Em julho de 2017, às vésperas da votação na Câmara da denúncia por corrupção passiva contra Michel Temer, o então deputado federal Wladimir Costa, do Solidariedade do Pará, apareceu em público com o ombro direito decorado com a bandeira do Brasil e o nome “Temer”. A tal tatuagem, apresentada por ele como a prova física de uma lealdade política que dispensava maiores explicações, custara, segundo ele, R$ 1.200.
Costa não economizava no puxa-saquismo mais descarado. Disse ser amigo de Temer havia quase 16 anos, chamou-o de “o melhor presidente da história do Brasil” e contou que a dor da agulha havia sido suportada com um método bastante particular de anestesia emocional: pensar no homenageado. Freud explica. Também prometeu uma segunda tatuagem, desta vez com o rosto de Temer e a frase “o maior estadista do Brasil”. A política brasileira, que àquela altura do campeonato já se acostumar a ver quase tudo, ficou de queixo caído. A imprensa fez a festa. E o paraense se viu estrela de toda a mídia escrita, falada e televisiva brasileira.
Só que tamanha exposição gerou um pequeno problema. Tatuadores consultados por diferentes veículos perceberam que aquilo tinha aparência muito mais compatível com uma tatuagem de henna do que com tinta permanente. Dias depois, o próprio Wladimir reconheceria que a obra havia desaparecido. A declaração de amor eterno, ao que tudo indicava, tinha a mesma resistência de uma mensagem escrita na areia de Alter do Chão.
Do microfone aos confetes: um parlamentar barulhento
Wladimir Afonso da Costa Rabelo construiu sua carreira pública combinando a oratória popularesca de radialista com uma habilidade ímpar para capitalizar controvérsias. Nascido em Belém, ele consolidou sua base eleitoral no Pará valendo-se do carisma comunicativo antes de desembarcar em Brasília. Durante sua trajetória na Câmara dos Deputados, ostentou filiações a legendas como PMDB, PSB e, mais notadamente, o Solidariedade (SD). Um idealista.
Acumulando quatro mandatos consecutivos como deputado federal, o parlamentar raramente se destacava pela autoria de grandes marcos legislativos ou debates doutrinários profundos nas comissões. Sua atuação sob os holofotes pautava-se por intervenções ruidosas e gestos cenográficos, como o célebre episódio em que estourou um rojão de confetes no plenário durante a votação do impeachment de Dilma Rousseff, ato que o consagrou no repertório do folclore político nacional.

Mas de onde surgiu essa história de tatuagem do Temer?
Em julho de 2017, durante um evento em Salinópolis (PA), Wladimir Costa apareceu sem camisa exibindo no ombro direito uma marca com o nome “Temer”, acompanhada de elementos gráficos e de uma bandeira do Brasil. Ele afirmou que a obra custou R$ 1.200, valor que teria sido parcelado em seis vezes no cartão de crédito.
O deputado descreveu a experiência com um misto de orgulho e talvez algum humor involuntário. “Doeu um pouco, mas eu lembrava do Temer, passava a dor”, declarou à Folha de S. Paulo. Pois é. Ele também anunciou planos para uma segunda tatuagem, desta vez na costela, com o rosto de Temer e a frase “O único e verdadeiro estadista do Brasil”. Nenhuma das duas, como se sabe, sobreviveu ao contato com a realidade.
Mas por que ele fez isso?
O momento escolhido para a exibição da marca corporal por Wladimir não poderia ter sido mais cirúrgico. O gesto ocorreu em meio à votação, na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), da denúncia da Procuradoria-Geral da República contra Michel Temer, que poderia levar o presidente ao Supremo Tribunal Federal por corrupção passiva.
Precisando desesperadamente amarrar os votos da base aliada na Câmara para barrar o prosseguimento da investigação no Supremo Tribunal Federal, o Planalto operou em ritmo de balcão, liberando emendas e cargos para assegurar a fidelidade da bancada.
A demonstração de lealdade de Wladimir Costa funcionava como um superlativo símbolo de engajamento na causa governista. Em um ambiente de negociações fisiológicas, o gesto do deputado paraense buscava traduzir em espetáculo visual o apoio político que o Palácio do Planalto arregimentava às custas de intensas articulações nos bastidores.

