A manchete era irresistível. Em pleno Dia das Mães de 1975, o jornal paulistano Notícias Populares estampou na primeira página, em letras garrafais: “Nasceu o diabo em São Paulo”, anunciando que uma criança com chifres, rabo e capacidade de falar ao nascer havia vindo ao mundo numa maternidade de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, dando início a uma sequência de “reportagens” que se estenderia por longos 37 dias e turbinaria a circulação do veículo. Entre uma tragédia médica real e o folclore dos submundos mais vis da sociedade do espetáculo, o Brasil testemunhou como a paranoia popular pode ser alimentada por muita imaginação e papel de jornal barato impresso com tinta de baixa qualidade.
Era uma época em que o brasileiro não precisava de redes sociais ou algoritmos complexos para entrar em surto coletivo. Bastava a banca de jornal da esquina de casa e alguns centavos. Em pleno ufanismo da Ditadura, o paulistano médio encontrou no satanismo de sarjeta uma distração perfeita para as suas mazelas. O medo do Coisa Ruim sempre foi um excelente produto de consumo, mas poucas vezes ele foi embalado de forma tão apetitosa, impressa em papel jornal que sujava os dedos de graxa e os pensamentos do leitor de pavor.
A narrativa que se construiu nas semanas seguintes provou que a realidade é um detalhe irrelevante quando uma boa mentira garante o uisquinho dos editores. O caso do bebê-diabo de São Bernardo do Campo é um marco na história do jornalismo brasileiro não por sua veracidade, mas pela falta dela. O Notícias Populares transformou um simples caso de má-formação congênita em uma epopeia de terror, nos ensinando que, às vezes, o mais assustador é o que somos capazes de acreditar quando queremos muito que algo seja verdade.

O que era o jornal Notícias Populares?
O Notícias Populares, famoso pela sigla NP, foi um dos veículos mais emblemáticos da história da imprensa brasileira. Foi fundado em 1963 pelo jornalista romeno Jean Mellé, com recursos do deputado Herbert Levy, o mesmo fundador da Gazeta Mercantil, para concorrer com o jornal pró-João Goulart Última Hora.
Posteriormente integrado ao Grupo Folha, o diário paulistano era explicitamente direcionado às classes populares, utilizando uma linguagem direta, manchetes garrafais e uma cobertura ostensiva de crimes, sexo, tragédias e fenômenos sobrenaturais. Era um daqueles jornais que acaba imortalizado no imaginário público pelo jargão popular de que, se espremer, sai sangue.
Apesar da reputação ambígua, o jornal era feito por profissionais experientes que entendiam com precisão quase cirúrgica os anseios, medos e o imaginário de seu público leitor. Ele não apenas relatava a realidade da periferia, mas a dramatizava com elementos da literatura de cordel e do melodrama.
E tome histórias como o “Vampiro de Osasco”, a “Loira Fantasma”, ou a sensacional fake news da “Gangue do Palhaço”. Também durante dias o jornal sustentou a história de que uma quadrilha formada por um palhaço e dois ajudantes, uma bailarina e um anão, circulava pela cidade cometendo maldades em uma kombi, que em algumas versões era branca e outras, azul. E aqui pedimos uma salva de palmas para a criatividade deste profissional.

Qual é a história do bebê diabo?
A criatura descrita pelo Notícias Populares era o verdadeiro pesadelo do berçário. Segundo a reportagem, o bebê nasceu em um “parto incrivelmente fantástico e cheio de mistérios, correria e pânico por parte de enfermeiras e médicos”. A criança tinha “aparência sobrenatural, com todas as características do diabo, em carne e osso”. O corpinho tinha a pele avermelhada, a cabeça ostentava dois chifres pontiagudos, e um rabo de aproximadamente cinco centímetros completava o visual. O olhar, segundo o jornal, era “feroz, que causa medo e arrepios”. Nosso Hellboy já nasceu falando e ainda pediu um Hollywood aos médicos antes de saltar pela janela do terceiro andar. Uau!
Ao longo das edições, a descrição do ser foi ganhando contornos ainda mais fantásticos para manter o pavor dos leitores em alta. Dizia-se que ela conseguia andar pelos telhados das casas do ABC, arranhava portas de vizinhos e até uivava durante as noites de lua cheia. Era, enfim, uma figura que mesclava o diabo da iconografia cristã tradicional com alguns dos elementos mais trash das histórias de terror dos filmes B, criando um monstro urbano de proporções mitológicas.

