Qual será o futuro pretendido pelos candidatos ao Governo do Estado para o Porto de Itaguaí e o Arco Metropolitano? Um dos principais terminais portuários do Brasil, Itaguaí concentra movimentação, exportação e importação de cargas e contêineres, atividades que explicam sua importância. Ao mesmo tempo, o complexo se conecta com a rodovia, igualmente estratégica para o escoamento da produção. Com a possibilidade de expansão, o manejo desta região terá de considerar a infraestrutura e os problemas de segurança já existentes.
Às vésperas das eleições majoritárias de 2026, Agenda do Poder ouviu os pretendentes ao Palácio Guanabara sobre as projeções para o Porto de Itaguaí, e seu entorno, incluindo o temido Arco Metropolitano. Alvo do medo entre caminhoneiros e motoristas, o corredor viário é um dos principais caminhos para o escoamento das cargas movimentadas pelo complexo portuário.
É por esse motivo, que a ampliação do terminal portuário não deve ser descolada de um plano de desenvolvimento que também considere o entorno. De acordo com especialistas ouvidos pela reportagem, a localização de Itaguaí ajuda a explicar por que o complexo ganhou relevância na logística nacional.

O complexo portuário
Segundo o pró-reitor adjunto de Pesquisa, Pós-Graduação e Inovação da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Leandro Dias de Oliveira, o porto está integrado à malha ferroviária da MRS Logística, que conecta a estrutura portuária à região produtora de minério de ferro em Minas Gerais. Nas proximidades, também está o Porto Sudeste, voltado principalmente à exportação de minério.
“Itaguaí se tornou um polo fundamental para a exportação do minério de ferro extraído das minas localizadas do Quadrilátero Ferrífero em Minas Gerais. Aliás, são dois portos: o Porto de Itaguaí e o Porto Sudeste, integrados à MRS Logística, responsável pela ferrovia que integra Minas Gerais à estrutura portuária.”
A concentração dessas atividades transformou o entorno em uma área de passagem e distribuição de cargas em direção ao mercado externo. O minério extraído no Quadrilátero Ferrífero, em Minas Gerais, chega ao litoral fluminense pela ferrovia e segue para outros países.
Ao mesmo tempo, o Porto de Itaguaí movimenta diferentes tipos de cargas, incluindo minério, contêineres e produtos siderúrgicos. É o que explica o professor do Departamento de Engenharia de Transportes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Leandro da Rocha Vaz:
“O Porto de Itaguaí tem a parte de contêiner, de minério, recebe produtos siderúrgicos. Então, é uma área superinteressante para essa movimentação portuária porque tem capacidade e infraestrutura para receber navios de grande porte”, afirma Vaz.
Essa estrutura deve ganhar uma nova dimensão com o terminal ITG02. O projeto prevê investimento de cerca de R$ 3,58 bilhões e capacidade para movimentar 21,4 milhões de toneladas de granéis sólidos minerais por ano. A previsão oficial é de início da operação em 2030.
Granel sólido mineral é toda matéria-prima ou mercadoria de origem mineral, fragmentada ou em estado bruto (seco), que é transportada e comercializada em grandes volumes sem o uso de embalagens individuais ou unitização. Já o aumento da capacidade portuária coloca uma questão anterior ao próprio cais: como levar e retirar toda essa carga?
Ainda segundo Vaz, a expansão desse espaço precisa vir acompanhada de uma ampliação da infraestrutura de acesso. De acordo com ele, a malha da MRS, que conecta o Porto Real à ferrovia do Centro Atlântico, já fora privatizada e reutilizada.
“Há necessidade de fazer expansões, aumentar o número de linhas, aumentar os terminais de transporte, de movimentação logística. É interessante ter pontos onde possa chegar com o caminhão, jogar no trem e o trem para o porto. Hoje, a capacidade de chegar na ferrovia é pequena em função da quantidade de potencial que o porto tem para oferecer”.

