Alceu Amoroso Lima: o intelectual católico que enfrentou a Ditadura
Reportagem Especial

Alceu Amoroso Lima: o intelectual católico que enfrentou a Ditadura

Rico, acadêmico e católico fervoroso, Alceu Amoroso Lima começou à direita e terminou do lado da liberdade. Com uma coluna no Jornal do Brasil, irritou generais, ganhou aplausos de bispos e comunistas e provou que uma boa crônica pode valer mais que um batalhão inteiro

Por quase duas décadas, duas vezes por semana, um crítico literário de gravata e pseudônimo um tanto afetado usou uma coluna do Jornal do Brasil, reproduzida na Folha de S.Paulo, para enfrentar a ditadura instalada em 1964, e jamais foi preso. Chamava-se Alceu Amoroso Lima, assinava Tristão de Athayde, converteu-se ao catolicismo em 1928, presidiu o conservadoríssimo Centro Dom Vital, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras e morreu em 1983, aos 90 anos, sem ver o fim do regime que tanto combateu. 

Sua trajetória de intelectual conservador nos anos 1930 a voz profética contra a ditadura nos anos 1960 e 1970, revela como a fé católica pode evoluir do apoio a regimes autoritários para a defesa intransigente dos direitos humanos, especialmente quando você convive desde a infância com amigos como Dom Helder Câmara. Quando passou a criticar o Regime Militar ele não era um jovem militante riponga falando para um pequeno grupo num quarto com cheiro de incenso de sândalo. Era um homem de 70 anos, respeitadíssimo nos meios conservadores, que decidiu usar justamente a autoridade que havia acumulado durante décadas para perguntar aos donos do poder até onde pretendiam ir. E eles foram longe. 

Em maio de 1964, pouco mais de um mês depois do golpe, Alceu publicou o artigo “Terrorismo Cultural”, denunciando as primeiras cassações, prisões e demissões de professores e intelectuais. O texto chegou ao conhecimento do presidente Castello Branco, que telefonou ao escritor para adverti-lo sobre a “infiltração comunista” no país. Alceu, que inicialmente havia acreditado que o novo governo poderia restabelecer alguma normalidade institucional, começava ali uma longa travessia que o levaria a denunciar a censura, a repressão, a tortura e a destruição das liberdades democráticas. 

Do tear ao altar: quem era Alceu Amoroso Lima? 
 

Alceu nasceu na Guanabara, filho de Manuel José Amoroso Lima e Camila da Silva Amoroso Lima, e adotou o pseudônimo Tristão de Athayde em 1919, quando virou crítico de O Jornal. O pseudônimo tinha ordem prática: não confundir os personagens. Após anos de estudos de filosofia na Europa, ele foi indicado para o Itamaraty, mas não seguiu a carreira de diplomata. Precisou substituir o pai na direção de um patrimônio da família, a Fábrica de Tecidos Cometa, um colosso que chegou a empregar seis mil operários que operavam centenas de teares a vapor e milhares de fusos, ditando o ritmo econômico da Região Serrana do Rio de Janeiro. 

Em 1928 ele converteu-se ao catolicismo por influência de Jackson de Figueiredo, advogado, político e fundador do Centro Dom Vital, entidade que liderou a intelectualidade leiga católica brasileira até o início da década de 1960. Segundo ensaio do historiador Marcelo Timotheo da Costa, na revista Intellèctus (2018), o neoconverso não só aceitou o chamado, que o fez líder do laicato nacional, como publicou 24 livros na primeira década depois da conversão. Era o Alceu cruzado, campeão de uma ortodoxia que muita gente, mais tarde, jamais associaria ao colunista da luta pela anistia. 

Jackson de Figueiredo, fundador do conservadorérrimo Centro Dom Vital (Crédito: Reprodução)

Por que todo mundo importante lia o que ele escrevia? 

