A inesquecível odisseia de Ulysses Guimarães, o “Senhor Diretas”
Reportagem Especial

A inesquecível odisseia de Ulysses Guimarães, o “Senhor Diretas”

Ele apoiou o Golpe de 1964, virou oposição, fundou o PMDB e quase se casou sem pedir a mão da noiva. Presidiu três cadeiras ao mesmo tempo e morreu sem ser presidente pelo voto direto. Um anticandidato que presidiu tudo, menos o que queria

Ulysses Guimarães passou mais de quatro décadas dentro do Congresso, presidiu a Câmara três vezes, comandou a Assembleia Nacional Constituinte, mas talvez nenhuma imagem resuma tão bem o personagem quanto aquela em que aparece erguendo um exemplar da nova Carta Magna acima da cabeça, como um Bellini ou um Cafu levantando a taça da Copa do Mundo.  Ao longo de 11 mandatos como deputado federal, ele atravessou golpes, cassações, eleições indiretas, campanhas populares e a Assembleia Constituinte, deixando uma extensa biografia política, que reúne solenidade e anedota, cálculo político e improviso, discursos históricos e jantares regados a aguardente de pera. 

Ele acabou transformado em monumento político ainda em vida.  Mas a trajetória que levou até aquela fotografia está longe de ser linear. Começou com um deputado do PSD, passou pelo apoio ao movimento militar de 1964, atravessou a oposição, uma candidatura que nasceu para perder, uma campanha presidencial que fracassou, três presidências da Câmara e uma Constituinte que produziu a Carta de 1988. 

Talvez seja justamente por isso que o fim tenha produzido uma imagem tão poderosa. Em 12 de outubro de 1992, aos 76 anos, Ulysses morreu no mar de Angra, mas seu corpo jamais apareceu. A República que ele ajudara a reconstruir ficou com a Constituição, as fotografias e os discursos. Já o homem terminou a vida protagonizando um dos desaparecimentos mais misteriosos da política brasileira.   

Um personagem de 1,90 metro e voz de trovão    

Ulysses Guimarães formou-se em Direito pela Universidade de São Paulo, especializando-se em Direito Tributário, e iniciou a vida pública em 1947 como deputado estadual constituinte em São Paulo pelo PSD. Eleito deputado federal em 1950, reelegeu-se sucessivamente por 11 mandatos. Foi ministro da Indústria e Comércio no gabinete parlamentarista de Tancredo Neves (1961-1962) e presidiu a Câmara dos Deputados pela primeira vez em 1956-1957. 

A imagem pública de Ulysses foi construída muito pelo modo como ele ocupava fisicamente os espaços. Alto, de voz marcante e quase sempre identificado pelo tratamento de “Dr. Ulysses”, tornou-se uma das figuras mais reconhecíveis do Congresso.  

Em 1987, esse personagem acumulou três dos postos mais importantes da República parlamentar: presidia a Câmara, presidia a Assembleia Nacional Constituinte e comandava o PMDB. No dia 2 de fevereiro daquele ano, foi eleito presidente da Constituinte. Quase dois anos depois, em 5 de outubro de 1988, conduziu a sessão de promulgação da nova Constituição, pronunciando a frase que entraria para a memória política brasileira: “Mudar para vencer! Muda Brasil!”. 

Aquele momento foi o ápice de sua carreira política. 

A carreira de Ulysses Guimarães começou em 1947, quando ele se tornou deputado federal pela primeira vez pelo PSD (Crédito: Reprodução)

O Golpe de 1964 e o surgimento do MDB 

Sua carreira ganhou dimensão nacional ainda antes da Ditadura. Ulysses presidiu a Câmara dos Deputados pela primeira vez entre 1956 e 1957 e foi ministro da Indústria e Comércio no gabinete de Tancredo Neves, durante a breve experiência parlamentarista de 1961 e 1962. Era um político prudente, de negociação, mas não exatamente um homem de temperamento apagado. 

Em 1964, apoiou a deposição de João Goulart. Segundo a biografia publicada pela Câmara dos Deputados, Ulysses acreditou inicialmente nas proclamações de liberdade feitas pelos militares. Mas a expectativa durou pouco. O movimento que se anunciara como remédio emergencial passou a governar como doença permanente, e o deputado começou a se afastar dos que haviam tomado o poder. 

