Os morubixabas: conheça os cinco presidentes de partidos políticos mais longevos do Brasil
Reportagem Especial

Os morubixabas: conheça os cinco presidentes de partidos políticos mais longevos do Brasil

Cinco dirigentes partidários brasileiros driblaram o tempo e a alternância de poder no comando de suas legendas. João Amazonas ficou quase 39 anos à frente do PCdoB; Rui Costa Pimenta preside o PCO desde 1995; José Luiz Penna, o PV desde 1999; Carlos Lupi, o PDT…

Há presidentes de partido que vem com prazo de validade menor que o de um mandato de vereador. Outros descobriram uma jabuticaba de longevidade política. Eles atravessam governos, crises, eleições, mudanças de nome, reformas eleitorais e até o fim do mundo analógico sem abandonar a rede do morubixaba. Entre os dirigentes que mais tempo permaneceram à frente de partidos brasileiros estão um comunista que comandou uma legenda durante quase quatro décadas, um dirigente que atravessa 31 anos à frente de uma sigla criada por seu grupo, um verde que está no cargo há 27 anos e um trabalhista que já soma mais de duas décadas no comando do PDT. E fechando a lista, aparece um presidente que chegou ao comando de uma legenda criada em 2011 e continua por lá. 

A comparação exige uma ressalva. Não estamos falando necessariamente dos atuais presidentes de partidos. É por isso que João Amazonas aparece na lista mesmo tendo deixado a presidência do PCdoB em 2001 e morrido no ano seguinte. Rui Costa Pimenta, por sua vez, preside o PCO desde 1995 e continua identificado como presidente nacional da legenda. Penna permanece à frente do PV desde 1999, enquanto Carlos Lupi comanda o PDT desde 2004 e Kassab está no comando do próprio partido que criou desde 2011. 

Deputados vêm e vão. Governadores entram e saem. Presidentes da República chegam prometendo mudar tudo. Partidos trocam de nome, de aliados e de estratégia. Alguns até desaparecem. E, enquanto o Brasil muda de governo, de moeda, de tecnologia e de modismos políticos, certas cadeiras continuam ocupadas. Algumas parecem ter sido compradas no crediário de 30 anos, com a última prestação prevista para algum momento ainda não identificado pelo calendário eleitoral. 

João Amazonas, quase quatro décadas à frente do PCdoB 

João Amazonas é o caso que transforma qualquer campeonato de longevidade partidária em uma disputa um tanto desigual. O Senado registra que Amazonas liderou, em 1962, o movimento que deu origem à reorganização do PCdoB e permaneceu presidente nacional até 2001, quando passou a presidente de honra. 

O período é ainda mais extraordinário porque boa parte dele ocorreu sob a clandestinidade. Amazonas comandou o partido durante a Ditadura Militar, encarou o exílio na Albânia e voltou ao Brasil depois da anistia de 1979. Em 1968, participou da organização da Guerrilha do Araguaia, movimento armado integrado por militantes do PCdoB. 

Quando finalmente deixou a presidência, no 10º Congresso do PCdoB, em dezembro de 2001, Amazonas tinha 89 anos. A razão foi prosaica diante de uma trajetória nada prosaica: a saúde. Ele próprio afirmou que já não tinha condições físicas para continuar exercendo o principal cargo da direção partidária. Renato Rabelo assumiu a presidência. 

Amazonas morreu em 27 de maio de 2002, aos 90 anos. Tinha passado quase quatro décadas no comando de uma organização que enfrentara clandestinidade, repressão, exílio e redemocratização. Para um partido acostumado a falar em revolução, sua própria permanência foi, durante muito tempo, uma espécie de revolução administrativa de baixa velocidade. 

João Amazonas, o morubixaba-mor entre todos os caciques políticos brasileiros (Crédito: Reprodução)

Rui Costa Pimenta, 31 anos na esquerda da esquerda

Se João Amazonas pertence à era dos mimeógrafos, da clandestinidade e dos aparelhos de segurança da ditadura, Rui Costa Pimenta atravessou a transição para a internet, as redes sociais e a política em tempo real sem abandonar a presidência do PCO. 

Ex-integrante do Sindicato dos Jornalistas, Pimenta preside o Partido da Causa Operária desde 1995, ano em que a legenda foi lançada. Quando assumiu, Fernando Henrique acabava de chegar ao Palácio do Planalto. O real tinha acabado de nascer. Celular ainda era objeto relativamente caro e a internet comercial brasileira dava seus primeiros passos. Trinta e um anos depois, Rui Costa Pimenta continua sendo a principal referência pública da legenda e voltou a ser candidato à Presidência da República em 2026. 