O desafio de fazer a carga circular
É nesse ponto que o Arco Metropolitano entra na equação. A BR-493 foi concebida como um corredor de ligação entre diferentes rodovias fluminenses e como alternativa para o transporte de cargas que atravessa a Região Metropolitana, sem que o motorista precise entrar na capital. Ao conectar áreas estratégicas para a logística, a rodovia permite que parte desse fluxo contorne áreas mais densamente urbanizadas.
“O Arco Metropolitano já foi uma rodovia implantada com o objetivo de potencializar e aumentar a movimentação de carga pelo Porto de Itaguaí. A grande contribuição do Arco Metropolitano é: você tirou os caminhões da Ponte Rio-Niterói, então passou a fazer a movimentação por fora da cidade. É um grande contorno no município do Rio”, recupera o professor da Uerj, Leandro da Rocha Vaz.
É por esse motivo, que o desenho recoloca o Arco no centro do futuro atrelado ao complexo de Itaguaí. Uma expansão portuária sem capacidade equivalente nos acessos pode transferir o gargalo para as estradas. Vaz chama atenção para esse efeito. Segundo ele, o aumento da movimentação pelo Arco exigiria investimentos na própria rodovia, desde a manutenção do pavimento até estruturas destinadas aos caminhoneiros.
“O Arco é uma rodovia de alta capacidade, duas faixas por sentido, duplicada, com canteiro central. Se você começar a incrementar muito o caminhão, vai precisar mexer no pavimento, colocar concreto para diminuir a manutenção, colocar pontos de apoio para os caminhões. Então, você vai ter que ter locais de paradas de operação”.
Leandro da Rocha Vaz, professor da Uerj
A questão é especialmente relevante porque a expansão do porto ocorre em uma região que já concentra diferentes corredores de transporte. A BR-040, a Via Dutra, a Rio-Santos e o próprio Arco Metropolitano formam uma rede que conecta o complexo portuário a áreas industriais e aos principais mercados consumidores.
Seropédica no meio do caminho
Nesse mapa, Seropédica ocupa uma posição estratégica. O município está entre o complexo portuário de Itaguaí, o Arco Metropolitano e a Rodovia Presidente Dutra, em uma área que vem atraindo atividades industriais e logísticas. Esse movimento também alcança municípios próximos, como Japeri, Paracambi e Queimados.
Segundo o professor da UFRRJ Leandro Dias, a posição no eixo Rio-São Paulo e a proximidade com diferentes vias de transporte ajudam a explicar a expansão dessa dinâmica regional.
“A localização no eixo Rio-São Paulo e a logística facilitada pela proximidade do complexo portuário de Itaguaí, da ferrovia da MRS e do conjunto de rodovias como Via Dutra, a Avenida Brasil, a Rio-Santos, a Reta de Piranema, a Ari Schiavo, mas principalmente o Arco Rodoviário Metropolitano, permite dizer que hoje tais cidades são espaços privilegiados para a circulação local, regional, nacional e internacional de mercadorias.”
Ainda conforme Dias, o crescimento da estrutura portuária precisa considerar também as atividades tradicionais, é o caso da pesca e aquicultura — cultivo planejado e controlado de organismos aquáticos em ambientes de água doce ou salgada.
“O hub portuário existente tende a crescer, se diversificar e ampliar o transporte de riquezas, mas acredito que isso deva ser conciliado também com as tradicionais atividades de pesca e aquicultura. Eu penso que se deva valorizar em todo o estado do Rio de Janeiro a construção de economias diversificadas”, explica.
Por outro lado, Seropédica também funciona como um “porto seco”, explica o advogado criminalista e especialista em segurança pública Jaime Fusco. Para ele, a região também demanda atenção das autoridades para crimes que não são menores. Ele explica:
“Você tem ali dinâmicas da própria Reta do Piranema, a existência de mineradoras irregulares. Essa região precisa de uma atenção maior do poder no que diz respeito à prevenção e à responsabilização de crimes que não impactam a sociedade no indivíduo, mas impactam a sociedade numa coletividade. São os crimes ambientais, a extração de material, de areia, sem autorização.”

