Ele é um dos últimos representantes de uma geração de nomes que fez a transição da ditadura para a democracia ao lado de Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Teotônio Vilela, Mário Covas e Leonel Brizola. Nos Estados Unidos, gente dessa estirpe é tratada como “elder statesman”, que pode ser traduzida como estadista respeitável. Esse título informal refere-se a um político veterano que, embora muitas vezes já tenha se aposentado, ainda mantém grande influência e autoridade moral. Nascido em Caxias do Sul em 1930, filho de imigrantes libaneses, Pedro Simon completou 96 anos em 31 de janeiro de 2026 e continua sendo procurado por políticos gaúchos para ouvir conselhos sobre o presente e o futuro da política, depois de uma carreira que começou no movimento estudantil, atravessou a ditadura, a redemocratização, o Ministério da Agricultura, o governo do Rio Grande do Sul e quatro mandatos no Senado.
A trajetória, entretanto, começou de maneira pouco compatível com os manuais de ciência política. Simon foi uma criança tão frágil que chegou a ser desenganado pelos médicos. Quando os recursos da medicina não resolveram, a família apelou para um curandeiro, que receitou caldo de pomba. E por mais estranho que pareça, deu certo. Anos depois, o menino que quase não vingou acabaria passando décadas discursando em Brasília, onde ganhou a fama de “derrubador de ministros”, cunhada por nada mais nada menos que Antônio Carlos Magalhães.
Seu legado? Para os aliados, é o franciscano que coordenou as Diretas Já e nunca se deixou corromper. Para os adversários, é o sujeito que fala demais e derruba ministros com a mesma facilidade com que outros trocam de camisa. A verdade, como sempre, mora no meio, e é exatamente ali que nossa história começa.
Simon, antes de Brasília
Pedro Jorge Simon nasceu em Caxias do Sul, em 31 de janeiro de 1930, filho de pais libaneses. A mãe morreu quando ele tinha apenas 11 meses. O menino foi criado pelo pai, comerciante de tecidos, pelas três irmãs mais velhas e por duas tias. Estudou Direito, Economia Política e Sociologia e se tornou advogado e professor. A política entrou cedo em sua vida, primeiro pelo movimento estudantil e pelo antigo Partido Trabalhista Brasileiro, o PTB, onde era próximo da ala de Leonel Brizola.
Aos 30 anos, em 1960, foi eleito vereador de Caxias do Sul. Em 1962 chegou à Assembleia Legislativa gaúcha, onde permaneceria por quatro mandatos consecutivos. Com a implantação do bipartidarismo pela ditadura, em 1965, ingressou no MDB, a oposição permitida pelo regime. O MDB gaúcho de Simon assumiu uma posição particularmente combativa. Ele percorreu o interior do Estado fazendo discursos em defesa da democracia e, segundo registros de época, chegou a falar em praças cercadas por tropas do Exército
Mas ele ganhou projeção quando, eleito deputado estadual e um ainda jovem advogado, participou da defesa do vereador Floriano Menezes, pelo homicídio do deputado Euclydes Kliemann. O julgamento aconteceu num ginásio lotado em Santa Cruz do Sul onde Simon conduziu um espetáculo de oratória, para deleite da plateia, que terminou com a absolvição de Karan no primeiro júri. Ele seria condenado em um segundo julgamento.

Que história é essa de caldo de pomba?
A história do caldo de pomba é um dos episódios mais folclóricos da biografia de Simon, e ele mesmo a conta como parte de sua formação espiritual e de sua relação com a fé popular. Quando criança, em Caxias do Sul, ele adoeceu gravemente, e a medicina da época não oferecia muitas alternativas, a família, desesperada, recorreu a uma curandeira da região, que diagnosticou o mal como algo que só poderia ser curado com um remédio inusitado, caldo de pomba.
A família, apesar da desconfiança, seguiu a receita. De acordo com a lembrança da irmã Salem Simon, o menino melhorou depois disso, e a família passou a associar a recuperação ao estranho caldo. Não há, naturalmente, documentação médica que permita afirmar que o tal caldo de pomba tenha sido responsável pela recuperação. O que se sabe objetivamente é que o menino sobreviveu, cresceu e entrou para a política.
Quando a anistia ainda parecia impossível, Simon estava na rua e na tribuna
No fim dos anos 1970, Pedro Simon estava entre os dirigentes do MDB que enfrentavam a Ditadura Militar dentro das regras estreitas permitidas pelo regime. A luta pela anistia tornou-se uma das grandes bandeiras da oposição. Em 1978, Simon foi eleito pela primeira vez para o Senado e sua parceria com Teotônio Vilela, o “menestrel da anistia”, foi particularmente marcante: os dois dividiram tribunas e microfones na mobilização que levaria à aprovação da Lei da Anistia de 1979.
Como presidente do MDB gaúcho, Simon foi um dos articuladores da campanha pela anistia e pela redemocratização, atuando lado a lado com Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Teotônio Vilela, Mário Covas e Leonel Brizola. Em um pronunciamento no Senado em 2005, ele próprio relembrou que as oposições, sob comando de Ulysses, definiram quatro objetivos centrais: diretas já, anistia, assembleia constituinte e fim da tortura.
A atuação de Simon nesse período não se limitou a discursos. Ele coordenou nacionalmente o movimento Diretas Já, percorreu o país em comícios e se tornou uma das vozes mais reconhecíveis da resistência democrática.

