O que dizem Paes, Ruas e especialistas sobre soluções para mobilidade urbana do Rio
Reportagem Especial

O que dizem Paes, Ruas e especialistas sobre soluções para mobilidade urbana do Rio

Urbanistas criticam polarização em campanha pautada em Segurança Pública, que tem deixado o debate sobre o transporte público em segundo plano

As propostas para o transporte público têm ficado em segundo plano em meio a uma campanha eleitoral polarizada e pautada pelo debate de questões envolvendo a Segurança Pública. Especialistas em mobilidade urbana consultados pela Agenda do Poder citam a importância da busca por soluções envolvendo o investimento em trens, metrôs e a expansão das linhas de barcas em toda a extensão da Baía de Guanabara.

A reportagem também conversou com os candidatos ao Governo do Rio sobre as propostas para o setor. Eduardo Paes (PSD) quer investir em transporte por trilhos com o uso de crédito do BNDES. Já Douglas Ruas (PL) apresenta propostas voltadas à reorganização de linhas intermunicipais, ampliação de faixas exclusivas e modernização do Bilhete Único estadual (veja mais abaixo).

Apesar da apresentação de propostas, urbanistas entendem que as discussões sobre a infraestrutura urbana têm tido pouca visibilidade na corrida eleitoral pelo Palácio do Guanabara.

“O debate nas eleições para o Governo do Rio acaba sendo contaminado pela polarização, e o tema da Segurança Pública ganha mais destaque junto à opinião pública. Com isso, a gente para de discutir assuntos relacionados à vida cotidiana. E isso inclui o transporte público”

Juciano Rodrigues, pesquisador do Observatório das Metrópoles, professor do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano da UFRJ e Doutor em Urbanismo

Doutora em planejamento urbano, membro do Observatório das Metrópoles no Rio e professora do IBMEC-RJ, a arquiteta Thêmis Amorim Aragão diz que as discussões sobre mobilidade urbana têm sido superficiais, para evitar perda de votos.

“A integração tarifária, por exemplo, é um assunto delicado demais para um candidato tratar em campanha, porque pode se comprometer. Até agora, não vi nenhum candidato sendo incisivo nessa pauta como proposta de governo”.

Thêmis Amorim Aragão, arquiteta

Segundo a especialista, a discussão é essencial para a diminuição da desigualdade social e aumento de oportunidades de trabalho. “Quando a mobilidade é ampliada no território, há mais acesso à população. Apesar das ofertas de trabalho estarem concentradas na região central do Rio, a reestruturação do fluxo por outros territórios também gera novas oportunidades”, diz.

Ela diz, ainda, que o debate sobre mobilidade urbana enfrenta resistência, sobretudo nos municípios da Baixada Fluminense. “A preferência é para a logística e transporte de mercadorias. Facilitar a locomoção do cidadão passa por um projeto que os políticos tendem a rechaçar, porque isso bate de frente contra interesses locais”, critica.

Cerca de 150 mil veículos passam diariamente pela Ponte Rio-Niterói, segundo a concessionária Ecovias Ponte / Foto: Divulgação

O potencial da Ponte Rio-Niterói e da Baía de Guanabara

Para a arquiteta Thêmis Amorim Aragão, a busca por soluções para o transporte público do Rio passa por um debate sobre o melhor aproveitamento da Ponte Rio-Niterói e da Baía de Guanabara.

“A ponte tem uma estrutura fantástica, que poderia ser reforçada para receber uma linha de VLT, Metrô ou de transporte de massa”, diz a especialista sobre a ponte com 13 quilômetros de extensão que conecta a capital fluminense à Região dos Lagos.

Para isso, a ponte deixaria de contar com um transporte exclusivamente rodoviário para contar com uma linha férrea na sua área central ou nas bordas, segundo a especialista. “A Ponte Rio-Niterói tem um potencial enorme devido à proximidade com a rodoviária e a integração com Niterói em direção à Região dos Lagos”, diz Thêmis.

A arquiteta cita a construção de túneis em uma infraestrutura voltada para os carros como um dos motivos para os congestionamentos. “Se houvesse investimento em transporte de massa, como metrô, melhoria da SuperVia e integração com as barcas, a distribuição dos fluxos seria equalizada. O transporte é pensado em uma perspectiva de movimentação para a região central do Rio. Mas uma integração real da dinâmica metropolitana faria essa redistribuição para outras regiões”, projeta.

