Manter o jovem na escola até a conclusão do ensino médio e fazer com que esse período tenha impacto real no futuro profissional estão entre os desafios da educação pública do Rio. Apesar da melhora nos indicadores de aprendizagem, problemas como evasão, desigualdade entre os municípios, violência e dificuldades de acesso à formação técnica ainda colocam em xeque a capacidade da rede de preparar os estudantes para a vida adulta e o mercado de trabalho, conforme apontam especialistas do setor.
Os resultados mais recentes do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) mostram que o ensino médio do Rio de Janeiro passou de 3,7, em 2023, para 4,2, em 2025, considerando as redes pública e privada. No ensino pública do estado, o resultado passou de 5,5 para 5,8 nos anos iniciais; de 4,5 para 4,7 nos anos finais; e de 3,3 para 3,7 no ensino médio.
O avanço também apareceu no desempenho dos alunos do 3º ano do ensino médio. No Saeb, a média estadual em matemática passou de 265,04 pontos, em 2023, para 269,10, em 2025. Em língua portuguesa, porém, houve uma pequena variação negativa, de 270,47 para 270,24 pontos.
O Ideb é calculado a partir do desempenho dos estudantes em língua portuguesa e matemática no Saeb e das taxas de aprovação registradas pelo Censo Escolar. Por isso, o indicador é utilizado para acompanhar a evolução da educação, mas não contempla sozinho todas as dimensões da experiência dos estudantes nas escolas.
Para Reginaldo Scheuermann, coordenador do curso de Pedagogia da Universidade Federal Fluminense (UFF), o índice não é suficiente para retratar a situação da educação brasileira. Segundo ele, outros fatores precisam entrar nessa avaliação.
“Eu acho que o mais alarmante hoje é que a gente precisaria avaliar a situação da educação não pelo IDEB, mas pelo nível de financiamento, pela situação da violência, pela questão do preconceito dentro das escolas, pelo acesso a materiais e infraestrutura, pela situação de trabalho dos professores, a condição salarial dos profissionais de educação”, enumera.

O que pensa a população?
Com a aproximação das eleições, Agenda do Poder ouviu moradores pelas ruas da capital fluminense sobre os principais problemas que, na avaliação deles, precisam ser enfrentados pelo próximo governador.
“É preciso investir mais na segurança no entorno das escolas. Sempre que temos operações, os alunos perdem aula, e isso acaba despertando o desinteresse”, afirma a dona de casa Rosemery Souza, de 55 anos.
Para o advogado Ronaldo Castro, de 37 anos, as dificuldades financeiras também podem afastar os jovens das salas de aula.
“A gente precisa de mais políticas públicas que auxiliem famílias que estão passando por necessidades financeiras. Por que vou estudar se dentro de casa não temos dinheiro nem para o almoço? É melhor arrumar um emprego!”, afirma.
A nota melhora, mas a realidade é desigual
O Rio de Janeiro reúne municípios com condições econômicas e sociais bastante diferentes, o que interfere nas condições oferecidas aos estudantes e nas oportunidades que eles têm fora da escola, apontam os especialistas.
O cientista político e professor da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio (Uerj) Rafael Bastos chama atenção justamente para essa desigualdade. Para ele, embora a educação apareça nos programas de governo, os efeitos da violência e das condições sociais não são distribuídos igualmente pelo estado.
“É de fato muito difícil pensar que estamos falando do segundo estado mais rico do Brasil, mas que possui desigualdades consideráveis. (…) A incidência da violência não é igual dentro desses territórios. Sem dúvida, a cidade do Rio de Janeiro tem a maior frequência de tiroteios. No ano passado foram 104 dias sem aulas por conta de tiroteio”, aponta.

Segundo Bastos, cerca de 85 mil alunos foram atingidos por essa situação somente na cidade do Rio. Ele ressalta que problemas semelhantes também aparecem na Baixada Fluminense e que condições socioambientais e culturais variam de um território para outro. “Então esses são alguns desafios e é preciso entender essas diferenças”, acrescenta.
Para o cientista, o nível socioeconômico das famílias é um dos fatores que mais interferem nos resultados dos estudantes e precisa ser considerado quando os indicadores de aprendizagem são analisados.