Quando o bipartidarismo foi imposto, em 1965, ele participou da fundação do Movimento Democrático Brasileiro, o MDB, legenda de oposição institucional ao governo. Era uma oposição limitada pelas regras do próprio regime, mas ainda assim capaz de transformar o plenário em espaço de contestação. 

O deputado passou a denunciar o autoritarismo e a atuar dentro das brechas permitidas pelo sistema, uma estratégia menos cinematográfica do que uma barricada, porém decisiva para manter viva a disputa pública. A oposição consentida, como muitos críticos chamavam o MDB, tinha limites estreitos. Ainda assim, Ulysses ajudou a alargar esses limites pela insistência. Em vez de tratar a legalidade autoritária como destino, usou a tribuna e as campanhas eleitorais para mostrar que até um regime controlado precisava enfrentar perguntas, votos e discursos que não constavam no roteiro oficial. 

Ulysses nos anos 1960 com Franco Montoro (de bigode) fazendo o papagaio de pirada (Crédito: Reprodução)

Como Ulysses criou o “Anticandidato” 

Em 1973, Ulysses concorreu à Presidência da República como “anticandidato”, tendo o jornalista Barbosa Lima Sobrinho como candidato a vice. A eleição era indireta, realizada por um Colégio Eleitoral dominado pelo governo militar, e a vitória da chapa oposicionista era praticamente impossível. O objetivo, portanto, não era vencer a votação, mas usar a campanha para denunciar o mecanismo que já trazia o resultado embutido. 

O próprio Ulysses explicou o sentido da empreitada: “Não é o candidato que vai percorrer o país. É o anticandidato, para denunciar a antieleição, imposta pela anticonstituição que homizia o AI-5”. A campanha percorreu o Brasil, enfrentou baionetas e cachorros policiais, e transformou uma derrota anunciada em uma plataforma de denúncia nacional. A anticandidatura foi um ensaio para a campanha das Diretas Já, dez anos depois. 

Ulysses e Barbosa Lima Sobrinho: uma campanha para denunciar o mecanismo (Crédito: Reprodução)

Ulysses, o romântico 

Em entrevista à TV Câmara, Oswaldo Manicardi, secretário particular de Ulysses por 44 anos, contou que certa vez o chefe o enviou à casa de Ida de Almeida Guimarães para resolver um casamento e providenciar os documentos necessários. Manicardi, que trabalhava em cartório, foi até a residência da futura Dona Mora acreditando que era uma decisão já tomada pelo casal e era só uma questão de adiantar a papelada. Só descobriu ali que Ulysses ainda não havia nem feito o pedido. 

Para complicar ainda mais, Dona Mora era viúva e tinha dois filhos. Segundo Manicardi, ela chorou e disse que não pensava em se casar novamente. O astuto assessor, porém, convenceu-a que Ulysses estava apaixonado e disposto a lutar pelo casório. Dias depois o próprio Manicardi participou da união. 

O episódio é revelador do estilo atribuído a Ulysses por quem conviveu com ele. Um homem capaz de transformar até uma questão doméstica em operação política, com funcionário, documentos e providências antes mesmo de perguntar formalmente à interessada se ela aceitava. Ulysses e Mora permaneceram 37 anos juntos até a morte dos dois no acidente de helicóptero. 

Dona Mora e Ulysses, que na prática mandou um assessor resolver o pedido de casamento (Crédito: Reprodução)

Quando Tancredo morreu, Ulysses não deveria assumir? 

A resposta curta é: havia uma interpretação jurídica segundo a qual Ulysses poderia assumir, mas a solução adotada foi a posse de José Sarney, vice-presidente eleito na chapa de Tancredo Neves.  

Na madrugada de 14 para 15 de março de 1985, quando o então presidente eleito Tancredo Neves estava internado e não poderia tomar posse, surgiu a dúvida sobre quem deveria ocupar provisoriamente a Presidência. Ulysses era presidente da Câmara dos Deputados. Pela lógica da linha sucessória, o presidente da Câmara seria chamado a exercer a Presidência na ausência do presidente e do vice.  

Mas Sarney não era um vice comum: havia sido eleito pelo Colégio Eleitoral na mesma chapa de Tancredo. O problema estava no fato de que a chapa ainda não havia tomado posse, o que abriu uma disputa de interpretação sobre quem poderia assumir ou se Ulysses deveria ocupar ao menos temporariamente o cargo. 