A força dele estava menos em ocupar um cargo do que em possuir uma espécie de autoridade intelectual que não cabia em um crachá. O currículo impressiona até quem não gosta de currículo. Foi eleito para a cadeira 40 da ABL, foi catedrático de literatura brasileira na Faculdade Nacional de Filosofia, ajudou a fundar a PUC-Rio e dirigiu assuntos culturais na Organização dos Estados Americanos (OEA).  

Mas o respeito que o cercou nos anos de chumbo vinha menos dos títulos e mais da coerência com que passou a usá-los. Até O Pasquim, que não dava moleza pra ninguém, apresentou seu entrevistado de setembro de 1969 como alguém digno da admiração unânime do país, por integridade intelectual, honestidade e coragem lúcida.  

O estudo de Marcelo Timotheo da Costa lembra que, em 1978, a revista Encontros com a Civilização Brasileira reuniu no tributo aos 85 anos de Alceu o cardeal Paulo Evaristo Arns, o teólogo Leonardo Boff, Oscar Niemeyer e o editor Ênio Silveira, e que o crítico Otto Maria Carpeaux calculou em milhões o público que lia seus artigos. Cardeais e comunistas de acordo: uma raridade nacional. 

Alceu Amoroso Lima no dia da posse da cadeira 40 da ABL (Crédito: Reprodução)

Como o golpe perdeu um admirador relutante 

Alceu Amoroso Lima nunca foi exatamente um entusiasta do golpe, mas também não reagiu de imediato. Em abril de 1964, seu tom era cauteloso. Ele lamentou a ruptura da legalidade, aliviou-se por não ter havido uma guerra civil no Brasil e alertou contra a “gangorra política” na qual vivia o país. Em poucas semanas o aviso virou denúncia, e a denúncia virou hábito. 

Ele passou a chamar o Golpe Militar de “abrilada” e de “movimento de 1º de abril”, insinuando o dia da mentira, e escreveu contra os Atos Institucionais, a Lei de Segurança Nacional e as cassações; perguntou pelo paradeiro de Rubens Paiva e dos desaparecidos; e, influenciado pelas ideais de pensadores como o francês Jacques Maritain, influente no desenvolvimento e redação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, condenou o macartismo em Washington e defendeu o Concílio Vaticano II. 

Em 7 de maio de 1964, ele publicou no Jornal do Brasil o artigo “Terrorismo Cultural”. Ali denunciou as cassações, as prisões e a perseguição a professores, estudantes, jornalistas e intelectuais. Ele citava nomes como Anísio Teixeira, Josué de Castro e Celso Furtado, além de denunciar a prisão de jovens intelectuais. O texto provocou tamanha repercussão que o próprio presidente Castello Branco telefonou para Alceu. O presidente procurou convencê-lo de que ele estava mal-informado e adverti-lo sobre a infiltração comunista. Alceu chegou a pensar que a ligação poderia ser um trote. 

Não era. 

Aquele telefonema é quase uma pequena fotografia da encruzilhada em que o intelectual se encontrava. De um lado estava o governo recém-instalado, que se apresentava como defensor da democracia contra o comunismo. Do outro estava um homem que, poucos dias depois do golpe, começava a dizer que uma revolução que cassava direitos e perseguia intelectuais estava utilizando métodos que nada tinham de democráticos. 

O francês Jacques Maritain, autor de mais de 60 livros, ajudou a reviver Tomás de Aquino para os tempos modernos (Crédito: Reprodução)

Alceu e Dom Helder Câmara: uma amizade antiga 

A relação entre Alceu Amoroso Lima e Dom Hélder Câmara vinha de muito antes de 1964. E talvez seja justamente aí que esteja uma das partes mais interessantes dessa história. Quando ainda era um jovem sacerdote, Hélder Câmara esteve próximo de Alceu e do ambiente católico conservador do Centro Dom Vital. A correspondência entre os dois remonta ao fim dos anos 1920. Mais tarde, a influência de Alceu seria importante na aproximação de Hélder com o pensamento do filósofo francês Jacques Maritain. 