“O ponto de partida interfere muito no ponto de chegada. Então, essas avaliações em larga escala, muitas vezes elas não conseguem captar, ou elas camuflam esse ponto de partida, que é a condição social e econômica das famílias”, reforça.
Quando os problemas sociais entram pela porta da escola
O acesso a livros, bibliotecas, hábitos de leitura e outros recursos culturais também pode influenciar a trajetória dos estudantes. Em áreas mais vulneráveis, essas oportunidades tendem a ser menores, segundo o professor da Uerj.
“Famílias que dispõem de maior possibilidade de biblioteca, que têm a leitura na sua própria casa como algo que já faz parte do dia-a-dia, tendem a reverter depois esse etos, digamos assim, em um bom processo educacional”, diz.
Rafael Bastos, cientista político e professor da Uerj

Para Scheuermann, o problema é ainda mais amplo. Ele afirma que situações vividas pelos estudantes fora da escola acabam interferindo diretamente na aprendizagem e na permanência.
“Então, se há crianças passando fome, se há crianças sofrendo violência, com dificuldade de chegar na escola porque não tem ônibus, estes são elementos que afetam o processo educacional e isso não é contabilizado.”
Na avaliação do professor da UFF, esses fatores ajudam a explicar por que a educação pública enfrenta dificuldades que não podem ser resumidas ao desempenho em português ou matemática.
“A realidade hoje do país é que esses elemento estão atuando e estão colocando a situação da educação em um problema crônico, não porque são problemas localizados sobre determinado aprendizado de português ou matemática, mas porque existem problemas sociais que estão explodindo dentro da escola”, argumenta.
Permanecer na escola exige mais do que uma vaga
Para os especialistas, combater a evasão significa entender por que o estudante deixa de frequentar as aulas e agir antes que o afastamento se torne definitivo. Isso envolve políticas que ultrapassam os muros da escola.
Scheuermann defende uma estratégia integrada, que reúna diferentes áreas do poder público para criar condições de permanência dos jovens.
“Eu acho que, hoje, se a gente não pensar um emaranhado de políticas públicas que afetem a juventude para permitir o acesso e a permanência na escola pública, a gente não vai ter êxito. Políticas isoladas que não articulam segurança pública, saneamento, transporte, renda, não vão ter um efeito efetivo”, conclui.
Scheuermann defende ainda melhores condições de trabalho, formação continuada, turmas menores e ampliação do número de profissionais nas escolas.
“Ele precisa ter uma turma com menos alunos em sala de aula. quando eu dava aula na rede básica, cheguei a ter uma turma de 50 alunos. não tem como você dar uma aula com qualidade numa situação dessa. tem que ter uma ampliação do número de escolas, tem que ter mais concurso público, tem que ter infraestrutura na escola”, avalia
Bastos aponta outro problema: a instabilidade dos vínculos profissionais. Segundo ele, uma parcela significativa dos trabalhadores da educação nas redes estaduais está em contratos temporários, o que dificulta a continuidade de projetos pedagógicos e o conhecimento aprofundado das comunidades atendidas.
“A gente tem, mais ou menos hoje no país, de uma forma geral, as redes estaduais com até metade dos profissionais da educação em condição de contrato temporário. Então isso é muito difícil para sustentar um trabalho a longo prazo”.
Ensino técnico pode aproximar escola e trabalho
A permanência dos jovens também passa pela relação entre escola, formação profissional e perspectivas para o futuro. Para Scheuermann, a aproximação entre universidade, educação básica e desenvolvimento econômico precisa fazer parte de uma estratégia mais ampla.
“Um dos papéis mais fundamentais hoje seria articular a universidade pública à escola e pensar o desenvolvimento econômico do país e do estado.”
Na avaliação dele, não basta ampliar a formação se o mercado de trabalho não acompanhar essa expansão. O professor defende que as políticas educacionais sejam pensadas junto com estratégias de desenvolvimento econômico e geração de empregos qualificados.
“Não há hoje um plano estadual e nacional que articule desenvolvimento econômico ao desenvolvimento científico e cultural do país. Então, se a gente não fizer isso em uma escala nacional e estadual, não adianta formar pessoas se não tem emprego.”
