Em 1933, na Guanabara, então Distrito Federal, Almerinda Farias Gama, advogada, jornalista e sindicalista negra, participou como delegada classista da eleição que definiu representantes dos trabalhadores para a Assembleia Nacional Constituinte do ano seguinte. Presidente do Sindicato dos Datilógrafos e Taquígrafos do Distrito Federal, ela se tornou a única mulher entre exatos 272 homens a votar na escolha dos representantes dos trabalhadores. Num país em que a política continuava dominada por homens brancos, sua presença numa instância de decisão nacional foi uma dessas raras ocasiões em que a história precisou abrir espaço para quem normalmente só servia o café.
A trajetória de Almerinda se desenvolveu numa época de transformações institucionais, mas também de profundas desigualdades. A Revolução de 1930 levara Getúlio Vargas ao poder, o Código Eleitoral de 1932 reconhecera o voto feminino em âmbito nacional e a organização dos trabalhadores ganhava importância na nova arquitetura política. Nada disso, entretanto, significava que as mulheres, sobretudo as mulheres negras, tivessem conquistado condições iguais de participação. O direito no papel era uma coisa; exercê-lo, disputar espaços e ser levada a sério por quem os controlava era outra.
Mas Almerinda não se limitou a ocupar uma cadeira simbólica. Defendeu direitos trabalhistas, participou da mobilização pelo sufrágio feminino, candidatou-se à Câmara Federal sem sucesso e continuou atuando politicamente nos anos seguintes. Sua história combina sindicalismo, feminismo, imprensa e disputa eleitoral, mas também revela uma ironia persistente da vida pública brasileira: algumas pessoas precisam realizar feitos extraordinários para conquistar o espaço que a outras parece naturalmente reservado. Quase um século depois, seu nome continua menos conhecido do que o de muitos homens que dividiram com ela o cenário político da época.

A mulher que não aceitou ficar na plateia
Nascida em Maceió, em 16 de maio de 1899, Almerinda construiu uma trajetória profissional que passou pela datilografia, pelo trabalho sindical, pelo jornalismo e pela advocacia. A virada veio no contracheque. Ela descobriu que recebia 200 réis pelo mesmo serviço pelo qual um colega ganhava 300 e em 1929 decidiu se mudar para a Guanabara em busca de melhores condições. Naquele mesmo ano, fundou e assumiu a presidência do Sindicato dos Datilógrafos e Taquígrafos do Distrito Federal.
Não se tratava de uma associação de grande prestígio social, é verdade. Mas reunia profissionais cujo trabalho era essencial à burocracia e à circulação de documentos, mas que nem por isso desfrutavam de poder proporcional à sua importância. Almerinda compreendeu que a organização coletiva poderia transformar essa condição.
Sua atuação não se restringia às reivindicações de uma categoria profissional. Ela integrou a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, organização vinculada à luta pelo direito ao voto das mulheres, e colaborou com periódicos paraenses e cariocas.
Ela escreveu crônicas para o jornal A Província, poemas e livros, entre eles Zumbi, publicado em 1942, e O dedo de Luciano, de 1964. A combinação de atividades revela uma personagem que não cabe numa única definição. Ela era trabalhadora, dirigente sindical, intelectual e militante política. Sua biografia ajuda a desfazer a ideia de que as mulheres negras só passaram a ocupar o debate público brasileiro em tempos recentes.

A única mulher na votação classista: o detalhe que muda a história
Aqui é preciso uma pausa para uma explicação importante. A eleição geral de 3 de maio de 1933 escolheu os representantes pelo voto popular. Já os representantes classistas, por sua vez, foram escolhidos em votações específicas, realizadas posteriormente, em julho e agosto daquele ano. Mas o que diabos era isso, você deve estar se perguntando.
Eles eram delegados vinculados às categorias profissionais, dentro do modelo de representação adotado pelo governo provisório de Getúlio Vargas. Foi nesse processo que Almerinda participou como representante do Sindicato dos Datilógrafos e Taquígrafos, tornando-se, segundo a documentação do CPDOC, a única mulher a votar como delegada classista na escolha dos representantes para a Assembleia Constituinte.
O plano era uma ação de relações públicas. No dia seguinte, os jornais destacaram que uma mulher havia participado da eleição e vários deles deram dedicaram espaço à sindicalista. Mas nem tudo deu certo. Concorrendo a uma vaga de deputada federal pelo Partido Socialista Proletário do Brasil (uau!), ela não conseguiu se eleger, perdendo a chance de se tornar a primeira deputada mulher do Brasil para Carlota Pereira Queiroz, que concorreu pelo sem graça Partido Constitucionalista de São Paulo.