A questão ganha outra camada quando se observa o caminho percorrido pelas cargas depois que deixam o complexo portuário. Quanto maior o fluxo, maior também a necessidade de garantir que os caminhoneiros e demais trabalhadores possam circular pela região com segurança.
Segurança como entrave da expansão: o medo do Arco
Em 2025, o Rio de Janeiro registrou 3.114 ocorrências de roubo de carga, uma redução de 9% em relação ao ano anterior, segundo dados da Firjan. Ainda assim, 99% dos casos permaneceram concentrados na Região Metropolitana. Duque de Caxias, na Baixada, e seu entorno responderam por 36% das ocorrências, segundo levantamento.
A região é cortada por importantes corredores rodoviários. A CISP 59, em Duque de Caxias, registrou 399 ocorrências em 2025, o maior número entre as circunscrições do estado. Já a CISP 60, em Campos Elíseos, fica próxima ao entroncamento da BR-040 com o Arco Metropolitano e a Via Dutra.
“O caminhoneiro se sente acuado de passar naquela região. Você teve ali assaltos, você teve execuções no Arco Metropolitano. É preciso reforçar o patrulhamento para que a via se torne, de fato, um entreposto da saída de mercadoria e um grande modal logístico que a região tem”, enfatiza Jaime Fusco.
A segurança, nesse caso, envolve diferentes etapas da cadeia e o deslocamento pelas rodovias é apenas uma delas. O armazenamento, a receptação e a circulação das mercadorias também entram no radar das forças de investigação.
No caso do complexo portuário, Fusco aponta a necessidade de articulação entre diferentes órgãos de segurança, sobretudo diante da diversidade de atividades e cargas que circulam pela região. “Há situações que podem ser resolvidas desde que a gente tenha um intercâmbio entre a Polícia Militar, a Polícia Civil e a Polícia Rodoviária Federal atuando naquele lugar. Porque a PRF, sozinha, não consegue resolver tudo. Ela tem, além dessa atribuição, outras atribuições também e um déficit operacional grande.”
À medida que se pensa segurança deste eixo, a ampliação da atividade também pode repercutir diretamente na economia e na estrutura dos municípios do entorno, aponta Leandro Vaz.

“Você, de certa forma, acaba aumentando a economia local. E aí consegue capacitar para trazer gente pra morar na região. Tem que melhorar a estrutura da cidade, escola, hospital. Aí se começa a fazer um crescimento de tudo ao redor. Não é só realmente a parte do porto. Começa a investir em toda a questão regional”, conclui.
O que compete o Governo do Estado?
O papel do Governo do Estado passa por áreas que vão além da segurança pública. O Executivo estadual pode atuar no planejamento regional, na mobilidade intermunicipal, na qualificação profissional e na articulação com prefeituras e governo federal para obras e investimentos que ultrapassam os limites municipais.
É uma divisão importante porque parte da infraestrutura que sustenta o eixo logístico está sob responsabilidade de diferentes esferas. O Arco Metropolitano integra a malha rodoviária federal, enquanto o Porto de Itaguaí está sob administração da PortosRio.
“Essa tarefa é uma tarefa de todos, tanto o governo federal quanto Estadual e Municipal. Itaguaí, Seropédica e também os outros municípios que fazem divisa precisam trabalhar em conjunto para que não vire um local cobiçado pelo domínio territorial. O grande desafio é esse: é que nenhuma dessas facções, grupos criminosos ou quadrilhas avulsas, se sintam donas do porto”, finaliza Jaime Fusco.
As propostas dos candidatos
Os candidatos receberam as mesmas perguntas: qual é o plano para transformar o eixo Porto de Itaguaí–Arco Metropolitano em um polo logístico, considerando os gargalos atuais de mobilidade e infraestrutura? E quais seriam as prioridades nos próximos quatro anos?
Não responderam aos questionamentos os candidatos Juliete Pantoja (UP), Luan Monteiro (PCO) e André Marinho (Novo).
Leia abaixo as respostas na íntegra:

William Siri (PSOL): O Arco Metropolitano foi apresentado como a promessa de inaugurar um novo ciclo de desenvolvimento para o Rio de Janeiro. Foram quase R$ 2 bilhões investidos, à época, em uma infraestrutura que deveria integrar a Região Metropolitana, fortalecer o Porto de Itaguaí, atrair indústrias e melhorar o escoamento da produção. Mais de uma década depois, encontramos uma via subutilizada, com problemas de segurança, iluminação, manutenção e acesso. Nosso plano é recuperar essa infraestrutura e transformar o Arco Metropolitano em um corredor de desenvolvimento econômico, articulando logística, política industrial e integração metropolitana. Isso faz parte do projeto de reindustrialização que estamos apresentando para o estado.
Nos próximos quatro anos, a primeira prioridade será enfrentar os gargalos mais imediatos. Isso significa garantir iluminação, segurança, manutenção permanente e melhores acessos ao Arco. Ao mesmo tempo, queremos articular Estado, municípios, Governo Federal e Porto de Itaguaí para estruturar novos complexos industriais e logísticos ao longo desse eixo, aproveitando as potencialidades de Itaguaí, Seropédica, da Baixada Fluminense e da Zona Oeste. Precisamos aproveitar uma infraestrutura que já existe para atrair empresas, gerar empregos e agregar valor à produção dentro do Rio de Janeiro, reduzindo a dependência excessiva da atividade petrolífera. Isso envolve estimular setores estratégicos e inovadores e utilizar instrumentos como infraestrutura e incentivos vinculados à geração de emprego e ao desenvolvimento dos territórios. Também precisamos enfrentar um problema de mobilidade da própria população.
Hoje, o Arco atende principalmente ao transporte de cargas e aos veículos particulares, enquanto municípios da Baixada e do entorno continuam com pouca conexão direta entre si. Queremos avançar na criação de linhas intermunicipais de ônibus que utilizem esse eixo, ampliando as conexões entre a Baixada, Seropédica, Itaguaí e a Zona Oeste. Nossa prioridade é justamente inverter a lógica que sempre prevaleceu no estado, definindo primeiro que economia queremos construir para, a partir disso, colocar a infraestrutura e a logística a serviço desse projeto.

