Celso Jacob, ex-prefeito de Três Rios e ex-deputado federal pelo MDB do Rio de Janeiro, protagonizou uma das histórias mais improváveis da política brasileira dos últimos tempos. Uma saga um tanto errática, que começou no enrosco de uma licitação para concluir uma creche, passou pelo Supremo Tribunal Federal, valeu uma temporada na Papuda e terminou flagrado pela polícia tentando entrar na cadeia com queijo provolone escondido na cueca. Achou pouco diante de tantos e maiores escândalos nacionais? A trajetória ainda incluiu uma frase de WhatsApp que virou escândalo nacional e um auxílio-moradia pago por você enquanto o nobre parlamentar dormia na prisão.
Poucos deputados oferecem, num único currículo, tanto material para o noticiário e tão pouco para a autoestima nacional. Entre discursos inflamados na tribuna e pernoites no sistema prisional, Celso Jacob encarnou o ápice de um arranjo republicano surrealista em que o exercício do poder legislativo conviveu harmoniosamente com o uniforme de detento. Sua passagem por Brasília deixou marcas profundas na memória dos corredores do Congresso, consolidando um enredo marcado por episódios insólitos.
Mas o ponto alto dessa trajetória ocorreria alguns meses após sua prisão, quando uma revista de rotina no presídio revelou que o apetite do parlamentar ia muito além das emendas orçamentárias. O flagrante de um queijo provolone e dois pacotes de biscoitos escondidos nas peças íntimas transformou a biografia do político como um dos folhetins mais caricatos de Brasília.
Do interior do Rio ao Congresso Nacional
Celso Alencar Ramos Jacob nasceu em Três Rios, no estado do Rio de Janeiro, em 19 de janeiro de 1957. Economista, professor e consultor, tem mestrado e construiu sua carreira política entre a prefeitura da cidade natal e a Câmara dos Deputados. Segundo o perfil oficial da Câmara, foi deputado federal em diferentes períodos e prefeito de Três Rios entre 2001 e 2008, em dois mandatos sucessivos.
Sua trajetória partidária passou pelo PDT e pelo MDB. Em 2014, foi eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro com 36.614 votos. Em 2024, tentou retornar à prefeitura de Três Rios, mas terminou em oitavo lugar entre nove candidatos, com 1.148 votos. No currículo, portanto, convivem três identidades políticas. A primeira é a do administrador municipal que prometia obras e desenvolvimento. A segunda é a do parlamentar que buscava recursos e espaço em Brasília.
Mas foi a terceira que passou a dominar o noticiário, a bizarra história do deputado condenado que cumpria pena à noite e mantinha a rotina legislativa durante o dia.

A creche que virou o começo de uma enorme dor de cabeça
O episódio que mudou a trajetória de Jacob nasceu de uma obra que, à primeira vista, tinha uma finalidade bastante prosaica: concluir uma creche. A prefeitura de Três Rios havia realizado uma licitação para reformar o equipamento. A empresa vencedora começou a obra, mas não conseguiu conclui-la. Em 2003, a administração municipal decretou situação de emergência e contratou diretamente a Construtora e Incorporadora Mil, que havia sido desclassificada na licitação original.
Mas a tal emergência, segundo apurou o Ministério Público Federal, teria sido declarada de forma falsa apenas para viabilizar essa contratação direta, sem licitação nova. O ponto jurídico era o modo como a contratação foi feita e como documentos públicos teriam sido manipulados pelo Executivo Municipal para dar aparência de regularidade ao procedimento. Em outras palavras, a obra existia, mas a Justiça encontrou diversas irregularidades no caminho administrativo usado para chegar até ela.
A história terminou com condenação criminal. A Primeira Turma do STF condenou Jacob pelos crimes de falsificação de documento público e dispensa ilegal de licitação. A pena foi fixada em 7 anos e 2 meses de prisão, em regime inicial semiaberto, além de multa.
A polêmica mensagem de WhatsApp que indignou o país
Meses antes da Justiça fechar o cerco sobre a creche, Celso Jacob havia protagonizado outro tipo de escândalo, desta vez sem licitação, creche ou documento público. O assunto era a relação entre parlamentares do então PMDB e ministros do governo Michel Temer. Jacob reclamava, num grupo fechado de Whatsapp dos deputados do partido, que não recebia dos ministros a atenção que considerava merecer.
Foi nesse contexto que escreveu a frase que se tornaria uma das mais lembradas de sua carreira: “Às vezes me sinto a filha da empregada pobre, mas gostosa. Só serve para comer e depois nem fala.” A frase foi publicada originalmente na coluna de Lauro Jardim, de O Globo, em 2 de fevereiro de 2017, depois que o jornalista teve acesso ao grupo privado de WhatsApp. A repercussão foi rápida, e, claro, nada condescendente.
A revelação provocou reação imediata na imprensa e nas redes sociais. A repercussão negativa se somou, meses depois, à condenação no caso da creche, formando um combo de manchetes que fixou o nome de Jacob na memória do noticiário político daquele ano, não exatamente pelos motivos que qualquer assessoria de imprensa desejaria.
Quando sua condenação pelo caso da creche veio, em maio daquele mesmo ano, o terreno para a repercussão já estava, digamos, adubado.