Reginaldo Scheuermann, coordenador do curso de Pedagogia da UFF
O que os candidatos prometem

Eduardo Paes (PSD): “Estou aqui com o melhor secretário de educação de todos [Renan Ferreirinha], que fez esse trabalho de busca ativa das crianças na escola, reforço escolar. E isso tudo permitiu a criação do ginásio educacional tecnológico, que nós avançássemos no Ideb, e bem mais que qualquer cidade do Brasil. Então nós vamos fazer o mesmo no Estado”.
Douglas Ruas (PL): “Os nossos jovens chegam no primeiro ano do ensino médio, não conseguem compreender que o tempo que está sendo empregado ali vai lhe ser útil para alguma coisa no futuro. Então eu quero pegar a mão dos nossos jovens e mostrar a eles que existe um caminho de prosperidade na vida deles e esse caminho é através da qualificação profissional, que eles vão sair da escola com o diploma e com a profissão prontos para o mercado de trabalho. Também vou ampliar o modelo de ensino das escolas cívico-militares, um modelo de ensino que já é comprovadamente aprovado com boas notas no IDEB.
Nós temos as notas entre 5.2 e 5.8, o número 1 do Brasil e o Estado do Paraná com nota 5.1. Se concorrêssemos apenas com as escolas cívico-militares, seríamos em primeiro lugar do Brasil. No universo de mais de 1.200 unidades escolares, nós temos apenas 17 funcionando nesse modelo de ensino. E antes que aqueles críticos da esquerda queiram falar desse modelo de ensino, nós não queremos militarizar os nossos jovens em nada.
Os militares não substituem os profissionais de educação, são militares da reserva que atuam para criar um ambiente escolar organizado, com disciplina, respeito para com o professor. Com isso a aula tem mais fluidez e eles conseguem passar o conteúdo com qualidade. O resultado já está comprovado na nota do IDEB, então nós vamos, nos próximos quatro anos, implementar pelo menos mais de 200 novas escolas nesse modelo de escola cívico-militar”.
William Siri (Psol): “Vou implementar uma política de valorização dos servidores, com novos concursos para combater o déficit da educação, fixação de data-base para o reajuste anual e a implementação do piso nacional docente no vencimento dos professores, acabando com o desrespeito ao PCCS da educação.
Além disso, uma das principais propostas do nosso plano de governo é a retomada da educação integral estadual, nos moldes concebidos por Darcy Ribeiro e Brizola. Pretendo, ainda no primeiro ano de mandato, implantar ensino integral em pelo menos 30 CIEPs do Rio, focando nos territórios mais vulneráveis.
Vamos fornecer 4 refeições diárias, fomento à cultura, esporte, lazer e leitura, além de atendimento básico de saúde e odontologia para essas comunidades. Para garantir que os alunos possam permanecer na escola, vamos implementar uma renda básica para aqueles inscritos no CadÚnico, dando oportunidade aos jovens que mais precisam da atenção do poder público”.
Cyro Garcia (PSTU): “No ensino médio, defendemos a revogação do Novo Ensino Médio e a construção de uma proposta curricular com participação de professores, funcionários, estudantes, famílias e comunidades. O estudante precisa ter acesso a uma formação ampla, com conhecimentos científicos, humanísticos e artísticos, Física, Química, Biologia, Filosofia, Sociologia, História, Geografia, Artes e Educação Física, além de formação técnica de qualidade. Não aceitamos um modelo que reduza o acesso ao conhecimento ou ofereça uma formação estreita para preparar jovens apenas para empregos precários e mal remunerados.
A formação profissional é fundamental, mas não pode significar adaptação a qualquer demanda imediata das empresas. O Rio já forma, em muitos casos, uma mão de obra com pouca qualificação para ocupar postos de trabalho precários. Queremos ampliar as oportunidades de formação técnica e científica, preparando os jovens para atividades de maior complexidade e para participar do desenvolvimento do estado, sem abrir mão de uma formação geral, crítica e cidadã.
Para isso, vamos recuperar e fortalecer a Faetec, que foi sucateada, ampliar a oferta de cursos técnicos e articular essas instituições com a UERJ, a UENF e os demais centros públicos de ensino, pesquisa e tecnologia. É preciso investir em ciência, pesquisa e universidades, garantir recursos e infraestrutura e criar condições para que estudantes de baixa renda possam permanecer e concluir seus estudos. As instituições públicas podem contribuir para desenvolver conhecimentos e tecnologias em áreas estratégicas para o Rio, como petróleo e seus derivados, energia, petroquímica, construção naval, siderurgia, máquinas e equipamentos.
