De uma oficina mequetrefe ao Palácio do Planalto: a vida secreta do nanico que elegeu um presidente da República
Reportagem Especial

De uma oficina mequetrefe ao Palácio do Planalto: a vida secreta do nanico que elegeu um presidente da República

Nascido acanhado na Tijuca, o Partido da Juventude virou o PRN de Collor, conquistou o Planalto, encarou um impeachment avassalador, trocou de roupa como PTC e hoje atende por Agir. Uma verdadeira aula de sobrevivência sob o comando do mesmo mestre do pragmatismo político

Deus é um cara gozador, adora brincadeira. E talvez seja essa a melhor maneira de explicar como um partido nanico, com sede numa pequena oficina mequetrefe de motos na Tijuca, conseguiu em quatros anos vencer a primeira eleição direta para presidente em quase três décadas, derrotando gigantes da política como Ulisses Guimarães, Lula, Brizola ou Mario Covas. E ainda por cima, depois de atravessar impeachment, mudanças de nome e sucessivas encarnações, continuar na ativa sem perder a ternura jamais. 

A saga do Partido da Juventude sintetiza com precisão cirúrgica o espírito da engenharia política brasileira das últimas décadas. Ela provou que o pragmatismo burocrático pode ser mais forte do que qualquer coerência ideológica mais acadêmica. Ao servir de veículo para a ascensão e queda de um presidente da República, a sigla deixou uma marca incontornável na História do Brasil, mostrando que até os menores carimbos cartoriais podem decidir os destinos de um país inteiro. 

Sua capacidade de se reinventar sob novos nomes e identidades revela também a notável resiliência das legendas nanicas no ecossistema nacional. A história de Daniel Tourinho e sua duradoura criação mostra que, enquanto houver espaço para a negociação de espaços e tempos na política, os camaleões da democracia continuarão trocando de pele para garantir sua permanência no tabuleiro do poder. 

Qual a origem do Partido da Juventude? 

A gênese é carioca e trabalhista. O Partido da Juventude (PJ) foi fundado em 11 de julho de 1985 por Daniel Sampaio Tourinho, advogado e jornalista baiano radicado na Guanabara, que até então militava no PDT de Leonel Brizola. A criação ocorreu no calor da redemocratização, quando o fim do bipartidarismo imposto pela Ditadura (ARENA e MDB) abriu as porteiras para um boom de novas siglas, muitas com projetos genuínos, outras oportunistas e a maioria delas nanicas. 

O PJ nasceu com orientação liberal de centro-direita e a proposta de representar a “juventude” brasileira, embora seu fundador já tivesse 38 anos na época e nenhuma base juvenil organizada. Nas eleições municipais de 1985, Tourinho disputou a prefeitura do Rio pela legenda, ficando em 17º lugar entre 20 candidatos, com apenas 4.289 votos, um resultado que, em outro contexto, seria motivo para extinção imediata da sigla. 

Mas não para esse guerreiro. 

Primeira logomarca do PJ (Crédito: Reprodução)

Quem é Daniel Tourinho? 

Daniel Sampaio Tourinho nasceu em Jequié, no interior da Bahia, em 11 de maio de 1947, e mudou-se para o Rio nos anos 1960, onde começou a vida como entregador de jornais do Correio da Manhã. Graças a um emprego na Esso Brasileira de Petróleo, conseguiu financiar seus estudos de direito e, depois, trabalhou na área de recursos humanos da Bloch Editores entre 1974 e 1985, antes de entrar de cabeça na política e fundou o partido numa modestíssima oficina de motos na Tijuca, próxima ao Instituto de Educação. 

Tourinho é, até hoje, o presidente nacional da sigla que fundou, o que o torna um dos raros casos de fundador que nunca foi apeado do comando, mesmo após mudanças de nome, impeachment de presidente, cláusulas de barreira e candidaturas, digamos, chamativas, que foram do Zé do Caixão a Clodovil Hernandes.  

Sua trajetória inclui tentativas frustradas de eleição (deputado federal, senador, prefeito) e, acima de tudo, uma fidelidade inabalável a Fernando Collor, mesmo durante os momentos mais difíceis do processo de impeachment. 

Daniel Tourinho, o “jovem” de 38 anos na oficina de motos da Tijuca onde funcionava a sede do PJ (Crédito: Reprodução)

O encontro de titãs: Brizola realmente fez o meio-campo? 

A aproximação entre Daniel Tourinho e Fernando Collor de Mello envolveu uma mediação indireta do ex-governador Leonel Brizola. Tourinho havia sido militante e dirigente do PDT, mantendo excelente trânsito nas redes brizolistas do Rio. Quando Collor, então jovem governador de Alagoas, começou a procurar um veículo partidário para sua pré-candidatura presidencial, os caminhos acabaram se cruzando.  

Documentos do CPDOC/FGV e biografias sobre a eleição de 1989 relatam que Brizola, ao notar a movimentação do jovem alagoano, manteve interlocução com antigos correligionários. Embora Brizola e Collor fossem adversários políticos diretos na disputa pelo Planalto, a conexão prévia de Tourinho com o universo brizolista facilitou as pontes que permitiram a Collor encontrar no Partido da Juventude a estrutura jurídica perfeita que necessitava para se lançar nacionalmente. 