Quando Brasília virou o segundo endereço
Eleito senador pela primeira vez em 1978, Simon assumiu o mandato em 1979 e, a partir dali, Brasília tornou-se seu habitat natural onde ele construiu reputação de orador incansável e fiscal implacável da ética pública. Foi reeleito senador em 1990, 1998 e 2006, totalizando quatro mandatos no Senado, com uma única interrupção entre 1987 e 1990, quando governou o Rio Grande do Sul.
A longevidade de Simon no Senado é rara na história brasileira, ele permaneceu na Casa por 32 anos, um recorde que reflete tanto sua capacidade de articulação quanto sua base eleitoral fiel no Rio Grande do Sul. Em 2014, ao deixar o Senado, ele fez um discurso de despedida em que reafirmou seu compromisso com a ética e a justiça, dizendo que, “onde vi corrupção, lutei para levar a ética; onde vi impunidade, lutei para levar a justiça”.

A reconexão com a espiritualidade
A peregrinação de Simon entre Fortaleza e Canindé, no Ceará, é um dos episódios mais impressionantes de sua vida pessoal. Aos 70 anos, Simon calçou um par de sandálias e percorreu a pé, em seis dias, os 136 quilômetros que separam Fortaleza do santuário de São Francisco, em Canindé, no sertão cearense. Ele dormiu sobre um colchão ao relento e viveu a pão, água e leite, com direito a uma sacola de bananas e maçãs doada por um casal de amigos no meio do percurso, que ele repartiu com outros peregrinos.
O motivo? Fé. Simon é membro da Ordem Terceira de São Francisco e já declarou que sua religiosidade se intensificou após a perda de um filho em 1984. A peregrinação a Canindé, um dos maiores santuários franciscanos da América Latina, foi uma forma de cumprir uma promessa e se reconectar com a espiritualidade que ele cultiva até hoje. Em entrevista ao jornalista Geneton Moraes Neto, ele revelou que a experiência de conversão veio justamente após a tragédia familiar, com a ajuda do arcebispo Dom Vicente Scherer.
No apartamento funcional em Brasília, ele mantinha um pequeno oratório. A Bíblia ficava aberta no Sermão da Montanha. Durante anos, frequentou missa diariamente e participou das atividades dos franciscanos. Em discurso no Senado, chegou a defender que São Francisco deveria ser uma referência para os políticos, especialmente pela humildade e pela ideia de serviço ao próximo.

Ele doou mesmo tudo o que tinha para a Igreja?
A história do voto de pobreza de Pedro Simon costuma ser contada de maneira muito simplificada como se ele tivesse simplesmente entregue todo seu patrimônio à Igreja. Não foi exatamente assim. Ao ingressar na Ordem Terceira de São Francisco, ele assumiu um voto de pobreza e distribuiu os bens que possuía entre os filhos e as irmãs.
O Senado registra entre bens divididos em família cotas da loja de tecidos herdada dos pais, uma casa no litoral gaúcho e um apartamento em Porto Alegre onde ele vive até hoje, com a pensão do Senado. A Igreja entrou como inspiração e caminho espiritual, não como beneficiária patrimonial. É uma diferença pequena na frase e enorme na contabilidade.
O homem que derrubava ministros no gogó
A expressão “derruba ministros” virou marca registrada de Pedro Simon. Principalmente após fortes embates políticos com os ministros das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros em 1998, e com o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior Clóvis Carvalho em 1999. Os dois ministros perderam os cargos.
Em 14 de março de 2006, durante uma sessão do Senado, Antônio Carlos Magalhães pediu um aparte a Pedro Simon. O baiano fez uma provocação que resumia bem a reputação do gaúcho na política nacional. Disse que Simon, como sempre, “encanta o plenário quando está na tribuna, quando não derruba ministros”.
Documentos do site Senado descrevem a oratória de Simon como capaz de “derrubar ministros e operar outros impactos políticos”, e o jornalista Geneton Moraes Neto, em entrevista, chegou a dizer que o gaúcho era “capaz de influir na demissão de ministros de Estado que não estejam em consonância com as expectativas da população”. A brincadeira de ACM entrou para o imaginário político como uma das frases mais emblemáticas sobre o poder (e o temor) que os discursos de Simon inspiravam.

Como ele está hoje?
Aos 96 anos, Pedro Simon continua lúcido, falante e teimosamente otimista. Ele segue indo à missa diariamente, recebendo amigos e concedendo entrevistas. Em junho, uma reportagem do Estado de Minas descreveu o ex-senador como uma espécie de conselheiro informal da política gaúcha, procurado por diferentes correntes para ouvir sua opinião. Ou seja, Simon trocou o microfone do Senado pela poltrona de casa, mas não abandonou inteiramente o ofício de comentar a República.
Pedro Simon é um dos últimos representantes de uma geração de políticos que fez a transição da ditadura para a democracia, com ética, firmeza e uma religiosidade que o levou a doar parte do patrimônio à Igreja. Sua trajetória, marcada por quatro mandatos no Senado, um governo estadual e um ministério, é um exemplo de longevidade política, dignidade e de coerência, mesmo em tempos de crise.






Deixe um comentário