Siri propõe unificar secretarias de segurança e tornar câmeras corporais obrigatórias
Reportagem Especial

Siri propõe unificar secretarias de segurança e tornar câmeras corporais obrigatórias

Plano prevê calendário permanente de concursos para reduzir déficit de policiais e servidores, corregedoria externa e ampliação dos investimentos em inteligência

O candidato ao governo do Rio, William Siri (PSOL), propõe unificar as secretarias responsáveis pela segurança pública, tornar obrigatório o uso de câmeras corporais por policiais e criar um calendário permanente de concursos para recompor os efetivos das forças de segurança.

Segundo os dados apresentados pelo candidato, a Polícia Militar tem cerca de 43 mil agentes, diante de um efetivo previsto de 60 mil, enquanto a Polícia Civil conta com aproximadamente 9 mil servidores, ante os 17 mil estabelecidos em lei.

O plano inclui ainda o fim das indicações políticas para cargos na segurança, a criação de uma corregedoria externa e independente e de uma Polícia Técnico-Científica autônoma. Siri também pretende integrar bancos de dados e ampliar a cooperação entre as forças estaduais com as polícias Federal, Rodoviária Federal, Exército e o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras).

Outra proposta é fortalecer o combate à lavagem de dinheiro e substituir operações pontuais em áreas dominadas pelo crime pela presença permanente do Estado, associando segurança a serviços de saneamento, educação, cultura e lazer. O candidato também apresenta medidas para o sistema penitenciário, o enfrentamento a roubos e furtos e a valorização dos profissionais da segurança.

O economista William Siri, do PSOL/Rede, propõe parceria com o COAF para rastrear o dinheiro do crime organizado. Crédito: Divulgação.

Retomada de territórios

Agenda do Poder – Facções criminosas e milícias controlam territórios, exploram serviços clandestinos e impõem regras à população. Qual é o seu plano para recuperar essas áreas de forma permanente e quais metas pretende cumprir nos primeiros dois anos de governo? 

William Siri: Logo no início do meu mandato, farei um planejamento de segurança com metas de curto, médio e longo prazos, ouvindo especialistas, profissionais da segurança e a sociedade civil, com o objetivo de retomar todos os territórios, através da asfixia do poder econômico e político do crime, a interrupção dos fluxos que alimentam sua atuação e a presença fixa do estado. 

A política de segurança será totalmente diferente da que foi feita nas últimas décadas, baseada em operações pontuais, que criam verdadeiros espetáculos para a mídia sem resolver o problema. No meu governo, o estado entrará de forma permanente e completa nos territórios, fornecendo saneamento básico, cultura, lazer, segurança e educação.  

Vou fortalecer a fiscalização aérea, marítima e terrestre, interrompendo a chegada de armas e munição ao poder do crime organizado. Para isso, vou aumentar o diálogo com a Polícia Federal e com a Polícia Rodoviária Federal, e criar um grupamento de policiamento marítimo que irá atuar nas baías de Guanabara e de Sepetiba. Além disso, apoiaremos as ações da Polícia Federal e fortaleceremos seu contato com a Polícia Civil. Operações recentes, como a Unha e Carne, mostraram a urgência de combatermos as poderosas conexões do crime organizado que vão muito além das favelas, incluindo grandes bancos e a Alerj, e são muito mais eficientes do que a política de confronto.

Operações policiais e câmeras

Agenda do Poder – O que o seu governo pretende fazer para tornar as operações policiais mais eficientes, evitando as mortes de moradores e agentes e tornando obrigatória o uso de câmeras corporais? Pretende adotar e divulgar indicadores para que a população acompanhe os resultados?

William Siri: Minha política de segurança vai priorizar a inteligência e a investigação, fortalecer os protocolos de ações policiais, e garantir a transparência, a redução da letalidade e a proteção da vida nos territórios, alinhada às determinações da ADPF das Favelas. O uso de câmeras será obrigatório e será tratado como prioridade na atuação policial, já que protege a população e o próprio policial. Por isso, vou focar na universalização do uso de todos os agentes em operação, com protocolos rígidos contra a ocultação de imagem. Além disso, vou garantir o acesso irrestrito das imagens ao Ministério Público e órgãos de controle. No primeiro dia de mandato, vamos estabelecer um plano de segurança pública, que irá integrar diferentes secretarias e órgãos estaduais, estabelecer metas, plano de ação e um sistema permanente de compartilhamento de dados e informações sobre a segurança pública do Rio de Janeiro.

Sem operações pontuais, que criam verdadeiros espetáculos para a mídia sem resolver o problema. No meu governo, o estado entrará de forma permanente e completa nos territórios, com saneamento básico, cultura, lazer, segurança e educação. 

Integração e combate ao dinheiro do crime

Agenda do Poder – O enfrentamento ao crime organizado exige inteligência e integração entre as polícias estadual e federal, Ministério Público e órgãos de controle financeiro. Como o seu governo vai coordenar as instituições da sua alçada e como vai interagir com as demais para prender lideranças, bloquear patrimônio e atingir as fontes de financiamento das organizações criminosas?

William Siri: O fortalecimento do contato e da parceria entre os órgãos de segurança, de controle jurídico e financeiro do estado com instituições federais é um dos grandes objetivos do meu governo, já que é fundamental para combater as grandes fontes de poder e lucro do crime organizado. Para isso, além de fomentar a integração da Secretaria de Segurança com o Governo Federal para fortalecer a atuação da Polícia Federal, vamos estabelecer uma parceria com o COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) para elaborar um plano de combate à lavagem de dinheiro no Rio de Janeiro. Além disso, vou atuar para integrar, organizar e sistematizar os bancos de dados estatais, em especial, os dados da Administração Penitenciária, da Polícia Militar, da Polícia Civil, do Exército e da Polícia Federal. Dessa forma, será possível cruzar informações e atuar de forma consistente em investigações e na elucidação de crimes. 