Ser mulher, negra e trabalhadora: três barreiras para atravessar
Almerinda enfrentou três exclusões simultâneas. Era mulher num sistema político absolutamente masculino e elitizado, negra numa sociedade marcada pelo racismo e nordestina migrante na capital federal. Ainda assim, ocupou espaços de decisão quando a representatividade ainda não era uma pauta amplamente formulada.
Sua atuação não se limitou ao voto. Ela integrou a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, apoiou Bertha Lutz na disputa pela presidência da entidade e defendeu a independência econômica das mulheres, a proteção legal dos trabalhadores e o ensino público gratuito e obrigatório. Ela articulava questões de gênero, raça e classe numa época em que estes conceitos raramente eram tratados de maneira conjunta e da forma que se popularizariam décadas depois.

Como ela desapareceu da memória popular?
Almerinda participou de acontecimentos decisivos, deixou produção escrita e concedeu, em 1984, uma longa entrevista ao projeto Velhos Militantes, do CPDOC. A entrevista foi publicada em livro em 1988, pela Editora Zahar. O material oferece uma oportunidade de conhecer sua trajetória para além das breves referências que costumam aparecer em retrospectivas sobre o voto feminino. Ainda assim, seu nome permaneceu pouco conhecido pelo grande público, sobretudo quando comparado ao de lideranças políticas masculinas do mesmo período.
Mas a ausência de notoriedade não significa ausência de relevância. Quando a história política é contada apenas a partir dos presidentes, dos ministros e dos parlamentares eleitos; representantes sindicais, mulheres e militantes sem mandato tendem a serem cortados da versão final da história. Recuperar sua trajetória portanto não é inventar uma heroína esquecida, mas ampliar o campo de visão para incluir quem efetivamente participou da construção institucional do país.

O país que a esqueceu agora tem prêmio, livro e praça com o nome dela
Ainda em vida, em 1934, ela recebeu a homenagem de dar nome ao Ginásio Almerinda Gama, em São João de Meriti. O documentário Almerinda, uma Mulher de Trinta (1991), de Joel Zito Araújo, a retratou, e em 2016 a Prefeitura de São Paulo criou o Prêmio Almerinda Farias Gama, para iniciativas de comunicação em defesa da população negra.
A importante dissertação de Cibele Tenório na UnB (2020) virou o livro Almerinda Gama: a sufragista negra, publicado pela Todavia em 2025. Em Maceió, a prefeitura criou o Parque da Mulher, que homenageia 100 referências femininas de Alagoas, entre elas nossa Almerinda. Ela pode não ter sido eleita deputada federal, e daí, porque sua trajetória não pode ser reduzida apenas a uma derrota eleitoral.
Sua história mostra que a participação democrática foi construída por caminhos mais complexos do que a simples conquista de um direito legal. Exigiu organização, mobilização e a disposição de enfrentar instituições dominadas por grupos que raramente estavam dispostos a dividir o poder.
Resgatar Almerinda é também rever a maneira como se conta a história política brasileira.
O país não foi construído apenas pelos homens que assinaram constituições ou ocuparam ministérios, mas também por mulheres que pressionaram, organizaram sindicatos, escreveram, concorreram e abriram frestas em estruturas resistentes à mudança. Almerinda atravessou algumas dessas portas e deixou documentos que permitem reconstituir sua passagem. O fato de ainda precisarmos apresentá-la a tantos leitores é, por si só, uma notícia sobre a memória nacional.






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