O general Leônidas Pires Gonçalves defendeu a interpretação de que Sarney deveria assumir. A posição prevaleceu em uma reunião tensa que contou com Ulysses, Sarney e outros líderes políticos. Ulysses era um sobrevivente da política e sabia que o melhor era evitar uma disputa que pudesse provocar resistência militar e colocar em risco a transição. Sarney tomou posse em 15 de março, inicialmente como presidente interino, e a morte de Tancredo, em 21 de abril, tornou sua Presidência definitiva. 

Ulysses com José Sarney: um recuo estratégico para salvar a transição democrática (Crédito: Reprodução)

Três cargos ao mesmo tempo, mas faltou um 

Em 1987 e 1988, Ulysses acumulou três posições de enorme peso: presidente da Câmara dos Deputados, presidente da Assembleia Nacional Constituinte e presidente do PMDB. A combinação foi formalmente possível porque a Constituinte funcionava vinculada ao Congresso, mas politicamente exigia uma capacidade de articulação que não caberia em uma agenda comum.  

Como presidente da Constituinte, Ulysses coordenou debates, enfrentou pressões partidárias, mediou conflitos e conduziu a sessão de promulgação em 5 de outubro de 1988. Naquele dia, ergueu o texto constitucional e o apresentou ao país como a “Constituição Cidadã”, expressão que se tornou inseparável de sua imagem.  

A cena final da Constituinte parece feita para fotografia, e de fato foi fotografada muitas vezes, mas o trabalho por trás dela foi menos elegante. Houve disputas sobre direitos sociais, sistema de governo, economia, reforma agrária, forças armadas e desenho institucional. Ulysses precisou equilibrar a impaciência de quem queria romper tudo com a cautela de quem sabia que uma Carta ampla só sobreviveria se comportasse divergências 

Fernando Henrique Cardoso ao lado de Ulysses pouco antes do discurso famoso: “Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo. Amaldiçoamos a tirania onde quer que ela desgrace homens e nações.” (Crédito: Reprodução)

Finalmente presidente, mas sem ter sido eleito  

Ulysses chegou ainda a exercer interinamente a Presidência da República. Foi presidente em exercício em dois períodos de 1985, quando ocupava a presidência da Câmara. A passagem foi breve, mas tem uma curiosidade histórica. O homem que havia feito uma anticandidatura presidencial em 1973 acabou efetivamente sentado na cadeira presidencial, embora por substituição constitucional e não por eleição para o cargo. 

Quatro anos depois, em 1989, ele finalmente disputou uma eleição presidencial em que o voto era direto. Dessa vez, porém, a história foi muito diferente. Sua campanha não conseguiu mobilizar o próprio partido como esperava. Segundo Oswaldo Manicardi líderes estaduais faziam comícios, mas depois iam pedir a benção ao favorito Fernando Collor de Mello. O relato ajuda a explicar o contraste entre o tamanho histórico do personagem e o resultado eleitoral pífio daquela campanha. Ele terminou na sétima colocação, com apenas 4,43% dos votos, atrás até do Paulo Maluf, que concorria pelo PDS. 

Cartaz da campanha presidencial de Ulysses em 1989, quando terminou na sétima colocação (Crédito: Reprodução)

A treta com Collor 

Ao assumir a presidência, Fernando Collor tentou governar com forte concentração de decisões no Executivo, enquanto Ulysses representava uma cultura política baseada na negociação partidária e na construção de maiorias parlamentares. O presidente chegara ao Planalto prometendo não se curvar à velha política; Ulysses conhecia a velha política por dentro e sabia que, sem algum acordo, ela continuaria cobrando juros no plenário. 

Collor chegou a dizer em entrevistas que no começo do governo Ulysses chegou a aconselhá-lo. Mas a relação se rompeu de vez em 1992, quando Pedro Collor, irmão do presidente, acusou o tesoureiro da campanha, Paulo César Farias, de comandar um esquema de corrupção ligado ao governo. As denúncias levaram à instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar as relações entre Collor, PC Farias e o uso de contas fantasmas para movimentar dinheiro.  

