Marinho propõe presídio de segurança máxima na Ilha Grande inspirado em Bukele
Reportagem Especial

Marinho propõe presídio de segurança máxima na Ilha Grande inspirado em Bukele

Candidato do Novo defende unidade para presos de alta periculosidade no local onde funcionou o Instituto Cândido Mendes, implodido em 1994, além de retirar policiais de funções administrativas e reforçar o interior

O candidato do Novo ao governo do Rio, André Marinho, propõe construir na Ilha Grande, em Angra dos Reis, um presídio de contenção máxima destinado a lideranças criminosas de alta periculosidade. O projeto seria inspirado no Cecot, unidade de segurança máxima adotada em El Salvador durante o governo de Nayib Bukele.

A proposta levaria novamente uma unidade prisional à Ilha Grande, que abrigou presídios durante décadas até a implosão do Instituto Penal Cândido Mendes, em 1994. Desde então, a ilha consolidou-se como destino turístico do estado, recebendo visitantes brasileiros e estrangeiros.

Na entrevista à Agenda do Poder, Marinho também defende uma reorganização das forças de segurança para aumentar a presença de policiais nas ruas. O candidato pretende digitalizar os cartórios das delegacias e transferir atividades administrativas para servidores civis, liberando policiais treinados para atuar na investigação e no patrulhamento.

Outra prioridade apresentada é o reforço do policiamento no interior. Marinho cita Itaperuna e Bom Jesus do Itabapoana como exemplos de municípios que, segundo ele, precisam cobrir grandes áreas com efetivo reduzido. O candidato promete ainda concursos para reforçar a Polícia Militar e ampliar o patrulhamento.

Marinho detalha ainda propostas para retomada de territórios dominados por facções e milícias, combate às fontes de financiamento do crime organizado, modernização da Polícia Civil, valorização dos agentes de segurança e criação de metas regionalizadas para reduzir roubos e outros crimes.

Candidato do Novo pretende ampliar policiamento através de motocicletas | Crédito: Divulgação

Agenda do Poder – Facções criminosas e milícias controlam territórios, exploram serviços clandestinos e impõem regras à população. Qual é o seu plano para recuperar essas áreas de forma permanente e quais metas pretende cumprir nos primeiros dois anos de governo?

André Marinho – Quatro milhões de fluminenses vivem hoje sob o controle ou a influência de grupos armados, e a retomada desses territórios começa no primeiro dia do meu governo. O Sai Fuzil, Entra Brasil será doutrina de estado, com inteligência, tecnologia e presença permanente do poder público. Os Cinturões de Soberania atuam em três etapas: retomada, estabilização e consolidação. A meta é retomar e manter 20 territórios até 2030, com metas parciais auditáveis já nos dois primeiros anos, escolhidos por critério técnico de letalidade e densidade populacional, e não por manchete de jornal. 

Manter é a palavra mais importante dessa resposta. Território retomado e abandonado trinta dias depois é território devolvido de bandeja ao crime, e o Rio já viu esse filme na Maré, em Santa Cruz e no Salgueiro, em São Gonçalo. Por isso a consolidação exige policiamento fixo e a chegada daquilo que nunca chegou, que é escola, posto de saúde, luz regularizada e título de propriedade.

O plano foi construído com Rogério Greco, Major Leonardo Novo, Coronel André Batista, Roberto Motta, Marcelo Rocha Monteiro e Alessandro Visacro. O território pertence à senhora que mora há quarenta anos na mesma rua e nunca deveria precisar pedir licença a um bandido armado para receber uma visita.

Agenda do Poder – O que o seu governo pretende fazer para tornar as operações policiais mais eficientes, evitando as mortes de moradores e agentes e tornando obrigatório o uso de câmeras corporais? Pretende adotar e divulgar indicadores para que a população acompanhe os resultados?

André Marinho – Operação que começa com informação boa termina com menos tiro, e é assim que se protege ao mesmo tempo o morador e o policial. Vamos ampliar drones, videomonitoramento e análise de dados para mapear áreas, antecipar risco e escolher horário e ponto de entrada. Muitas vezes a melhor operação é a que não precisa acontecer, porque a liderança foi presa numa estrada ou num condomínio da Barra, sem confronto e sem escola fechada.

Toda operação no Rio acontece dentro de um cenário criado pelo criminoso, que ergue barricada na Vila Cruzeiro, instala fuzil de guerra na Penha e usa morador como escudo.

Quem colocou a população no fogo cruzado tem nome e tem ficha, e não é o policial que sai de casa em Nova Iguaçu às cinco da manhã sem saber se volta para o jantar. Sobre câmera corporal, vamos ouvir a tropa e construir com ela os protocolos, porque a tecnologia protege o cidadão e protege também o bom policial acusado injustamente. E criaremos o Painel do Cerco, com indicadores abertos por AISP e por município. Dado ruim será divulgado com o mesmo destaque do dado bom, sem maquiagem de número.