Douglas Ruas (PL): O eixo Porto de Itaguaí–Arco Metropolitano é um dos principais ativos logísticos que o Rio de Janeiro tem para transformar sua localização geográfica em desenvolvimento, emprego e arrecadação. Mas existe uma condição básica para que qualquer estratégia de desenvolvimento desse corredor funcione: segurança pública. Hoje, a insegurança atinge não só as cargas, mas a própria infraestrutura da rodovia, os trabalhadores e a capacidade de investimento das concessionárias e empresas. Por isso, nossa primeira prioridade será proteger os corredores logísticos, com inteligência, monitoramento, policiamento orientado por dados e integração entre as forças estaduais, a PRF, concessionárias e operadores. E vamos atacar também a receptação e a cadeia econômica que sustenta o roubo de cargas.
A partir daí, vamos atuar em três frentes: melhorar os acessos ao porto e ao Arco, em articulação com o Governo Federal e as concessionárias; ampliar a integração ferroviária e multimodal, para que o crescimento do porto não signifique apenas mais caminhões nas estradas; e transformar esse corredor em vetor de desenvolvimento, atraindo centros de distribuição, terminais, indústrias e empresas de serviços logísticos para Itaguaí, Seropédica e toda a região. Muitas dessas infraestruturas são federais ou concedidas. O papel do Estado será liderar essa articulação, definir prioridades, cobrar cronogramas e atuar diretamente onde tem responsabilidade, começando pela segurança. Nossa meta é consolidar Itaguaí e o Arco como um corredor seguro, multimodal e competitivo.

Coronel Busnello (Missão): Itaguaí é um dos maiores portos do país e vai ganhar um novo terminal de minério até 2029, então a carga vai aumentar. O Arco, que deveria escoar essa carga, foi inaugurado às pressas, sem luz e sem segurança, e até hoje muito caminhoneiro evita a via à noite. A maior parte disso se resolve com gestão, e está ao alcance do governador.
A primeira prioridade é segurança: policiamento estadual dedicado ao Arco e aos acessos ao porto, com a meta de cortar pela metade o roubo de carga até 2029. Depois, dar um dono ao eixo. Hoje União, Estado e nove prefeituras dividem a responsabilidade e ninguém responde pelo resultado.
Vamos criar uma autoridade ligada ao governador, com metas públicas. Licença ambiental estadual para dragagem e acessos ao porto vai ter prazo para sair. E, com as prefeituras, vamos preparar áreas industriais ao longo do Arco e abrir cursos técnicos em Itaguaí e Seropédica, para que o emprego fique com quem mora ali.

Cyro Garcia (PSTU): Não basta fazer o Porto de Itaguaí e o Arco Metropolitano movimentarem mais cargas. A infraestrutura precisa estar a serviço de um projeto de desenvolvimento que gere empregos, fortaleça a indústria e deixe riqueza na região. Hoje, o estado depende demais da exportação de petróleo, enquanto falta uma estrutura capaz de integrar a produção e agregar valor aqui.
Nossa prioridade é recuperar a capacidade de planejar e investir em infraestrutura, articulando esse esforço à reindustrialização, à ciência e à tecnologia. Isso também significa enfrentar a falta de ferrovias de carga e integrar o Sul Fluminense ao conjunto do estado, conectando o Rio de Janeiro a Minas Gerais e São Paulo em torno de um projeto soberano de país, com o objetivo de explorar e utilizar estrategicamente as terras raras, com conhecimento, tecnologia e valor agregado produzidos no Brasil. E parte disso pode e deve passar pelo corredor do arco metropolitano.
O desenvolvimento desse corredor não pode ficar subordinado aos interesses de grandes empresas que buscam apenas o lucro. Ele deve fortalecer a produção regional e beneficiar os trabalhadores e a população, contribuindo para que o estado e o país tenha mais autonomia e capacidade de decidir seu próprio futuro.
*Estagiária sob supervisão de Thiago Antunes
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