A apuração, somada às manifestações populares e à pressão da imprensa, empurrou o Congresso para uma posição mais dura. A oposição formada por PMDB, PT e PSDB atuou para investigar o caso e, posteriormente, apoiar a abertura do processo de impeachment. 

E aqui há um detalhe importante. Ulysses não foi um adversário automático de Collor desde o primeiro dia. A história é mais complexa do que a versão segundo a qual o líder do PMDB teria simplesmente escolhido, desde o começo, derrubar o presidente. 

Até porque a coisa partiu pro pessoal. 

Ulysses e Collor no início do governo tiveram uma relação amistosa que não demorou a azedar (Crédito: Reprodução)

Estou velho, mas não sou velhaco 

Durante a crise que levaria ao impeachment, Collor, acuado politicamente, partiu para o ataque pessoal. Segundo relato publicado pelo El País ele atacou Ulysses publicamente, chamando-o, entre outras coisas, de “arteriosclerótico, senil, decrépito, vetusto” e afirmando que sua medicação estaria alterando seu comportamento.  A resposta de Ulysses foi uma pequena obra-prima de ironia política.  

Em vez de discutir se estava velho, doente ou lúcido, ele respondeu: “Estou velho, mas não sou velhaco.” Seguida magistral alfinetada: “As únicas drogas que eu consumo se compram na farmácia.” Ulysses estava dizendo literalmente que seus medicamentos eram legais, prescritos e comprados em farmácia. Mas também estava devolvendo a Collor a palavra “droga” com uma insinuação política: os remédios de Ulysses podiam ser comprados legalmente; não havia, portanto, motivo para polícia ou cadeia. 

Collor depois da treta com Ulysses com a famosa cara de quem podia ter dormido sem essa (Crédito: Reprodução)

O terno tailandês 

Uma das melhores histórias de Ulysses Guimarães aconteceu em 1991, durante uma viagem oficial à Ásia. Ele Severo Gomes e Heráclito Fortes ficaram fascinados por uma alfaiataria instalada no lobby do hotel em Bangcoc, na Tailândia. Dona Mora conta que os homens passavam praticamente o dia acompanhando o trabalho dos alfaiates. 

Ulysses e Heráclito, segundo ela, pareciam crianças diante daquele espetáculo de produção rápida. Severo Gomes, mais pragmático, enxergou imediatamente uma oportunidade de negócio: pensou em montar um quiosque na porta do Senado para atender os parlamentares barrados por não estarem de terno e gravata.  

E então vem a parte maravilhosa. Ulysses mandou fazer ternos. Só que o resultado da alfaiataria relâmpago aparentemente não foi exatamente um triunfo da alta costura. Quando voltou ao Brasil, precisava comparecer a uma reunião no Palácio da Alvorada. Dona Mora estava descansando e quando olhou para o marido vestido com o novo terno, levou um susto. Na descrição dela, uma manga terminava no cotovelo enquanto a outra cobria a mão; uma perna da calça ficava abaixo do joelho e a outra chegava ao sapato. Ela comparou a figura a um personagem de Renato Aragão. 

A pior das decisões 

Em 12 de outubro de 1992, Ulysses estava em Angra dos Reis quando embarcou num helicóptero rumo a São Paulo. A bordo estavam também Dona Mora, o ex-senador Severo Gomes, sua mulher e o piloto. A aeronave caiu no mar. Todos morreram. O corpo de Ulysses, porém, nunca foi encontrado. 

O episódio, entretanto, guarda ainda uma impressionante história contada por Oswaldo Manicardi, o eterno secretário de Ulysses. Manicardi já estava sentado dentro do helicóptero quando Ulysses teria mandado que ele descesse, dizendo que viajariam apenas os dois casais e bem-humorado aconselhou o funcionário a “passear, namorar”. Manicardi obedeceu. Pouco depois, a aeronave caiu. Anos mais tarde, ele resumiria o episódio dizendo que Ulysses havia salvado sua vida. 

Ulysses morreu no mar sem que seu corpo jamais fosse encontrado, mas sua assinatura política permaneceu em terra firme. A Constituição de 1988, as campanhas pela redemocratização e o vocabulário civil que ele ajudou a reconstruir continuam funcionando como testemunhos de uma época em que a democracia precisou ser defendida por discursos, votos, alianças e, ocasionalmente, por um secretário enviado para tratar de um casamento sem pedido. 

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