Como a história se espalhou?
Pedindo licença para o clichê, mas foi como fogo em palha seca. No primeiro dia, a edição do NP se esgotou rapidamente. O boca a boca fez o resto. As pessoas comentavam nas ruas, nos bares, nos ônibus. O pânico foi geral. Crianças não eram mais vistas brincando nas ruas. Mulheres se recolhiam mais cedo em casa. Portas eram trancadas à luz do dia.
Qualquer desavença entre casais ou acidente de trânsito era atribuído à criatura. E o NP cuidava de alimentar esse clima com novas e mais reportagens. Por exemplo, em uma entrevista, uma diarista identificada como Prudência Antônia Pereira (se é que existiu) garantiu ter visto o bebê e descreveu: “Quando não entendiam seus desejos, ele rosnava como cachorro. Depois, limpava as unhas com o próprio rabo”.

Por quanto tempo o jornal conseguiu manter essa pipa no ar?
A saga do Bebê Diabo ocupou a capa e as páginas internas do Notícias Populares de forma Ininterrupta durante inacreditáveis 37 dias consecutivos, entre os meses de maio e junho de 1975. A decisão de esticar a cobertura ao máximo foi motivada pelo estrondoso sucesso de vendas, que fez a tiragem do diário saltar de uma média habitual de 80 mil exemplares para picos que ultrapassaram os 250 mil jornais vendidos por dia. O jornal, que já era conhecido por seu sensacionalismo, superou a si mesmo _ e os leitores não conseguiam parar de comprar.
A engrenagem por trás da novela do bebê diabo tinha método. O Notícias Populares procurava fontes oficiais, como médicos e diretores do hospital de São Bernardo do Campo, e usava justamente a negativa dessas fontes como combustível para gerar ainda mais suspeita no público. E na ausência de declarações, criavam-se as lendas. Chegou-se ao ponto de publicarem que o bebê diabo havia fugido para o Nordeste e que o governo havia contratado Zé do Caixão para persegui-lo e exterminá-lo!
Em entrevista anos depois o então editor-chefe do NP Ebrahim Ramadan afirmou que tentou convencer os donos do jornal que a coisa tinha ido longe demais, mas a direção do jornal optou por manter a farsa rodando enquanto ela desse resultado nas bancas.

Quem inventou essa história?
Longe do sensacionalismo e do terrorismo impresso, houve sim um fato que deu origem a toda a comoção: o nascimento trágico de um bebê com deformidades físicas severas no hospital de São Bernardo do Campo. De acordo com registros médicos e a apuração posterior feita por pesquisadores e veículos sérios, a criança nasceu com anomalias congênitas raras, que geraram más formações na testa e na região do cóccix, corrigidas por cirurgia, mas que que a ignorância popular interpretou como chifres e rabo.
De acordo com o livro “A Imprensa em Pedaços”, de Marco Antônio Siqueira, o recém-nascido infelizmente veio a falecer poucos dias após o parto, devido à gravidade de suas complicações de saúde. A família, assustada com a repercussão grotesca e com o assédio de curiosos na porta do hospital, precisou ser protegida e isolada.
Como tanta gente caiu nessa?
É a famosa pergunta que não quer calar: como uma história tão absurda foi levada a sério por tanta gente? O sucesso da mentira pode ser explicado pelo contexto sociocultural da periferia paulistana nos anos 1970. A população operária do ABC e os migrantes que chegavam em massa à capital vivia em condições de forte vulnerabilidade social, sem acesso à educação formal de qualidade ou à informação médica básica. Nesse cenário, o sincretismo religioso profuso, a forte presença da religiosidade popular e o medo do capeta facilitaram a aceitação imediata da narrativa fantástica.
Além disso, o NP não era visto como um jornal mentiroso, mas como um jornal que trazia histórias “do povo” para o povo. Quando o jornal publicava algo, muitos acreditavam. E pra fechar, medo é contagioso. Quando vizinhos, amigos e parentes começaram a falar sobre o bebê-diabo, o pânico se espalhou como uma epidemia. As pessoas queriam ver, queriam acreditar, queriam fazer parte da história.

O legado cultural
O bebê-diabo se tornou um dos maiores ícones do folclore urbano brasileiro. Mais de quarenta anos depois, poucas pessoas nunca ouviram falar da história. O caso é estudado em livros como “Espreme Que Sai Sangue: Um Estudo do Sensacionalismo na Imprensa”, de Danilo Angrimani, e “Nada Mais Que a Verdade: A Extraordinária História do Jornal Notícias Populares”, de Celso de Campos Jr. e outros autores. Em 2002, a diretora Renata Druck lançou o documentário “Nasceu o Bebê-Diabo em São Paulo”, que colocou a história entre as lendas urbanas mais marcantes daquela estranha cidade cinza ao Sul do Brasil.
O caso também é frequentemente citado como um exemplo clássico de fake news antes do termo existir. Ele mostra como uma notícia falsa pode se espalhar, ganhar vida própria e influenciar o comportamento de milhares de pessoas sem a ajuda da internet, das redes sociais ou dos aplicativos de mensagem. O bebê-diabo é, em certo sentido, o avô de as fake news brasileiras. E, como todo bom vovô, ele continua sendo lembrado com carinho _ e um certo estupor.


Deixe um comentário