Ele deixou Brasília em choque: conheça o deputado que levou o pior inimigo dos políticos para os bastidores do poder
Reportagem Especial

Ele deixou Brasília em choque: conheça o deputado que levou o pior inimigo dos políticos para os bastidores do poder

Mário Juruna chegou ao Congresso com um gravador no bolso e uma desconfiança antiga: promessa de autoridade, sem testemunha, podia evaporar. Primeiro deputado federal indígena do Brasil, o cacique xavante transformou o aparelho em símbolo de cobrança e deixou marcas duradouras na política indigenista brasileira

Em um ecossistema estruturado em grande parte sobre apertos de mão, sorrisos falsos, promessas ao vento e esquecimentos convenientes, a chegada de um estranho no ninho, com o nome de Mário Oniuou Dzurunã Butsé, criou um show que ia da gozação preconceituosa aos calafrios mais constrangedores. Corria o início dos anos 1980, quando a política tradicional brasileira foi obrigada a abrir espaço para um líder nativo que tomou assento na Câmara dos Deputados sem dominar os maneirismos da burocracia do brasileiro que ainda se acha branco. Munido de um objeto tecnológico simples e da incômoda mania de acreditar no que os homens públicos diziam, ele transformou o exercício parlamentar em uma incômoda sessão de prestação de contas. 

Segundo registros da história política do período, reportagens e documentos do PDT, a rápida ascensão desse personagem expôs a fragilidade das autoridades diante de sua própria palavra. Enquanto a classe política se habituara a prometer mundos e fundos sem deixar rastros, o novo parlamentar adotou o hábito sistemático de registrar cada compromisso assumido por ministros e diretores de órgãos públicos. O resultado foi um choque cultural sem precedentes. 

A passagem de Mário Juruna pela política institucional brasileira deixou uma marca indelével ao provar que a ingenuidade, às vezes, está do lado dos que acreditam que o povo não percebe os jogos de bastidor. Ele não apenas ocupou um espaço histórico, mas transformou a tecnologia em ferramenta de constrangimento ético. Sua figura permanece como uma lembrança incômoda de que a política pode ser cobrada de forma direta. O gravador de fita cassete pode ter caído em desuso, mas a lição deixada pelo parlamentar Xavante sobre a fragilidade das promessas oficiais continua extremamente atual. 

Quem era Mario Juruna? 

Mário Juruna (Oniuou Dzurunã) foi uma das figuras mais singulares a cruzar os salões do poder em Brasília. Cacique famoso por seu tom combativo e avesso às meias-palavras, ele despontou no cenário nacional em plena Ditadura Militar ao denunciar os constantes abusos da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) e as invasões de terras. 

Sua projeção ultrapassou a atuação comunitária quando ele decidiu encarar a política institucional de frente. Munido de uma franqueza, digamos, corrosiva, do tipo chamar ministros poderosos de “corruptos e sem-vergonha” Juruna tornou-se uma pedrinha incômoda e constante no sapato das autoridades da época. 

Juruna se tornou conhecido internacionalmente pela defesa da causa indígena no Brasil (Crédito: reprodução)

De onde saiu esse guerreiro? 

Mario Juruna é originário da aldeia Namakura, uma comunidade indígena do povo Xavante, localizada na Terra Indígena São Marcos, no município de Barra do Garças, no estado de Mato Grosso.  Os Xavantes são historicamente reconhecidos por sua firme resistência ao contato predatório com a sociedade não indígena e pela preservação orgulhosa de sua cultura e autonomia.  

O sobrenome “Juruna” foi um whitewashing da pronúncia fonética de seu nome xavante  Dzurunã. Mas embora tenha adotado o sobrenome “Juruna” no contato com a sociedade não indígena, sua formação e atuação política permaneceram profundamente enraizadas na identidade Xavante. Essa bagagem comunitária moldou sua recusa em aceitar a dinâmica de barganhas típicas da política tradicional. 

A aldeia xavante Namakura, no Mato Grosso, onde nasceu Mario Juruna (Crédito: reprodução)

A tática do gravador de guerrilha 

Mário Juruna dizia abertamente que “o homem branco mente muito” e que, por isso, a palavra dita por autoridades de terno não tinha qualquer valor sem registro. Decidido a expor essa dinâmica, passou a carregar a todos os gabinetes um gravador cassete portátil para registrar cada promessa feita por burocratas e ministros.  O que para a época era algo relativamente moderno tecnicamente. 