Valorização dos policiais

Agenda do Poder – Policiais civis, militares e penais convivem com riscos elevados, defasagem de efetivo e necessidade constante de treinamento e modernização de equipamentos. Quais medidas o senhor adotará para valorizar os agentes? Pretende realizar concursos? 

William Siri: A valorização do servidor público será um dos pilares do meu governo. Vou garantir o reajuste anual dos salários em um mês fixo, estabelecido pela Data-base do funcionalismo. Também será criado um calendário de concursos, para que possamos, de forma progressiva, acabar com o déficit de servidores em todas as secretarias. Hoje, a Polícia Militar tem cerca de 43 mil homens, quando o previsto seriam 60 mil. Na Polícia Civil, temos 9 mil agentes, enquanto o efetivo previsto em lei é de 17 mil. No meu governo, isso vai mudar. Além disso, vamos garantir melhores condições de trabalho para os policiais, melhorando a infraestrutura de delegacias e quarteis generais. 

Corrupção nas forças de segurança

Agenda do Poder – O que o senhor pretende fazer para combater a corrupção dentro das forças de segurança do Estado? Vai punir os policiais que se aliarem ao crime ou cometerem atos graves contra os cidadãos ou vai permitir a prática do corporativismo? 

William Siri: Na mesma medida que irei valorizar os servidores da segurança, irei combater os maus policiais. Vamos implementar uma corregedoria externa, que irá atuar de forma independente, investigando os casos de má conduta policial e aplicando as sanções necessárias. Além disso, vou acabar com as indicações políticas na segurança pública. Irei unificar as secretarias que existem hoje, de Polícia Civil, Militar e Penal, sob o comando da Secretaria de Segurança, unificando o planejamento e a tomada de decisões e aumentando o controle sobre o setor. 

Em 2025, foi investido apenas 0,01% do orçamento de segurança em inteligência. Esse é um percentual irrisório, que impede a resolução de crimes e impossibilita a polícia a agir com efetividade nas investigações.

Investigação e impunidade

Agenda do Poder – Os índices de não resolução de crimes pela polícia fluminense é superior a 70%, segundo dados do Instituto Segurança Pública (ISP). Que medidas serão adotadas para ampliar a capacidade de investigação da Polícia Civil, melhorar a perícia e aumentar o esclarecimento de homicídios, desaparecimentos, feminicídios e outros crimes graves? 

William Siri: Em 2025, foi investido apenas 0,01% do orçamento de segurança em inteligência. Esse é um percentual irrisório, que impede a resolução de crimes e impossibilita a polícia a agir com efetividade nas investigações. No meu governo, a inteligência e as investigações serão priorizadas, com o aumento de recursos para esse setor, a melhoria da infraestrutura e a criação de novos concursos para o aumento do efetivo policial. Outra medida será a criação da Polícia Técnico Científica, uma instituição autônoma, desvinculada da Polícia Civil, com autonomia administrativa, orçamentária e técnico-científica para fortalecer a atividade de perícia e a produção de prova científica.

Em 2025, foi investido apenas 0,01% do orçamento de segurança em inteligência. Esse é um percentual irrisório, que impede a resolução de crimes e impossibilita a polícia a agir com efetividade nas investigações.

Roubos de rua, veículos e cargas

Agenda do Poder – Roubos de rua, furtos de celulares, roubos de veículos e de cargas afetam diariamente moradores, trabalhadores e comerciantes. Qual será sua estratégia para reduzir esses crimes na capital, na Região Metropolitana, na Baixada Fluminense e no interior? Vai estipular metas a serem alcançadas? 

William Siri: Nossa política de segurança pública será baseada num planejamento em diversas frentes, e que irá combater o poder político e econômico do crime organizado. Asfixiar as fontes de poder do crime organizado, melhorar as condições de trabalho e valorizar os servidores da segurança e fortalecer a investigação para o aumento da resolução de crimes que irá promover uma progressiva queda nos índices de violência em nosso estado. 

Para além disso, teremos políticas específicas, como a criação do Programa Estadual de Combate ao Roubo e Furto de Celulares, utilizando o rastreamento do IMEI dos aparelhos roubados para intimar os compradores a devolvê-los. Dessa forma, será possível a recuperação desses celulares e a desarticulação desse mercado ilegal.

Presídios e comando das facções

Agenda do Poder – Presídios comandados por facções podem funcionar como centros de recrutamento e organização do crime. O que o senhor fará para impedir a comunicação ilegal nos presídios, separar lideranças, proteger os servidores penitenciários e punir os que se aliam ao crime? Pretende adotar projeto de reinserção na sociedade dos detentos que forem libertados após cumprirem pena? 

William Siri: Hoje, o que ocorre no sistema prisional é reflexo da falta de gestão estatal. Além de valorizar os servidores penitenciários, vamos investir na melhoria da infraestrutura e no uso de tecnologia no sistema prisional, para ampliar a capacidade de administração e prevenção de problemas. Isso é fundamental para melhoria das condições de trabalho dos servidores e para a garantia da dignidade dos presos. No nosso governo, também iremos aumentar o acesso à justiça e a mecanismos de reinserção social de egressos do sistema prisional. Essa política, em conjunto com os investimentos maciços em geração de emprego e renda dignos para a população serão fundamentais para que os egressos consigam recolocação no mercado de trabalho. 

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