Collor e Brizola: uma aliança improvável (Crédito: Reprodução)

Do anonimato à caça aos marajás 

Percebendo o potencial eleitoral do discurso anticorrupção do “caçador de marajás”, Tourinho ofereceu a legenda integralmente a Collor. Em troca, este exigiu uma reestruturação total da sigla, para adequá-la à uma imagem mais moderna e dinâmica, reformulando estatutos, diretórios e a própria declaração de princípios do partido. 

Em 1989, o Partido da Juventude foi rebatizado como Partido da Reconstrução Nacional (PRN). Como registrado nas atas do TSE e na cobertura política da época, a legenda abandonou o apelo estritamente juvenil (ao menos no nome) para adotar um programa focado na modernização econômica, no combate à inflação e no enxugamento do Estado, criando o ecossistema perfeito para a vitoriosa jornada presidencial de Collor. 

O PJ tomou banhou de loja e virou o PRN (Crédito: Reprodução)

A zebra que atropelou os gigantes 

A eleição presidencial de 1989 foi a primeira pelo voto direto em quase três décadas, marcada por inflação galopante, tensão social e um eleitorado sedento por novidades. Nada menos que 22 candidatos se apresentaram à disputa, entre eles tradicionais veteranos da política, como Ulysses Guimarães, Leonel Brizola e Paulo Maluf, que acabaram atropelados pelo estilo agressivo do jovem ex-governador de Alagoas, que usava o horário eleitoral com extrema maestria e os mais modernos instrumentos do marketing político. 

Montado na estrutura do antigo Partido da Juventude (agora PRN), Collor venceu o primeiro turno e derrotou Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno com mais de 35 milhões de votos. A vitória consagrou Daniel Tourinho e provou que uma legenda nanica, alimentada por um candidato de carteira cheia e um discurso populista bem azeitado, podia desbancar os maiores aparelhos partidários do país.

Rosane Malta e Fernando Collor durante a cerimônia de posse na Presidência da República (Crédito: Reprodução)

O fogo amigo no Planalto 

Documentos do Senado e reportagens de época indicam que, após a eleição de Collor, setores ligados ao presidente eleito buscaram afastar gradualmente Daniel Tourinho do centro das decisões do PRN, num movimento típico de partidos que crescem rápido e atraem novas lideranças com ambições próprias.  

O conflito envolvia a direção nacional do partido, comandada por Tourinho, os novos parlamentares que haviam aderido ao PRN (muitos vindos do PDS, PMDB e PSDB) e a crescente influência de políticos mais próximos de Collor, como o senador Ney Maranhão e o deputado Renan Calheiros, líder do governo na Câmara. 

Tourinho, embora fiel a Collor, era visto como um obstáculo por alguns setores do partido, que queriam menos interferência do fundador na distribuição de cargos e recursos. Em 1991, Collor ordenou a retirada abrupta do deputado Arnaldo Faria de Sá da liderança do PRN no governo, por este apoiar o grupo de Orestes Quércia em São Paulo, o que gerou atritos internos e contribuiu para a saída de Itamar Franco do partido, em 1992.  

Apesar das pressões, Tourinho permaneceu no comando do PRN e, durante o impeachment, manteve-se fiel a Collor, impedindo sua expulsão da legenda. 

Daniel Tourinho recebendo a Medalha Tiradentes da ALERJ (Crédito: Reprodução)

O impeachment de Collor afetou o partido? 

O impeachment de Collor, em 1992, teve um efeito devastador sobre o PRN, que, de partido do presidente eleito, virou legenda associada à corrupção, ao desperdício e ao fracasso. Em 1990, o PRN havia eleito 40 deputados federais e dois senadores, mas, em 1994, após o impeachment, a legenda conseguiu eleger apenas um deputado federal, num claro indicativo de que o eleitorado punira o partido pelo comportamento do seu maior expoente. 

O desgaste foi tão grande que, em 2000, as lideranças do PRN deliberaram pela mudança de sigla, que passou a se chamar Partido Trabalhista Cristão (PTC), numa tentativa de renovar a imagem. Collor, que já não estava no partido desde 1998, tentou voltar em 2016, para disputar a presidência, mas, em 2018, o PTC desistiu de lançá-lo e apoiou Álvaro Dias, do Podemos, num sinal de que a sombra do impeachment ainda pairava no ar. 

O impeachment de Collor dizimou a bancada do PRN, que mudou de nome mais uma vez para PTC (Crédito: Reprodução)

De PJ a Agir, a árvore da sobrevivência 

A trajetória do Partido da Juventude no TSE parece uma verdadeira árvore genealógica de metamorfoses jurídicas. Registrado provisoriamente em dezembro de 1987, virou PRN em 1989 para eleger Collor; em 2001, mudou de nome para Partido Trabalhista Cristão (PTC); e, em 2021, adotou a marca Agir. Tantas trocas de pele representam a busca constante de adaptação ao marketing eleitoral e às novas cláusulas de barreira da legislação brasileira. 

Em meio a quase 40 anos de transformações, trocas de programas e reorientações ideológicas, uma constante permaneceu inalterada: a figura de Daniel Tourinho. Operando como presidente nacional ou como principal força dirigente da legenda, ele manteve o comando incontestável da sigla durante todas as suas fases, consolidando seu nome como um dos mais longevos caciques partidários da história republicana. 

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