No dia 16 de março de 1957, um júri reunido às pressas na sede do Ministério da Educação, na Guanabara, decidiu se o Brasil teria uma capital em forma de cruz, avião ou libélula, dependendo de quem descrevesse o desenho. O projeto vencedor, assinado por Lúcio Costa, havia sido entregue por sua filha Maria Elisa 10 minutos antes do fim do prazo, num relatório de apenas 24 páginas, o mínimo exigido pelo edital. Ao seu redor, sobre as mesas da comissão julgadora, estavam outras 25 propostas, muitas delas com quase 500 páginas de estudos, estatísticas e projeções que hoje ninguém lembra.
Mas a diferença fundamental estava na concepção urbanística. O projeto vencedor desenhava um avião, com asas residenciais e um eixo monumental , enquanto os concorrentes tinham visões radicalmente distintas. O segundo lugar, de Boruch Milmann, propunha uma cidade mais “rígida”, com um centro administrativo fechado e cidades-satélites dispostas de forma linear para abrigar a população. Rino Levi, por sua vez, imaginava 18 superblocos com 100 pavimentos cada _ uma verdadeira floresta de arranha-céus no meio do cerrado. O escritório M.M.M. Roberto apresentou uma solução intermediária, mas igualmente distante da leveza do traço de Lúcio Costa.
O professor Jeferson Tavares, que pesquisou o assunto por sete anos, ressalta que alguns projetos chegavam a prever mundos paralelos subterrâneos, ao estilo de algumas cidades canadenses, com túneis para transporte de mercadorias e correspondências. Uma ideia que, na época, era mais ficção científica do que urbanismo. Lúcio Costa apostou na simplicidade: um traço, uma ideia, um símbolo. E deu certo.
Como foi organizado o Concurso Nacional do Plano Piloto da Nova Capital do Brasil?
O edital do concurso foi publicado no Diário Oficial da União em 30 de setembro de 1956, dando o pontapé inicial em uma das competições urbanísticas mais apressadas da história moderna. As inscrições ficaram abertas por apenas dez dias, e os interessados tinham um prazo de 15 dias para apresentar seus requerimentos. Elementos complementares, como esquemas cartográficos, cálculos de abastecimento e previsões de desenvolvimento, eram bem-vindos, mas não obrigatórios.
As regras eram propositalmente vagas: a cidade deveria acomodar meio milhão de habitantes, respeitar locações já definidas para o Palácio Presidencial, o Hotel de Turismo e o aeroporto, e nada mais. Sucessivos telegramas foram enviados pela Novacap para corrigir omissões do texto original, inclusive para prorrogar o prazo final de entrega, de fevereiro para 11 de março de 1957.

Mas e o Niemeyer nesse rolê?
Oscar Niemeyer foi escolhido para projetar os principais edifícios de Brasília antes da escolha do Plano Piloto. Essa é uma das particularidades mais importantes da história da construção da capital. O concurso era apenas para o plano urbanístico, isto é, o desenho da cidade, suas avenidas, superquadras, setores e áreas públicas. Os arquitetos concorrentes não projetavam os edifícios definitivos. Cada equipe podia representar volumes ou edifícios esquemáticos em suas pranchas, mas o edital deixava claro que o objeto do concurso era o Plano Piloto, não a arquitetura dos palácios e ministérios.
Essa decisão de JK foi bastante controversa. Alguns concorrentes alegaram que o concurso não estava em condições de plena igualdade porque o principal arquiteto ligado ao governo já havia sido escolhido antes do julgamento. Niemeyer, porém, não participou do concurso como concorrente, e quem julgou as propostas foi uma comissão presidida por Israel Pinheiro e integrada por urbanistas e arquitetos brasileiros e estrangeiros.
Quantos interessados retiraram o edital?
Segundo registros da época, 62 candidatos se inscreveram para o concurso. No entanto, apenas 26 compareceram para apresentar suas propostas. Isso significa que mais da metade dos inscritos (36, para ser exato) desistiu antes mesmo de entregar qualquer coisa. As razões para essa debandada são variadas: alguns podem ter subestimado a complexidade da tarefa; outros, percebido que o prazo era curto demais para um projeto daquela envergadura; e houve quem, simplesmente, não tivesse estrutura para competir com os grandes escritórios de arquitetura da época.
O fato é que o concurso, que prometia ser uma grande vitrine para o urbanismo brasileiro, acabou sendo uma seleção de resistentes. Aqueles que tinham fôlego (e muita paciência) para encarar um edital que pedia, nas entrelinhas, mais criatividade do que burocracia. E, como se viu, a criatividade nem sempre vinha acompanhada de modéstia.
Mas o detalhe mais saboroso dessa história é que Lúcio Costa fez os desenhos e croquis da nova capital numa varanda dos fundos do apartamento da família, que eles chamavam de “terraço de trás”. Segundo a filha do urbanista, Maria Elisa, que participou da montagem final do material contou, em depoimento à Rádio Câmara, que o projeto foi entregue dez minutos antes do encerramento do prazo final do concurso, numa correria que envolveu toda a família na montagem do arquivo
Mas vamos aos primeiros colocados.
5º lugar (empatados)
A quinta colocação foi dividida por três equipes: Carlos Cascaldi, João Vilanova Artigas, Mário Wagner V. Cunha e Paulo de Camargo e Almeida; Henrique E. Mindlin e Giancarlo Palanti; e a Construtécnica S/A, com Milton C. Ghiraldini, Clovis Felippe Olga, Nestor Lindenberg, Wilson Maia Fina e Manuel da S. Machado.
A proposta de Artigas e Cascaldi era marcada por uma grande malha de baixa densidade, com forte integração entre cidade e campo, extensas áreas verdes e uma estrutura urbana inspirada em referências como Chandigarh, cidade indiana famosa por sua arquitetura e urbanismo. Artigas e Cascaldi deram grande importância aos estudos populacionais e à habitação como elemento organizador do plano, diferentemente da monumentalidade simbólica que acabou consagrando o projeto vencedor de Lúcio Costa.

