Enquanto o governo tenta quebrar resistências e construir maioria para aprovar o nome de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal, aliados do advogado-geral da União apostam em um ator que, apesar de discreto, pode definir o resultado: a bancada evangélica. Segundo interlocutores de Messias disseram ao blog de Malu Gaspar, no jornal O Globo, parte relevante desses parlamentares, inclusive os bolsonaristas, pode apoiar Messias — ainda que publicamente mantenha silêncio absoluto.
O apoio, se confirmado, seria decisivo para superar o principal obstáculo político da indicação: a oposição do presidente do Senado, Davi Alcolumbre. A análise do nome está marcada para o próximo dia 10 e, como o voto é secreto, crescem as expectativas por surpresas no plenário.
“Os senadores não podem declarar apoio para o Messias para não se queimar com os seus eleitores bolsonaristas nem se indispor com Davi”, resume um integrante da Frente Parlamentar Evangélica. “A pressão está grande e ninguém quer sofrer represália do Alcolumbre.”
Bancada evangélica cresce e mira temas sensíveis no STF
Um estudo do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar revela que a bancada evangélica no Senado saltou de 7 para 13 integrantes após as eleições de 2022. Muitos desses parlamentares acompanham com atenção temas que já chegaram ao Supremo e mobilizam suas bases eleitorais, como aborto, união homoafetiva, pesquisas com células-tronco, debates sobre “ideologia de gênero” e projetos como o “Escola sem Partido”.
Para um dos articuladores de Messias, esse grupo pode garantir o equilíbrio do placar. Ele aposta em uma aprovação entre 45 e 48 votos. Para ser confirmado, Messias precisa alcançar ao menos 41 votos favoráveis.
A conta de Alcolumbre e a resistência do campo conservador
Do lado de Alcolumbre, o cálculo é menos otimista: entre 28 e 31 votos. O senador acredita que Messias terá baixa adesão entre conservadores, mesmo com o empenho de uma de suas maiores aliadas, Eliziane Gama. Dentro desse grupo, Messias enfrenta a resistência de parlamentares que o enxergam como um “quadro ideológico do PT” e “homem de confiança do Lula e da Dilma”.
Um integrante da ala bolsonarista reforça à reportagem esse argumento. “Não convence esse aspecto de Messias ser evangélico, isso não vira voto para ele aqui, porque as condutas dele demonstram alinhamento ideológico político ao PT e ao Lula, não religioso”, critica.
Mendonça e Nunes Marques atuam como cabos eleitorais
Para tentar romper essa barreira, Messias conta com apoios estratégicos dentro do próprio Supremo. O ministro André Mendonça, indicado por Jair Bolsonaro e autodeclarado “terrivelmente evangélico”, tem atuado nos bastidores para aproximar o advogado-geral da União de senadores conservadores. Ambos foram chefes da AGU, compartilham a fé evangélica e enfrentaram resistências de Alcolumbre no passado.
O ministro Kassio Nunes Marques também entrou em campo. Indicado por Bolsonaro e com trânsito entre conservadores, tem feito gestos a favor da confirmação de Messias. A expectativa é que esse duplo apoio ajude a dissolver resistências dentro da própria direita religiosa.
Sabatina marcada com prazo apertado e tensão nos bastidores
A estratégia de Alcolumbre incluiu marcar a sabatina e a votação para o dia 10, reduzindo ao mínimo o tempo para Messias articular apoios no Senado. Apesar disso, o presidente da República ainda não enviou a mensagem formalizando a indicação, movimento visto como uma tentativa do Planalto de adiar a análise.
A manobra, porém, não surtiu efeito. Alcolumbre já avisou que a sabatina poderá ocorrer mesmo assim, porque a indicação foi publicada no Diário Oficial.
Conservadores projetam novo bloco no Supremo
Entre líderes evangélicos, há expectativa de que Messias reforce um alinhamento conservador dentro do Supremo, ao lado de nomes como Cristiano Zanin, Dias Toffoli, Luiz Fux e os ministros indicados por Bolsonaro, Nunes Marques e Mendonça. Embora esses ministros não votem de forma uniforme em temas sensíveis como aborto, descriminalização das drogas e direitos LGBTQIA+, são vistos como magistrados mais resistentes à ampliação do papel do Judiciário em questões próprias do Congresso.
A formação desse bloco é vista como uma oportunidade estratégica para grupos religiosos frearem pautas progressistas que hoje tramitam ou chegam à Corte com frequência.
Histórico mostra que rejeição é rara, mas não impossível
Desde o início da República, apenas Floriano Peixoto teve indicações ao STF rejeitadas pelo Senado. Foram cinco recusas em 1894, entre elas a do médico Barata Ribeiro, que dá nome a uma das ruas mais tradicionais de Copacabana.
Apesar de o cenário atual ser de forte tensão política e articulação de última hora, aliados de Messias continuam convencidos de que o voto secreto e o apoio silencioso dos evangélicos podem garantir a virada necessária.






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