O instrumento rendeu resultados concretos: a gravação das falas colocou em xeque a credibilidade de autoridades da Ditadura, forçou a demarcação e homologação de terras indígenas especificamente cobradas em suas reuniões e expôs publicamente esquemas de protelação na FUNAI. Mais do que isso, o gravador virou um símbolo nacional do controle social sobre os discursos de gabinetes.   

Juruna, em entrevista coletiva, expondo a gravação de uma conversa com alguma autoridade (Crédito: reprodução)

O candidato que surpreendeu a elite política do Rio de Janeiro 

Nas eleições gerais de novembro de 1982, Mário Juruna surpreendeu ao aceitar o convite de Darcy Ribeiro e se candidatar a deputado federal pelo Estado do Rio de Janeiro pelo PDT. O partido foi o primeiro a incluir explicitamente a defesa dos povos indígenas e das populações negras em suas diretrizes programáticas oficiais. 

Brizola estava retornando do exílio e disputava o governo do Rio de Janeiro em uma eleição altamente competitiva. Lançar um candidato icônico e contestador como Juruna ajudava a atrair a atenção da classe média progressista, impulsionando a chapa do partido através do voto vinculado da época. 

No final da década de 1970, Juruna ganhou enorme destaque por carregar um gravador a tiracolo e registrar as promessas de autoridades da ditadura militar, cunhando a célebre frase “homem branco mente muito”. Um biscoito fino para o marketing de uma legenda que se apresentava como uma novidade. A fama extrapolara as fronteiras brasileiras. 

Darcy Ribeiro e Juruna: o antropólogo fez do PDT o primeiro partido  a incluir a defesa dos indígenas em seu programa (Crédito: Reprodução)

As denúncias do xavante na Europa 

Em novembro de 1980, Juruna presidiu o Quarto Tribunal Bertrand Russell em Roterdã, nos Países Baixos. O evento foi convocado para investigar violações de direitos humanos e o genocídio de populações nativas nas Américas, e Juruna foi eleito para liderar as sessões do júri, tornando-se uma voz central na denúncia internacional contra os abusos do Estado brasileiro. 

A participação do líder Xavante quase não aconteceu devido ao boicote da ditadura militar brasileira e da FUNAI, que tentaram impedir sua viagem retendo seu passaporte sob a justificativa de que os indígenas eram civilmente “incapazes”. Juruna travou uma batalha inédita nos tribunais brasileiros e conquistou o direito de viajar como cidadão livre.  

Na Europa, ele denunciou publicamente a invasão de terras e a violência sofrida pelos povos originários, projetando a causa indígena globalmente. O impacto dessa atuação e sua posterior campanha focada na ética consolidaram sua liderança e o levaram a se tornar o primeiro deputado federal indígena do Brasil, eleito em 1982 pelo PDT do Rio de Janeiro com precisamente, 31.904 votos. 

Juruna exibe o passaporte que a Ditadura não quis lhe dar (Crédito:Reprodução)

Juruna teve quantos mandatos? 
 

Apesar da enorme repercussão de sua eleição e da visibilidade internacional que conquistou, a carreira parlamentar de Mário Juruna resumiu-se a apenas um mandato como deputado federal, exercido entre 1983 e 1987, mas ele continuou ativo politicamente por vários anos. 

Tentativas posteriores de retornar ao Poder Legislativo nas eleições de 1990 e 1994 não obtiveram sucesso nas urnas. O isolamento promovido por forças políticas atacadas por suas denúncias, somado à falta de habilidade em tecer alianças pragmáticas, fez com que sua passagem pelo Congresso permanecesse como um feito único e sem reeleição. 

Ele publicou um livro “O Gravador de Juruna”, em coautoria com Antonio Hohlfeldt e Assis Hoffmann (e com prefácio do antropólogo Darcy Ribeiro), onde detalha sua estratégia pioneira de resistência política, os bastidores de sua atuação em Brasília e reflexões sobre o papel da FUNAI e os direitos dos povos originários 

Juruna morreu no dia 17 de julho de 2002, aos 58 anos, em decorrência de complicações de diabetes crônica e insuficiência renal. Após a sua morte, o corpo foi velado com honras no Salão Negro do Congresso Nacional e, depois, trasladado para o Mato Grosso, onde foi sepultado em sua aldeia natal  Namunkurá, em Barra do Garças. 

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