Com isso, diz, também haveria um menor impacto ambiental, reduzindo a emissão de gases de efeito estufa. “Uma política pública eficiente também traz o transporte para a discussão sobre as cidades em um contexto de emergência climática”, explica.

Especialistas projetam melhor aproveitamento da Baía de Guanabara para o transporte público / Crédito: Reprodução

Já em relação à Baía de Guanabara, ela propõe uma maior integração com as barcas com a concretização de novas linhas fluviais entre os municípios, conectando Magé e São Gonçalo. “Uma medida do tipo provavelmente diminuiria o congestionamento da Baixada Fluminense”, projeta.

“Há um potencial incrível de aproveitamento da Baía de Guanabara para fazer integração com o transporte a partir de embarcações. Uma das ideias seria adotar uma estratégia de desconcentração da região central do Rio para redistribuir o fluxo de pessoas”.

O pesquisador Juciano Rodrigues diz que esse potencial pode trazer benefícios, conectando a população com áreas na região central do Rio onde estão concentradas as oportunidades de emprego. “A Baía de Guanabara tem muitos trechos navegáveis ainda inexplorados. Mas o Governo do Rio nunca levou esse potencial a sério”, critica.

Metrô do Rio de Janeiro também deve passar por expansão, segundo especislitas / Imagem: divulgação

Só um em cada dez domicílios do Rio estão perto do metrô

Um estudo ainda em desenvolvimento com base em dados do IBGE indica que apenas 10% dos domicílios do Rio têm acesso ao metrô em uma distância de até 15 minutos a pé.

“Isso indica que a infraestrutura é insuficiente, e que precisa ser melhor distribuída, com mais trens urbanos”, avalia o pesquisador Juciano Rodrigues.

Como oferecer serviço de transporte digno em um espaço urbano com deslocamento em massa para a região central? Não é possível resolver os problemas apenas com o sistema de ônibus. E não é possível resolver permitindo que meios de transporte alternativos precários sigam atendendo a população. É preciso investir em transporte público de massa, como trem e metrô.

Para isso, Juciano diz que é preciso melhorar a performance do sistema de transporte, oferecendo opções deslocamento com maior frequência, previsibilidade e conforto. “Só assim, vamos ter avanços nessa área”, projeta.

Paes quer crédito do BNDES para transporte sobre trilhos

Eduardo Paes diz quer priorizar a expansão do Metrô / Reprodução/Agenda do Poder

Eduardo Paes (PSD) diz que irá investir no transporte sobre trilhos, priorizando a expansão do Metrô. Questionado pela Agenda do Poder, diz que irá fazer a ligação da Linha 2 até a Praça XV e levar a Linha 3 até São Gonçalo.

“É uma obra fundamental para a Região Metropolitana e que precisa sair do papel”, disse Paes.

Se eleito governador do Rio, ele revela que pretende conectar o ramal de Belford Roxo de trem à Linha 2 do metrô. “Isso vai mudar a vida de milhares de pessoas de São João de Meriti e Belford Roxo”.

O ex-prefeito da capital fluminense afirma, ainda, que irá repetir no sistema ferroviário as ações que implementou no BRT.

Ele garante que os investimentos na expansão do transporte sobre trilhos serão possíveis com base nas linhas de crédito do BNDES. Paes afirmou que pretende aplicar o mesmo modelo de gestão adotado na sua gestão como prefeito da capital fluminense, citando as políticas públicas implementadas no BRT.

“Encontrei estações abandonadas, inseguras e ônibus degradados. Vou aplicar a mesma lógica aos trens. Com a capacidade de organizar as contas públicas e estruturar os projetos, como fizemos na Prefeitura do Rio, vamos buscar os recursos necessários para tirar essas obras do papel”.

Ruas propõe ‘tarifa social’ e redução de tempo de viagem

Douglas Ruas quer implementar integração tarifária do sistema entre metrô, trens, barcas, BRT e ônibus intermunicipais / Crédito: Divulgação.

Douglas Ruas (PL) quer implementar uma integração tarifária do sistema entre metrô, trens, barcas, BRT e ônibus intermunicipais. Um dos objetivos de sua proposta de governo inclui ainda a criação de uma tarifa social para a população de baixa renda.

“Haverá expansão gradual da integração tarifária para todos os principais polos regionais. Falta transporte de alta capacidade justamente onde a população mais precisa”, diz.

