As movimentações políticas já contam com acenos aos evangélicos, apontados por cientistas políticos e pesquisadores como decisivos para as eleições do Rio. Os dados mais recentes do Censo do IBGE indicam que 32,8% da população fluminense é formada por esse universo religioso, índice acima da média nacional. É o equivalente a mais de 5 milhões de pessoas.
Ainda que os números sejam expressivos, especialistas ouvidos pela Agenda do Poder indicam que há subnotificação e citam o voto evangélico como decisivo para as eleições ao Governo do Rio. Uma percepção, aliás, que tem motivado ações das chapas dos pré-candidatos Eduardo Paes (PSD) e Douglas Ruas (PL) para buscar uma aproximação com esses eleitores.
“Pesquisas indicam que o número de evangélicos é muito maior. Sobretudo no Rio, onde há muitas lideranças importantes. E o diálogo com esse eleitorado passa a ser estratégico na campanha”.
Brand Arenari, chefe do departamento de Ciência Política da UFF
O estrategista político e ex-deputado federal Rodrigo Bethlem também critica a subnotificação desses eleitores. “O voto evangélico vai ser decisivo no Rio”, diz. Ele traça um paralelo, ainda, com os católicos. “A mobilização evangélica é muito maior, e as lideranças acabam exercendo papel decisivo em eleições”.
Cientista político e colunista de Agenda do Poder, Paulo Baía cita ainda a participação política dos evangélicos no Rio como um fator determinante para essa relevância nos acenos a esse eleitor durante a campanha. “É uma comunidade muito ativa em todos os aspectos da vida social fluminense. Isso também vale para as eleições. Há uma estratégia bem focada, que leva em conta a presença de evangélicos nas chapas de Paes e Ruas”.

‘Voto de convicção’: Crivella minimiza acenos
Em meio à disputa pelo voto evangélico, Ruas marcou presença em um megaevento da Igreja Universal do Reino de Deus no Maracanã na Sexta-Feira Santa, no dia 3 deste mês. Ele inclusive aparece em fotos ao lado do deputado federal Marcelo Crivella (Republicanos).
Sobrinho de Edir Macedo e ex-prefeito do Rio, Crivella é apontado como um dos políticos com maior representatividade junto ao eleitorado evangélico. Sem citar nomes e acenos a esse eleitorado, Crivella minimiza o impacto da aproximação de políticos com o meio religioso.
“Os acenos em época de campanha não têm nenhum efeito. O voto evangélico é de convicção, princípios e valores. Não é um voto de discurso de campanha. É um voto construído ao longo do tempo”.
Marcelo Crivella, em entrevista para a Agenda do Poder

Ruas também conta com o apoio de Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, que rompeu com Paes em fevereiro deste ano ao criticar a ligação dele com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
No mês passado, o pastor criticou Paes, alegando que as ações judiciais para barrar a escolha do deputado estadual como presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) revelam medo da ascensão dele junto aos eleitores.
Os movimentos de Eduardo Paes
Uma das figuras mais expressivas da Bancada Evangélica na Câmara, o deputado federal Otoni de Paula (MDB) manifestou apoio a Paes, em entrevista à Agenda do Poder. Ele também fez críticas ao Governo Cláudio Castro ao rejeitar apoio à candidatura de Douglas Ruas, indicado pelo PL para sucedê-lo.
“Hoje, no Rio, precisamos decidir entre dois caminhos. Ou vamos seguir com o mesmo grupo político que quebrou o Estado ou vamos apoiar Eduardo Paes, que dialoga bem com a igreja e conta com parte do voto evangélico”.
Otoni de Paula

O ex-prefeito do Rio tem feito movimentos para se aproximar desse eleitorado ao manter uma aliança política estratégica com o bispo Abner Ferreira, líder do Ministério de Madureira da Assembleia de Deus.
Em uma manobra política mais recente, Paes compôs sua chapa com Jane Reis (MDB) como vice ao firmar aliança com Washington Reis (MDB), um dos maiores caciques políticos do Rio e irmão de Jane.

“Ela tem esse perfil evangélico, conservador e é uma mulher com trajetória ligada a direitos femininos e sociais. Ela ajuda na composição de base eleitoral que o Paes não tinha”, analisa o cientista político Paulo Baía.
Em 2024, o então prefeito do Rio assinou contrato de patrocínio para a celebração do centenário da Assembleia de Deus no Rio.
Bethlem: ‘voto conservador vai fazer a diferença’
O estrategista político Rodrigo Bethlem diz que o cenário ainda é incerto em relação a esse eleitorado, apesar da ligação mais direta de Ruas com os evangélicos. “O Eduardo Paes consegue agradar a gregos e troianos. Ele foge da armadilha de estar totalmente atrelado ao Lula ao se conectar com o público mais conservador. Ao mesmo tempo em que vai ao samba e faz sinais a essas alas mais progressistas, ele também fala para os evangélicos”.
“O Eduardo Paes está tentando dar uma cara mais ampla para a campanha porque conhece o Rio. Ele sabe que dificilmente ganha a eleição se tiver rejeição alta entre os evangélicos”.
Rodrigo Bethlem

Ele ainda diz ver vantagens na campanha de Douglas Ruas devido ao apoio de Silas Malafaia e a identificação maior com o eleitor evangélico devido ao fato de ter São Gonçalo como seu reduto político – Ruas é filho do prefeito Capitão Nelson (PL). Segundo Bethlem, o município da Região Metropolitana do Rio tem uma população predominantemente evangélica.
“O Ruas vai buscar aglutinar os conservadores. Já o Paes terá o desafio de rachar esse voto. Esse vai ser o diferencial da eleição do Rio”.
Rodrigo Bethlem
O estrategista político prevê ainda movimentos da campanha de Ruas para ligar Paes à esquerda como uma tentativa de afastá-lo do eleitor evangélico. “Se isso acontecer, a chance de Paes tornar o favoritismo em derrota é grande. Mas o cenário ainda é incerto. O Rio ainda é uma incógnita, vai ser uma eleição muito disputada. O voto conservador vai fazer a diferença”.
AGENDA DO PODER ENTREVISTA
Arenari: ‘Nada está definido’
Brand Arenari é doutor em sociologia pela Universidade Humboldt na Alemanha e chefe do departamento de ciência política da UFF. Com artigos e textos publicados, Arenari estuda sociologia e ciência política da religião.
Em entrevista à Agenda do Poder, ele fala sobre as estratégias das candidaturas de Paes e Ruas para o Governo do Rio, de olho no voto evangélico.
Agenda do Poder – Como você vê a força do voto evangélico no Rio?
É um universo cada vez mais determinante nas eleições. Vejo uma subnotificação nos dados do IBGE. Nas periferias e na Baixada, os evangélicos representam 50% dos eleitores. Mas as últimas pesquisas não têm captado esse crescimento. O eleitorado evangélico tem uma fatia cada vez mais importante na disputa eleitoral. Em alguns casos, com comportamento coeso.
Hoje, é muito difícil uma vitória de um candidato em eleições majoritárias no Rio sem que tenha uma estratégia específica para atrair o eleitorado ligado ao universo evangélico.

Agenda do Poder – Por que o Rio tem uma predominância maior desse eleitorado em comparação com a média do país?
Existem lideranças importantes no Rio, como Silas Malafaia, Edir Macedo e Abner Ferreira. E o apoio deles pode ter papel decisivo nas eleições. As candidaturas dependem disso.
Agenda do Poder – Como você analisa as candidaturas de Paes e Ruas?
O Eduardo Paes não tem uma candidatura orgânica no mundo evangélico. Mas ele soube manter boa relação com lideranças importantes. O candidato que mais representa o eleitor evangélico é o Douglas Ruas. Mas o Paes tem desenvolvido a habilidade de fazer acenos e de reconhecer as demandas dos setores evangélicos.
Qualquer escorregão, sobretudo no tema da família, pode custar caro. Uma frase mal colocada pode fazer com que um candidato seja facilmente cancelado. Ele precisa estar em sintonia com os valores principais desse universo.
O Ruas pode ter vantagens por ser mais ligado à direita. Mas isso não é garantia de sucesso pela complexidade do jogo político. É um universo complexo, com variações regionais e estratégias independentes nas eleições. O cenário ainda está aberto, e nada está definido.
Agenda do Poder – Na prática, quais seriam os escorregões que poderiam prejudicar o voto junto ao eleitor evangélico?
Quando falamos em “família”, estamos nos referindo a um símbolo de luta concreta pela sobrevivência. É aquele trabalhador que consegue um trabalho estável, que auxilia seus filhos. Essa luta diária das classes populares brasileiras pode ser traduzida como valor abstrato de família. A agenda identitária também causa estranhamento em setores populares evangélicos, criando mecanismos que favorecem a polarização.

Agenda do Poder – De que forma a polarização no cenário nacional pode impactar nas eleições do Rio?
Nas eleições nacionais, vemos progressistas e conservadores disputando esse espaço. A presença de Flávio Bolsonaro na campanha estadual de Ruas pode acelerar esse processo de polarização nas eleições do Rio. O principal desafio de Ruas será canalizar essa energia em busca do voto conservador e do alinhamento com o bolsonarismo.

A imagem de Paes como homem do Carnaval e carioca da gema que toma chopinho pode ser explorada pelos adversários para desgastá-lo com os evangélicos. Mas há defesas para isso.
Como é uma figura mais conhecida do eleitor, o Paes vai precisar fugir da polarização. E conta com o apoio de lideranças com a mediação do bloco político de Washington Reis, que dialoga com o eleitorado evangélico. Já o Ruas depende de uma marca externa a ele, para se afirmar como representante do Bolsonaro, da direita e do conservadorismo.


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