A preparação para o trabalho deve estar ligada a um projeto de desenvolvimento que gere empregos qualificados e direitos, e não apenas à necessidade de atender aos interesses de grandes empresas. Defendemos a reindustrialização do estado e o uso da riqueza produzida aqui para desenvolver atividades de maior valor agregado, ampliar a pesquisa e criar oportunidades de trabalho digno. Ao mesmo tempo, não vamos entregar a formação pública a empresas por meio de parcerias que transfiram recursos sem transparência ou sem benefício comprovado para as escolas.
Tudo isso precisa ser discutido e acompanhado por quem vive a educação pública. Defendemos a construção de conselhos populares nos locais de estudo, trabalho e moradia, com participação de trabalhadores da Educação, estudantes, famílias e comunidades. Esses conselhos devem ajudar a definir prioridades, acompanhar a aplicação do orçamento, fiscalizar e avaliar as políticas”.
André Marinho (Novo): “Nossa proposta é transformar o ensino médio público em uma ponte real entre educação, profissão e emprego. Vamos ampliar a educação técnica e digital conectada às vocações econômicas de cada região e às profissões que estão nascendo agora, não às que existiam quando o currículo foi escrito. Programação, análise de dados, inteligência artificial aplicada, cibersegurança, robótica, manutenção de drones e desenvolvimento de games precisam entrar na escola pública fluminense como disciplina de verdade, com laboratório, conectividade de qualidade em cada unidade, professor formado para isso e certificação reconhecida pelo mercado na mão do aluno junto com o diploma. O filho do trabalhador não pode ser o último a ter acesso à tecnologia que já está decidindo quem ganha e quem perde emprego no mundo.
Vamos ampliar o ensino médio integrado à formação técnica, principalmente nas regiões mais vulneráveis, e usar tecnologia e ensino híbrido para levar qualificação profissional também aos lugares onde hoje não existe escola técnica, do Norte Fluminense à Região Serrana. A formação precisa conversar com a economia de cada região, com o Sistema S e o setor produtivo participando da construção das trilhas, e é isso que as 8 Capitais do Rio organizam, com eletroeletrônicos em Japeri e Queimados, games em Nova Iguaçu, moda em Caxias e Friburgo, energia em Itaboraí, campo em Seropédica e mar em Itaguaí. Hoje a educação profissional e tecnológica representa apenas 10% da oferta no Rio, menos da metade da média nacional apontada no diagnóstico que embasa nossas propostas, e nossa meta é no mínimo dobrar essa participação até 2030.
Para enfrentar a evasão, teremos contraturno com reforço, esporte, cultura, tecnologia e atividades de formação, além de acompanhamento do estudante na transição para o ensino médio, que é exatamente onde a rede mais sangra. E vamos usar dado em vez de discurso, com alerta precoce por frequência e desempenho e busca ativa do aluno que faltou duas semanas seguidas, porque a evasão avisa antes de acontecer e o estado simplesmente não está olhando.
A escola também não pode terminar no diploma. Vamos criar uma ponte efetiva para o primeiro emprego, articulando aprendizagem, estágio e qualificação com empresas e setores econômicos de cada região, com o contrato de aprendiz negociado dentro da escola e não descoberto por acaso pelo aluno três anos depois”
Coronel Busnello (Missão): “Para manter o jovem na escola, vamos dobrar o ensino integral e levar para todo estado. Vamos usar os Cieps, com três refeições por dia, reforço em Português e Matemática e psicólogo e assistente social para identificar cedo quem está prestes a desistir. Também vamos abrir as escolas nos fins de semana, com esporte, cultura e orientação para o trabalho.
O jovem precisa ver sentido no que estuda. Vamos ampliar o ensino técnico de acordo com a economia de cada região: petróleo e logística no Norte, indústria no Sul, turismo na Serra e tecnologia na Região Metropolitana. As empresas que contratarem nossos jovens terão vantagem nas licitações do estado. A regra é simples: sem emprego, sem incentivo. Nosso compromisso é que nenhum jovem fluminense saia da escola sem um caminho para o primeiro emprego”.
Os demais candidatos não responderam até o fechamento desta reportagem.
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