Por sua vez projeto de Henrique E. Mindlin e Giancarlo Palanti organizava Brasília a partir de dois eixos principais: um eixo das atividades públicas e administrativas (ligando a residência presidencial, os ministérios e o capitólio) e outro eixo da vida cotidiana e residencial, que se cruzavam no centro comercial e recreativo da cidade. Diferentemente dos esquemas geométricos rígidos de outros concorrentes, Mindlin e Palanti defendiam uma cidade moldada pela topografia e pelos braços do Lago Paranoá, com amplas áreas verdes e crescimento controlado por um cinturão verde periférico.
Já a proposta da Construtécnica previa quatro enormes superquadras residenciais com parques internos, um centro cívico e comercial concentrado, cinturão verde, zonas rurais de abastecimento e uma cidade planejada para cerca de 200 mil habitantes, em contraste com a escala monumental e a população prevista pelo edital do concurso. O júri elogiou a qualidade da concepção paisagística, mas considerou que o projeto “não tinha caráter de capital”, principalmente por sua baixa densidade e pela forte inspiração em modelos de cidade-jardim.

3º lugar (empatados)
Um dos dois projetos que dividiram o terceiro lugar veio do escritório paulistano de Rino Levi, então no auge de três décadas de carreira, em parceria com Roberto Cerqueira César, Luiz Roberto Carvalho Franco e Paulo Fragoso. A proposta invertia a hierarquia clássica de uma capital: em vez de consagrar os prédios de governo como elemento mais monumental da cidade, Levi colocava a habitação no centro simbólico do projeto. Sua Brasília seria erguida em torno de “superblocos” residenciais que, segundo registros da época, chegariam a cinquenta andares, artificialmente altos para os padrões urbanísticos brasileiros daquele momento.
A abolição quase completa da rua-corredor, do quarteirão e do lote tradicional era, segundo análises posteriores de historiadores da arquitetura, ainda mais radical do que a proposta de Lúcio Costa, o que talvez explique por que o júri, apesar de elogiar sua qualidade plástica, tenha preferido a leitura mais monumental e legível de Costa para simbolizar a nova capital.
O outro projeto empatado em terceiro lugar veio do escritório carioca dos irmãos Roberto, os arquitetos Milton (já falecido à época), Maurício e Marcelo. Era, segundo o pesquisador e arquiteto Milton Braga, talvez o projeto mais radicalmente “moderno” de todo o concurso, no sentido de tentar prever e programar cada função urbana com precisão quase industrial, indicando de antemão quantas pessoas trabalhariam em cada bolsão de emprego, como se a cidade inteira pudesse ser projetada como um único edifício.
Fisicamente, a proposta rompia com qualquer ideia de cidade única e monocêntrica: os irmãos Roberto desenhavam sete núcleos urbanos autônomos em forma de círculo, cada um com cerca de 72 mil habitantes e um centro de serviços chamado “Core”, com estrutura flexível o suficiente para crescer até 14 núcleos, caso a população superasse a previsão inicial de 500 mil pessoas do edital.


2º lugar
Se o traçado de Lúcio Costa nasceu do gesto livre de um esboço à mão, o projeto que ficou em segundo lugar veio de um raciocínio quase oposto. A equipe liderada pelo engenheiro Boruch Milman, batizada de “Arquitetos Associados”, era um grupo recém-formado e sem grande tradição no mercado. Seu projeto também organizava a cidade a partir do cruzamento de dois eixos, um deles arqueado para facilitar o escoamento das águas da região, o que resultava numa silhueta semelhante à “forma de avião” que ficaria associada a Brasília. A diferença estava no rigor: onde Costa desenhou curvas orgânicas, Milman impôs uma malha muito mais rígida e ortogonal, quase cartesiana.
Entre os projetos classificados, o de Milman foi um dos únicos três, ao lado dos de Rino Levi e do então jovem Jorge Wilheim, que tentaram trazer o Lago Paranoá para dentro da vida urbana, ocupando península e margens, em vez de manter a água como pano de fundo distante, solução que de fato prevaleceu no risco final de Lúcio Costa.

O que restou?
Passados quase setenta anos, esses projetos sobrevivem sobretudo em arquivos universitários, na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional e em pesquisas de mestrado que poucos fora da academia leem. Nenhum deles chegou a sair do papel, mas todos ajudam a explicar, por contraste, por que o traço quase minimalista de Lúcio Costa convenceu um júri dividido, apressado e por vezes hostil entre si.
Se o Brasil tivesse escolhido outro rascunho, hoje talvez tivesse uma capital dividida em sete cidades circulares, ou uma metrópole vertical de superblocos, ou uma Brasília tão quadriculada que faria o cruzeirinho de Lúcio Costa parecer rabisco de guardanapo. Em vez disso, ficamos com o avião, a cruz, a libélula, e uma pilha de plantas antigas dormindo em caixas de arquivo, esperando algum jornalista insone as desenterrar setenta anos depois.






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