A prisão da liderança virá acompanhada do bloqueio do patrimônio, porque chefe preso e rico continua mandando. Chefe preso e quebrado perde o poder de mandar.

Agenda do Poder – O enfrentamento ao crime organizado exige inteligência e integração entre as polícias estadual e federal, Ministério Público e órgãos de controle financeiro. Como o seu governo vai coordenar as instituições da sua alçada e como vai interagir com as demais para prender lideranças, bloquear patrimônio e atingir as fontes de financiamento das organizações criminosas?

André Marinho – Prender soldado na esquina sem tocar no dinheiro é enxugar gelo. Meu governo vai coordenar a Operação Asfixia, reunindo Polícia Civil, Polícia Militar, Ministério Público, Receita Estadual e órgãos de inteligência financeira na mesma mesa, com meta comum e cobrança semanal, articulados com Polícia Federal e Coaf. A prisão da liderança virá acompanhada do bloqueio do patrimônio, porque chefe preso e rico continua mandando, Chefe preso e quebrado perde o poder de mandar. Facção e milícia funcionam como empresa, com caixa, logística, lavagem e sócio oculto. A milícia hoje vende gás, sinal de internet, loteia terreno e cobra taxa de padaria e de van em Campo Grande, Bangu, Itaguaí, Seropédica e boa parte da Baixada, sem nota e sem vítima que possa reclamar. Na Jucerja, que é órgão do estado, vamos criar controles para barrar a empresa de fachada que lava esse dinheiro. 

O Rio vai liderar a Frente Nacional Contra o Narcoterrorismo e proteger seus corredores logísticos, do Porto de Itaguaí ao Porto do Açu. Não basta tirar o fuzil da rua, é preciso cortar o dinheiro que compra o próximo fuzil.

Agenda do Poder – Policiais civis, militares e penais convivem com riscos elevados, defasagem de efetivo e necessidade constante de treinamento e modernização de equipamentos. Quais medidas o senhor adotará para valorizar os agentes? Pretende realizar concursos?

André Marinho – Não existe política de segurança forte com policial desvalorizado. Com o Escudo Azul, faremos recomposição salarial responsável e com cronograma que se cumpre, adicional de risco, assistência jurídica ao agente que age dentro da lei, atenção à saúde mental e amparo às famílias dos agentes vitimados. E vamos abrir concurso para reforçar o efetivo da Polícia Militar, com prioridade para agentes habilitados a patrulhar de motocicleta.

Conheço policial que compra o próprio colete, faz bico na folga para fechar a conta do mês e tira a farda dentro do carro antes de chegar em casa para não expor a família. Viúva de policial não pode virar processo esquecido numa gaveta enquanto a conta de luz continua chegando. Vamos modernizar a formação no CFAP e na Academia D. João VI, em Sulacap, tirar policial de trás do balcão e devolvê-lo à investigação e ao patrulhamento, e enfrentar o abandono do interior, onde cidades como Itaperuna e Bom Jesus do Itabapoana cobrem áreas imensas com efetivo mínimo.   

Agenda do Poder – O que o senhor pretende fazer para combater a corrupção dentro das forças de segurança do Estado? Vai punir os policiais que se aliarem ao crime ou cometerem atos graves contra os cidadãos ou vai permitir a prática do corporativismo?

André Marinho – Não haverá corporativismo no meu governo, e a regra é curta. Escudo para quem cumpre o dever, ferro para quem trai. Com o programa Policial de  Ferro, criaremos uma Corregedoria Autônoma, com independência real para investigar e punir desvio sem interferência política, e comando de batalhão, chefia de delegacia e promoção passam a seguir critério objetivo de mérito, desempenho e  integridade, não indicação de deputado que quer mandar no policiamento do próprio reduto.

Digo na ordem certa. A imensa maioria da polícia do Rio é gente honesta, mal paga e mal equipada, que sai de casa em Nilópolis, em Realengo ou em Alcântara disposta a morrer por quem nunca viu na vida. O maior prejudicado pelo policial corrupto é o policial honesto, porque é ele que carrega no peito a farda que o outro sujou. Quem cobrar arrego, extorquir comerciante ou se aliar ao tráfico e à milícia será tratado como criminoso, sem transferência de batalhão para a poeira baixar. E usaremos inteligência patrimonial para chegar ao dinheiro dele, ao terreno loteado e ao ponto de gás.

Tirar policial de trás do balcão e devolvê-lo à investigação e ao patrulhamento e enfrentar o abandono do interior, onde cidades como Itaperuna e Bom Jesus do Itabapoana cobrem áreas imensas com efetivo mínimo.   

