A saga de Adhemar de Barros, o primeiro a receber a alcunha ‘rouba, mas faz’
Reportagem Especial

A saga de Adhemar de Barros, o primeiro a receber a alcunha ‘rouba, mas faz’

Ele foi médico, aviador, governador três vezes e quase presidente. Construiu rodovias, aeroportos e hospitais, mas também uma 'caixinha' lendária. Brigou com generais, teve um cofre assaltado após morrer e ficou marcado pelo slogan. Fez muito, suspeitaram mais, e a lenda, essa nunca foi cassada

Mente quem diz que o apelido foi criado para Paulo Maluf. Nascido em Piracicaba em 1901, médico formado, aviador por hobby e cafeicultor de família rica e tradicional, Adhemar Pereira de Barros desembarcou na política nos anos 1930 como um dos nomes mais ambiciosos e controversos do século XX. Interventor federal de São Paulo nomeado por Getúlio Vargas em 1938, governador eleito em 1947 e novamente em 1963, prefeito de São Paulo entre 1957 e 1961, ele governou o estado três vezes, criou partidos, construiu rodovias, aeroportos e hospitais, e ainda assim saiu da história com uma marca que o perseguiria até depois da morte: a famosa história do “rouba, mas faz”. 

Mas enquanto adversários afiavam a frase como faca, Adhemar provou inocência em tribunal, financiou campanhas com uma “caixinha” lendária, e fracassou redondamente ao tentar realizar o sonho de se eleger presidente da República. Por outro lado, a fama se consolidou. Adhemar virou sinônimo de populismo eficiente, de obra que se via e de corrupção que se sussurrava. 

Adhemar de Barros atravessou quatro décadas de política brasileira sem nunca perder a capacidade de transformar cada crise em oportunidade e cada escândalo em folclore. Deixou estradas, hospitais, estádios, autódromos, e uma expressão que sobrevive intacta quase sessenta anos depois de sua morte, provando que certas contradições nacionais não envelhecem, apenas trocam de protagonista. 

Quem foi Adhemar de Barros? 

Adhemar nasceu em 1901 numa família tradicional de produtores de café, e formou-se médico pela Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil (atual UFRJ) em 1923. Fez pós-graduação em Berlim, trabalhou no Instituto Oswaldo Cruz e, até o início dos anos 1930, nada indicava que ele se transformaria num dos personagens mais estudados (e caricaturados) da história brasileira. 

Sua entrada na política aconteceu de forma quase acidental, puxada pelos ventos da Revolução Constitucionalista de 1932, episódio que redesenharia por completo sua trajetória. Quando eclodiu o movimento paulista, que pegou em armas contra o governo federal exigindo a redemocratização e uma nova Constituição, Adhemar se alistou como segundo-tenente médico da reserva. Nunca aplicou um band aid numa frente de combate, mas acabou promovido a capitão.  

O detalhe curioso é que o mesmo homem que empunhou a bandeira antivarguista em 1932 se tornaria, poucos anos depois, um dos nomes de maior confiança do próprio Getúlio Vargas, provando mais uma vez que o Brasil não é para amadores. 

Cartaz de mobilização da R3evolução Constitucionalista de 1932 | Crédito: Reprodução

Como assim? 

De volta após o exílio decorrente da derrota, primeiro no Paraguai e depois na Argentina, onde se aproximou dos líderes derrotados da revolução, especialmente do coronel Euclides Figueiredo, pai do futuro presidente João Figueiredo, Adhemar se filiou ao Partido Republicano Paulista (PRP) para concorrer à Assembleia Constituinte estadual, elegendo-se e participando da elaboração da Constituição paulista de 1935.  

Foi nessa cadeira que ele começou a construir a rede de contatos que, poucos anos depois, o levaria diretamente ao Palácio dos Campos Elíseos como interventor federal, um salto que ninguém em 1934 apostaria como provável. 

Cartaz -convocatória para os paulistas | Crédito: Reprodução

É verdade que ele virou “espião” de Getúlio? 

A aproximação de Adhemar com Filinto Müller, chefe de polícia da Guanabara, então Distrito Federal, e um dos homens mais temidos do aparato repressivo varguista, é um dos capítulos mais debatidos por historiadores. Ele não era um “informante” no sentido tradicional, mas sim um político pragmático, interessado em ter o aval, ou pelo menos a tolerância, do centro do poder. Sua condição social e seu renome o protegiam, permitindo-lhe transitar entre a oposição e a situação conforme sua conveniência. 

