Itamar Franco presidiu o Brasil entre outubro de 1992 e janeiro de 1995, depois da renúncia de Fernando Collor, após um processo de impeachment que abalou a República. Mineiro de temperamento reservado e estilo político pouco convencional, recebeu um país que tinha inflação na casa dos 20% , e até então, como vice, sua função no Planalto era considerada menos importante do que a de um abajur. Sua missão era estabilizar o governo, recuperar a confiança e encontrar uma saída para a desordem monetária que castigava os brasileiros.
Seu mandato, porém, não se resumiu à gestação do Plano Real. Entre os gabinetes de Brasília e os salões do Palácio da Alvorada, Itamar protagonizou confrontos com figurões da política, ressuscitou o Fusca e virou personagem de uma das fotografias mais comentadas do Carnaval de 1994. A imagem ao lado da modelo Lilian Ramos, então com 27 anos, sem roupa íntima, percorreu o país e o exterior, oferecendo à República uma inesperada concorrência entre o debate econômico e. digamos, alguns excessos carnavalescos.
Ao deixar o Planalto, em janeiro de 1995, Itamar entregou a FHC um país com uma nova moeda e um programa de estabilização em andamento. O Plano Real foi sem dúvida seu principal legado, embora sua autoria não possa ser atribuída exclusivamente ao presidente. O resultado dependeu de uma equipe de economistas, de decisões do Ministério da Fazenda e de uma habilidosa articulação política que atravessou diferentes setores do governo. Para entender o personagem, é preciso percorrer uma presidência em que a inflação perdeu força e uma peça de roupa ausente conquistou uma notoriedade que muitos ministros jamais alcançariam.
O presidente que, talvez, tenha nascido em alto-mar
Itamar já causou na chegada. Existem quatro versões para o seu nascimento. Segundo a certidão de batismo, Itamar nasceu em Juiz de Fora em 28 de junho de 1931. Um pesquisador achou um registro baiano que localiza o nascimento na casa de uma tia, em Salvador, em 1929. O título de eleitor tinha data de 1930 na cidade mineira. Mas a versão mais popular é que ele nasceu em 1929 a bordo de um navio de cabotagem que fazia a rota Salvador–Rio de Janeiro, porém as coordenadas exatas do nascimento são desconhecidas. Storytelling é isso aí.
Engenheiro formado em 1954, foi prefeito de Juiz de Fora eleito em 1966 com cerca de consagradores 75% dos votos e senador pelo MDB a partir de 1975. Em 1989, Collor, que tinha 2% nas pesquisas, o convidou para vice porque ele tinha imagem de honesto e boa base eleitoral em Minas. E a essa altura dos campeonatos você sabe que a importância das eleições majoritárias em Minas Gerais.
Sua trajetória tinha uma peculiaridade: Itamar era um político experiente, mas pouco afeito à liturgia do poder e às coreografias da comunicação presidencial. Não era exatamente um novato, embora às vezes parecesse disposto a contrariar o manual não escrito de como um presidente deveria se comportar. Tinha fama de independente, cultivava o estilo próprio e não escondia divergências. Em tempos de políticos treinados em horas de Media Training para não escorregar numa frase mal colocada, Itamar frequentemente preferia o papo reto, mesmo quando o resultado era uma saia justa.
E disso ele entendia.

Como o vice esquecido virou presidente em um dia
Em 29 de setembro de 1992 a Câmara autorizou o processo contra Collor. Ele renunciou ao cargo em 2 de outubro, e Itamar assumiu naquele mesmo dia, sem solenidade de posse, com um breve pronunciamento em cadeia nacional prometendo um governo transparente e sem corrupção.
Segundo entrevista que Itamar deu ao jornalista Carlos Monforte, ele reuniu os presidentes dos principais partidos e se disse disposto a convocar eleições, se quisessem. Ninguém quis, e o gesto lhe rendeu respaldo político para tocar o governo.
O ministério surpreendeu: Fernando Henrique Cardoso nas Relações Exteriores e depois na Fazenda, Pedro Simon na coordenação política, Jamil Haddad na Saúde e até nomes históricos do PT, como Luiz Erundina na Secretaria de Administração. Em 29 de dezembro, com Collor condenado, a posse foi definitiva.

