou afixar na porta a placa “Entre. Sem bater”. Em dezembro de 1935, foi preso depois da Intentona Comunista, e cumpriu cerca de um ano e meio de cadeia no presídio da Ilha Grande. Mas ao sair retomou o ofício.

Ao tentar relançar o jornal A Manha, foi “aconselhado” pelo Estado Novo a desistir. A resposta dele ficou famosa: “O Estado Novo é o estado a que chegamos”. Em maior escala, deixou aforismos que todo mundo conhece: “De onde menos se espera, daí é que não sai nada”, “Quem empresta, adeus” ou “O mal do governo não é a falta de persistência, mas a persistência na falta”.

O Barão de Itararé, autor de aforismos famosos como “De onde menos se espera, daí é que não sai nada mesmo”
(Crédito: Reprodução)

A história não perdoa microfone aberto

De Campos Sales a Jair Bolsonaro, o repertório político brasileiro atravessa diferentes regimes, tecnologias e formas de comunicação, mas conserva um traço comum: a distância entre aquilo que o poder pretende dizer e aquilo que o público acaba ouvindo.

Na Primeira República, a disputa se fazia nos corredores do Congresso e nas negociações entre oligarquias. Na televisão dos anos 1990, uma antena parabólica expôs uma conversa reservada. Na era das redes sociais, declarações podem ser gravadas, verificadas, recortadas e compartilhadas em poucos minutos.

O Brasil produz frases controversas com a regularidade de uma fábrica e as esquece com a velocidade de um arquivo mal catalogado. A moral da história é simples: em política, quem fala demais depende da memória alheia, e quem escreve, de bons documentos.

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