Ruas diz que irá viabilizar corredores capazes de reduzir o tempo de viagem em relação ao transporte intermunicipal, com foco na integração com os outros modais.

“Baixada e Leste Metropolitano têm os maiores tempos de deslocamento do estado. Isso tem solução. Vamos estudar conexões da Via Light, ligando à Linha Amarela, à Avenida Brasil e à Via Dutra, com foto em desafogar o principal eixo Rio-São Paulo e melhorar o deslocamento para quem mora na Baixada”.

O que dizem os outros candidatos

‘Problema de arquitetura institucional’, diz André Marinho – André Marinho (Novo) se refere às questões ligadas ao transporte público como “problema de arquitetura institucional”.

“Trem, metrô, barcas, ônibus intermunicipais e sistemas municipais respondem a órgãos diferentes. Ninguém responde pela viagem inteira. Cada um cuida do seu trecho, e o trabalhador paga, em dinheiro e em horas, para costurar sozinho um sistema que ninguém costurou por ele”, diz.

Marinho propõe um projeto de governança metropolitana, com autonomia para planejar a rede, definir padrão de serviço e responder pela viagem completa. Ele também quer criar um projeto de integração tarifária por etapas, priorizando locais com maiores fluxos.

“Hoje, quem mora mais longe e faz mais baldeações paga mais para chegar ao mesmo trabalho. O pobre financia a própria distância. Corrigir isso é colocar dinheiro no bolso do trabalhador”.

Cyro Garcia propõe reestatização e integração dos transportes – Cyro Garcia (PSTU) planeja fazer uma auditoria pública independente dos contratos de concessão, subsídios, receitas, despesas, dívidas e investimentos de empresas privadas.

O objetivo, segundo ele, é identificar responsabilidades e impedir a transferência de prejuízos para a população em relação aos recursos públicos.

“Defendo a reestatização dos trens, do metrô e das barcas, sem a manutenção de modelos que assegurem lucros privados enquanto o Estado assume os custos e a população recebe serviços cada vez mais precários”, diz.

Ele propõe uma gestão com conselhos formados por representantes eleitos dos trabalhadores do transporte, sindicatos, associações de moradores, estudantes e usuários.

“Esses conselhos deverão acompanhar a operação, fiscalizar as contas, participar da definição das prioridades e ter condições efetivas de exigir melhorias”.

‘Medidas socialistas’, propõe Juliete Pantoja – Assim como Cyro Garcia, Juliete Pantoja (UP) também propõe a estatização de todo o serviço de transporte público do Rio, com redução de tarifa.

Ela também projeta a construção da Linha 3 do Metrô até Itaboraí, duplicação das linhas de trem na extensão Guapimirim e Vila Inhomirim e unificação desses dois sistemas, capaz de garantir ainda a construção de terminais em São Gonçalo e Duque de Caxias.

Juliete também pretende ampliar o serviço de barcas para Magé, com reconstrução do Terminal de Guia de Pacobaíba, em Mauá.

“É preciso um governo que tenha um programa com medidas socialistas para toda a economia do Rio, para fazer com que nossa indústria e serviços estejam de acordo com o interesse da população e não de uma meia dúzia de bilionários”.

Trilhos, Baía de Guanabara e integração, diz Siri – William Siri (PSOL) diz que irá priorizar três soluções para resolver os problemas envolvendo o transporte público no Rio: ampliação do transporte sobre trilhos, expansão do uso da Baía de Guanabara e integração de toda a rede para garantir a redução de custo e de tempo de deslocamento.

“Uma das nossas prioridades será buscar, junto ao governo federal, os investimentos necessários para viabilizar a Linha 3, que vai atender o Leste Fluminense e melhorar a conexão com a capital. Também queremos estreitar a relação com a China, que é referência mundial em transporte sobre trilhos, para buscar investimentos, parcerias e transferência de tecnologia”, afirma.

Ele também diz que pretende desenvolver estudos de viabilidade para ampliar o transporte aquaviário e criar novas conexões por barcas entre os municípios na Baía de Guanabara. “São Gonçalo, Niterói, Magé, Guapimirim, Itaboraí e vários bairros do Rio podem se beneficiar dessa integração”, diz.

Ele também projeta a reestatização dos trens e a redução das tarifas.

Procurados, os candidatos Anthony Garotinho e Luan Monteiro não responderam aos questionamentos. Coronel Busnello não foi localizado

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