20 anos, 11 eleições e zero vitórias: a hilariante história da “Super Zefa”
Reportagem Especial

20 anos, 11 eleições e zero vitórias: a hilariante história da “Super Zefa”

Regina Célia de Souza Bento Sequeira, a "Super Zefa", reinventa o folclore político do Rio de Janeiro há duas décadas. De Pokézefa a Rainha do Gado, usou bordões de duplo sentido, fantasia e acidez contra a apatia das urnas. Só faltou combinar com o eleitor

Sabe aquela história de que “sou brasileiro e não desisto nunca”?  Nos bastidores da política do Rio de Janeiro, Regina Célia de Souza Bento Sequeira parece andar levando essa máxima um tanto a sério demais. Há 20 anos, a atriz, advogada e corretora de imóveis se apresenta religiosamente em temporadas a cada dois nas quais tenta, sem sucesso, adentrar na vida pública. E assim, a cada eleição, ela troca de fantasia, de bordão e de personagem, construindo o fenômeno político mais divertido (e mais mal votado) da Baixada Fluminense. 

Enquanto os candidatos tradicionais gastam fortunas com marqueteiros para parecerem austeros e confiáveis, Regina prefere o caminho oposto: veste a pele do deboche consciente. Sua trajetória revela uma crítica ácida ao sistema partidário nacional, onde os quadros mudam de sigla como quem troca de roupa. Ao encarnar diferentes personas a cada pleito, ela não apenas diverte o público, mas joga uma luz irônica sobre a bizarrice da política brasileira, provando que nossa realidade muitas vezes é capaz de superar a melhor comédia pastelão. 

Nas ruas da Baixada Fluminense e da Guanabara, nossa “super-heroína” tornou-se um fenômeno de público, embora nem sempre de votos. Sem grandes fundos partidários ou padrinho político tradicional, sua ferramenta de trabalho é a mais pura audácia, disparada em escassas pílulas de 15 segundos no horário gratuito de rádio e televisão. Acompanhar sua carreira é entender que, na urna eletrônica, a linha que separa o protesto do folclore é fina, colorida e pode até usar capa de herói da Marvel. 

A mulher por trás da fantasia: quem é, afinal, Regina Célia? 

Aos 65 anos e natural de Niterói, Regina Célia circulou por ocupações tão diversas quanto o próprio currículo eleitoral: trabalhou em padaria, depois na área de Recursos Humanos, fez curso de atuação com o ex-diretor de TV Maurício Sherman e chegou a integrar o elenco do programa “Zorra Total”. Hoje, atua como corretora de imóveis, profissão que, segundo ela própria admite, não financia exatamente campanhas muito robustas. 

Suas pautas oficiais costumam focar na proteção animal, nos direitos dos idosos e na infância, ainda que a embalagem visual de suas apresentações seja o que realmente fixa o nome do eleitorado na hora de votar. 

A fórmula não é apenas autopromoção. Em diferentes eleições, os nomes funcionaram como pequenas peças de comentário político. Desde a primeira tentativa, como “Zefa, a Emergente da Baixada”, pelo PFL, que conquistou 1.030 votos. 

Cartaz da campanha da “emergente brega da Baixada”, na campanha de 2004 (Crédito: Reprodução)

O álbum de figurinhas que ninguém pediu 

A lista de apelidos eleitorais de Regina é, sozinha, um pequeno tratado de cultura pop suburbana adaptado à urna eletrônica. Em 2006, no PT do B, veio a “Super Zefa”, seu melhor resultado, com 5.713 votos. Em 2008, surgiu a “Zefa das Cavernas”, com estética inspirada nos Flintstones, usada para criticar o que ela classificava como atraso do próprio município de São João de Meriti; conquistou corações ementes de 626 eleitores, e ficou com uma vaga de suplente pelo então PR.  

Em 2010, já então concorrendo a deputada federal pelo PMN, foi a vez da “Zefa da Neve” (ou Branca Zefa), “contra os anões do orçamento”, que além de ser uma piada de gosto bastante duvidoso, só conseguiu 709 votos. Na eleição seguinte, disputou uma vaga de vereadora no Rio pelo DEM. Dessa vez voou mais baixo, se apresentou apenas como Zefa, e a candidatura não decolou. Teve 47 votos. 