Maritain teve um papel decisivo na transformação intelectual de ambos. Seu conceito de humanismo integral ajudou Alceu e Hélder a repensarem a relação entre cristianismo, democracia, liberdade e justiça social. O próprio arquivo oficial de Dom Hélder registra que a leitura de Maritain, apresentada ao sacerdote por Alceu, foi um dos elementos de sua transformação intelectual e política. 

A amizade, portanto, não nasceu de uma fotografia tirada em alguma manifestação contra a ditadura. Era anterior, construída em cartas, conversas e afinidades intelectuais. Em entrevista de 1970, Hélder apontou Alceu entre as pessoas que mais haviam influenciado sua formação intelectual e espiritual. Quando veio o golpe de 1964, os dois já haviam percorrido caminhos próprios, mas estavam próximos em uma questão fundamental: a ideia de que o cristianismo não poderia ser reduzido à defesa da ordem estabelecida. 

A partir de então, Alceu no Rio e Hélder em Recife se tornariam duas vozes particularmente incômodas para o regime. Um fazia isso principalmente através da imprensa. O outro, através do púlpito, da ação pastoral e de uma crescente projeção internacional. Não eram iguais, nem pensavam exatamente da mesma maneira. Mas pertenciam àquela parcela do catolicismo brasileiro que havia descoberto que defender a fé não significava necessariamente defender o governo. 

Dom Helder Câmara, o bispo odiado pelos militares (Crédito: Reprodução)

O católico que passou a falar em nome de quem não podia falar 

Em seus artigos, Alceu denunciou a censura. Criticou a repressão aos estudantes. Questionou as prisões políticas. Condenou a tortura. Criticou o autoritarismo e defendeu a anistia. Em 1970, escrevendo sobre a imagem do Brasil no exterior, enumerou uma sucessão de problemas que incluía presos políticos torturados, violência, cassações, ausência de eleições diretas e censura prévia. 

Era uma posição especialmente importante porque Alceu possuía tudo aquilo contra o qual o militar mais linha dura nada podia fazer. Para começo de conversa era rico, o que como todos sabemos, conta muito nesse país. Além disso tinha décadas de prestígio intelectual e uma biografia profundamente vinculada ao catolicismo conservador. 

E mais uma vez Deus mostrou que é um cara gozador. O velho Tristão de Ataíde, que havia sido uma referência para gerações de católicos conservadores, passou a ser lido e admirado também por jovens oposicionistas, intelectuais e militantes de esquerda. 

Isso não quer dizer que Alceu tenha simplesmente acordado um dia bolchevique. Estudos sobre sua trajetória ressaltam justamente que sua oposição à ditadura partia de uma concepção cristã de liberdade, dignidade humana e justiça, e não de uma adesão integral ao marxismo ou aos programas da esquerda. 

Aos 70 anos, Alceu começou uma de suas vidas mais importantes (Crédito: Reprodução)

Por que ele entrou para a história da defesa dos direitos humanos? 

Alceu Amoroso Lima morreu em Petrópolis, em 14 de agosto de 1983, quase dois anos antes do fim formal do regime militar. Não chegou a assistir à eleição indireta de Tancredo Neves nem à posse de José Sarney em 1985. Já havia cumprido sua parte naquela história. 

Durante quase duas décadas, colocou sua assinatura, sua reputação e sua coluna jornalística a serviço da denúncia das violações cometidas pelo Estado. Não precisou abandonar o catolicismo para fazer isso. Ao contrário, foi justamente sua interpretação do cristianismo que lhe forneceu o vocabulário para confrontar o autoritarismo. 

Aos 70 anos, quando muitos poderiam considerar encerrada a fase de grandes mudanças, Alceu começou uma de suas vidas mais importantes. Escrevendo, discutindo, discordando e provocando. E fez isso sem abandonar a fé, sem pedir licença aos militares e sem transformar a defesa da liberdade em uma questão de partido. No Brasil dos anos de chumbo, quando a palavra pública tinha preço e às vezes também tinha consequência, Tristão de Ataíde escolheu continuar escrevendo. 

E, para um intelectual, não existe forma mais simples e mais perigosa de desobediência. 

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