Agenda do Poder – Os índices de não resolução de crimes pela polícia fluminense são superiores a 70%, segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP). Que medidas serão adotadas para ampliar a capacidade de investigação da Polícia Civil, melhorar a perícia e aumentar o esclarecimento de homicídios, desaparecimentos, feminicídios e outros crimes graves?

André Marinho – Impunidade é o combustível da violência, e mais de 70% dos crimes sem solução significam milhares de famílias que enterraram alguém sem nunca saber quem matou. Vamos digitalizar os cartórios das delegacias e transferir função administrativa para quadro civil, liberando o policial treinado para investigar. A perícia será modernizada com tecnologia forense, integração de bancos de dados e inteligência artificial, com investimento no Instituto Carlos Éboli e no Félix Pacheco e descentralização de capacidade pericial para a Baixada, a região dos Lagos e o Norte Fluminense.

É a mãe em Queimados que guarda a cópia do boletim de ocorrência numa pasta de plástico e volta à delegacia todo ano, no aniversário do filho, para perguntar se alguém leu aquele processo. Ela não quer estatística, quer um nome. Homicídio, feminicídio e desaparecimento terão prioridade, com reforço às delegacias de homicídios da capital, da Baixada e de Niterói e São Gonçalo, e acompanhamento direto na Sala de Situação. Criaremos ainda a Agência da Vítima, porque hoje a família é a última a saber de tudo.

Agenda do Poder – Roubos de rua, furtos de celulares, roubos de veículos e de cargas afetam diariamente moradores, trabalhadores e comerciantes. Qual será sua estratégia para reduzir esses crimes na capital, na Região Metropolitana, na Baixada Fluminense e no interior? Vai estipular metas a serem alcançadas?

André Marinho – Roubo de rua se combate com polícia na rua e capacidade de chegar rápido. Vamos ampliar o Grupamento Tático de Motociclistas, o GTM, das atuais seis equipes para 30, inicialmente em toda a Região Metropolitana, com foco no Centro e na Presidente Vargas, em Copacabana, no Méier, em Madureira, no Centro de Niterói, de Nova Iguaçu e de Duque de Caxias, e no entorno das estações de trem e metrô, de Pavuna a Japeri. 

Haverá metas regionalizadas, com responsável avaliado por resultado em cada região. O cidadão fluminense criou uma engenharia inteira para não ser roubado, com celular escondido na meia e dois aparelhos, um deles de mentira para entregar. Quem sai do turno da noite na Central escolhe o caminho mais longo porque o curto é mais perigoso, e o comerciante do Saara fecha uma hora mais cedo. Isso virou rotina, e rotina nenhuma justifica.

No roubo de carga e de veículo, o endereço é conhecido, e são a Avenida Brasil, a Dutra, a Washington Luiz e o Arco Metropolitano. Vamos integrar leitura de placas, videomonitoramento e inteligência com concessionárias e com a Polícia Rodoviária Federal.

Agenda do Poder – Presídios comandados por facções podem funcionar como centros de recrutamento e organização do crime. O que o senhor fará para impedir a comunicação ilegal nospresídios, separar lideranças, proteger os servidores  penitenciários e punir os que se aliam ao crime? Pretende adotar projeto de reinserção na sociedade dos detentos que forem libertados após cumprirem pena?

André Marinho – Se o criminoso continua comandando a facção de dentro da cadeia, quem está preso é o cidadão, não o bandido. Vamos desfaccionar a população carcerária, com classificação individual e distribuição decidida pelo estado e não pela facção, bloquear a comunicação ilegal e isolar as lideranças de alta periculosidade. 

E vamos construir em Ilha Grande, em Angra dos Reis, um presídio de contenção máxima, inspirado no modelo do Cecot, para cortar o vínculo entre o chefe preso e a rua. Isso é competência do governador do Rio, não do presidente. É o governo estadual que define a política de custódia, decide transferência, constrói unidade, compra bloqueador e abre concurso para policial penal. Quem diz que não dá para mudar não fala de limite legal, fala de falta de coragem. Ilha Grande abrigou presídio por quase um século até a implosão do Cândido Mendes, em 1994, por decisão política, e faremos o novo projeto com licenciamento e diálogo com os órgãos ambientais, porque preservar a natureza e conter o narcoterrorismo não são projetos inimigos.

O policial penal terá estrutura e respaldo, e quem se associar ao crime será punido com o mesmo rigor. Para quem cumpriu a pena, ampliaremos trabalho e qualificação, porque quem sai sem ofício e sem porta aberta é recrutado de novo pela facção. No nosso governo, o crime não será mais forte que o estado.

Relacionadas

Deixe um comentário

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo