O ressurgimento de Marcelo Crivella (Republicanos) ao jogo político é uma volta por cima. O deputado federal e ex-prefeito do Rio fala pela primeira vez com a Agenda do Poder após o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) rejeitar na última semana a denúncia contra ele por falta de provas no caso conhecido como QG da Propina, que investigou abuso de poder econômico e político. “Provei a minha inocência”. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já havia decidido suspender a sua inelegibilidade no dia 20 de agosto, liberando a sua candidatura ao Senado.
Crivella projeta uma campanha nas ruas nas eleições de 2026 e comenta sobre as pesquisas, onde aparece entre os favoritos com Benedita da Silva (PT), Pedro Paulo (PSD) e Carlos Jordy (PL). “Eu vou seguir a estratégia das campanhas em que consegui vencer: na rua, conversando com as pessoas, andando nos calçadões, ficando na porta da Central do Brasil. As forças estão renovadas para trabalhar ainda mais pelo Rio e pelo Brasil”, diz à Agenda do Poder.
O deputado federal e ex-prefeito da capital fluminense também se posiciona sobre as eleições ao Governo do Rio, e diz ver a disputa ainda aberta, apesar do favoritismo de Eduardo Paes (PSD). “Ele hoje está à frente nas pesquisas até pelo tempo que tem de vida pública em comparação com o Douglas Ruas. Mas, olhando o cenário, ainda não dá para ter certeza absoluta de quem será o governador”.
Antigo apoiador do então presidente Jair Bolsonaro em 2020, quando era prefeito do Rio, ele agora adota outra postura ao criticar a polarização política no país. O Republicanos, partido de Crivella, definiu posição de neutralidade e independência nas eleições presidenciais deste ano.
“O cenário político do Rio e do Brasil hoje é radicalizado. Mas eu quero crer que o amadurecimento da vida política vai nos conduzir a uma coisa parecida com o que acontece nos EUA, onde há democratas e republicanos em alternância de poder”.
Crivella também fala sobre a força do voto evangélico. Reportagem publicada pela Agenda do Poder indica que 32,8% da população fluminense é formada por esse universo religioso, índice acima da média nacional. É o equivalente a mais de 5 milhões de pessoas. “É um voto baseado nos ensinamentos que Cristo nos deixou, de que a política precisa ser a arte de servir ao povo. Os evangélicos costumam dizer: ‘Quem pensa nos outros pensa como Deus’. E é isso que as pessoas vão procurar”.
Ele ainda cita o legado deixado na Prefeitura do Rio, as ações tomadas durante a pandemia da covid-19 e relembra a morte da mãe, que faleceu em dezembro de 2020, quando Crivella estava afastado do cargo de prefeito e cumpria prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica. “Só lamento que a minha mãe querida não esteja mais aqui para ver. Tenho certeza de que ela diria: ‘Eu não falei? Meu filho era inocente, eu sei o filho que criei’”, diz, reforçando a ideia de que volta ao cenário político renovado e fortalecido. “A tempestade passou e continuei de pé”.
Confira a entrevista:

Agenda do Poder – Como você vê o seu ressurgimento no meio político após a suspensão da inelegibilidade pelo TSE? Você está de volta ao jogo?
Marcelo Crivella – O meu ressurgimento no meio político prova o que Jesus ensinou: aquele que constrói sobre a rocha vai resistir à tempestade. O que constrói sobre a areia, a casa desaba. Agradeço a Deus, a tempestade passou e continuei de pé. Provei a minha inocência. Agradeço à Justiça e continuamos na luta em favor do meu povo.
Agenda do Poder – Como o senhor descreveria a sensação de voltar a se dirigir ao eleitor do Rio depois da experiência como prefeito do Rio?
Crivella – A sensação que sinto ao voltar a me dirigir ao eleitor é a sensação de que a Justiça foi feita. É transmitir ao povo a ideia de não perder a esperança na Justiça e em Deus, porque o bem vence o mal. De volta à campanha política, agora quero levar as minhas propostas na minha candidatura ao Senado para seguir lutando pelo povo.
Agenda do Poder – Que avaliação você faz da sua gestão na Prefeitura do Rio? Que legado você deixou para a capital fluminense?
Crivella – Eu equipei hospitais, reformei escolas e construí grande parte do BRT da Avenida Brasil. Mas gostaria de lembrar que o Rio de Janeiro é a cidade que apare um ce tão iluminada nos satélites quanto Paris e Nova York. Essa PPP da iluminação começou no meu governo, o Eduardo [Paes] concluiu.
As obras de contenção que fiz acabaram com os deslizamentos na Niemeyer. Também fizemos um túnel. Isso, o Eduardo começou e eu terminei, para que o Rio Maracanã desaguasse por baixo da superfície na Baía de Guanabara evitando transbordamentos. Reformamos mais de 200 escolas, deixamos internet e ar-condicionado nas escolas e melhoramos a merenda escolar.
Dobramos o valor da creche por criança. Também deixamos a Linha Amarela bem mais econômica do que era antes. Hoje, nenhuma motocicleta paga pedágio.
