Há presidentes de partido que vem com prazo de validade menor que o de um mandato de vereador. Outros descobriram uma jabuticaba de longevidade política. Eles atravessam governos, crises, eleições, mudanças de nome, reformas eleitorais e até o fim do mundo analógico sem abandonar a rede do morubixaba. Entre os dirigentes que mais tempo permaneceram à frente de partidos brasileiros estão um comunista que comandou uma legenda durante quase quatro décadas, um dirigente que atravessa 31 anos à frente de uma sigla criada por seu grupo, um verde que está no cargo há 27 anos e um trabalhista que já soma mais de duas décadas no comando do PDT. E fechando a lista, aparece um presidente que chegou ao comando de uma legenda criada em 2011 e continua por lá.
A comparação exige uma ressalva. Não estamos falando necessariamente dos atuais presidentes de partidos. É por isso que João Amazonas aparece na lista mesmo tendo deixado a presidência do PCdoB em 2001 e morrido no ano seguinte. Rui Costa Pimenta, por sua vez, preside o PCO desde 1995 e continua identificado como presidente nacional da legenda. Penna permanece à frente do PV desde 1999, enquanto Carlos Lupi comanda o PDT desde 2004 e Kassab está no comando do próprio partido que criou desde 2011.
Deputados vêm e vão. Governadores entram e saem. Presidentes da República chegam prometendo mudar tudo. Partidos trocam de nome, de aliados e de estratégia. Alguns até desaparecem. E, enquanto o Brasil muda de governo, de moeda, de tecnologia e de modismos políticos, certas cadeiras continuam ocupadas. Algumas parecem ter sido compradas no crediário de 30 anos, com a última prestação prevista para algum momento ainda não identificado pelo calendário eleitoral.
João Amazonas, quase quatro décadas à frente do PCdoB
João Amazonas é o caso que transforma qualquer campeonato de longevidade partidária em uma disputa um tanto desigual. O Senado registra que Amazonas liderou, em 1962, o movimento que deu origem à reorganização do PCdoB e permaneceu presidente nacional até 2001, quando passou a presidente de honra.
O período é ainda mais extraordinário porque boa parte dele ocorreu sob a clandestinidade. Amazonas comandou o partido durante a Ditadura Militar, encarou o exílio na Albânia e voltou ao Brasil depois da anistia de 1979. Em 1968, participou da organização da Guerrilha do Araguaia, movimento armado integrado por militantes do PCdoB.
Quando finalmente deixou a presidência, no 10º Congresso do PCdoB, em dezembro de 2001, Amazonas tinha 89 anos. A razão foi prosaica diante de uma trajetória nada prosaica: a saúde. Ele próprio afirmou que já não tinha condições físicas para continuar exercendo o principal cargo da direção partidária. Renato Rabelo assumiu a presidência.
Amazonas morreu em 27 de maio de 2002, aos 90 anos. Tinha passado quase quatro décadas no comando de uma organização que enfrentara clandestinidade, repressão, exílio e redemocratização. Para um partido acostumado a falar em revolução, sua própria permanência foi, durante muito tempo, uma espécie de revolução administrativa de baixa velocidade.

Rui Costa Pimenta, 31 anos na esquerda da esquerda
Se João Amazonas pertence à era dos mimeógrafos, da clandestinidade e dos aparelhos de segurança da ditadura, Rui Costa Pimenta atravessou a transição para a internet, as redes sociais e a política em tempo real sem abandonar a presidência do PCO.
Ex-integrante do Sindicato dos Jornalistas, Pimenta preside o Partido da Causa Operária desde 1995, ano em que a legenda foi lançada. Quando assumiu, Fernando Henrique acabava de chegar ao Palácio do Planalto. O real tinha acabado de nascer. Celular ainda era objeto relativamente caro e a internet comercial brasileira dava seus primeiros passos. Trinta e um anos depois, Rui Costa Pimenta continua sendo a principal referência pública da legenda e voltou a ser candidato à Presidência da República em 2026.
Há uma peculiaridade adicional. O PCO obteve registro provisório em 1995 e definitivo em 1997. Rui, que participou do processo desde o início, acabou acumulando as funções de fundador, candidato presidencial permanente e presidente nacional mais permanente ainda, durante mais de três décadas. Em termos partidários, é uma longevidade impressionante. Em 1995, ainda se usava fax em redação de jornal. Em 2026, o PCO faz campanha política pela internet. A cadeira do morubixaba, entretanto, continua ocupada pelo mesmo bolchevique.