Há uma peculiaridade adicional. O PCO obteve registro provisório em 1995 e definitivo em 1997. Rui, que participou do processo desde o início, acabou acumulando as funções de fundador, candidato presidencial permanente e presidente nacional mais permanente ainda, durante mais de três décadas. Em termos partidários, é uma longevidade impressionante. Em 1995, ainda se usava fax em redação de jornal. Em 2026, o PCO faz campanha política pela internet. A cadeira do morubixaba, entretanto, continua ocupada pelo mesmo bolchevique. 

Rui Costa, o presidente e candidato permanente do partido que disputa quem é mais radical na extrema-esquerda (Crédito: Reprodução)

José Luiz Penna, o verde que continua verde desde 1999 

Quando surgiu, o Partido Verde parecia um sopro de vanguardismo social-democrata e ambiental no cenário político brasileiro. Mas de boa intenção, o cemitério do TSE está lotado. José Luiz de França Penna chegou à presidência nacional do PV em 1999. Muito tempo depois do auê causado por Fernando Gabeira, Alfredo Sirkis e companhia. Desde então, passaram pelo Palácio do Planalto FHC, Lula, Dilma Rousseff, Michel Temer, Jair Bolsonaro e novamente Lula. Mas, no PV, a cadeira continuou ocupada pelo mesmo homem que tentou uma carreira de ator, mas saiu-se melhor como baterista na noite daquela estranha cidade cinza ao Sul do Brasil. 

Isso significa 27 anos no comando da legenda. É tempo suficiente para que uma geração inteira de políticos tenha entrado na política, mudado de partido, trocado de cargo e eventualmente se aposentado enquanto o presidente do PV continuava participando das reuniões da Executiva Nacional virando madrugada conchavando à base de café e pão de queijo.

Justiça seja feita, ele não é um outsider ambiental. Segundo registros biográficos, esteve envolvido na construção da legenda desde os anos 1980 e foi eleito presidente nacional pela primeira vez em 1999. A política partidária brasileira, ao que parece, descobriu que o verde também pode ser uma cor bastante resistente ao tempo. 

José Luiz Penna, ex-ator e baterista que preside o Partido Verde desde 1999 (Crédito: Reprodução)

Carlos Lupi, o jornaleiro que virou amigo do caudilho

Carlos Lupi assumiu interinamente a presidência nacional do Partido Democrático Trabalhista em 28 de junho de 2004, após a morte de Leonel Brizola, que conheceu quando era dono de uma banca de jornal em Ipanema. Os dois ficaram amigos e Brizola o convenceu a entrar na vida pública e se filiar ao PDT, onde foi seu braço direito. 

A passagem de bastão foi portanto quase automática dentro do trabalhismo. Lupi já era vice-presidente nacional do PDT e havia sido escolhido para a função com o aval de Brizola. Com a morte do fundador, acabou assumindo a presidência do partido. 

Quando Lupi chegou ao comando, Lula estava no segundo ano do primeiro mandato presidencial. O Orkut começava a se espalhar pelo Brasil, o Facebook ainda nem existia e o Twitter só surgiria dois anos depois. Desde então, o PDT passou por eleições presidenciais, disputas internas, mudanças de alianças e diferentes estratégias eleitorais, mas Lupi permaneceu na direção nacional, e até chegou a ministro. Uma longa permanência, sobretudo para um partido fundado por Leonel Brizola, figura cuja sombra política costuma ser grande o bastante para ocupar mais de uma sala. 

Carlos Lupi, um ex-jornaleiro de Ipanema que virou BFF de Leonel Brizola e acabou herdando o PDT (Crédito: Reprodução)

Gilberto Kassab, o dono do guardanapo e do PSD 

Gilberto Kassab tem uma vantagem sobre quase todos os outros personagens desta lista: ele não apenas assumiu o comando de seu partido, como ajudou a inventá-lo. O PSD nasceu em 2011, e a própria história oficial da legenda conta que Kassab e Guilherme Afif Domingos discutiram a criação do novo partido durante um jantar em 18 de março daquele ano. O rascunho da nova sigla teria sido rabiscado em um guardanapo, objeto que acabou transformado pelo partido em uma espécie de certidão de nascimento. 

Em agosto de 2011, a convenção nacional elegeu Kassab presidente da nova legenda. São aproximadamente 15 anos no comando de uma legenda que ele próprio ajudou a criar. Nesse intervalo, o PSD deixou de ser apenas uma novidade partidária insossa, nem de direita e nem de esquerda, para se tornar uma legenda de forte expressão nacional. O detalhe saboroso é que o objeto mais importante da fundação do partido talvez não tenha sido uma ata, uma escritura ou um documento oficial. Foi um simples guardanapo de papel. Deus é um cara gozador…

Gilberto Kassab e Afif Domingos escreveram a ideia da criação do PSD num singelo guardanapo (Crédito: Reprodução)

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