Como se a política brasileira não fosse muitas vezes sobrenatural o bastante, em 1982 ela deu um passinho além. José Mojica Marins, cineasta conhecido como o “pai” do Terror nacional, disputou uma vaga de deputado federal em São Paulo. Durante a campanha, ele usou o nome que o tornou conhecido mundialmente: Zé do Caixão, e se apresentou como o “candidato das forças ocultas”. O TRE registrou o resultado cruel: 1.228 votos. Não era o suficiente nem para uma suplência. Mas a noite é escura, e cheia de horrores.
Nos anos seguintes ele comeu o pão que o diabo amassou, até que virou sucesso na Europa e Estados Unidos como Coffin Joe, e mesmo nunca tendo no Brasil o mesmo reconhecimento alcançado no exterior, tentou novamente entrar no palco da política em 2004 como candidato a vereador em São Paulo. Terminou na 152ª posição com 6.500 votos, 0,14% da votação, e o caixão, mais uma vez, ficou fora do plenário.
Depois daquela eleição, o Zé do Caixão voltou a ocupar o território onde era muito mais temido e admirado, o cinema, a televisão e os eventos ligados ao personagem, incluindo participações em festivais e homenagens que se multiplicaram até o fim da vida. Em 2020, ele morreu aos 83 anos, de broncopneumonia, depois de uma trajetória que, para qualquer outro candidato, já renderia argumento suficiente para uma baita biografia.

Antes de pedir votos, ele já pedia almas
José Mojica Marins não precisava da política para ser conhecido. Nascido em 1936, ele havia construído, praticamente à unha (sem trocadilhos), uma das figuras mais singulares do cinema brasileiro. O Zé do Caixão apareceu em “À Meia-Noite Levarei Tua Alma”, lançado em 1964, e rapidamente ganhou a aparência que o tornaria reconhecível em qualquer esquina: cartola, capa preta, barba rala, olhar arregalado e unhas compridas o suficiente para matar de susto qualquer manicure.
Mojica fez cinema de maneira independente, quase sempre com poucos recursos, dentro do universo conhecido como a Boca do Lixo paulistana. Seu horror foi construído longe das grandes estruturas da indústria e, justamente por isso, desenvolveu uma linguagem própria, que assustava e fascinava ao mesmo tempo.
Nos anos 1990, seus filmes passaram a circular com mais força no exterior, onde o personagem virou Coffin Joe. Em 2001, Mojica foi homenageado no Festival de Sundance, nos Estados Unidos, prova de que o coveiro da Boca do Lixo havia cruzado fronteiras que poucos políticos sonham em cruzar.

A kombi de Jânio e os votos anulados
A campanha do Zé do Caixão em 1982 foi movida a uma boa dose de improvisação. Segundo a reconstrução baseada no documentário “Maldito”, sobre a vida do cineasta, Mojica puxou o pé de noite de metade do PTB buscando apoio sem sucesso. Até que alguém o mandou assombrar Jânio Quadros, o candidato a governador. O que os dois conversaram ninguém sabe. Mas Mojica saiu do encontro com uma kombi emprestada.
O “candidato das forças ocultas” tinha toda a pinta de quem queria provocar escândalo. Entre suas propostas estavam a liberação do jogo do bicho e a regulamentação da prostituição. Mas o tinhoso se esconde nos detalhes. Em 1982, as eleições ainda eram no papel e Mojica registrou seu próprio nome como “nome de urna”. À medida em que os mesários puxavam cédulas com o voto para o Zé do Caixão, eles eram anulados pelos fiscais. Ele passou anos garantindo que teria vencido se não tivesse cometido o erro de concorrer com seu nome verdadeiro.

A encarnação do demônio
Vinte e dois anos depois de 1982, porém, não havia mais esse problema de nomenclatura. Em 2004, Mojica entrou na disputa paulistana pelo Partido Trabalhista Cristão. Seu número era 36013, e o registro eleitoral o identificava oficialmente como Zé do Caixão. Se alguém quisesse votar no coveiro, desta vez, com urna eletrônica, fiscal nenhum poderia alegar que aquilo era apenas uma piada escrita numa folha de papel.
Mas o resultado foi um banho de água benta no capeta. Apenas 6.500 votos, 0,14% da votação. Não há, nos registros oficiais, qualquer sinal de que a candidatura tenha sido tratada pela Justiça Eleitoral como excentricidade. Ao contrário, ela percorreu o caminho burocrático normal de qualquer candidatura. O problema é que o sobrenatural, dessa vez, teve de enfrentar formulário, prestação de contas e urna, e saiu da experiência exorcizado.

O estranho mundo do Zé do Caixão
A grande pergunta dessa história toda é, porque, afinal, Mojica queria se meter com política. E é aqui que a história fica mais bacana. Por trás dos cartazes produzidos para assustar concorrentes moderados, um relato publicado após a morte de Mojica pela produtora Vera Abelha conta que o cineasta pretendia usar um eventual mandato para defender a classe artística.
Segundo ela, Mojica dizia que artistas, profissionais de circo, cinema, produção, dramaturgia e música precisavam de espaço e representação dentro do parlamento, algo nada assustador e bastante razoável vindo de um homem que passou a vida inteira brigando por cada centavo de orçamento de um filme.
No fim, Zé do Caixão não aprovou leis, não presidiu comissão, não discursou em plenário e nem teve a chance de descobrir que uma sessão ordinária poderia ser mais assustadora do que alguns de seus filmes. Mas conseguiu uma coisa que muitos candidatos perseguem a vida inteira. Tornou-se impossível de esquecer.
Depois de sua morte, em fevereiro de 2020, Mojica recebeu uma homenagem na galeria virtual póstuma do site oficial do Oscar, ao lado de outros nomes do cinema mundial. Uma honraria, convenhamos, maior do que qualquer medalhinha de comendador.






Deixe um comentário