José Luiz Penna, o verde que continua verde desde 1999
Quando surgiu, o Partido Verde parecia um sopro de vanguardismo social-democrata e ambiental no cenário político brasileiro. Mas de boa intenção, o cemitério do TSE está lotado. José Luiz de França Penna chegou à presidência nacional do PV em 1999. Muito tempo depois do auê causado por Fernando Gabeira, Alfredo Sirkis e companhia. Desde então, passaram pelo Palácio do Planalto FHC, Lula, Dilma Rousseff, Michel Temer, Jair Bolsonaro e novamente Lula. Mas, no PV, a cadeira continuou ocupada pelo mesmo homem que tentou uma carreira de ator, mas saiu-se melhor como baterista na noite daquela estranha cidade cinza ao Sul do Brasil.
Isso significa 27 anos no comando da legenda. É tempo suficiente para que uma geração inteira de políticos tenha entrado na política, mudado de partido, trocado de cargo e eventualmente se aposentado enquanto o presidente do PV continuava participando das reuniões da Executiva Nacional virando madrugada conchavando à base de café e pão de queijo.
Justiça seja feita, ele não é um outsider ambiental. Segundo registros biográficos, esteve envolvido na construção da legenda desde os anos 1980 e foi eleito presidente nacional pela primeira vez em 1999. A política partidária brasileira, ao que parece, descobriu que o verde também pode ser uma cor bastante resistente ao tempo.

Carlos Lupi, o jornaleiro que virou amigo do caudilho
Carlos Lupi assumiu interinamente a presidência nacional do Partido Democrático Trabalhista em 28 de junho de 2004, após a morte de Leonel Brizola, que conheceu quando era dono de uma banca de jornal em Ipanema. Os dois ficaram amigos e Brizola o convenceu a entrar na vida pública e se filiar ao PDT, onde foi seu braço direito.
A passagem de bastão foi portanto quase automática dentro do trabalhismo. Lupi já era vice-presidente nacional do PDT e havia sido escolhido para a função com o aval de Brizola. Com a morte do fundador, acabou assumindo a presidência do partido.
Quando Lupi chegou ao comando, Lula estava no segundo ano do primeiro mandato presidencial. O Orkut começava a se espalhar pelo Brasil, o Facebook ainda nem existia e o Twitter só surgiria dois anos depois. Desde então, o PDT passou por eleições presidenciais, disputas internas, mudanças de alianças e diferentes estratégias eleitorais, mas Lupi permaneceu na direção nacional, e até chegou a ministro. Uma longa permanência, sobretudo para um partido fundado por Leonel Brizola, figura cuja sombra política costuma ser grande o bastante para ocupar mais de uma sala.

Gilberto Kassab, o dono do guardanapo e do PSD
Gilberto Kassab tem uma vantagem sobre quase todos os outros personagens desta lista: ele não apenas assumiu o comando de seu partido, como ajudou a inventá-lo. O PSD nasceu em 2011, e a própria história oficial da legenda conta que Kassab e Guilherme Afif Domingos discutiram a criação do novo partido durante um jantar em 18 de março daquele ano. O rascunho da nova sigla teria sido rabiscado em um guardanapo, objeto que acabou transformado pelo partido em uma espécie de certidão de nascimento.
Em agosto de 2011, a convenção nacional elegeu Kassab presidente da nova legenda. São aproximadamente 15 anos no comando de uma legenda que ele próprio ajudou a criar. Nesse intervalo, o PSD deixou de ser apenas uma novidade partidária insossa, nem de direita e nem de esquerda, para se tornar uma legenda de forte expressão nacional. O detalhe saboroso é que o objeto mais importante da fundação do partido talvez não tenha sido uma ata, uma escritura ou um documento oficial. Foi um simples guardanapo de papel. Deus é um cara gozador…







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