Anos mais tarde em entrevista ao jornal O Globo, o próprio Getúlio admitiu que Adhemar passou a visitá-lo com frequência no palácio, trazendo notícias de São Paulo, “ora com uma novidade sobre a política ora com detalhes sobre o progresso da indústria”. Quando um repórter perguntou a Vargas se Adhemar havia sido indicado por alguém, a resposta foi ensaboada ao melhor estilo varguistas: ele não sabia dizer com certeza, mas suspeitava que o médico fosse protegido de Filinto Müller. 

Isso não significa necessariamente que Adhemar fosse um “informante” do varguismo no sentido de espião, mas indica que ele era visto como confiável o suficiente para administrar o estado mais rico e politicamente sensível do país. 

Filinto Müller, o carrasco do Estado Novo | Crédito: Reprodução

O início da era das grandes obras 

Com a implantação do Estado Novo em 1937, Getúlio Vargas cancelou eleições, fechou o Congresso e voltou a nomear interventores federais para os estados. Em 1938, Adhemar foi nomeado interventor em São Paulo, cargo que ocupou até junho de 1941. 

Esse foi seu primeiro grande período no poder, marcado por uma intensa política de investimentos em infraestrutura, com foco em transporte, saúde e equipamentos urbanos. Entre as obras iniciadas ou tocadas nesse período estão o complexo das rodovias Anchieta e Anhanguera, o Aeroporto de Congonhas, aeroportos no interior (como Viracopos), o Hospital das Clínicas e o estádio do Pacaembu. 

Além disso, em parceria com o prefeito Prestes Maia, Adhemar deu continuidade ao Plano de Avenidas de São Paulo, inaugurando, em 1938, com a presença de Vargas, o túnel da Avenida 9 de Julho. Era a materialização do slogan que o acompanharia: “São Paulo não pode parar”, e que um monte de gente tentaria copiar nas décadas seguintes. 

Fundação do Hospital das Clínicas de São Paulo | Crédito: Reprodução

A consolidação do poder 

Como interventor, cabia a ele nomear todos os mais de 250 prefeitos do estado através do Departamento das Municipalidades, e sua estratégia foi maquiavélica: demitiu todos eles assim que assumiu, substituindo-os por jovens técnicos, numa renovação que preteriu os políticos do antigo PRP e consolidou uma nova base de poder. 

Nos dois primeiros anos de sua interventoria, Adhemar ainda escolheu a dedo para visitar 58 cidades do interior, que jamais tinham visto um governador ou interventor em carne e osso, incluindo Andradina, no extremo oeste, onde conheceu Antônio Joaquim de Moura Andrade, chamado “Rei do Gado”, o maior pecuarista do Brasil. 

Essas jogadas, aparentemente administrativas, tinham um objetivo claramente político: esvaziar a força dos velhos caciques e construir, em cada município, uma geração de gestores devendo lealdade pessoal a ele. Foi um dos primeiros indícios de que aquele médico discreto de Piracicaba entendia mais de como fazer política do que de anatomia, um talento que o acompanharia por mais três décadas. 

Adhemar de Barros fora nomeado interventor de São Paulo | Crédito: Reprodução

Da queda da interventoria à reabilitação pelo voto popular 

Mas, como diz o ditado, malandro demais paga para vacilar. Não demoraram a surgir denúncias de corrupção e desvio de verbas em seu governo. Em 1940 Adhemar literalmente confiscou o jornal O Estado de São Paulo, que o atacava pesadamente. No início do ano seguinte, Getúlio achou que já estava demais e o destituiu do cargo. 

Anos depois, em 1946, já no contexto pós-Estado Novo, Adhemar conseguiu provar sua inocência em um processo no Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, relacionado àquelas acusações.  O processo 001/1946 encerrou-se com sua absolvição, o que lhe permitiu retornar à disputa eleitoral com a ficha “limpa” — pelo menos no papel. 

Nesse meio tempo ele filiou-se à UDN em 1945, apoiando o brigadeiro Eduardo Gomes para presidente, e no ano seguinte fundou seu próprio partido, o Partido Republicano Progressista, que logo se transformaria no Partido Social Progressista (PSP), legenda que dominaria a política paulista pelas duas décadas seguintes. 

Foi com essa nova sigla que ele foi eleito governador de São Paulo em 1947 com o apoio, inclusive, dos comunistas, uma coligação que hoje soaria estranha para qualquer analista político. Sua administração voltou a ser marcada por grandes obras públicas: criou o Plano da Casa Própria Popular, elaborou um plano de água e esgoto para a capital, construiu o emissário de Tamanduateí, concluiu as obras do Hospital das Clínicas e das vias Anhanguera e Anchieta, e ampliou o número de escolas industriais no interior. 