Mas nada abala essa guerreira. E em 2014, a “Super Zefa” estava de volta à urna eletrônica e ao bom e velho PT do B, por onde disputou vaga para a Cãmara Federal e conseguiu 2.239 votos. Dois anos depois tentou se eleger vereadora na Guanabara pelo PTB com o nome de urna de “Pokézefa”, tentando surfar a febre do jogo Pokémon Go. Não achou nem um Sunkern e teve apenas 785 votos. 

Novamente com o uniforme da “Super Zefa”, ela tentou se eleger deputada federal do Rio de Janeiro pelo Patriota em 2018 e voltou a subir no ranking, dessa vez com 2.868 votos. Parecia que a “Super Zefa” ia para o alto e avante, mas tentando vaga como vereadora no Rio, agora no PTB, obteve 884 votos em 2020. Uma carreira de altos e baixos. 

A “Super Zefa” tentou de novo se eleger deputada federal, pelo PL em 2022 e conseguiu 2.417 votos. E não parou por aí, nas últimas eleições municipais do Rio veio como “Super Zefa Rainha do Gado”, trajando roupas sertanejas e um laço dourado inspirado no Laço da Verdade da Mulher Maravilha, mas só conseguiu 1.503 votinhos. 

A candidata-personagem na versão Rainha do Gado (Crédito: Reprodução)

O duplo sentindo explosivo em um slogan que marcou época 

Se existe um consenso entre quem se diverte com as excentricidades das eleições no Rio, é o de que a “Super Zefa” de 2006 continua sendo a versão mais lembrada da personagem, e o motivo tem nome, número e um slogan: 7001. Foi em torno desse número que nasceu o bordão que atravessou gerações de campanha e ainda hoje é repetido por quem cobre política na Baixada Fluminense, “Super Zefa para federal, sete, dois ovo (sic) e um paaaau”. Cai o pano.  

A força do bordão não foi um acidente de sonoridade, mas estratégia pura. Números dos candidatos costumam ser o item mais esquecido pelo eleitor no momento do voto, e transformar quatro dígitos em rima fácil de cantar resolve exatamente esse problema. 

Apurados os já citados 5.713 votos, fica claro porque aquele slogan funcionou como marco na trajetória da “Super Zefa”: foi o momento em que humor, número e resultado se alinharam ao mesmo tempo, combinação que Regina Célia nunca mais repetiu por completo, ainda que tenha seguido tentando, fantasia após fantasia, eleição após eleição.

A candidata do slogan de duplo sentido (Crédito: Reprodução)

O que a Baixada Fluminense pode ensinar sobre perder com estilo 

Passadas mais de dez tentativas e nenhum mandato conquistado, Regina Célia de Souza Bento Sequeira segue sendo uma prova viva de que, em política, existe até carreira possível fora dos gabinetes. Ela nunca ocupou uma cadeira de vereadora, deputada estadual ou federal, nem foi indicada para nenhum cargo público, mas conquistou algo mais raro em tempos de propaganda eleitoral descartável: virou personagem folclórica, citada em reportagens, lembrada em bordões e reconhecida por eleitores que jamais cogitaram votar nela. 

Há algo de comovente em uma trajetória construída sobre derrotas sucessivas transformadas em espetáculo recorrente. Enquanto muitos candidatos desaparecem depois do primeiro tropeço nas urnas, Regina Célia fez do fracasso repetido sua marca registrada, provando que, às vezes, ganhar a simpatia do eleitorado é uma vitória paralela, ainda que os votos, teimosamente, continuem escassos. Se o cargo nunca veio, o título de personagem mais criativa das eleições fluminenses, esse ela já garantiu há tempos. 

Regina: uma trajetória de altos e baixos (Crédito: Reprodução)

PS – O novo voo da heroína! 

E para quem acreditava que a peruca da heroína havia sido aposentada, o banco de dados oficial do TSE traz a confirmação de que a caminhada continua. Nas eleições estaduais do Rio de Janeiro, Regina Célia de Souza Bento Sequeira registrou sua candidatura ao cargo de Deputada Estadual pelo PL.  

Concorrendo sob o nome de urna “Superzefa”, a candidata mantém seu estilo independente de fazer campanha. Com a disposição intacta, ela prova que o espetáculo da política carioca sempre reserva espaço para quem sabe rir da própria jornada. 

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