O dossiê de ACM que virou um monte de recortes na frente de todo mundo
Em um dos episódios mais saborosos da política brasileira, o então todo-poderoso governador da Bahia, Antônio Carlos Magalhães, foi ao Palácio do Planalto d
enunciar supostas irregularidades atribuídas ao ministro do Bem-Estar Social, Jutahy Magalhães Júnior, seu adversário político na Bahia.
Itamar decidiu surpreendê-lo ao transformar a audiência em uma reunião acompanhada pela imprensa. Quando ACM entrou no gabinete, encontrou cerca de 40 jornalistas, além de ministros e auxiliares presidenciais. O visitante, que esperava uma conversa reservada, deparou-se com uma plateia pronta para registrar cada palavra ou denúncia.
Em Brasília, onde conversas decisivas costumam depender de portas fechadas, Itamar escancarou a dele e deixou a imprensa entrar. Para ACM, foi uma surpresa; para os jornalistas, um raro presente sem necessidade de coletiva convocada às pressas. No dia seguinte, o presidente lacrou em uma nota de uma coluna do Jornal do Brasil que abordava o episódio: “Eu, astuto? Eu sou até meio bobo.”

O Carnaval em que a República perdeu a compostura
Mas nada supera o episódio ocorrido em 14 de fevereiro de 1994, durante o Carnaval carioca, quando Itamar resolveu assistir aos desfiles do grupo especial das Escolas de Samba no camarote presidencial da Marquês de Sapucaí.
Tudo corria bem, até que colou em Itamar a modelo e atriz Lílian Ramos. Os dois conversaram, trocaram carícias e foram fotografados juntos. Mas um detalhe transformou a cena em escândalo. Abaixo da barra da camiseta, ela não usava calcinha. A fotografia, feita por Marcelo Carnaval, de O Globo, correu o Brasil e o mundo.
A imagem provocou críticas de políticos, empresários, representantes da Igreja Católica e comentaristas que consideraram o comportamento inadequado para um presidente. Itamar alegou que não sabia que Lilian estava sem roupa íntima. Ao comentar o episódio, ainda fez mais uma declaração que entrou para o anedotário político: disse que, mesmo se soubesse, não teria uma calcinha para emprestar à modelo.
Naqueles tempos pré-internet, muito antes do Privacy, Fatal Model ou qualquer outro site deste universo, as moças faziam propaganda distribuindo cartões, com seus contatos e medidas. O Carnaval nem terminara, e Zózimo Barroso do Amaral estampou em sua coluna no Jornal do Brasil, o cartão de contato de Lilian Ramos. Foi um auê.
O escândalo não derrubou o governo, mas colocou o presidente no centro de uma polêmica absolutamente desnecessária. Enquanto o Ministério da Fazenda trabalhava para reorganizar a economia, o Planalto precisava explicar uma situação que não constava de qualquer manual de protocolo. Já Lilian Ramos foi viver na Itália, onde fez carreira em revistas, cinema e na TV.