O viral da lealdade epidérmica
A imagem do parlamentar sem camisa, exibindo o ombro rabiscado, espalhou-se como rastilho de pólvora pelos veículos de comunicação e redes sociais. A fotografia transformou-se instantaneamente em matéria-prima para memes, charges e debates acalorados sobre os limites do ridículo na representação popular. O fato de o deputado ter comparecido ao evento vestindo camiseta, bermuda e consumindo cerveja acrescentou uma camada extra de absurdo à narrativa. O país, estarrecido e divertido, assistia à transformação da crise institucional em comédia de costumes.
Nas bancadas de telejornais e nas colunas de opinião, a suposta homenagem virou o tema principal dos debates políticos daquela semana. Costa parecia deleitar-se com a exposição, concedendo entrevistas em sequência. Em um momento em que ele subiu à tribuna para defender Temer, deputados gritavam: “é de henna!” e “mostra a tatuagem!”.

O fim da fake news
A ilusão da fidelidade gravada na carne desfez-se em poucos dias. Diante da insistência de repórteres e da análise detalhada de tatuadores, veio à tona a confirmação de que o desenho não passava de uma aplicação temporária de henna. Eles citaram o delineamento irregular, as manchas na camisa e a aparência do traço como sinais típicos de hena recém-aplicada. O adorno desbotava a cada banho, revelando que os princípios do parlamentar se diluíam facilmente com água e sabão. A deputada Jandira Feghali ironizou: “Até a tatuagem é superfaturada”.
Em 9 de agosto de 2017, menos de duas semanas após o anúncio triunfal. Wladimir Costa admitiu que a imagem “sumiu” e que “não existia mais”. Ele tentou até se safar metendo o clássico “estava bêbado na hora”. Mas o estrago à sua narrativa performática estava feito. A lealdade suprema que prometia durar para sempre sucumbiu à primeira esfregada de esponja, fixando o episódio como uma das maiores palhaçadas da história do Congresso.
E nada é tão ruim que não possa piorar
Como se não bastasse, durante uma sessão na Câmara, o fotógrafo Lula Marques flagrou a tela do celular de Costa no plenário, registrando uma conversa via aplicativo de mensagens em que o parlamentar solicitava fotos íntimas à repórter Basília Rodrigues, então na rádio CBN, que o indagava sobre a veracidade de arte corporal.
As fotos demonstravam que o conteúdo das mensagens era explicitamente sexual e degradante. Uma das mensagens dizia: “Mostra a tua bunda, afinal não são suas profissões que a destacam como mulher, é sua bunda. Vai lá, põe aí, garota”.
O episódio gerou imediato repúdio de entidades de imprensa e associações de jornalistas, que classificaram a atitude como assédio sexual e postura incompatível com o decoro parlamentar e cobraram uma posição da Cãmara, que abriu uma representação contra Wladimir Costa no Conselho de Ética por assédio sexual. O deputado tentou se justificar dizendo que a jornalista o estava “enchendo o saco” e querendo induzi-lo a mostrar o corpo no plenário, o que configuraria quebra de decoro. A tentativa de inversão de responsabilidade, além de risível, foi amplamente condenada.

O pós-espetáculo
Wladimir Costa não conseguiu transformar a fama adquirida em 2017 em uma nova carreira parlamentar. Sua candidatura ao Senado em 2018 foi barrada pelo TRE do Pará com base na Lei da Ficha Limpa. A condenação que pesava sobre ele estava relacionada a abuso de poder econômico e captação ilícita de recursos na eleição de 2014.
Em 2024, já ex-deputado, foi preso pela Polícia Federal por ordem da Justiça Eleitoral, em investigação relacionada a violência política contra a deputada federal Renilce Nicodemos. Em setembro daquele ano, foi condenado em primeira instância a 12 anos de prisão por crimes que incluíam violência política de gênero, extorsão, injúria e difamação.
A pena foi posteriormente reduzida para 6 anos e 10 meses, com revogação da prisão preventiva e manutenção de medidas cautelares. Em 2026, o TRE manteve sua inelegibilidade, e, em agosto, o TSE negou pedido de liminar que pretendia suspender os efeitos da condenação para permitir uma eventual candidatura nas eleições daquele ano.
Wladimir chegou a se filiar ao Podemos em março de 2026 e apareceu em articulações políticas no Pará, e em eventos relacionados às eleições estaduais. Mas continua inelegível por força das decisões judiciais. A tentativa de voltar à Câmara, portanto, ficou por enquanto no mesmo lugar em que terminou a tatuagem de Temer: na categoria das coisas que pareciam permanentes, mas não eram.






Deixe um comentário