Agenda do Poder – Você deixou o seu mandato em dezembro de 2020, em meio a uma pandemia. O que a sua gestão fez para lidar com a covid?
Crivella – Na época da covid, o Rio construiu o maior hospital de campanha do Brasil, com 500 leitos. No ano anterior, eu comprei todos os equipamentos necessários para a unidade. Nós também emprestamos dezenas de monitores, respiradores e carrinhos de anestesia para que outros municípios do Estado pudessem ter leito de UTI. Esse tipo de suporte ajudou Nova Iguaçu, São Gonçalo, Duque de Caxias, Campos e cidades da Região Serrana. Foi um milagre. Só pode ser Deus.
Agenda do Poder – Como a sua experiência política pode contribuir com a campanha ao Senado?
Crivella – A minha vida política é de muitas experiências. Mas o que posso passar a todos que caminham ao meu lado é a esperança na construção do Brasil dos nossos sonhos. Mas essa construção precisa ser feita com soluções pacíficas para as controvérsias. Para isso, precisamos evitar que o radicalismo acabe impedindo que o progresso chegue aos nossos filhos. Por amor a eles, devemos suportar todo o tipo de injustiça, perseguição e humilhação, em favor do nosso povo.
Agenda do Poder – Como você vê o cenário político do Rio? O que mudou desde a sua gestão como prefeito para cá?
Crivella – O cenário político do Rio e do Brasil hoje é radicalizado. Mas eu quero crer que o amadurecimento da vida política vai nos conduzir a uma coisa parecida com o que acontece nos Estados Unidos, onde há democratas e republicanos em alternância de poder. Isso é o maior patrimônio das civilizações mais modernas no mundo.
Agenda do Poder – Historicamente, você manteve uma rivalidade política com Eduardo Paes, hoje apontado como favorito nas pesquisas de intenção de voto para o Governo do Rio. Qual a sua avaliação sobre a candidatura dele? E como você vê a candidatura de Douglas Ruas?
Crivella – Eu já apoiei o Eduardo Paes no segundo turno quando ele ganhou do Fernando Gabeira para prefeito do Rio. Ele hoje está à frente nas pesquisas até pelo tempo que tem de vida pública em comparação com o Douglas Ruas. Mas, olhando o cenário, ainda não dá para ter certeza absoluta de quem será o governador.
Douglas Ruas, filho do prefeito de São Gonçalo, surge como forte liderança para o futuro político do nosso Estado, é uma candidatura forte. Mas não podemos esquecer, o mais experiente, o mais resiliente e com imensos serviços prestados ao povo é o candidato do meu partido, o Garotinho.
Agenda do Poder – As pesquisas mais recentes o colocam entre os favoritos na disputa para o Senado. Como você vê essa disputa?
Crivella – Esse favoritismo é o ato mais solene e majestoso que o povo do Rio me concede de revogação de todas as injustiças, tristezas, angústias, sofrimentos e humilhações que passei em minha vida pública. Um verdadeiro dilúvio de ódios e paixões. As forças estão renovadas para trabalhar ainda mais pelo Rio e pelo Brasil. Só lamento que a minha mãe querida não esteja mais aqui para ver. Tenho certeza de que ela diria: “Eu não falei? Meu filho era inocente, eu sei o filho que criei”.
[Eris Bezerra Crivella faleceu em dezembro de 2020, aos 85 anos, enquanto Crivella estava afastado do cargo de prefeito e cumpria prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica, acusado de envolvimento de um suposto QG da Propina na Prefeitura do Rio].
Agenda do Poder – Qual será a sua estratégia para garantir as eleições neste ano?
Crivella – Eu vou seguir a estratégia das campanhas em que consegui vencer: na rua, conversando com as pessoas, andando nos calçadões, ficando na porta da Central do Brasil pela manhã ou mesmo à tarde, quando as pessoas embarcam de volta para as suas casas. Também irei expor as minhas propostas na TV, internet e rádio.
Agenda do Poder – Como você vê a força do voto evangélico para a sua campanha?
Crivella – O voto evangélico, quase próximo a 40% dos eleitores, é um voto baseado nos ensinamentos que Cristo nos deixou, de que a política precisa ser a arte de servir ao povo. Os evangélicos costumam dizer: “Quem pensa nos outros pensa como Deus”. E é isso que as pessoas vão procurar.
Nesse aspecto, tenho biografia. No Senado, no Ministério da Pesca e na Prefeitura, não enriqueci. Nunca busquei pelos meus interesses próprios. Fui acusado, mas inocentado. Minha vida era modesta como missionário, pastor e, depois, como político. Os 10 anos que passei como missionário na África e a construção com recursos próprios da Fazenda Canaã, no sertão da Bahia, trazem a memórias de lugares onde não tenho nenhum voto. Mas que trazem uma forte identificação com o povo evangélico.
Agenda do Poder – Que recado você gostaria de deixar para o eleitor fluminense?
Crivella – Que não percam a fé em Deus, a esperança e o amor à família. Assim venceremos todas as lutas. E, juntos construiremos aquele Rio de Janeiro dos nossos sonhos. Para isso, peço a confiança dos eleitores.
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