Fantasmas no Alvorada e um Fusca na garagem
A relação de Itamar com o Palácio da Alvorada também alimentou histórias curiosas. O presidente demorou a ocupar a residência oficial devido a histórias de assombração ligadas ao local. Ele dizia ouvir um piano tocando sozinho à noite. O episódio virou parte do folclore de seu mandato. Em uma República que já tinha convivido com crises políticas sucessivas, a possibilidade de assombrações no endereço presidencial era quase um problema administrativo menor.
Mas outro grande símbolo do governo foi bem mais concreto e tinha quatro rodas. A pedido de Itamar, a Volkswagen retomou a fabricação do Fusca em 1993, depois de o modelo ter saído de linha no Brasil em 1986. A iniciativa pretendia estimular a produção de um carro popular e gerar empregos.
O presidente chegou a comprar um Fusca conversível azul, apresentado na cerimônia que marcou o retorno do modelo. O automóvel ganhou o apelido de “Fusca Itamar” e se tornou uma das imagens mais reconhecíveis de sua passagem pelo Planalto. Entre fantasmas que ninguém conseguiu fotografar e um carro que todo mundo podia ver, sua presidência cultivou uma coleção peculiar de histórias.

O governador vs seu ex-ministro, o presidente
Após deixar a presidência, Itamar venceu o tucano Eduardo Azeredo no segundo turno de 1998 com 57,62% dos votos válidos. Tomou posse em 1º de janeiro de 1999 e decretou moratória de 90 dias da dívida de Minas com a União, à época de 18,6 bilhões de reais.
FHC rebateu suspendendo repasses constitucionais ao estado. E a treta escalou.
Em 1999, Itamar se opôs à privatização de Furnas, empresa federal de geração de energia elétrica. Para demonstrar sua disposição de resistir à venda, convocou o alto comando da Polícia Militar mineira e em outubro, cerca de 2.500 policiais foram deslocados para exercícios em municípios próximos à usina.
Em agosto, Itamar chegou a ameaçar usar a PM para impedir a privatização e mencionou até a possibilidade de desviar o curso do rio, o que afetaria a capacidade de geração da usina. Era uma maneira bastante peculiar de participar de uma discussão sobre política energética: enquanto Brasília acertava a venda de uma empresa, o governador mineiro chamava a PM. Talvez tivesse razão.

Mas a briga não ficou só nisso…
Em setembro de 2000, tropas federais foram enviadas para proteger uma fazenda em Buritis, Minas Gerais, pertencente à família de FHC, ameaçada pela possibilidade de ocupação pelo MST. Itamar considerou inadequado empregar o Exército na defesa de uma propriedade privada e deu um ultimato ao presidente: queria a retirada dos soldados até as seis horas da manhã.
O governador não descartou um confronto entre a Polícia Militar, sob seu comando, e as Forças Armadas. Não houve a guerra entre fardas que a crise ameaçou produzir, mas o episódio demonstrou que a rivalidade entre Itamar e FHC havia ultrapassado fronteiras.

E no fim das contas, que é o Pai do Real?
Bom, vamos lá, porque há várias versões e a maioria não tem razão. Em 1993, Itamar nomeou o então chanceler Fernando Henrique Cardoso para o Ministério da Fazenda e este reuniu especialistas como Edmar Bacha, Pérsio Arida, André Lara Resende, Gustavo Franco e Pedro Malan.
O programa começou com medidas de ajuste econômico, avançou com a criação da Unidade Real de Valor (URV) e culminou na entrada em circulação do Real, em 1º de julho de 1994. Nessa data, FHC já havia deixado o governo para se candidatar à Presidência. Então, oficialmente, o ministro que assinou a primeira nota de Real foi Rubens Ricúpero.
Mas desde então a disputa política pela paternidade permanece. Itamar teve um papel político fundamental. Deu respaldo à elaboração do plano, sustentou a equipe econômica e assumiu a responsabilidade institucional pelas medidas tomadas durante seu governo.
FHC, por sua vez, foi decisivo na coordenação política do programa e acabou beneficiado eleitoralmente pelo sucesso da estabilização da moeda. Os economistas foram responsáveis pelo trabalho técnico que tornou a mudança possível. Portanto, atribuir a paternidade exclusiva a qualquer um deles simplifica uma história coletiva. O presidente que autorizou o plano não fez sozinho os cálculos, assim como os técnicos não poderiam executá-lo sem apoio político.







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