O vexame internacional
Em 6 de junho de 2017, treze dias depois da confirmação da condenação, a Polícia Federal prendeu Jacob no desembarque do Aeroporto de Brasília, num voo vindo do Rio, na frente de outros parlamentares que estavam a bordo da mesma aeronave, segundo relatou o Portal da Câmara dos Deputados. Não há registro de cenas de aplausos.
Condenado ao regime semiaberto, Jacob retornou ao trabalho na Câmara 24 dias depois da prisão como se nada tivesse acontecido, mas seguia dormindo na cadeia, conforme decisão da Vara de Execuções Penais do Distrito Federal que autorizou sua saída em dias úteis, desde que retornasse ao presídio à noite. A birutice correu o mundo.
Era uma situação tão incomum que a própria decisão judicial a tratou como inédita: um parlamentar condenado definitivamente, cumprindo pena em regime semiaberto e ainda exercendo o mandato, sem que o STF tivesse determinado sua perda de mandato.
A Câmara registrava sua presença e Jacob continuava participando das atividades parlamentares normalmente, numa rotina que reportagens internacionais chegaram a descrever como algo entre curiosidade jurídica e paradoxo ambulante.
Nada é tão ruim que não possa piorar
Mesmo dormindo todas as noites em uma cela do Centro de Progressão Penitenciária, Celso Jacob continuou recebendo os benefícios integrais do mandato, incluindo o auxílio-moradia pago pela Câmara dos Deputados. O parlamentar recebeu o reembolso mensal de cerca de R$ 4,2 mil destinado a custear habitação em Brasília durante os primeiros meses em que já estava recolhido ao presídio.
Reportagem de O Globo calculou que, somados salário, gastos de gabinete e outros benefícios, Jacob já havia consumido cerca de 235 mil reais dos cofres públicos desde a condenação, sem contar o custo médio de manutenção de um preso no sistema penitenciário do Distrito Federal, então estimado em 1,8 mil reais mensais pela Secretaria de Segurança Pública local. Era, portanto, um cidadão simultaneamente hóspede do Estado em dois endereços diferentes, e pago pelo Estado em ambos.
Após a repercussão negativa e questionamentos de órgãos de controle, a Mesa Diretora da Câmara suspendeu o pagamento do benefício; e o Tribunal de Justiça do Distrito Federal suspendeu o direito de Jacob deixar a Papuda para trabalhar na Câmara, após questionamentos do Ministério Público sobre a fiscalização de sua atividade externa, especialmente após um episódio peculiar.

Batom na cueca? Pior: um provolone
Em novembro de 2017, ao se apresentar à noite na Papuda após uma saída autorizada, Jacob foi flagrado durante a revista de rotina carregando dois pacotes de biscoito e um queijo provolone escondidos dentro da cueca. E desculpe por fazer você imaginar essa cena. A Subsecretaria do Sistema Penitenciário do Distrito Federal confirmou o episódio e informou que é proibida a entrada de qualquer alimento no presídio sem autorização, sendo a entrada de itens permitidos possível apenas por meio da família, durante visitas.
Um interlocutor próximo ao deputado chegou a declarar ao Correio Braziliense, entre perplexo e resignado, não saber exatamente como os alimentos haviam sido acomodados, “se estavam no elástico da cueca ou escondidos dentro mesmo”, frase que resume bem o nível de bizarrice que o episódio alcançou.
Como punição Celso Jacob amargou 30 dias no isolamento sem ver a luz do sol e só na saída soube que o episódio levara o Tribunal de Justiça a suspender o benefício que lhe permitia deixar a cadeia durante o dia. E, assim, um provolone ajudou a fechar a porta que ligava a Papuda ao plenário da Câmara.

Onde está Celso Jacob hoje?
Após cumprir os prazos das penas e progredir no sistema prisional, Celso Jacob obteve a liberdade concedida pela Justiça, encerrando o uso de tornozeleira eletrônica após o cumprimento integral das sanções impostas no processo. Enquadrado na Lei da Ficha Limpa devido à condenação por órgão colegiado do STF em crime contra a administração pública, o ex-deputado ficou inelegível por oito anos após o cumprimento da pena.
Mesmo assim, em 2024 ele ainda tentou retornar à Prefeitura de Três Rios, com base em uma liminar, mas teve a candidatura indeferida. Apesar das restrições judiciais e do desgaste de imagem, ele manteve atuação nos bastidores do MDB, tentando articular retornos políticos na região de Três Rios. O histórico criminal e o folclórico episódio do provolone, no entanto, permaneceram registrados como um dos momentos mais bizarros da história recente do país.






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