O complexo de viadutos da Via Anchieta | Crédito: Reprodução

Ele era mesmo tão corrupto assim? 

Bem, segundo seus biógrafos a “caixinha do Adhemar” era uma taxa cobrada de fornecedores e empreiteiros de obras públicas, contabilizada oficialmente como doação de campanha, prática que ajudou a dar solidez financeira ao PSP. Diante da insistência dos boatos, e da dificuldade de negar algo tão amplamente comentado, Adhemar fez o que fazia de melhor: transformou o escândalo em espetáculo. 

Encomendou aos compositores Herivelto Martins e Benedito Lacerda uma canção que, em vez de atacá-lo, o enaltecia, celebrando a caixinha como fonte de livros, remédios e estradas para a população, com o refrão pedindo que os “maldizentes” simplesmente deixassem de falar. A música fez sucesso, e o escândalo, ressignificado pelo jingle, tornou-se parte do folclore político paulista, um caso raríssimo de crise de reputação convertida, com sucesso, em capital simbólico. 

E de onde veio o ‘rouba, mas faz’? 

Aqui está a parte mais divertida de toda essa história: o bordão mais associado a Adhemar de Barros não foi criado por ele, mas por um de seus adversários, o jornalista e escritor Paulo Duarte. Diante das acusações constantes de corrupção e das chamadas “negociatas” ligadas à sua administração, a frase foi lançada como crítica, mas Adhemar fez algo que só um político genuinamente cínico faria, incorporou o insulto como slogan, usando-o abertamente em sua campanha para a prefeitura de São Paulo em 1957. 

O bordão nasceu, portanto, na década de 1950, e logo os adhemaristas passaram a repeti-lo para o eleitorado como forma de neutralizar o ataque. Em vez de negar o roubo, defendiam que a obra pública compensava o desvio. Décadas depois, a expressão sobreviveria intacta ao seu criador, sendo emprestada a outros políticos brasileiros, entre eles Paulo Maluf, prova de que certos vícios nacionais atravessam gerações sem perder um grama de atualidade. 

Três tentativas de presidência? Na verdade, duas (e uma quase) 

Adhemar tentou se eleger presidente da República em 1955 e em 1960, conquistando, nas duas eleições, o terceiro lugar. Em 1955, disputou contra Juscelino Kubitschek, Juarez Távora e Plínio Salgado, sendo derrotado. Em 1960, perdeu novamente, dessa vez para Jânio Quadros. Há quem fale em “três vezes” porque, em 1950, ele apoiou a candidatura de Vargas à presidência, mas não concorreu em nome próprio naquele ano. 

Sua incapacidade de se eleger presidente foi sua maior frustração política. Mesmo sendo uma das maiores lideranças do país, seu alcance se limitava a São Paulo. Sua imagem controversa, a resistência de outros estados e a oposição ferrenha de Jânio Quadros, que foi seu algoz nas urnas, o mantiveram longe do Planalto. A morte, em 1969, encerrou definitivamente seu sonho. 

Santinho de campanha de Ademar de Barros | Crédito: Reprodução

A última eleição e a cassação pela Ditadura 

Em 1963, Adhemar retornou ao governo paulista, eleito novamente governador. Seu mandato, porém, seria interrompido em 1966, quando foi cassado pela Ditadura. Inicialmente, ele apoiou o golpe militar de 1964, acreditando que poderia ser um aliado do novo regime. No entanto, seu apoio não lhe garantiu a lealdade dos militares.  

Adhemar foi cassado pela Ditadura em junho de 1966, tendo seus direitos políticos suspensos por dez anos. A justificativa oficial era sua “indisciplina” e a “desordem administrativa”, mas a verdadeira razão foi sua tentativa de se perpetuar no poder. 

O ‘Cofre do Adhemar

Quatro meses após a morte de Adhemar, membros do movimento VAR-Palmares assaltaram um cofre que supostamente lhe pertencia, localizado na casa de sua ex-secretária Anna Gimel Benchimol Capriglione, que teria sido, segundo algumas versões, uma de suas amantes. 

A ação, considerada a maior expropriação já realizada por um grupo de resistência à ditadura, aconteceu no dia 18 de julho de 1969 e resultou na arrecadação de cerca de US$ 2,5 milhões, o que em valores atualizados daria algo em torno dos US$ 22 milhões, um feito que se tornaria lenda dentro da própria esquerda armada brasileira, e que fecharia, com uma ironia quase poética, o círculo da relação de Adhemar com o dinheiro público. 

Notícia sobre roubo ao ‘cofre do Adhemar’ pela VAR-Palmares correu o Brasil | Crédito: Reprodução

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